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ser-se frágil e pequeno

por M.J., em 13.08.19

no domingo  a mamã veio passar cá o dia connosco. agora que começamos a tratar do exterior da casa e o verão (ainda) convida a horas ao ar livre, sem calor infernal e uma brisa suave (há quem lhe chame ventania, mas uma pessoa aficionada por vento como eu acha que é brisa), passamos algum tempo a apanhar ar no trombil antes do almoço.

perguntei se queriam comer por lá. disseram-me que não. almoçamos, por isso, dentro de casa, de tv ligada:

péssima ideia.

 

o miúdo já dormia a sesta. nós íamos falando banalidades com a tv em fundo.

num momento qualquer chamou-me a atenção uma notícia sobre algo que se passava na capital do mundo, governada por um doido laranja: no mississippi ao primeiro dia de escola, uma operação policial detivera centenas de pessoas, imigrantes.

nada de anormal nos tempos que correm.

o que me chocou foi o que veio a seguir: os miúdos, imensos, ficaram a saber da novidade à saída da escola. e o jornalista que falava com uma criança recolhia a reação dela:

a menina chorava copiosamente e dizia, num desespero cego, que precisava dos pais porque não tenho onde ir comer e dormir. e agora? onde como? onde durmo? preciso dos meus pais, chorava. 

e aquelas necessidades, tão básicas, tão assumidas que estão como algo universal dado a uma criança invadiram o ecrã, assoberbaram o meu almoço, apertaram-me o peito.

precisa, é claro que precisa porque é impossível que o faça sozinha.

porque há um motivo para os adultos serem responsáveis por crianças.

porque há um motivo para o estado ser responsável por elas.

fiquei portanto, à espera que na notícia se dissesse que as entidades estatais competentes levaram as crianças a ver os pais, e que as acolheram até a situação se resolver. 

só que não.

segundo o jornalista nenhuma entidade local governativa fez nada quanto às crianças. arrancaram-lhes as famílias e, numa espécie de mundo terceiro, numa espécie de mundo animalesco, numa espécie de regresso às trevas, descartaram responsabilidades quanto aos menores. como se aquelas crianças não fossem crianças. como se aquelas crianças fossem objetos ou pedaços de lixo sem valor: desemerdem-se, desenrasquem-se, voltem para onde vieram. é problema vosso mesmo que tenham 10 ou 11 anos. 

 

doeu-me e não costuma doer.

porque parece que ganhei, como a maioria de nós, uma espécie de manto que me faz encolher os ombros às atrocidades do mundo: almoçamos e jantamos confortáveis enquanto observamos em primeira linha a morte, dor e crueldade na televisão. e não damos um suspiro. já nem encolhemos os ombros. estamos anestesiados. é uma banalidade. é assim o mundo. pronto. 

 

naquele dia, no entanto, aquela menina rasgou o meu manto de indiferença e aquilo magoou-me profundamente.

como se fosse eu. porque na maioria das vezes só conseguimos que nos doa se sentirmos que poderia ser em nós ou em quem amamos. e é triste. 

porque aquela menina, que em prantos dizia que precisava dos pais, fez-me lembrar de como é triste ser-se pequeno, frágil e depender de quem é maior.

fez-me lembrar de como é horrível ter-se seis ou sete anos e ter um medo constante de perder aquele que cuida de nós porque dependemos dele e não somos capazes de subsistir sozinhos.

e esse sentimento de impotência, essa fragilidade de ser pequeno e dependente, essa necessidade de crescer muito rápido para se ser adulto, não era suposta ser sentida por crianças. não era suposto que cravasse as garras na alma de quem é frágil e não tem meios de seguir sozinho.

aquele "preciso dos meus pais para comer e dormir" trazia um grito de medo e sobrevivência que não era suposto uma criança sentir. 

 

olho para o meu filho, de meses, que faz birras (sim, já as faz) porque quer o pato amarelo em vez do urso castanho. olho-o enquanto dorme e sinto espasmos de medo que algum dia ele perceba que precisa de mim para subsistir, para sobreviver. não é suposto.

não é suposto que a vida seja atirada com força a pontos de quem é pequeno e frágil tenha consciência total dessa pequenez e fragilidade e viva aterrorizado no medo que ela o absorva todo.

aquele acontecimento cravou-se no meu peito e ainda me sinto tremer quando penso nele.

fiz uma pesquisa rápida na net. a notícia original está aqui. se vos doer como doeu a mim é melhor que não vejam:

https://www.cbsnews.com/video/children-of-undocumented-immigrants-face-uncertainty-after-parents-apprehended-during-massive-mississippi-raid/

 

 

 

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e de repente está tudo em stand by menos quem trabalha em postos de combustível.

esta semana as solicitações de trabalho pararam, os e-mails abrandaram, os telefonemas desapareceram. foi só depois de tentar perceber que conspiração é esta que me fez assim parar de trabalhar que, muito eurekamente percebi que é agosto. 

estamos em férias.

menos, volto a repetir, os senhores dos postos de combustível: a greve não começou e há filas.

filas, combustível que esgota e gente numa corrida de pânico a encher depósitos, garrafas e até a bexiga, se ela guardasse combustível.

incrível.

o português é incrível.

 

o que faria o português típico perante uma ameaça de falta de água? encheria a garagem numa espécie de piscina? transformaria a banheira num depósito? mataria o vizinho de apartamento de baixo para o transformar num tanque?

repito: incrível.

 

até já se viram começos de porrada, pancadaria, pauladas e afins num posto, filmado por alguém, numa qualidade ranhosa de imagem: gente, se é para passar na cmtv faz favor de filmar como deve ser, ora essa. 

 

em boa verdade, tudo se conjugou para este cenário negro e dantesco de falta de combustível: estamos de férias, logo há tempo para ficarmos nas filas; e chove, por isso não se pode alapar o rabo na areia. e depois, o combustível está quase dado, não é verdade? toda a gente tem dinheiro para abastecer. 

 

não se entende.

 

ontem, de tarde tive de ir ao supermercado comprar leite, fraldas e toalhitas para sua excelência meu filho.

desleixei-me e eram tão poucas que corria o risco de me transformar numa mãe daquelas da moda e embrulhar a criança num saco reciclado, lavando cocó à mão, em restos de água do banho. (ou em leite materno em excesso).

fui, esperando encontrar o que encontro em dias da semana antes das 5 da tarde: pouca gente, estacionamentos à larga, nada de confusões. 

pois claro que não: havia uma fila para entrar no supermercado e, pasmem, seguranças no estacionamento, na entrada e dentro do super. olhei espantada o telemóvel. os dias estão cinzentos, o puto está enorme: seria natal?

não, claro que não.

é o medo, o pânico, a dor de que os supermercados deixem de ter ração para toda a gente.

oh-meu-deus.

e a greve, repito, não começou e estima-se que nem comece. e os serviços mínimos oscilam entre os 50 e os 100 (cem, reparem, cem) por cento.

e vamos todos às compras, a correr muito, não vá termos de comer pedras à janta.

tudo maluco!

a culpa é da chuva, só pode. 

 

confessem cá: quantos depósitos cheios há por aí?

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solidão

por M.J., em 07.08.19

às vezes sinto-me sozinha.

não tanto como outrora mas ainda sinto. mesmo quando há gente em casa, na rua, nos supermercados e pastelarias. mesmo quando mando e-mails, atendo telefonemas e vou a reuniões.

sinto-me sozinha, espanto, naquele cliché badalado do repleto de pessoas.

na verdade, sempre senti, acho eu, agora que penso nisso. esta incapacidade gritante de lidar com o outro tinha/tem essa consequência.

 

quando me sinto mais só escrevo.

antes escrevia muito. agora não tenho grande tempo. por isso só penso no que escreveria se tivesse tempo e paciência. depois esqueço o que teria escrito. é como se o tivesse feito sem fazer.

quando a solidão aperta mais vou às redes sociais.

não que ajude, longe disso. um moribundo que esteja para morrer apenas encontra nas redes sociais gente viva, de boa saúde e de férias; ou então gente totalmente morta, depende do que procurar. há uma falta gritante de meio termo.

participo pouco mas vejo. leio com avidez até, às vezes, pensando "caramba, as pessoas pensam mesmo isto? vivem mesmo isto? são mesmo assim?". acho que não são. nunca somos, não é?

deixei de ler blogs. tirando raríssimas exceções. é que é mais do mesmo: viagens. dicas. livros. dicas. maternidade. dicas. lamentos. dicas. séries. dicas. e por aí diante. nunca vi tanta dica na vida. sou capaz de encontrar 7 dicas para tudo. incluindo como não me sentir tão sozinha. alguém já escreveu, filmou, gritou sobre isso.

se já escreveu sobre como amolecer ou endurecer o cocó já se escreveu sobre tudo.

incluindo eu.

 

quando me sinto mais só também leio.

por norma releio. é como encontrar velhos amigos. que não desiludem porque, coitados, permaneceram ali. e eu não os desiludo a eles porque não me veem nem sabem quem sou. é uma relação perfeita.

só que não.

 

dizem que quando temos um filho nunca estamos sozinhas. também dizem que ficamos muito mais sozinhas quando temos um filho. há 7 dicas para nos sentirmos sozinhas quando temos filhos e 7 dicas para não nos sentirmos sozinhas quando temos filhos. é à vontade do freguês. só escolher.

como em tudo na vida.

 

alguém dizia, num almoço onde estive no domingo, que não abria as redes sociais no mês de agosto. exceto o facebook. porque estava toda a gente de férias menos essa pessoa. e isso fazia-a ter uma vontade imensa de estar de férias. e mesmo que quisesse ficar feliz por quem estava de férias acabava apenas por, ao fim de trinta e dois posts e meio sobre o assunto,  ganhar ranço a férias.

sorri. se eu tivesse de férias também tirava fotos disso e publicava. já da solidão que sinto de vez em quando não tiro fotos: não há imagens que retratem o vazio interior.

ou se calhar há.

isso e 7 dicas para ficarem bem tiradas.  

alguém por aí?

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apeteceu-me dizer(-vos) bom dia

por M.J., em 06.08.19

(literalmente) há anos que não o faço.

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publicado às 09:47

quando me despedi - vai fazer agora uns anitos - passei por uma fase de cruzamento: é aquela coisa do ter várias estradas para seguir mas, por necessidade, ter de escolher uma. 

admiro aquela coisa de a vida permitir que algumas pessoas tenham todo o tempo, toda a possibilidade, todo o dinheiro, todo o apoio para poderem escolher o que querem fazer, e ser, baseado apenas naquilo que gostam e em quem são.

a maioria de nós, pobres mortais, ainda que com alguma liberdade de escolha e apoio, tem apenas uma bala e um alvo certo: escolhes aquele a pronto, prepara-te o resto da vida para ele.

 

como é sobejamente conhecido comigo não foi assim. dei o tiro, escolhi o curso, tirei-o como era devido, comecei a trabalhar como era devido e preparei-me mentalmente para o aperfeiçoar de uma profissão que seria a minha, o resto da vida, como era devido.

só que não.

a minha infelicidade, alguns anos depois era tão palpável que se podia espremer e inundar o mundo.

na verdade, inundou todo o meu mundo.

e não houve outra hipótese que não descartar. ou melhor, não descartando de todo enveredar por outro algo, outra rumo que pudesse complementar aquele.

 

tive sorte, é verdade, nos passos que dei até aqui. mas a sorte é um pequeno dedo mindinho nos 4 restantes de uma mão. pelo meio houve uma série de trabalho, uma dose enorme de teimosia e capacidade de adaptação.

nunca pensei, há uns anos, nas minhas incapacidades e fobias, que fosse capaz de alargar a mente, de a abrir ao prisma do lado.

de estudar sozinha o que nunca pensara, furar caminho, perseguir um determinado objetivo: mas fui.

creio que, na maioria das vezes, somos todos. 

 

é certo que bater com a cabeça na parede durante tanto tempo - tanto que fez galos e marcas e cicatrizes constantes - ajudou. foi fulcral no processo. permitiu-me ter uma tal dose de inconformismo que pude sempre dizer "para ali não".

para ali não. não mais.

e essa dose de inconformismo, de capacidade de arriscar mesmo a tremer de medo, essa possibilidade de me lançar em frente sabendo que tudo podia ir de vela, trouxe-me até aqui.

não é que aqui seja propriamente a melhor posição do mundo. mas este aqui permite-me ir lanchar à meia tarde fora de casa. permite-me acompanhar o miúdo (pelo menos até ao próximo mês, altura em que ele vai para a creche) nas suas rotinas, ali bem ao meu lado. permite-me não me sentir presa: presa a uma semana longa em que a liberdade seria dois dias. presa a lamentos de uma vida num trabalho que não realiza, não satisfaz, não acrescenta. 

 

a senhora que cá vem a casa fazer umas limpezas semanais tem a minha idade.

chamo-lhe senhora porque é o que é: absolutamente deslumbrante de tão linda, elegante e delicada. falamos sempre, enquanto partilhamos um cafezinho no terraço. fazer limpezas não é o trabalho da vida dela. mas, estranhamente, realiza-a. permite-lhe ter liberdade de tempo e movimento. ajustar o trabalho ao ritmo da vida dela. e é muitíssimo boa no que faz: despachada, expedita e perfeccionista.

e por isso ganha bem: tem imensas solicitações que vai gerindo como pode e quer. meio bairro tem-na a limpar a casa.

tirou o curso de educação de infância. esteve num colégio/creche, enfim, uns três anos. percebeu que preferia limpar casas do que aquilo. e assim fez. diz que é bem mais feliz. eu acredito. se tivesse que aturar 15 miúdos todos os dias acho que preferia ser cantoneira. ou limpar esgotos. 

foi a dose de inconformismo dela que a trouxe aqui. e o aqui dela é, para muita gente, uma valente porcaria: limpar casas, olha que coisa.

para ela é fantástico.

 

há uns dias disseram-me, quando me queixava que tinha de trabalhar até muito depois das duas da manhã, que era uma sortuda porque, ainda assim, no dia a seguir podia estar com o meu filho. que muita gente trabalha até essa hora e no dia a seguir, bem cedinho, vai trabalhar para outro lado.

acredito. 

o inconformismo não cabe em todo o lado. nem o dedo mindinho de sorte. quando há contas para pagar então, às vezes o inconformismo só serve para se fechar muito bem fechadinho numa gaveta da sala. ou da cozinha. 

mas muitas vezes, o medo do arriscar tolhe tantos os movimentos, castra tanto as pessoas que as leva a aguentarem anos e anos repletos de dias lúgubres e tristes, a fazer algo que não se gosta, não se quer, com quem não se gosta e não se quer. como se vida fosse reduzida ao sábado e ao domingo e um deles é até para limpar a casa toda. 

no meu caso o incoformismo deu-me 7 dias semanais a fazer o que gosto e quero.

sete.

s-e-t-e.

significa que os fins de semana não são fins de semana. que o horário de trabalho não é horário de trabalho. que as férias não são férias. significa que há um aperto todos os dias na necessidade de perceber de contas e contabilidade, finanças e tudo o que é necessário para manter isto de pé. significa que me tornei uma espécie de one woman show: que tenho de dominar um bocado de tudo, fazer um bocado de tudo e não esperar pelo fim do mês para receber o ordenado na conta e ir à minha vida. significa que quando saí da maternidade, no mesmo dia, vim trabalhar à noite. significa que o miúdo pode estar a chorar e eu não posso ir a correr ter com ele porque estou ao telefone com clientes. significa que a praia está ali ao lado mas não posso passar lá 15 dias de férias, a torrar e a fazer castelos de areia porque tenho 7 dias semanais a trabalhar. significa que precisei de começar do zero outra vez. de me torturar em dúvidas e medos. de avaliar todas as decisões e esperar pelo "eu bem te avisei". 

foi o raio do inconformismo que fez tudo isso. 

quão sortuda sou?

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antes de ser mãe via e lia muita mulher queixar-se que após entrar nesse estado de graça muitos dos amigos desapareciam. depois de ser mãe continuo a ler e a ver. 

indo direta ao assunto: comigo não aconteceu. não que houvesse aí gente pronta a fugir aos molhos. sou uma pessoa de poucas pessoas.

mas se acontecesse compreenderia.

porque, sinceramente, continuo sem grande paciência para crianças.

e sobretudo para as suas respetivas mães.

 

a verdade é que compreendo perfeitamente pessoas que se afastam.

e compreendo pessoas que se sentem melindradas com esse afastamento. porque muitas das vezes nem uma parte nem outra se apercebe dos motivos que levam ao esfriar das relações, ao depois falamos, ao até um dia.

e não tenho grandes problemas em dizer que não sendo a nova cria a culpada, os recém papás acabam por ser um bocado.

 

é que reparem: se a vossa/nossa vida mudou (e se mudou!) a dos outros continua exatamente igual. e é normal que eles não tenham vontade de passar horas infinitas a ouvir falar em cocós, xixis, vacinas e as coisas magnificas que os miúdos aprendem como comer sopa ou rebolar. porque -  sejamos francos - se é um assunto divertido para quem tem filhos, para quem não tem pode não ser.

na verdade, até para quem tem (como eu) pode deixar muito a desejar. 

 

sim. é verdade que ter um puto de dias em casa muda a rotina de quem somos. claro que muda. temos uma espécie de ananás que guincha o tempo todo a exigir-nos coisas. a vontade de fazer o que antes fazíamos muda. agora não podemos é exigir que a dos outros mude também e ainda ficarmos ofendidos quando não muda:

ah, se fossem meus amigos compreenderiam, ouço dizer.

e vocês? não deviam compreender o lado deles se são amigos também?

 

eu compreendo que algumas pessoas se sintam menos identificadas com a nossa nova rotina.

ou com a nossa cria. e tenho mil cuidados para que quando estamos com pessoas sem filhos não esteja constantemente a falar do puto. ou que ele esteja no centro de tudo exigindo mil atenções.

porque, reforço: eu também continuo a não ter grande paciência para os filhos dos outros. só alguma (visto que antes não tinha nenhuma).

 

há uns meses quase me auto convidei para a casa da magda e arrastei a maria (a das palavras, a seita já é antiga).

a maria desdobrou-se em cinquenta marias, mudou rotinas, alterou planos para irmos todos almoçar a casa da magda. eu estava numa euforia maluca: até que o puto ficou adoentado e a pediatra recomendou que não fizéssemos longas viagens com ar condicionado ligado.

estava um calor de morte. não podíamos ir até lisboa de vidros fechados. ou abertos.

pelo que, simplesmente, eu que me auto-convidara tive afinal de não ir. a maria e a magda compreenderam. sei que sim. mas eu entenderia se elas, mesmo que inconscientemente, ficassem magoadas. ou tristes.

porque somos todos humanos, incluindo o puto.

não houve culpas de ninguém. ele coitado, ficou doente, nós coitados não fomos passear, elas coitadas não tiveram a nossa companhia (e deve ter sido horroroso tal falta :) ). houve compreensão de todos os lados. mas deveria ser o meu lado o mais bem visto? deveria ser eu a dizer, caso elas ficassem tristes: se elas fossem minhas amigas não ficavam? isso não seria um  bocado egoísta? isso não é um argumento de crianças de dez anos que brincam no recreio e uma não deixa a outra saltar à patela (ou essas coisas novas que agora as crianças fazem)?

 

temos bastantes pessoas próximas com filhos.

e algumas sem filhos. e nós adaptamos-nos a ambas. sim. adaptamos. falamos horrores de crianças com as com filhos; mas eu tento sempre mudar o assunto com as sem filhos. vamos a locais adaptados a miúdos com as com filhos; mas eu tento que sair com as sem filhos seja a tomar cafés, passear na praia ou em restaurantes adaptados a tudo e não apenas a miúdos a correr aos gritos. 

e sou sincera: continuo a adorar sair sem miúdos. há uma parte em mim que prefere não ter de passar refeições inteiras a comer não comendo. com crianças a gritar, a fazer birras ou não deixando ninguém falar. porque é uma seca irmos a um lugar caro, querermos algo diferente e acabarmos por ter o que temos em casa mas em pior.

e mais! há aquela ideia de que "tu também és mãe. compreendes que o meu filho esteja aos guinchos há dez minutos enquanto eu falo mais alto do que ele para tentar que me ouçam".

não, não compreendo. 

na verdade, não dou muitas hipóteses ao miúdo de fazer filmes. se ele começa a dar ar de quem vai fazer birra (que as faz, a última foi por causa de dois patinhos no banho) levanto-me sem alaridos, trago-o ao colo até a um sítio sem gente (incluindo o carro) e faço o que for preciso para que se acalme.

nem que isso seja ficar 30 minutos ausente.

é que essa ausência pode permitir que o rapaz e as outras pessoas continuem a sua refeição em paz. aconteceu uma vez até hoje. quando voltámos ele tinha adormecido e não chateou o resto das duas horas em que ficamos no restaurante. e sempre que for possível vou fazê-lo. porque quem vai connosco não tem que ter paciência e compreensão para aturar as birras da minha criança.

é ótimo se tiverem. mas se não tiverem eu entendo.

 

não acho que as pessoas se afastem de propósito quando a dinâmica das outras muda.

andamos todos a mil na vida.

às vezes temos tão pouco tempo livre que é normal que o queiramos passar a fazer algo que nos agrade. e é compreensível que não nos agrade passar horas a ouvir os nossos amigos recém papás a falar dos rebentos. e que a eles apeteça imenso fazê-lo.

é normal.

o que não é normal é os recém papás colocarem toda a culpa do outro lado.

como se a vida deles ao mudar obrigasse a que todas as outras mudassem também.

 

e depois, para finalizar que isto vai longe, há uma ingenuidade enorme das pessoas no que trata às amizades.

continua-se a ver a relação com os outros como quando se andava na escola e o nosso grupo estava ali a apoiar-nos, muitos, e éramos todos uma família.

a vida adulta não é assim.

isto não é um episódio de friends (eu seria o chandler) em que todos estamos lá para todos.

na verdade, se tiverem duas ou três pessoas que estejam lá a sério são uns abençoados. basta uma ou duas pessoas que entenda a vossa cria, a vossa mudança e que mesmo sem filhos vos ouça falar durante horas sobre eles. e que mesmo sem filhos vos ofereça um garrafa de vinho e um sofá para que, no dia em que decidem que não aguentam mais a nova dinâmica, tenham um sítio onde ganhar forças.

não são precisos cinquenta. ou vinte e cinco. ou dez. basta um. 

é fixe estarem lá os outros. para sair. conviver. mostrar a vida nas redes sociais. falar. desabafar.

mas amigos a sério? não.

ou vocês têm essa disponibilidade toda para 50 amigos a sério?

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novidades

por M.J., em 25.07.19

não tenho ouvido muita música.

não é que não queira mas é mais fácil não o fazer para estar alerta e ouvir o miúdo sempre que ele se manifesta.

às vezes pego uma coisa ou outra no youtube e fico a ouvir, sempre que posso, ininterruptamente. acompanho os livros, depois de jantar, com algo ouvido durante o dia. em loop.

 

 

estive muito tempo sem ler.

a paciência era pouca. quase nenhuma. as letras embrulhavam-se nas primeiras páginas e não tinha pachorra. a ter alguma coisa era sono. os livros foram-se acumulando, portanto, nas prateleiras.

também deixei de comprar. dos vinte a trinta livros que comprava ao ano passei para um num leilão online. que nunca chegou. a mulher diz que o enviou. eu duvido. para não me chatear finjo que acredito que fui burlada. 

uso este truque, muito, ultimamente, para não me chatear: finjo que acredito, que não me incomodo, que não percebo. é certamente, a maneira mais fácil de chegar ao fim do dia e dormir de um sono só. aconselho vivamente.

pela falta de leitura os livros que a magda e a maria me emprestaram continuam nas prateleiras.

tenho de os devolver e é uma pena porque os queria ler mas não consigo. para lidar com as palavras que se embrulham decidi recorrer à técnica antiga de reler. só reler até ao fim do ano. tem corrido bem. reli o primo basílio e vou reler um data de livros e livritos que andam por aí, alguns lidos quando tinha 15, 16, 20 anos e que gostei.

os novos aguardam com paciência que lhes queira pegar. não é uma sangria desatada a não ser esteja para morrer.

 

por falar em sangrias e mortes, apesar da estadia na maternidade não ter sido o drama de cinco atos que imaginei na gravidez, também não foi propriamente a melhor coisinha que me tenha acontecido. de tal modo que sinceramente, a não ser as consultas com o miúdo no centro de saúde e pediatra, não voltei ao médico.

ou melhor, voltei para fisioterapia, que não conseguia trabalhar com um stress numa mão. mas foi quase a medo. 

a ideia de ter de ficar internada, outra vez que seja, martela-me na já conhecida comichão no cérebro.

li que muitas mulheres, depois de serem mães, ganham uma espécie de hipocondria e medo de não poderem cuidar dos seus filhos. custa-me, é verdade, pensar nisso: a ideia de que não estaria cá para ele. mas contrariamente a muitas mulheres não me acho o centro da vida do miúdo. a sério. não sou. não sou a única que o consegue educar, perceber e suprir as suas necessidades: o pai dele fá-lo com a mesma eficácia, ou melhor do que eu.

daí que sim, a comichão no cérebro por voltar ao médico e fazer exames de rotina, é apenas pela ideia de que algum dia poderei ter que ficar internada, novamente, num hospital.

"esta é nova", dei-me conta há dias, quando o percebi. "é uma paranoia nova, que engraçado".

só que não é engraçado. a simples possibilidade de ficar presa num quarto, dependente de estranhos para tudo causa-me aquela comichão atroz no cérebro que aumenta ridiculamente se a não controlar.

>por isso encolho os ombros e finjo que não passou há que tempos a altura de marcar consulta na ginecologista; ou finjo que não percebi quando a médica me disse que tenho de fazer análises gerais incluindo à tiroide. e em dias muito chatos, quando as ideias me martelam a pontos de as não controlar, quando me assaltam em momentos onde a distração ao cérebro é impossível - como no banho ou ao adormecer - digo muito alto, ainda que em silêncio, que não volto a um hospital, não volto a ficar dependente de estranhos e antes morrer em casa. é uma nova paranoia. finjo que não dou conta.

cada um com as suas, minha filha, diz a minha avó.

e é verdade: as paranoias sem sentido - mas que consomem - são as minhas.

 

portanto, a modos que tenho ouvido pouca música e a que ouço é sempre a mesma, que encontro em listas no youtube que fiz há anos e que ouço, quando posso, em loop até cansar. 

isso e reler. 

sejamos francos: a minha vida já tem coisas novas suficientes para ainda lhe pespegar com mais novidades.

 

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publicado às 10:36

banalidades

por M.J., em 24.07.19

não sei o que aconteceu ao tempo nos últimos tempos.

às vezes olho para trás e reparo: "olha, passou um ano desde que"; "já passou um ano desde então". e já. já passou.

e há uma névoa nalguns dias, como se algo tivesse ficado esquecido na grande mudança que foi a vida. como se alguns pedaços de mim tivessem ficado por aí espalhados na dinâmica que se gerou quando engravidei.

que isto comigo continua a ser assim: se é, é porque é; se não é, é porque não é. 

do "ai senhora das cruzes, não consigo engravidar" passei do "ai cruzes da senhora, estou grávida".

houve sempre um imenso lamento, o tempo todo. "não temos casa decente para ter uma criança" ao "temos uma casa gigante e agora como tratar disto tudo?".

que isto as palavras são como as cerejas (bem boas, por sinal, este ano) e de umas passo às outras: a casa é enorme, sim senhor e vamos fazendo o que queremos nela de acordo com o plano. ora mobilar isto, ora mobilar aquilo, ora tratar do exterior, ora a fachada, ora a garagem, ora o diabo a quatro.

há uma infinidade de dinheiro que se escorre. que falar de dinheiro não é bonito mas necessário: escorre. olho para trás: isto há uns anos era impossível, a não ser que vendesse trinta quilos de fígado.

e depois, há uma euforia no ar, como se fossemos todos milionários:

chamamos o construtor e é um "ai que não posso agora, cinquenta e duas obras de reabilitação"; a empresa que veio vedar toda a parte exterior (ter meio bairro a olhar cá para dentro não era muito agradável) atrasou quase um mês, para além do combinado, porque "ai que não posso agora, cinquenta e duas obras para fazer". em tudo o que é loja com coisas para casa há um corropio de gente. a cidade parece crescer numa espécie de entusiasmo coletivo. até quando?

 

enfim, já passou um ano desde que.

no meio deste ano mantive-me à tona na conquista das mil e duas coisas que achámos necessário. e os cabelos brancos aumentaram exponencialmente. ainda não os pintei desde que engravidei na falta de tempo, vontade e pachorra. sa lixe.

 

há um sem número de preocupações diárias: manter uma empresa não é doce e fácil.

manter uma casa, nossa, também não.

nem falo do acompanhar o crescimento do puto. e este é calminho, saudável, risonho. os meus cabelos ficam ainda mais brancos só de ouvir colegas e amigos contarem as próprias experiências: miúdos que acordavam de duas em duas horas, ininterruptamente, durante dois anos. miúdos que adoeciam frequentemente e era semanas no hospital. miúdos que não queriam biberão e era mama até quase aprenderem a ler "os maias".

deus. tive sorte.

penso nisso agora que já passou um ano desde que: tive tanta sorte. tenho tanta sorte. 

 

e mesmo assim, olhando para trás, dou comigo a lamentar o que ficou nas curvas da mudança. os livros que deixei de ler por falta de tempo e vontade. os cafés serenos, na varanda, a ver nascer o dia, irremediavelmente perdidos no apartamento que ficou. as tardes doces de verão a fazer mantas em croché para o puto que dormia na minha barriga. há uma melancolia. o ouvir das rolas que ficou, o canto das cigarras que acordava o pequeno bairro nas tardes de verão que não voltarei a ouvir. 

comigo continua a ser o é ou não é. 

mesmo quando já passou um ano desde que. 

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oh vai ver ali:

o miúdo rebola

por M.J., em 19.07.19

gatinhar que é bom não é com ele, que ainda não percebeu como fazer força com os braços.

mas rebola. rebola profissionalmente, arrastando o rabo e a língua pelo chão. 

vai de uma ponta à outro do escritório em rebolanço enquanto o diabo esfrega um olho.

ou eu escrevo meia página.

não vale de nada dizer-lhe que a lingua não serve para lamber o chão:

não percebe o meu idioma. e eu não percebo o dele. 

 

posto isto, pondero aproiveitar essa capacidade, dispensar a empregada e colar-lhe uma esfregona à barriga.

entre pagar à senhora, pagar água, pagar produtos de limpeza ou ter o chão a brilhar de baba, gratuitamente...

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nesta semana passaram cá por casa duas testemunhas de jeová.

tocaram à campainha e eu estava a meio de mudar a fralda ao miúdo, mas como pensava que podia ser a vizinha a pedir-me para trocar o carro mal-estacionado fui a correr. deixei o puto de pila à mostra e tudo.

enfim, quando vi quem era despachei-as rapidamente, mas sem me livrar de trazer um panfleto azul com os "segredos para manter uma família feliz".

pousei o papelucho na mesa da sala e fui à minha vida.

a empregada veio de tarde e nunca mais pensei no assunto

 

no dia a seguir, de manhã, deixei o miúdo com o rapaz e fui às compras.

quando voltei a criança estava sentada no tapete de atividades entretido e eu fui arrumar tudo. meia hora depois, como ele estava muito calado, estranhei e fui buscá-lo:

pois meus senhores, o meu filho, branco de pele, quase albino como a mãe tinha, naquele momento, a cara azul, as mãos azuis, os braços azuis enquanto mastigava qualquer coisa.

o quê? nada mais nada menos do que o filho da mãe do panfleto que a empregada tinha misturado no meio dos brinquedos sem se aperceber.

 

Oh-Meu-Deus-Jeová-Alá-Ou-Qualquer-Outro.

 

num segundo abri-lhe a boca à força, tirei o papel para fora que estava inteiro mas mastigado e comecei aos gritos muito histericamente pelo pai do miúdo que veio a correr. e eu:

isto é tóxico?

vaio matar o miúdo?

chama o 112.

como é que tu não viste isto?

o menino ainda vai ter um choque alérgico.

chama a ambulância.

já!!!!!!!!!!!!

 

pois muito bem, o rapaz vai ter com o puto, o puto começa a rir, todo bem-disposto, o rapaz vê que o papel estava mastigado, fala para a criança, lava a boca da criança, vira-se para mim e diz:

- bem, o pior que pode acontecer é a primeira palavra do miúdo não ser mamã mas jeová.

 

pronto.

é com isto que tenho de lidar.

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