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regresso à creche

por M.J., em 07.10.19

depois de praticamente uma semana e meia em casa o miúdo voltou à creche hoje.

por mim não ia mais.

não que a culpa tenha sido da creche, em si, mas o miúdo nunca teve a mais leve doença até aos nove meses. assim que entrou na creche foram 15 dias de febre, com quatro deles a chegar aos 39.8, em períodos de 5 em 5 horas.

já senti pânico na vida mas nunca na dimensão daquele em que ele começava a tremer no aviso da febre. 

o diagnóstico foi comum, segundo o pediatra: adenovírus respiratório.

sa foda se é comum.

pôs a minha criança com otite, amigdalite e conjuntivite.

esteve a uma fresta de ser internado (só não foi porque, contrariamente à maioria dos miúdos, com febre fica ainda mais elétrico que o normal e a impressão clínica era boa), tiraram-lhe sangue daquela mãozita gorducha, tendo agora duas marcas ainda negras para mostrar ao mundo. 

lindo serviço.

por isso, por mim não ia mais à creche e a discussão foi séria ontem. só não rolaram pratos no meu histerismo porque ele estava a dormir. e porque até gosto dos pratos. pronto. 

o pai quer que ele vá. tanto quer que foi. diz que é absurdo agora fechar-se a criança em casa porque teve uma virose.

pois tudo bem, se fosse assim mesmo. só que, ponham isto na cabeça, não foi uma virose, meus senhores, foi a virose.

vamos lá ver: já algum de vocês teve febre 15 dias seguidos? foi bom? gostaram? se pudessem evitar ir ao sítio onde a apanharam o que é que faziam? iam lá novamente lamber o chão? é que eu tive de o levar hoje outra vez. e estava tão nervosa que gaguejei mais a dar os recados do que a joacine vai gaguejar no parlamento. 

e depois vem toda a gente com o discurso usado nestas merdas: que é bom, para ele ganhar defesas. gente, nem o centeno usaria tal argumento. 

a sério, se isso é verdade ou não, não sei, que nunca li estudo algum sobre a coisa. mas a mim soa-me sempre à mesma treta que sai da boca do andré ventura: é bosta. a sério. para mim é uma tentativa falhada de os pais não se sentirem tão mal por deixarem os miúdos 8 horas num sítio com outros miúdos e, em contrapartida, ainda ficarem doentes.

é a cena do "também estão verdes, não as comia". eu comia. como sempre. 

enfim, dizem que sim senhora, que ele tem de ganhar defesas (e febre, pelos vistos muita) e que estou a ser histérica. quase tanto como a catarina martins. 

pudera. cheguei a ter pânico dos termómetros. e estou a dois passos de pesquisar uma ama, com menos putos (quantos putos pode ter uma senhora em casa?) onde não haja dez miúdos a lamber o mesmo brinquedo. 

com mil demónios. 

e a verdade é que, vendo bem as coisas, com isto tudo trabalhei menos do que se ele estivesse em casa comigo. tive de rejeitar trabalho porque ele estava doente, atrasei e-mails porque estava no hospital com ele, deixei de dar respostas porque na minha cabeça havia febre de 5 em 5 horas para ser combatida. 

foi pior o soneto que a emenda, adianto já. ou a ementa, como diz uma senhora da minha terra. 

 

enfim, o miúdo está na creche.

acredito que esteja aos berros enquanto lambe qualquer coisa cheia de bicheza para, logo à tarde, me chegar novamente a casa repleto de animalada que o ataca em pulmões, boca, olhos, nariz e orelhas.

e claro, num altruísmo sem fim, vai passar depois aquilo para mim e para o pai fazendo-me ter noites de febre (sim, duas, duas inteirinhas em que transpirei meio quilo de suor de hora a hora e abati umas gramas de banha) e obrigando-me a lavar 58 máquinas de roupa num só dia.

alguém sabe o que é cuidar de uma criança com 40 graus de febre quando se tem, também, 40 graus de febre?

se não convido-vos a experimentar avançando desde já o adjetivo que me ocorre: supimpa. ou só pimpa. como quiserem.

 

por fim, uma nota de algo que vi nestes dias e me deixou a sentir pior do que a febre:

mães atrasadas mentais que deviam ter as trompas laqueadas para todo o sempre.

o caso é simples e conto em dois minutos: enquanto esperava o resultado das análises no hospital, um miúdo de 2, 3 anos, em tronco nu, com evidentes problemas mentais, corria pela sala de espera, ia de encontro às coisas e às pessoas, lambia o chão do hospital (sim, lambia, literalmente, com a língua que deus lhe deu, o chão da sala de espera, as cadeiras, as paredes, os vidros. lambia, meus senhores, lambia o hospital) e a mãe, uma catraia com pouco mais de 20 anos, berrava ao telefone com alguém acerca de problemas de dinheiro ignorando completamente a criança que, repito, lambia o chão do hospital. e tanto ignorou que, quando a criança caiu e rasgou o lábio, não parou de telefonar, nem sequer a olhou, acabando por ser uma senhora a pegar-lhe e chamar a enfermeira.

há crianças condenadas à nascença, não há?

por que caralho há um ira para animais e não há um ira para crianças?

se houver, aviso já, faço campanha de maneiras a que daqui a 4 anos o partido que o apoie tenha mais assento parlamentar que o partido da finada cristas, que a deus a tenha, ámen.

 

pronto, agora vou só ali imaginar a quantidade de bicheza que o meu filho está a guardar no corpo para ganhar aquilo que os estudiosos da matéria me dizem ser imprescindível para a vida: defesas. 

ao menos, se as ganhar, que tenham mais capacidade de intervenção que os seguranças do costa quando ele quer bater em velhinhos.

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queixas

por M.J., em 23.09.19

é o segundo fim de semana em que me apetece colocar em posição fetal e dormir.

já nem quero saber:

escrevo sobre o assunto porque é este calo que me incomoda. juro. o puto ficou doente. é visível. não falo de outra coisa. pudera: não faço outra coisa. sua excelência sai à mãe e ninguém o atura doente. é um choro por tudo e um  par de cocós. às tantas sou eu que tenho vontade de chorar mais alto do que ele quando lhe limpo o nariz, os olhos e tento que ele coma.

rais parta: se ao menos eu perdesse também o apetite ainda ganhávamos alguma coisa com isso. mas nada. nicles batatóides (fritinhas, de preferência). 

 

dormir que é bom tá quedo.

dormi tanto estas duas noites como quando o pari. às tantas já via tudo azul que é a cor que me ocorre aos olhos quando começo a não aguentar mais. almoçamos em casa da mamã no domingo mas não lembro uma palavrinha do que foi dito. nem sequer se o assado estava bom. ou se as castanhas eram saborosas. na minha mente só uma coisa: cama, por favor.

no sábado, já a morrer, deixei-o ao paizinho e com a desculpa de ir comprar benuron em supositórios andei 50 quilómetros de carro, debaixo da chuva a praguejar baixinho. não lucrei nada com isso. enervei-me no trânsito - o pessoal desaprende a conduzir com chuva - e quando cheguei a casa o puto tinha dormido o tempo todo pelo que a fava quente a seguir saiu-me a mim outra vez. 

cum mil demónios, caramba.

 

não nasci para isto.

se for ver bem não nasci para nada. talvez para dormir, comer e queixar-me. desafio qualquer uma  superar-me nisso. pago um jantar se alguém ganhar.

vá, andem, digam, desabafem, avancem com as vossas queixas: ganho-vos com uma perna às costas. 

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publicado às 12:00

depois dele nascer vais ver que os bebés fazem uma série de coisas magnificas:

 

1. eles vomitam. muito. de esguicho. em cascata. normalmente em cima das tuas mamas

é. tu vais embala-lo porque está a chorar descontroladamente, encosta-lo ao peito muito amorosamente, abana aqui, abana ali e sentes um jato quente nas mamas. é vómito. que não para. e mesmo que vás a correr para o wc, com o vómito já a escorrer pelo caminho é bem provável que continue a vomitar. e que quando acaba tu não sabes se tiras a roupa dele ou a tua. porque ele está vomitado até às orelhas e precisa de um banho mas tu também e não é fixe dares banho nua e vomitada. estás num impasse. é bom que tenhas uma terceira pessoa para ajudar. se estás a pensar engravidar deves ter. assegura-te que essa pessoa quer ajudar. 

 

2. prepara-te para não vomitares com cheiro do vómito

aquela coisa do "ai, sou tão sensível ao cheiro que uma vez, na queima, estavam a vomitar cerveja e eu também vomitei - não que eu tenha bebido, deus me livre - e foi horrível" pode acontecer-te na situação anterior. das duas uma: ou ganhas resistência ao cheiro ou, se fores como eu, vomitas enquanto limpas vomitado e ficas ainda com mais vomitado para limpar. é lindo. digno de uma obra de arte.

 

3. quando estão doentes fazem cocó. de esguicho. em cascata. normalmente não há fralda que resista

pois é. prepara-te para isso. vai haver muita merda.

não vale a pena estarmos com coisinhas: não é só bosta, fezes, cocó. é mesmo merda. muita.

tanta que não há fralda que aguente. ela escorre como uma espécie de lava líquida. numa noite, por exemplo, podes acabar por mudar 5 vezes a roupa de cama da criança. ou a tua se o menino dormir contigo. no meu caso foi só a dele. por sorte amanheceu antes de me acabarem os lençóis. mas esteve perto de ser dramático e ter mesmo de ir sujar os da minha cama.

isso e pijamas, bodies, babygrows, meias, calças e camisolas. numa diarreia a sério vai tudo. em casa, no carro, no médico. quase como um anúncio à rádio comercial. é montes de roupa. e tu tens de limpar. sim, com as mãozinhas, essas tuas tão arranjadinhas com nail art. experimenta mudar uma fralda repletinha de merda com unhas de meio metro com florzinhas. as minhas estão rentes e sabe deus. 

 

4. eles têm conjuntivite nos olhos. e tossem em cima de ti. e há ranhocas verdes que escorrem enquanto almoças.

pois é. e precisas de assegurar-te que os olhos estão limpos. e que não tocas num descuido nos teus próprios olhos depois de limpar os dele e antes de lavar as mãos. é difícil porque ele não fica quietinho, como nos anúncios, enquanto o limpas. esperneia e mexe-se como gente grande. e berra. muito alto. acho que eles não gostam que lhes mexam nos olhos. eu também não. se não tiveres cuidado em limpar bem as mãos é bem provável que fiques igual. e lá se vai a maquilhagem toda prontinha a usar. 

 

por isso. se estás a pensar em engravidar não vás na tanga que todos os momentos são certos e que não há condições perfeitas. lá perfeitas não haverá mas é importante que tenhas, pelo menos 3 coisas:

1. dinheiro. é mesmo. essa coisa do que o que conta é o amor é tanga. se não fosse preciso dinheiro a segurança social não andava a distribuir abonos e tudo e o pessoal não ficava tão stressado nos dias em que é para receber, assoberbando os grupos no facebook com a mesma pergunta: "quem é da CGD já recebeu? e do novo banco?".

é preciso muita massa. para medicamentos, roupa, comida e fraldas.

e nem venhas com essa treta de que o teu leite chega, as consultas médicas são gratuitas e podes usar fraldas de pano, agora na moda: o teu leite chega até aos seis meses; as consultas no público são de graça mas os medicamentos não são, e experimenta usar as fraldinhas de pano com uma diarreia a sério. quem fica na merda és tu. 

 

2. de uma pessoa com maturidade ao teu lado.

ele até pode ser giro e dizer que quer ser pai mas ser pai vai muito para além disso. assegura-te que ele sabe ao que vai. vê lá a situação do vómito que relatei no ponto 1. não sei como teria feito sem ele. precisas de um pai que o queira ser. que tenha a mesma disposição para tomar conta da criança que tu tens. na vida de um filho não há a mãe e os outros. há a mãe e o pai. tu até podes ter disposição para mártir mas deixa vir uma noite de merda, vómito e conjuntivite para ver se o martírio não é demais para uma pessoa só. 

 

3. de uma situação profissional estável

pois. trabalhar horas e horas sem tempo para nada vai tirar toda a paciência que possas ter para situações de vómito, merda  e conjuntivite. e se trabalhares num sítio onde a compreensão para o efeito seja zero deus te livre e guarde. vais ter de faltar muito ao trabalho. não é uma vez, nem duas, nem três. são muitas. pensa bem se atualmente estão disponíveis para isso onde trabalhas ou se podes ficar sem esse trabalho. se a resposta for positiva ótimo. se for negativa: nosso senhor t'ajude.

 

enfim, e em suma, eu tenho essas três coisas, no mínimo vá, e tem dias, como estes últimos que me apetece saltar de uma ponte. eu e as dezenas de fraldas cagadas e as seis máquinas de roupa lavadas esta tarde. 

se já engravidaste e não tens nada disto: parabéns. és uma heroína. digo isto sem qualquer ironia. és mesmo uma heroína.

mas confessa lá que não seria mais fácil de outra forma. 

 

o que é preciso é amor, pois é.

mas conjuntivites não se curam só com amor, fraldas não se mudam só com amor, roupa não se lava só com amor e o dinheiro não aparece na mesa de cabeceira por amor (quer dizer, depende da profissão). 

é ou não é?

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banalidades: outono

por M.J., em 17.09.19

agora que o primeiro cheiro de outono surge no ar, começo finalmente a respirar. 

foi um ano incrivelmente estranho, este, desde o último outono.

as mudanças foram tantas e tão grandes que, houve dias, pensei ser assoberbada por todas; pensei transformar-me nelas sem dar conta; pensei deixar de ser eu para ser outra pessoa, qualquer, totalmente diferente, a dar vivas porque é verão, por exemplo.

deus ma libre e guarde.

 

os pequenos toques de outono são subtis mas existem.

as árvores começam a ficar acastanhadas em vez de pretas de incêndio.

há folhas secas que dançam no ar em vez de fagulhas que morrem em trevas.

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a luminosidade é diferente e nunca a consegui descrever.

só sei que o céu, em dias claros de outono, parece um lago de água tépida.

olhar as nuvens não faz doer os olhos.

a brisa não é como a salvação no deserto mas uma pequena carícia no rosto.

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de manhã há neblina e café em chavéna bem quente onde sabe bem a aquecer as mãos. já não se põe gelo no café mas sente-se a escaldar nos lábios com conforto.

na rua há um corropio matinal em vez da dolência de férias. as pessoas caminham com rumo, em rotinas, horários e coisas certas.

de certeza que há quem o odeie. eu gosto. 

 

é possível agora ir à praia sem passar horas à procura de estacionamento, levar encontrões no paredão ou esperar 50 minutos por um lugar na esplanada.

o silêncio volta ao mar e consegue-se ouvir cada onda sem gritos, respirar maresia em vez de protetor solar e apreciar a areia sem cheiro de tabaco, onde pessoas depositam piriscas numa espécie de funeral sem padre.

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o outono surge mesmo ainda no verão e eu começo, novamente, a respirar.

o miúdo está na creche das nove às cinco.

organizo trabalho sendo pessoa para além de mãe. retorno a leitura, a escrita e sinto prazer em ir dormir, todas as noites, porque o dia seguinte terá espaço para todos nós: eu e eles e não só ele.

e este eu que surge é mais paciente, mais feliz, com mais disposição para brincar com ele, para o adormecer, para o amar de forma mais completa porque não é possível amar de todo quando nos inutilizamos em função do outro.

seja o o outro quem for.

 

(juro, muito bem jurado, que o que mais me custou e custa, na maternidade, é a perda total da dimensão do tempo e o deixar de conseguir perceber que cada momento, menos bom ou muito bom, é - como em tudo na vida - uma fase. só uma fase. e que essa incapacidade de perceber que é só uma fase, essa incapacidade de ficar assoberbada pelo momento que me consome toda, foi e ainda é, o calcanhar de aquiles disto tudo. mas falo disso depois.)

 

a vida começa a ser novamente doce.

há tempo para antecipar dióspiros maduros que se derretem na boca, castanhas assadas em frente à lareira, séries no sofá debaixo das mantas e passeios ao fim de tarde ao lado do mar, com um sol agradável e um ar fresco que convida a casacos. há tempo para ver a dança das folhas, para apreciar a neblina matinal e para ouvir o silêncio a meio da tarde. 

há.tempo. 

 

finalmente, 18 meses depois da minha vida se ter transformado e eu ter deixado de me reconhecer, há pedaços de mim que vão vindo à tona, conjugando-se com a novidade, com o amor e com o correr dos dias de uma forma completa e global.

o outono é só o corolário disso mesmo. 

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creche

por M.J., em 09.09.19

o miúdo adaptou-se minimamente à creche. eu nem por isso.

estamos na segunda semana e cada dia foi um pouquinho mais: uma hora no primeiro dia, hora e meia no segundo, almoço no terceiro, almoço e sesta no quarto e, hoje já fica até ao lanche. 

claro que trabalhar sem as constantes interrupções é bom.

já me tinha esquecido que é bom trabalhar. que é bom fazer coisas seguidas, com uma linha de pensamento contínua, sem quebras constantes de choro, atenção, fralda, leite, sopa, sono, chupeta e afins. mas, confesso que sempre que penso nele inquieto, com fome, sono, sujo, a pedinchar atenção e sem mim para prover a isso me dá um aperto no peito. 

no primeiro dia estive a dois passos de desistir da creche depois de ter chorado o equivalente à água necessária para apagar um incêndio de grandes proporções.

se não fosse o rapaz a dar-me um abanão psicológico - e a magda, e a maria - tinha pegado nele ao colo e fugido muito rápido aqui para casa, onde o colocaria numa redoma bem protegido.

depois lembrei-me de todas as vezes que não compreendi este sentimento em outras mães e ganhei um pouco de vergonha na cara. não, não serei uma mãe que vive única  e exclusivamente para a criança ainda que as minhas hormonas me gritem o contrário. 

por isso, hoje de manhã correu um niquinho melhor: pôr-lhe coisas na mochila não foi o equivalente a fazer-lhe a trouxa para a tropa; deixá-lo na creche não foi a mesma coisa que o entregar para adoção.

já conseguir trabalhar a manhã toda foi glorioso. quase tão bom como a primeira vez que ele me deixou dormir a noite completa ao fim de quatro meses. 

 

bem vos digo: ser mãe não mata mas mói.

e eu, meus senhores, ando toda moidinha. 

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sou tão atrasada

por M.J., em 03.09.19

ontem foi assim:

 

hoje estou a chorar há 20 minutos, sendo que vou buscá-lo dentro de 30.

como é que alguém (eu) pode ser tão cruel ao ponto de deixar uma criança a chorar na creche e vir embora? 

oh senhores. 

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a creche

por M.J., em 02.09.19

o miúdo entra na creche amanhã.

às vezes sinto palpitações por isso. e uma ligeira sensação de culpa: se trabalho às minhas próprias ordens ele podia ficar comigo, aqui, não é?

pois não. 

é extremamente difícil trabalhar com ele ao lado. e acaba por passar algum tempo sozinho, na sala, com música em fundo ou tv. a creche é a solução mais viável sobretudo porque é perto de casa e, nos dias em que não estiver assoberbada, ele fica comigo e pronto.

 

uma das coisas que achei abismal é o valor a pagar pela creche.

está certo que é calculado de acordo com os rendimentos - sendo uma IPSS - mas meus senhores, é quase como pagar propinas numa universidade privada. acho até que é mais caro do que isso, tendo em conta que vamos pagar o máximo.

vou-vos dizer: num país com baixa natalidade e onde um casal precisa de trabalhar (ambos os dois) não se compreende como as soluções propostas para apoio à primeira infância são tão caras.

gente!

das duas três: ou um dos pais fica em casa com a criança; ou os dois recebem pouco mais do que o salário mínimo e a mensalidade não é gritante ou, então, é espremer as nádegas para evacuar dinheiro.  

que a criança é fonte de despesas já sabemos. que o estado apoia muitos pais com abonos, subsídios mono-parentais, apoios e afins é verdade também. mas que despreza totalmente quem não se enquadra nesses parâmetros assumindo que não precisa e pronto, é também outra verdade universal.

é como se: ganhas o ordenado mínimo? estás desempregado? avança com a fabricação da criança que nós ajudamos.

ganhas um pouco mais do que isso? trabalhas que te lixas sessenta horas semanais, sem férias e fins-de-semana? fode-te que a responsabilidade é tua, a taxa de natalidade não precisa de ti e paga mais de duzentos paus por mês para a tua criança ir para a creche. e dá-te por satisfeito que podias nem isso ter ainda que descontes que nem um tolinho todos os meses. 

é. falar de dinheiro nunca foi giro. 

mas é necessário.

 

seja como for, a criança vai para a creche amanhã.

há um misto de: vou trabalhar a manhã inteira sem interrupções, sem mudar fraldas, alimentar, ajudar a fazer sestas, brincar com a criança: iei, viva; e vou trabalhar a manhã inteira sem interrupções, sem mudar fraldas, alimentar, ajudar a fazer sestas, brincar com a criança: oh merda para isto. 

e se ele não se adaptar? e se sentir a minha falta? e se estiver a chorar e ninguém o consolar? e se outro miúdo o morder? e se tiver fome e ninguém o alimentar? e se tiver que mudar a fralda e não o fizerem? 

dói-me o coração. horrores.

às vezes penso se não seria mais fácil abdicar do trabalho, ficar em casa com o miúdo e ter mais tempo para dar amor: não dizem que nestas coisas o dinheiro é o menos e o amor é o mais? começo a entender porquê.

fixe, fixe era que o banco também recebesse amor como prestação mensal da casa. 

e os senhores do continente onde faço as compras.

e os senhores da edp.

e das águas de aveiro.

e do gás.

e do combustível.

tenho tanto amor para dar e só querem dinheiro!

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ya meu, tipo, é isso.

por M.J., em 30.08.19

ultimamente o facebook existe pelos grupos, esses antros de bolhas de informação.

já quase ninguém publica fotos no facebook, põe estados de alma no facebook ou informa o facebook do que está a pensar. para isso usa-se o instagram: há uma fotografia, arranja-se uma frase qualquer e voilá! está feito: muito mais bonito e com legenda. 

 

é por isso que o facebook, com os seus grupos tem-se mantido.

as pessoas aderem a uma série deles (e há de tudo, como no supermercado) e depois vão interagindo umas com as outras:  há de apoio a políticos, de ódio a políticos, de férias, viagens, costura, alimentação, jejum, estilo de vida, estilo de morte, religião, ateísmo, trabalho, desemprego e tudo o que se lembrarem.

juro.

faço parte de uma data deles. como espetadora assídua, somente. até me mantenho num ou outro de mães, em que não participo mas vejo. e depois posso sempre pensar no futuro da humanidade.

bem giro. 

 

o mais interessante? é que todos têm uma espécie de regra em comum:

é proibido corrigir-se erros ortográficos.

é sério.

pode criticar-se tudo: o que a pessoa tentou dizer, o que a pessoa tentou esconder, a vida da pessoa, o corpo da pessoa, a família da pessoa, a ideologia da pessoa, a religião da pessoa, o peso da pessoa, a idade da pessoa, as decisões da pessoa.

tudo é permitido.

menos, meus senhores, erros ortográficos.

isso aí, alto e para o baile, mas não.

 

e não era suposto que andando toda a gente em redes sociais onde, pasme-se, se escreve, houvesse uma tentativa de se escrever melhor? é que já nem digo aqueles erros mais... enfim, perdoáveis, em que se troca conselho por concelho, à por há, assento por acento, se separa o mos do comemos, se acrescenta um a ao recebe e põe-se hífen onde não era suposto.

enfim, uma pessoa até fecha os olhos a isso porque pronto, consegue-se compreender.

o que não se entende é aquele emaranhado de erros, todos seguidos, em que não se percebe um corno do que a pessoa quer dizer e é preciso vir um tradutor de chinês, japonês, turco, grego e holandês para decifrar a coisa.

e no meio disto ai de quem, muito timidamente escreva: "desculpe, o quê?"

ah, a ofensa! pois que a net não serve para corrigir erros, pois que a net não serve para apontar dedos ao português alheio, pois que ninguém precisa de dicionários ambulantes.

então a net serve para quê, caralho?

para nos dizer que na mínima dor de cabeça temos um aneurisma incurável?

para nos dar a convicção de que toda a gente pensa como nós porque estamos em pequenas bolhas de informação e só lemos o que queremos ler?

para estarmos incluídos em grupos de pessoas que a falarem tão mal como escrevem eram incapazes de manter uma conversa de 3 minutos enquanto cuspiam uma nata com café?

 

há dias, enquanto estendia roupa no pátio percebi que o vizinho do lado estava a dar uma festa na piscina.

ou melhor, o filho de 20 anos do vizinho do lado. e como a malta berrava em vez de falar era inevitável ouvir o que diziam. pois que tenho uma conclusão:

senhores, a juventude fala como se tivesse um travão de mão na língua que puxa a cada três palavras.

e depois, tipo, ela disse que, ya, não queria pinar comigo, tipo, que era cedo. e o outro, aos gritos também meu puto, é tipo, ela querer quer, ya, mas tipo, tava-se a fazer de difícil. e outro ya. e a resposta ya. 

OH-MEU-DEUS!

só me apeteceu berrar enquanto pespegava com meias no estendal:

ya meu! se no tal do pinanço fizeres tantas interrupções como quando falas... não há nenhuma que ya, tu tipo, pines!

 

enfim, as palavras são como as cerejas.

comecei nos erros da internet, acabei nos erros da fala. 

cerejas podres, portanto.

 

e por favor, qualquer erro que por aqui ande, ajudai-me a corrigi-lo, sim?

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isto é uma indignação com cocós

por M.J., em 28.08.19

é inevitável: só quando passamos por elas é que nos apercebemos delas.

ou só quem está no convento sabe o que lá vai dentro.

ou pimenta no cu dos outros é refresco. 

pois é.

 

nunca tinha pensado na necessidade que é de haver fraldários nos vários espaços públicos. na verdade, quando pensava era que a sua existência era espaço desperdiçado: eu era assim. falar em crianças e coisas de crianças causava-me urticária. não estava dentro do convento e não aprecio pimenta.

faz parte.

uma vez li uma bloguer - não faço a mínima ideia quem - a queixar-se de que numa estação de serviço não existia um fraldário na casa de banho masculina. achei aquilo uma queixa tonta. tanta coisa na vida para nos queixarmos e a senhora estava indgnada pela ausência de um sítio onde limpar cocó de uma criança? 

claro.

até que tive um bebé. e esse um precisa de ser mudado de vez em quando. vá-se lá entender: dá uso ao rabinho. que despaupério um bebé fazer cocó. sobretudo fora de casa.

mas faz.

farta-se de fazer.

e tal como o meu sono ficou levíssimo - acordo com o som de uma aranha na parede, se for preciso - também o meu olfato apurou desde que a criança nasceu. juro. sou capaz de cheirar cocós a quilómetros de distância. é como se material radioativo saísse das entranhas do miúdo e eu fosse um daqueles aparelhos que o deteta. pela minha saúde se não é assim. 

ah e tal, se ele faz em espaços públicos pode esperar um bocado para ser mudado quando chegar a casa.

era o esperavas.

temos um nojentinho como bebé. à primeira cagadela (perdoai a linguagem mas é o que é) a criança berra, reclama, grita, um ai jesus. e depois o cheiro, meus senhores, incomoda. alguém quer estar a enfardar leitão com cheiro a cocó ao lado? ou fazer uma viagem de horas com perfume a caca no carro? pois claro que não. e ainda que quisesse: a pobre da criança tem mesmo de estar toda suja? com risco de assar? por acaso nós adultos andamos borrados por aí? (os que andam que tenham vergonha). 

por isso sim, temos que o mudar quando é preciso. 

e é aqui que a porca - ou porco - torce o rabo (perfeitamente propositado, dado o tema): há uma grave falha no que toca a fraldários nos espaços públicos:

1. ou simplesmente não existem;

2. ou existem só na casa de banho das mulheres.

e isso chateia-me sobremaneira. porque só estarem na casa de banho das mulheres é tão grave como não estarem de todo.

bem: juro que já deixei de tentar perceber quem acha que os bebés têm mais ligação com as mães do que com os pais. na verdade, não tenho a mínima paciência para mães que se queixam que os pais das crianças não as ajudam (ajudar como? é uma tarefa conjunta, não é um que faz e outro que ajuda) mas depois não deixam que eles façam seja o que for (deixa que eu faço, está tudo mal feito, não tens jeito nenhum) e pior, ficam muito orgulhosas quando os miúdos só as querem a elas (mas depois acham estranho estarem tão cansadas). enfim. cada um com as suas e isso é com elas. pouco se me dá.

agora o que me chateia é que a sociedade ache que tem de ser assim em todas as dinâmicas familiares. e que impinja que mudar o cocó do miúdo em espaços públicos tenha de caber 90% das vezes a mim porque, simplesmente, não há fraldários em espaços comuns ou no wc dos homens.

porquê? hã? porquê?

quer dizer que o meu marido se for sozinho passear com o miúdo tem de entrar na casa de banho das senhoras para mudar a criança? não vem daí mal ao mundo mas entendo o constrangimento.

quer dizer que o meu marido, enquanto pai, não pode ir sozinho jantar com o meu filho?

parece que, segundo a lógica de quem faz a coisa, das duas uma:

1. os bebés só cagam com as mães;

2. os pais nunca vão sozinhos com bebés de fraldas a lado nenhum;

3. esta coisa de haver casas de banho para mulheres e para homens desaparece quando há crianças e vai tudo à das mulheres.

 

e depois, como se isto já não bastasse, a maior parte dos fraldários são uma espécie de tampo que se puxa da parede, no meio do corredor das casas de banho, ficando um pessoa ali a empancar o trânsito para todas as mulheres que precisam de passar.

e é um ver se te avias onde pões o saco com a tralha do miúdo, a tua mala com as tuas coisas, as toalhitas, a fralda limpa, a fralda suja, o creme, etc e tal.

é uma tarefa chata que exige - sobretudo quando a criança decide explorar com as mãos tudo o que encontra, incluindo o rabo sujo - a presença de dois adultos para ser mais rápida e eficaz. mas que não pode ser porque só há fraldário - ou tampo branco - na casa de banho das senhoras. 

porquê? se foi por política de espaço então porquê nas senhoras? os papás têm mãos cortadas? têm tanta caapcidade de segurar a pila para fazer xixi mas depois não conseguem segurar a pila dos filhos para os limpar? a sério?

 

juro que isto é motivo para uma petição. 

se as crianças hoje em dia nas escolas podem ir ao wc com que se identificam mais, era bom que os bebés pudessem ser mudados nos wcs onde os pais se identificam mais, não?

é um assunto de merda, bem sei, mas só quem está no convento sabe o que lá vai dentro.

e no convento, meus senhores, também se caga.

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ser-se frágil e pequeno

por M.J., em 13.08.19

no domingo  a mamã veio passar cá o dia connosco. agora que começamos a tratar do exterior da casa e o verão (ainda) convida a horas ao ar livre, sem calor infernal e uma brisa suave (há quem lhe chame ventania, mas uma pessoa aficionada por vento como eu acha que é brisa), passamos algum tempo a apanhar ar no trombil antes do almoço.

perguntei se queriam comer por lá. disseram-me que não. almoçamos, por isso, dentro de casa, de tv ligada:

péssima ideia.

 

o miúdo já dormia a sesta. nós íamos falando banalidades com a tv em fundo.

num momento qualquer chamou-me a atenção uma notícia sobre algo que se passava na capital do mundo, governada por um doido laranja: no mississippi ao primeiro dia de escola, uma operação policial detivera centenas de pessoas, imigrantes.

nada de anormal nos tempos que correm.

o que me chocou foi o que veio a seguir: os miúdos, imensos, ficaram a saber da novidade à saída da escola. e o jornalista que falava com uma criança recolhia a reação dela:

a menina chorava copiosamente e dizia, num desespero cego, que precisava dos pais porque não tenho onde ir comer e dormir. e agora? onde como? onde durmo? preciso dos meus pais, chorava. 

e aquelas necessidades, tão básicas, tão assumidas que estão como algo universal dado a uma criança invadiram o ecrã, assoberbaram o meu almoço, apertaram-me o peito.

precisa, é claro que precisa porque é impossível que o faça sozinha.

porque há um motivo para os adultos serem responsáveis por crianças.

porque há um motivo para o estado ser responsável por elas.

fiquei portanto, à espera que na notícia se dissesse que as entidades estatais competentes levaram as crianças a ver os pais, e que as acolheram até a situação se resolver. 

só que não.

segundo o jornalista nenhuma entidade local governativa fez nada quanto às crianças. arrancaram-lhes as famílias e, numa espécie de mundo terceiro, numa espécie de mundo animalesco, numa espécie de regresso às trevas, descartaram responsabilidades quanto aos menores. como se aquelas crianças não fossem crianças. como se aquelas crianças fossem objetos ou pedaços de lixo sem valor: desemerdem-se, desenrasquem-se, voltem para onde vieram. é problema vosso mesmo que tenham 10 ou 11 anos. 

 

doeu-me e não costuma doer.

porque parece que ganhei, como a maioria de nós, uma espécie de manto que me faz encolher os ombros às atrocidades do mundo: almoçamos e jantamos confortáveis enquanto observamos em primeira linha a morte, dor e crueldade na televisão. e não damos um suspiro. já nem encolhemos os ombros. estamos anestesiados. é uma banalidade. é assim o mundo. pronto. 

 

naquele dia, no entanto, aquela menina rasgou o meu manto de indiferença e aquilo magoou-me profundamente.

como se fosse eu. porque na maioria das vezes só conseguimos que nos doa se sentirmos que poderia ser em nós ou em quem amamos. e é triste. 

porque aquela menina, que em prantos dizia que precisava dos pais, fez-me lembrar de como é triste ser-se pequeno, frágil e depender de quem é maior.

fez-me lembrar de como é horrível ter-se seis ou sete anos e ter um medo constante de perder aquele que cuida de nós porque dependemos dele e não somos capazes de subsistir sozinhos.

e esse sentimento de impotência, essa fragilidade de ser pequeno e dependente, essa necessidade de crescer muito rápido para se ser adulto, não era suposta ser sentida por crianças. não era suposto que cravasse as garras na alma de quem é frágil e não tem meios de seguir sozinho.

aquele "preciso dos meus pais para comer e dormir" trazia um grito de medo e sobrevivência que não era suposto uma criança sentir. 

 

olho para o meu filho, de meses, que faz birras (sim, já as faz) porque quer o pato amarelo em vez do urso castanho. olho-o enquanto dorme e sinto espasmos de medo que algum dia ele perceba que precisa de mim para subsistir, para sobreviver. não é suposto.

não é suposto que a vida seja atirada com força a pontos de quem é pequeno e frágil tenha consciência total dessa pequenez e fragilidade e viva aterrorizado no medo que ela o absorva todo.

aquele acontecimento cravou-se no meu peito e ainda me sinto tremer quando penso nele.

fiz uma pesquisa rápida na net. a notícia original está aqui. se vos doer como doeu a mim é melhor que não vejam:

https://www.cbsnews.com/video/children-of-undocumented-immigrants-face-uncertainty-after-parents-apprehended-during-massive-mississippi-raid/

 

 

 

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