Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



banalidades

por M.J., em 20.11.18

há uns anos atrás, quando o mundo se desmoronou e me transformei numa caixa vazia, consegui - em grande parte - ultrapassar a coisa porque não tinha problema, pudor ou outro em falar/escrever sobre o que sentia. era tanto assim que ainda há pessoas que me acompanham pela escrita hoje vindas dessa altura. 

falar era uma espécie de água fresca no deserto de dor que foram aqueles meses (podemos arredondar a anos) e, por isso, foi fácil deixar a ajuda entrar e encaminhar-me na direção certa (isso e o facto de que quando chegamos ao fundo e não há mais capacidade de escavar, a única solução é começar a subir).

 

a gravidez trouxe-me uma enxurrada de hormonas e, consequentemente, emoções que eu já não lidava há muito tempo.

a insegurança constante do que faço, o que sou, o que se espera de mim, o que eu espero de mim, o que consigo fazer, sentir e a inevitabilidade do "eu não tenho essa capacidade" foram uma constante nos primeiros 3 meses de gravidez e voltaram agora, no último trimestre. 

na maioria dos dias tento simplesmente não pensar muito nisso. mesmo que as minhas costas se ressintam, não tenha posição para estar, pareça ter um pipo na barriga e haja uma constante movimentação de pontapés, tremeliques e espargatas junto aos meus intestinos, pulmões, estômagos e outros órgãos que, bem vistas as coisas não parecem ser muito relevantes nesta altura do campeonato.

tento não pensar no que aí vem porque me assusta tanto que só me apetece fugir.

se alguém traçasse um perfil da minha pessoa diria que eu era uma fugitiva, incapaz de enfrentar à primeira os problemas.

sou sim. nunca o neguei. ainda que, na sua maioria, os acabe por enfrentar, na ausência de outras soluções. a batalha que travo é fundamentalmente comigo, as fugas são sobretudo na minha mente e a cobardia é normalmente antecipada e sofrida até à exaustão ainda antes de acontecer. são personalidades. feitios. ou outra coisa qualquer.

enfim, no meio deste turbilhão há dias que são, simplesmente, demasiado sobrecarregados.

o peso enorme do que está para chegar (e não necessariamente os 4 quilos de pessoa - subi a aposta) começa aos saltos na minha mente.

é incrível o tamanho do que me espera. e não falo do trabalho em si, das mamas que podem ou não dar leite ou das noites mal dormidas. falo na responsabilidade que é educar, moldar, fazer crescer de forma saudável um outro ser. sem o contaminar com quem sou. sem o encher de mágoas, traumas ou dores. sem o moldar à semelhança dos meus defeitos. levando-o a trilhar o mundo com a coragem que às vezes me falta. esse peso, o tamanho dessa responsabilidade - para a qual não sei se estou à altura - consome-me de tal forma, tem dias, que a pressão se incendeia e de repente fico parada, à espera que tudo seja uma espécie de sonho e tarda nada volte à simplicidade do que era.

 

além disso, a minha capacidade de falar ou escrever, preto no branco, as incertezas, inseguranças, medos e dores que me constroem nestes dias é uma novidade.

há algo em mim que grita "não digas, não contes, não fales. aguenta, sobrevive, descobre, ultrapassa". numa espécie de "fizeste a tua cama, deita-te nela. sozinha". numa espécie de "é esperado mais de ti do que esses queixumes azedos de medo". numa espécie de "desta vez não. desta vez és tu e mais ninguém porque já bastam todos os teus dedos apontados ao que és".

e daí a incapacidade de marcar com a psicóloga. daí a incapacidade de falar com quem pede que eu fale. daí a incapacidade de pegar em cinco minutos e enche-los de todos os medos, verbalizá-los, dar-lhes forma e, depois, enterrá-los no sítio de todos os outros. 

 

desta vez é mais difícil.

falar do que sinto e não sinto é colocar em voz alta algo profundo e cinzento que pode, muito sinceramente, moldar o azul bebé que se transformou a minha vida.

pode contaminar-lhe os ouvidos, a alma e tornar logo à partida em sal dissolvido, a rocha de granito que espero ser. 

é irrazoável e não ajuda.

mas ainda não sou capaz. 

Autoria e outros dados (tags, etc)

que queira partilhar a experiência?

tendo em conta o meu historial emocional - que nunca escondi - e o quadro depressivo anterior, a médica insistiu - com bastante convicção - na necessidade de fazer já umas consultas com terapeuta, no objetivo de evitar possível quadro de depressão pós parto.

concordei.

tudo o que aí vem se mostra aterrador na minha cabeça e não quero ser um fardo em vez de um porto seguro para os dois.

além disso, as lembranças que tenho da vaga de nevoeiro que foi a minha vida nessas alturas, da angústia e do terror cinzento estão ainda demasiado tatuadas na alma, para querer passar por tudo, outra vez, sem fazer o que esteja ao meu alcance para o evitar.

 

e também por isso gostava de saber - caso alguém tenha passado por tal situação e queira compartilhar, evidentemente - quais os sinais a que devo estar atenta, o que fizeram, como ultrapassaram e tudo o mais.

alguém?

Autoria e outros dados (tags, etc)

quase às 35 semanas o puto pesa dois quilos e meio.

não sei o que anda a comer mas o ritmo de aumento de peso tem sido... interessante, tendo em conta que tinha dois quilos há menos de duas semanas.

eu, com os dois quilos e meio dele, mais tudo o envolvido, engordei, desde o início da gravidez, quatro quilos e setecentos. podia arredondar para os cinco mas, nestas coisas, uma pessoa quer precisão.

por outro lado, continua a ser a macho - parece que é definitivo - tem nome escolhido (falta só saber se um ou dois nomes próprios) e está previsto que conheça o mundo mesmo na altura do natal. ali pertinho, tão perto que, se se enganar, arrisca-se a dar a primeira respiradela entre um bilharaco e uma rabanada e, num futuro, receber no natal o presente do menino jesus e do aniversário próprio.

eu, se fosse a ele nascia antes, mas sem pressão. até porque vejo já, nessa escolha, um traço parvo da mãe, que decidiu casar na altura do aniversário e começar a namorar no natal. juntam-se os presentes todos e fica tudo mais barato.

ele sabe que é bom ser sovina. 

 

já tem cama e todos os apetrechos necessários.

optamos por comprar uma daquelas banheiras com pernas e mudador incluído (não é por nada, mas as minhas costas já se queixam e ele ainda não tem trêss quilos), uma cama de grades em vez de berço (com um urso piroso e tudo), um ovo e um carro (em duo) e uma alcofa mais barata para os dias em que a cama se lhe apresente um mundo feio. um dinheirão, digo-vos já, que ninguém convenceu o rapaz a aceitar as minhas sugestões mais baratas. encontramos um meio termo, eu sei (mais para o lado dele do que do meu) e creio, muito sinceramente, que esta criança ainda não nascida tem já mais objetos do que eu tive até aos dez anos. 

sinais dos tempos.

 

continuo a ser seguida no público e no privado. tendo em conta como tudo está a correr seria desnecessário estas consultas mensais na obstetra mas preciso de sentir a segurança que emana dela em todas as consultas, assim como a disponibilidade total para as dúvidas mais ridículas em horas indecentes. como daquela vez em que ele não se mexeu durante duas horas, inteirinhas, nem com chocolate, caramelos ou açúcar e eu já, com as lágrimas em fio, a ver cenários negros e cinzentos. tudo acalmado com uma simples mensagem e o puto a fazer a espargata pouco depois.

as hormonas são uma coisa engraçada e, no meu caso, posso usa-las para esconder o turbilhão de inseguranças que é a minha personalidade. 

 

agora faltam só as análises do terceiro trimestre (e sim, aquela coisa do cotonete. ainda bem que me avisaram que consegui disfarçar em frente à médica a surpresa) e esperar que ele queira sair. organizo tarefas e trabalhos para estar o mais livre possível na sua chegada. e, se querem saber (não devem querer mas senti necessidade de registar) até fui a uma aula de preparação para o nascimento, não daquelas em é suposto aprendermos a respirar (a médica disse-me que podia perfeitamente dispensar isso, tanto mais que se for ela a fazer o parto, devo respirar como ela mandar e pronto) mas sim sobre amamentação.

e se fui contrariada!

tenho-me posto em segundo plano em muitas coisas. aprendi a controlar uma série de impulsos marados (e isto não tem necessariamente a ver com a gravidez mas com a maturidade que o crescimento nos traz), a deixar de valorizar tretas mais pequenas e a encolher os ombros a coisas que não me agradam. esta, no entanto, mexeu-me com os nervos. fui até à maternidade com ar de quem vai para a forca. não é algo que consiga explicar mas a ideia de passar duas horas a ouvir falar sobre algo que não me é confortável assemelhava-se às sete pragas do inferno. mas fui. por ele. por eles, vá. mas mais pelo ele grande, que quer estar preparado, que não está grávido mas tem direito a recolher a informação toda que sentir necessidade e que queria ir a isto.

fomos, portanto.

uma sala cheia de grávidas. e eu já a ver o discurso. os sinos todos da amamentação, o fundamentalismo, a imaginar as palavrinhas todas, como se tudo aquilo já fosse uma cópia do que eu ouvira.

e... só que não.

quem ali estava, a falar sobre o assunto, não era fundamentalista. não dizia as barbaridades que me fazem crescer unhas dos pés para dentro. não insistia como se fosse a coisa mais importante da vida. não repisava no "se não amamentares não és um mãe decente". não falava da beleza da coisa, como um quadro de picasso. pelo contrário. foi curta e direta, deu aspetos relevantes e de saúde e ainda, pasmem-se, adiantou que quem não puder ou não quiser amamentar está no seu direito e as alternativas são perfeitamente boas. 

foi nesse momento que descontraí.

senti um peso descer-me dos ombros, em vagas de calor. e percebi que este pequeno drama que me acompanhou desde o início foi mais alimentado pelo meu cérebro disfuncional,  naquela comichão que não desaparece nas coisas chatas, pelas cinco ou seis tretas que li na Internet, do que pelas pessoas que encontrei ou quem convivi e convivo. na verdade, nenhum profissional de saúde com que me cruzei foi, até ao momento, fundamentalista. nenhum pareceu desrespeitar decisões alheias. e nenhuma colega ou amiga minha, que tenha passado pela experiência, me tentou sequer vender uma caneca com uma frase a dizer que mãe que amamenta é mãe à séria. 

esta coisa das expectativas é qualquer coisa, mesmo. 

 

enfim, é isto.

tenho dificuldades em respirar que sua excelência, dom rapazinho, está de cabeça para baixo, com o rabiosque encostado a qualquer órgão interno meu onde, depreendo, estejam também os pulmões. quando penso no assunto e percebo que tenho, neste momento, ao lado dos meus intestinos mais vinte dedos, duas pernas e dois braços e uma cabeça fico incrédula e tendo a não acreditar. às vezes não acredito mesmo. é como se isto fosse algo que não está a acontecer comigo. como se o meu corpo fosse incapaz de criar outro.

mas ele está lá.

ocupa espaço em mim, na minha vida, na nossa relação e em quem somos. vai moldando um pouco os nossos hábitos e rotinas. 

e tenho plena noção disso quando o rapaz encosta a cara à minha barriga, menos proeminente do que dizem que era suposto, e murmura baixinho: anda lá miúdo, sai daí que te quero agarrar. 

dois quilos e meio já é bastante que se agarre, não é?

Autoria e outros dados (tags, etc)

também vos digo

por M.J., em 09.11.18

nunca a minha vida se adaptou tão bem ao nome deste blog.

Autoria e outros dados (tags, etc)

presentes

por M.J., em 08.11.18

ainda me falta comprar um monte de cenas para o miúdo.

 

com a mudança, as alterações, a necessidade de fazer listas e decidir tarefas foram ficando para trás uma data de coisas. 

mas há coisas que a criança tem já e me aquecem a alma.

como o primeiro urso de peluche dado pela minha seita.

 

 

ou o júlio oferecido por alguém muito especial e que é a coisa mais fofa já vista.

 

 

ou o babete adorável, que a olivia fez questão de oferecer (entre outras coisas) e vai comigo para a maternidade.

 

 

ou as botinhas feitas pela carmen

 

ou a primeira biblioteca, oferecida por todo o grupo secreto, e que eu já açambarquei como minha :D (depois empresto-lhe)

 
 
 
View this post on Instagram

Quando criei um blog fi-lo por mim. Quando criei o #livrosecreto também o fiz, em parte, por mim. Depois, quando o #projetoaltino se tornou uma realidade, abandonei o grupo num rompante (vergonhosamente). Porque não conseguia conciliar nada mais que não fossem aqueles 3 meses iniciais, tão maus, tão complicados. Hoje - apesar disso - o grupo do livro secreto presenteou o miúdo que ainda não nasceu com a primeira biblioteca. E com os devidos lenços para mim, que estou numa choradeira sem fim (sempre as hormonas). Escrevo um blog pequenito onde raramente faltam palavras. Mas hoje não as tenho para descrever a comoção provocada por estes gesto, por estas lembranças, por estas pessoas que fazem questão de estar comigo (e com ele, mesmo ainda sem nascer). Acreditem: um blog, um grupo só faz sentido quando sendo quem somos vemos no outro retorno. Obrigada. Agora vou ali abrir outro pacote de lenços. . . #projetoaltino #pregnancy #gravidez #blog #livrosecreto #blogues #eagoraseila #pessoasespeciais #livros #primeirabiblioteca #bebe #presente

A post shared by Maria João (@emedjay) on

 

o miúdo é um sortudo.

tem já tanta gente a pensar nele e ainda nem respirou um golfada de ar, nesta coisa que é a terra. 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 12:45

disto da convivência animal

por M.J., em 07.11.18

uma vez doei um cão. 

venham daí essas pedras.

achava que queria muito um animal, depois de ter sido criada no meio deles, na serra, e quando meti um peludo num apartamento percebi, irremediavelmente, ao fim de uns quantos dias, que a nossa convivência estava comprometida:

eu não tinha capacidade de limpar tudo o que ele sujava (desde pelos, cocós, xixis e afins), ele não gostava de estar fechado (apesar de ter passado toda a sua vida dentro de uma jaula, num quintal isolado de onde o resgatei) e tinha uns dentes novinhos, que roíam tudo o que apanhavam, desde almofadas, móveis, tapetes e sapatos.

sim, devia ter ponderado bem nisso antes de o tirar do sítio onde estava, o levar ao veterinário, tirar-lhe as pulgas e desembaraçar o pelo cheio de cocó. devia ter pensado que se calhar era melhor deixar o bicho lá, porque eu não conseguiria lidar com ele. mas não pensei. e quando dei conta a nossa vida - minha e dele - era um caos.

nunca tive apetência para ser mártir. é verdade que tenho dificuldade em resolução de certos problemas, custa-me enfrentar certos detalhes, tenho tendência a dramatizar o razoável mas, em certos casos, quando a solução está à frente do nariz, há que ser pragmático e resolver: eu pagava a renda, alimentava o bicho, trabalhava das oito às oito, mal tinha tempo para fazer fosse o que fosse e a ideia de uma decisão errada atormentar-me o resto da vida do animal - que se queria longa - não me entrava na mona: coloquei um anúncio no olx e dois dias depois arranjei-lhe uma família, a cem quilómetros de distância, onde o levei num sábado solarengo.

não me arrependo minimamente.

de certeza que ficamos ambos mais felizes.

 

anos mais tarde alguém me disse que tinha sido uma sacanice e cobardia da minha parte.

era suposto ter aguentado, ou ia fazer o mesmo a um filho?

deu-me uma louca vontade de praguejar e depois rir. comparar animais a pessoas é só absurdo. e obtuso.

os animais merecem, evidentemente, respeito e consideração. ao contrário do que me ensinaram na faculdade não são coisas. são seres que sentem e nada justifica maus tratos. mas, acreditem, não são meus filhos, não são pessoas e não estão no mesmo patamar. e pasmem-se, é direito do ser humano arranjar alternativas quando as coisas não lhes agradam, desde que evidentemente, se respeitem os aspetos vitais atrás mencionados: não abandono ao deus dará, não provocar dores físicas, não sujeitar a fome ou sede ou fingir que não existem veterinários quando ficam doentes.

 

  • fico muito contente quando vejo sentenças que dão a devida pena a gente que mata, espanca ou maltrata animais;
  • dá-me um quentinho no peito quando percebo que a tourada tem cada vez menos apoio público; e,
  • acredito mesmo que, num futuro não muito distante, toda a carne vai ser produzida em laboratório acabando-se de uma vez por todas com a morte de animais para alimentação.

acreditem se quiserem, é verdade.

mas não me digam que o cão que eu tinha lá em casa era detentor dos mesmos direitos do que eu ou do que o meu filho que vai nascer.

não tinha. nem metade. nem um terço. 

 

às vezes vejo gente muito chateada porque outras pessoas decidem procurar famílias para animais quando se apercebem que é impossível continuarem com eles.

são as mesmas pessoas que se revoltam com o abandono e, ao mesmo tempo, enchem a caixa de e-mails de quem põe um anúncio à procura de alguém que adote o seu animal de estimação: é aquela coisa muito adequada do preso por ter cão e preso por não ter.

o que mais me impressiona é quando em causa estão motivos de ordem pessoal fortes: crianças alérgicas aos pelos, com asma ou outro motivo que impossibilita a convivência. os pais querem resolver o assunto, ponderam e optam pela solução mais pragmática que é doar o animal porque, muito sinceramente, na balança dos afetos vêm os filhos. pois meus senhores, os mesmos fundamentalistas que dizem que a mamã deve pedir ao recém nascido para lhe mudar a fralda, também defendem que a mesma mãe deve arranjar uma alternativa que lhe permita ficar com o cão:

  • seja colocar criança e bicho em sítios separados - o quê? o cão no berço e o puto na varanda? é que cães na varanda não é lá muito católico;
  • seja mudar de casa - toda a gente sabe que as rendas andam baixíssimas e que é facílimo arranjar nova residência, com um grande jardim e espaço;
  • seja que o puto aguente as maleitas que só lhe faz bem para ganhar carácter - mas dar-lhe uma palmada quando está a fazer uma birra não, que isso já é maltratar. 

tenham dó.

 

vejo disso às dezenas no facebook.

gente que faz questão de partilhar anúncios de famílias à procura de alguém que queira ficar com os seus animais, não com o objetivo de ajudar o animal em questão, mas para crucificar a família.

gente que aponta o dedo, abre muito a boca para falar em empatia e demonstra mais empatia por uma pulga do que por uma criança e um pai que quer o melhor para ela.

 

não tenho cão.

estamos seriamente a pensar arranjar um (provavelmente até comprar, vejam lá o desplante, uma certa raça específica) visto que agora há espaço que não termina para o bicho, seja de raça rato, seja raça elefante. fiz até uma tabela de custos do que abarca ter um cão, desde veterinários, vacinas e rações. mas se depois dele estar cá em casa, um médico me disser que o meu filho - que também ainda não nasceu, vejam bem - não pode conviver com o bicho, seja por asma, alergia ou outra treta qualquer, não haverá dúvida alguma de quem terá de mudar de residência. e não é o puto, por mais cocós que venha a fazer e mais noites que me impeça de dormir. 

 

é isto:

sou uma retrógrada insensível que come carne, pega nos gatos da mamã ao colo, se atormenta com animais acorrentados em circos ou golfinhos em espetáculos degradantes. sou uma retrógrada insensível que aprecia o trabalho do PAN (pronto, aquela coisa da ritalina e de certas opiniões sem fundamento cientifico algum fazem-me crescer as unhas dos pés para dentro, mas enfim), que dá o devido valor às instituições de animais que dão a camisola pelo bem estar deles e que, é sério, não tem dúvidas nenhumas na comparação animal - pessoa: esta última vence sempre.

sobretudo se forem as minhas. 

Autoria e outros dados (tags, etc)

banalidades

por M.J., em 05.11.18

tenho estado muito ausente, eu sei. mas há meses que parecem anos. e quando se está com oito meses de gravidez o tempo começa a ganhar uma dimensão dominada por certas coisas que antes não importavam.

estou mais lenta. demoro mais tempo a subir os degraus desta casa. uma casa tão maior do que a última onde vivi três anos. caminho mais mas desloco-me mais lentamente. não tenho noção do espaço que ocupo e, às vezes, esbarro nas coisas, como gatos a quem cortaram os bigodes. sinto apertos na barriga, numa espécie de contração sem dor. também me dói o peito, às vezes, numa ânsia sem fim. e a alma, num medo estranho. estou repleta de medo. de tudo. olho para o mês que passou e pergunto-me como sobrevivi sem desmaiar ou fugir, algo que teria feito há 3 anos atrás. mas como fugir com uma barriga deste tamanho?

tenho estado ausente. mudamos às três pancadas, em dias que não terminavam. enchemos a casa com todas as tralhas que são nossas e as quais fomos comprando aos poucos, numa vida juntos, que se acumulavam em demasia no antigo apartamento e que aqui quase nem parecem existir, no enorme espaço que sobra, como se fosse possível encaixar cá o mundo inteiro. colocamos objetos, caixas e sacos em carrinhas de mudança e passamos dias a arrumar. baixei-me e levantei-me tantas vezes que, pensei, talvez o puto se fartasse do carrossel e decidisse sair mais cedo. às vezes sentia tanto cansaço que me apetecia só chorar, enrolada numa bola de auto comiseração sem sentido. é incrível como me deixo dominar por coisitas sem significado algum. depois olho para ele, sem nunca se queixar, disposto a aguentar o forte, seguro e escondendo o cansaço e tenho uma enorme vontade de me lançar em prantos, sentindo-me culpada por tudo, mesmo que enfim, não haja motivo. o peso da culpa é tão absorvente que me transformo coisas boas em más e fica tudo confuso. pergunto-me: fui eu a culpada de engravidar e obrigar-nos a passar por isto? sou eu a culpada de não conseguir fazer o que fazia, meia bola, muito lenta, incapaz de não me cansar com facilidade? sou eu a culpada de ele se sentir cansado e fingir que não, para não me incomodar? sou eu a culpada do puto ter já dois quilos e provavelmente nascer enorme, de maneiras que não vai caber na roupa que comprei? sou eu a culpada de não andarmos a alimentar-nos saudavelmente porque quando chega à hora das refeições não tenho ânimo nem força para pensar em legumes, porções e nutrientes? sou eu a culpada daquela dor de cabeça que o atormentou ontem, por não conseguir ser mais forte e mostrar-lhe que estou exatamente igual a antes, pronta a ferro e fogo? sou. sei que sou. e por isso faço mil planos na mente. não me queixarei de nada, digo. aguentarei estoicamente sem um lamento ou um ai, mesmo que esteja aterrorizada com tudo o que aí vem e a minha mente me dê garantias que vou afundar.

deus, como estou cansada.

há uma linha de comboios perto da casa nova. de vez em quando ouço-os passar, em ritmo constante e penso como seria tudo diferente se me sentasse num, sem destino, fugindo de tudo o que sou e me atormenta. depois sinto pontapés no estômago, nas costelas, custa-me a respirar, doem-me as costas e a roupa deixa de me servir e logo percebo que não há comboio algum que possa apanhar agora. mesmo que não esteja preparada. mesmo que seja minha responsabilidade e obrigação preparar-me. nem que seja à força, nem que seja à custa de máscaras, nem que que seja à lei do engano mental. não tenho tempo para mariquices. não tenho tempo para melancolias, tristezas ou deambulações pelo que não é e poderia ter sido. não tenho tempo porque só ele me interessa. porque só as linhas da cara dele a entrar em rugas, o ar cansado, o cumprimento integral de cada obrigação, o manter-se pé ao leme do barco sem um queixume me importam. ponho nele todas as forças. não posso sobrecarregá-lo. não posso.e por isso continuo.

finjo que não estou cansada, que não tenho medo, que estou confiante, que a vida é um arco-íris e tudo vai correr.  

não sou poeta. mas sou perita a fingir que não é dor a dor que deveras sinto. 

Autoria e outros dados (tags, etc)

banalidades

por M.J., em 19.10.18

acordo muitas vezes zangada.

não sei explicar os motivos. gostava de acordar contente, sorridente e saltitante, tomar café com ar de bem com a vida e ver com olhos benevolentes as árvores a dançar na rua; ou ouvir com sorriso simpático os latidos do rato que o vizinho insiste em dizer que é cão.

não tem acontecido ultimamente.

perco a paciência com muita facilidade e dou graças por, felizmente, o meu trabalho não me exigir um contacto físico permanente com pessoas.

nesta fase, tenho a certeza, não haveria uma única alminha que me aturasse.

e com razão.

 

coimbra não está a ser simpática para mim na despedida.

não foi da última vez e desta também não.

mesmo estando em opostos de vida, quer-me parecer que esta cidade está sempre desejosa de se livrar de mim, misturando karma, natureza, situações e afins para me dizer, mais uma vez "isto não é para ti".

não é que esta estadia de 3 anos tenha sido má. pelo contrário. em termos de conquistas pessoais foi a maior. e não falo da gravidez.

cresci de uma forma inacreditável no decorrer destes últimos anos e, creio, as circunstâncias de estar e viver nesta cidade foram fulcrais para isso. sobretudo a nível profissional. não me imagino já a sobreviver numa vida de constante espera pelo fim de semana e total perda das horas, pensando que o trabalho é mau ou horrível. entendo que muita gente precise - e quem sabe se não precisarei outra vez - de se sujeitar a uma vida onde o trabalho é só trabalho e as oito horas distribuas de volta dele sejam feitas somente em função do pagamento no final do mês. 

mas é triste.

não que dê grande valor à dimensão do tempo, como um todo.

mas custa-me vivenciar o presente como pedaços de agulhas espetadas na pele e, viver um trabalho dessa forma, é uma dimensão tortuosa de dores. 

 

coimbra ajudou-me no virar dessa página.

foi fulcral, diria mesmo, e por isso não devia estar tão mal agradecida.

mas, ainda assim, o último mês tem sido profícuo em situações stressantes e chatas que me impelem para lá daqui, dizendo "sim, sim, parola, vai-te lá embora, que isto nunca foi teu".

 

primeiro foi o vizinho.

já estava habituada às suas infidelidades conjugais, às putas a subir as escadas de madrugada e aos gemidos ao estilo pornográfico. fui aguentando sem lhe dizer nada porque a mudança estava próxima e porque o nosso quarto fica do lado oposto do apartamento dele e, por isso, não se ouve.

no entanto, a coisa tornou-se constrangedora quando a mamã nos visitou para ajudar a embalar coisas, dormiu no sofá da sala e passou metade da noite a ouvir um filme porno, sem querer incomodar-nos, mas também se poder fazer mais nada. incluindo dormir.

quando me contou, no dia a seguir, entre bocejos e até um pouco envergonhada, precisei de me conter para não bater à porta do animal e dizer-lhe umas quantas verdades.

em contrapartida, nesse dia, quando saí de casa a partir das dez da manhã, deixei maria callas em altos berros, o mais alto que o sistema de som dava, durante todas as horas que passei fora.

a mamã não dormiu de noite. ele não dormiu de dia. 

acho que o fulano não gostou e pareceu querer bater-me quando subi as escadas à noite.

já eu achei uma vingança muito leve, em boa verdade: teve o privilégio de ouvir arte, a mamã foi obrigada a ouvir uma puta. 

 

depois foi a tempestade com nome de gato que passou no fim de semana: deixou-nos sem água e às escuras praticamente 3 dias.

meu deus, e a falta que a eletricidade faz.

sem luz não há iluminação, televisão ou, pior do que tudo, internet. sem internet não se trabalha. e sem trabalhar não se cumprem prazos.

foram 3 dias a correr daqui para a casa nova, noutra cidade, sem fazer nada num lado nem noutro, sentindo o trabalho a acumular, respondendo a e-mails pelo telemóvel, gastando o pacote de dados e sentindo-me incompleta.

creio que precisava de uma intervenção para desintoxicar da internet.

e a falta de água? quão magnifico é não saber como lidar com o xixi acumulado na sanita, gastando litros de lixívia como se fosse o descarregar do autoclismo e comprar garrafões de água para desperdiçar na sanita?

 

por fim, os cedros que me fizeram companhia nestes três anos, caíram na estrada em frente.

as telhas do prédio voaram e caíram em cima do carro do rapaz causando prejuízos magníficos na chaparia.

é claro que a minha lata velha, estacionada mesmo ao lado, não apanhou um arranhãozinho que fosse. nem um esmurranço. ficou ali, incólume, sorrindo da desgraça alheia enquanto o outro, triste, novo, brilhante, comeu com as telhas no lombo e diz ser preciso quase uma milena para voltar ao sítio.

não é bem?

 

coimbra está a despachar-me e eu entendo. 

estou a trocá-la novamente, por uma cidade mais ventosa, arejada, sem manias de não me toques, golas de renda nos pescoços dos putos, veludos ou cervejas e mijos espalhados pelas ruelas. 

podia era ter sido mais meiga, agora no final, quando eu já dizia bem dela. 

não foi.

uma consumição. 

Autoria e outros dados (tags, etc)

desta coisa a violência beijoqueira

por M.J., em 18.10.18

circula um vídeo de um senhor dizendo que os netos serem forçados a beijar avós é uma violência.

não me pronunciando sobre a maneira como a coisa foi dita ou, ainda, sobre o significado da palavra "violência" neste contexto (pode ser anedótico tendo em conta casos de crianças realmente violentadas, a sério, de maneiras que este senhor nem imagina) apraz-me dizer que desde que me lembro por pessoa que sempre odiei dar beijos, fosse a quem fosse, por obrigação.

a coisa era tão séria que, sempre que me obrigavam, limpava a cara à frente do beijoqueiro, com a palma da mão, mesmo que a mamã estivesse pronta, ao lado, a dar-me uma galheta por tamanha falta de educação.

 

dizer que é uma violência é uma estupidez.

mas forçar certas coisas apenas por determinadas convenções sociais também.

 

(agora, por favor, depois desta minha opinião não venham à procura do meu portfólio de fotografias sadomasoquistas que podem assustar-se).

Autoria e outros dados (tags, etc)

para quem não viu o último drama

por M.J., em 18.10.18

que escarrapachei no instagram:

 

 
 
 
Visualizar esta foto no Instagram.

A casa nunca foi habitada. Construída há alguns anos assim ficou à espera de habitantes. A vizinha do lado, com pena deste gato, instalou-lhe uma cama e comida na porta de entrada, abrigada da chuva e do vento. Quando comprámos a casa ela já tinha - por isso - este habitante. Procuramos o dono. A vizinha contou-nos a situação, disse que os cães dela eram um tanto chatos com o animal e perguntou se queríamos ficar com ele. As minhas hormonas começaram a saltar. Quis ficar com o bicho, afinal esta era a casa dele. Depois lembrei-me da não imunidade à toxoplasmose e da responsabilidade de ter um animal aliado ao facto de irmos ter um cão no jardim e o rapaz não querer gatos. Falamos com a vizinha que o acolheu no quintal dela. Chorei duas horas com pena do gato que ficou sem a sua casa e que era a nossa porta de entrada. Duas horas de soluços e ranho, num sofrimento sério, como se o gato tivesse morrido ou fosse meu há cinco anos. Como se o animal fosse desalojado e não reinstalado na casa do lado. . A verdade é que hormonas deixam-me maluca. A mudança e os mil stresses aliados também. O vendaval que nos atirou telhas para o carro não ajudou. E agora, enquanto espero a instalação de mais um contrato, vi o gato a olhar para o que era a sua casa - e já não é - e desatei novamente a chorar. . Puto... sai daí de dentro que, a continuar assim, a tua mãe ainda desidrata.

Uma publicação compartilhada por Maria João (@emedjay) em

 

Autoria e outros dados (tags, etc)


foto do autor