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Ei-lo chegado

por M.J., em 13.12.18

para me provar por a+b que eu estava errada em tantas coisas e que, se mordesse a língua por todas elas, não havia mais palavras que pudesse dizer.

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publicado às 20:03

chegamos a um ponto ridículo de politicamente correto.

não é de espantar e, se estiverem atentos aos sinais, percebem que faz parte do avançar dos tempos, que provavelmente vai aumentar ainda mais, numa espécie de onda tsunami, até voltar ao equilíbrio normal do "ide mas é dar banho ao cão (ou à cadela. ou ao gato. ao à gata. ou a qualquer animal. desde que a água não seja muito quente. nem fria. na verdade, de preferência sem água para não desperdiçar. mas também sem toalhitas) que já não há pachorra".

a PETA apresentou uma nova maneira de ver as coisas no que diz respeito à linguagem animal. segundo os senhores dizer "matar dois coelhos de uma cajadada só" incentiva a violência animal e deve ser substituído por outra expressão.

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o debate acirra-se. há quem diga que faz sentido, na evolução dos tempos. li até alguém, pasmem-se, a defender que se as touradas não são admissíveis, na evolução da humanidade, o mesmo se aplica a tais frases. como aquela coisa de a dona chica bateu no gato. e é evidente que faz todo o sentido. nós somos o que ouvimos e é por isso que, tendo em conta as audiências do correio da manhã, andamos todos a mandar tiros aos nossos maridos e a bater em jogadores de futebol. 

assim, porque não quero, de todo, estar desfasada destes tempos, fui à procura dos melhores provérbios, machistas, chauvinistas, inimigos dos animais, da alimentação saudável é do que é bom, correto e bonito, e decidi substituí-los pelo que deve ser.

escolhi só 3 (podiam ser 50) e espero que concordem comigo.

também aviso já: se não concordarem comigo tenho a apresentar-vos o argumento que é válido, justo e certo em tudo o que é redes sociais: é a minha opinião. chega por si só, basta e nada mais precisa. isso e claro, dar-vos uma carga de porrada porque, pelos vistos, defendermos os nossos ideais e convicções com violência também é bem.

vamos lá:

 

1. em terra de cego quem tem olho é rei

 

meus senhores: tudo mal aqui.

  • primeiro não se deve dizer cego. toda a gente sabe que "cego" não é bonito. tal como surdo. coxo. maneta. perneta. gordo. paralítico. há nomes mais adequados que se devem usar. além disso, porquê cego, no masculino? porque não cega?
  • depois... quem tem olho. qual olho? o da direita? o da esquerda? há claramente uma falta de rigor que pode levar à confusão e atuar em discriminações. 
  • e por fim... é rei. rei???????? como rei? para além de outra discriminação de género, num mundo civilizado, democrático e afins, onde já se viu usar a palavra rei? não senhores, há que mudar isto.

portanto, a minha proposta de substituição é: "em terra de invisuais, quem tem qualquer olho, seja de direita ou esquerda - e sem conotação com política - é rei, rainha, principe, princesa, duque, duquesa, presidente da república, primeiro ou primeira ministra, ditador, ditadora e/ou outro cargo ocupado politicamente". com o devido disclaimer, pois então, para que não haja mal-entendidos: "esta informação carece de fundamentação legal".

 

2. não adianta chorar sobre leite derramado.

aqui é que a porca torce o rabo. ou o porco. ou nenhum. e um, outro, ou ambos, ou nenhum só torcem o rabo se quiserem. e se se sentirem com disposição para o torcer. pronto.

e por que é que a porca ou o porco torcem, ou não, o rabo, se quiserem e se sentirem disposição para o torcer? porque este provérbio, que parece tão inocente e sem qualquer problema, é, no fundo, um incentivo a imensas coisas erradas nos dias de hoje:

  • não. como não? nunca se diz não. usar o não é educar de forma errada um ser humano. é meio caminho andado para levar ao trauma. não se contraria. não se nega. explica-se, sem usar a palavra não, com consideração, amor e paciência que algo é oposto ao sim. 
  • adianta. o "não adianta" vai contra as indicações das melhores mães (e pais, não discriminar. e avós, tios, primos, educadores e toda a aldeia que é preciso para educar. e quem diz aldeia, diz vila, cidade, país, lugarejo, localidade e/ou outro). vai no sentido contrário à filosofia de que temos que incentivar, mostrar que para a frente é que é o caminho (ou para trás, se ela quiser ir, nada de contrariar). 
  • chorar: toda a gente sabe que chorar é mau. devemos viver num constante mundo de felicidade. usar frases de motivação, aceitar, sorrir e saber que vivemos para ser felizes. não é suposto usar palavras negativas que nos traumatizem ou incentivem à dor. esqueçam a palavra chorar. 
  • sobre o leite. pronto. este é o pior. é totalmente absurdo o incentivo ao consumo de leite. nunca. jamais. completamente fora de questão. leite é o demo. a lactose faz mal. há vacas obrigadas a viver nos açores, imensos anos, com a única função de lhe espremerem as mamas. era só o que faltava. jamais. não é suposto que se use a palavra leite. a criança (ou adolescente. ou jovem. ou adulto. ou idoso. no feminino, masculino ou outro - seja lá qual for o outro) deve apenas beber leite materno enquanto quiser e, depois disso, esquecer tal alimento. incluindo o vegetal que pode não ser biológico. 
  • derramado:  derramado como? por quem? de propósito? alguém se atreveu a fomentar o desperdício num tempo de tão escassos recursos?

portanto, meus senhores, não há outra alternativa, este provérbio tem de ser substituído por "se quiser, lhe apetecer, tiver vontade e/ou outro, pode - ainda que não tenha o efeito desejado - manifestar alguma emoção menos feliz quando, por uma ação de que não é responsável, alguma bebida for desperdiçada (o que não é de todo aconselhado)".

 

3. filho és pai serás, como fizeres assim acharás.

mais um atentado a tudo o que é bom.

e explica-se de uma penada (não confundir com pernada, que incentivará, potencialmente, à violência) só:

  • primeiro deve dizer-se filho ou filha ou outro. vá. esta coisa do masculino é machista e traz o mundo aos tempos hediondos de hoje onde as mulheres vivem fechadas dentro de casa a fazer refeições e lavar cuecas.
  • depois é errada a admissão de que serás pai. ou mãe. ou outro. podes não ser. é uma opção tua. assumir, desde logo, que o vais ser é condiconar a tua vida. cortar-te as asas para voos mais altos. podias ser engenheiro, astronauta, futebolista ou concorrente do secret story e, afinal, não vais ser nada disso porque pai serás. ou mãe. ou outro. está mal.
  • e por fim a condicionante de "como fizeres assim acharás". é que podes não fazer. nem todas as ações têm consequências. se forem ações em que lutas pelos teus ideais não haverá qualquer consequência. mesmo que andes a descarregar porradinha de cara tapada.

assim, vamos lá chamar os bois pelos nomes (ou as vacas. ou qualquer outro animal. ou, se calhar mesmo, não usemos animais nisto. substituamos pelas "coisas"). assim, vamos lá chamar as coisas pelos nomes de coisas:

filho, filha ou outro és (ou podes não ser. se não fores não há mal), pai, mãe ou outro poderás vir a ser. (se assim quiseres. também podes ser engenheiro, astronauta, futebolista ou concorrente do secret story. ou outro. ou nada). o que fizeres ao teu pai, mãe ou outro (ou não fizeres, não és obrigado/a a nada) poderás vir (ou não, quem sabe?) a receber em troca. aliás, se for mau, mas praticado em defesa dos teus ideais está bem e não terá consequências menos boas".

 

pronto, é isto.

lembro-me do "cão que ladra não morde" e a discriminação que representa para todas as cadelas e todos os cães mudos.

ou do "patrão fora, dia santo na loja" e como incentiva à exploração do proletariado e põe em causa a igualdade de oportunidades.

ou ainda, "de pequenino se torce o pepino" e como poderá levar a uma má educação das crianças, torcidas sem dó nem piedade e, sobretudo, ao sofrimento dos pepinos. 

 

não tenho é tempo. 

preciso de ir ali fazer o frango - perdão, o arroz, perdão, qualquer coisa que toda a gente concorde - do almoço.

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mas ele não quer crer...

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(oh senhores!)

 

  • que existe à venda uma coisa chamada "cuecas descartáveis" e que temos de lavar para a maternidade.
  • que o nosso diafragma consegue esticar-se a dimensões inimagináveis quando o ser que lá anda por dentro decide apostar numa carreira olímpica de salto em comprimento.
  • que a azia não é nossa amiga mas, consta-se, é sinal de cabelo da criança (ahahaha)
  • que o nosso marido não confia na nossa sensibilidade térmica e compra um termómetro, nas nossas costas, para ver da água do banho do puto que aí vem.
  • que o corredor das fraldas, no supermercado, tem mais opções que o corredor das frutas.
  • que as toalhitas são o novo demo do mundo das mães e que não é suposto limparmos o rabo da criança com elas.
  • que isto de ter dores de costas não interessa nada desde que a criança seja saudável.
  • que isto de ter dor de corpo não interessa nada desde que a criança seja saudável.
  • que isto de ter insónias não interessa nada desde que a criança seja saudável.
  • que existem pessoas a queixar-se do "ponto do marido" e que uma pessoa é obrigada a ir pesquisar e a sentir que algo tão terceiro mundista não pode ocorrer nestes tempos.
  • que pode-se querer muito que a criança saia de onde está de uma vez por todas, querendo, ao mesmo tempo que não o faça, com a mesma convicção e vontade.

ai senhores,que nunca mais é dois mil e trinta e seis!

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pergunta para milhão

por M.J., em 30.11.18

não tenho muitos amigos ou conhecidos com quem prive ou familiares que tenham sido pais recentemente.

nunca convivi, portanto, com bebés.

sou filha única. os primos, amigos de infância, que me lembro, eram todos já grandinhos. nunca mudei fraldas. nunca dei leite ou adormeci um bebé. também nunca tive paciência. nunca senti o "olha que fofo" ao ver uma criatura careca e gorducha. sempre me afastei do choro a sete pés. e confesso, estou agora a entrar naquela fase muito pessimista de que a a minha vida vai afundar, vou perder totalmente o controlo e preciso de me organizar de maneira a manter um pouco do que ela é. preciso de saber que vou continuar poder a trabalhar (aqui não há licenças: não trabalhas, não ganhas), dormir o mínimo para não me atirar da varanda e, de vez em quando, comer umas pecinhas de sushi sem ser interrompida pelas minhas próprias mamas a dar leite (e não do de soja).

posto isto - e porque de histórias tristes já estou farta - alguma mãe que por aí ande conseguiu, nos meses seguintes ao nascimento, manter uma vida minimamente normal? regressar relativamente rápido ao trabalho? sentir que não vivia (como já li) única e exclusivamente para nutrir a cria?

é mesmo preciso - durante meses (ou anos) - deixar em completo de sermos nós?

não me compreendam mal: eu sei que as mudanças são inevitáveis. estou preparada para elas.

a questão é: é possível existir, pelo menos, uns laivos de normalidade nisto tudo? controlar, um pouco que seja, a situação?

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banalidades com cães à mistura

por M.J., em 28.11.18

aos poucos começo a adquirir as rotinas de viver, novamente, num sítio novo. 

descubro qual o restaurante que podemos ir, naquela do "comer qualquer coisa aqui perto porque não apetece cozinhar", o centro comercial para as compras, a farmácia, a lavandaria e a costureira. também consegui encontrar uma senhora para dar uma limpeza a isto que, sinceramente, mal aguento as costas sentada, quanto mais para aspirar.

são coisas corriqueiras mas que fazem sentido às rotinas dos dias e nos dão uma certa sensação de pertença.

 

a vizinhança apresentou-se.

na verdade, creio que devíamos ter sido nós a fazê-lo. imaginava-me já, de bolo caseiro na mão, um vestido muito vaporoso, ao género de filme dos anos noventa, a tocar às campainhas fazendo a devida apresentação.

não foi preciso.

uma das vizinhas já se tinha dado a conhecer por causa do último (e primeiro) habitante desta casa (o gato amarelo que ainda salta o muro para usar o terreno como wc) e outra das vizinhas do lado apanhou-me, num dia em que estendia roupa no terraço, para se apresentar e se colocar à disposição para qualquer coisa. 

foi querido e assegurei reciprocidade. e fiz ainda, pasmem, uma festinha ao cão que ela trazia ao colo, vestido, minúsculo e igual ao do vizinho do lado de quando vivíamos no apartamento.

não nos livramos de cães que parecem gatos.

 

a rua (ou bairro, ainda não sei bem) é essencialmente (ou melhor, totalmente) residencial. e vivenda sim, vivenda sim há um ou dois cães que se aproximam dos portões, quando vou caminhar, pondo os narizes húmidos pelas grades e abanando os rabos ou ameaçando dar umas trincas, se possível.

um dia destes, depois de almoço, quando olhava para as ervas daninhas que constituem o jardim (projeto da primavera do próximo ano) ouvi um burburinho de latidos, uivos e grande agitação por parte da animalada da rua.

por momentos pensei em assaltos, gente a acirrar cães ou alguma pessoa idiota que não tivesse mais do que fazer. pelo que, no meu andar à pinguim, esticando a barriga que me pesa como um garrafão de lixívia, me aproximei do portão, na procura de saber o que se passava. 

pois meus senhores, a coisa é digna de filme: um grande cão amarelo, com uma cauda farfalhuda, passava de casa em casa, com uma grande lata, ladrando a todos os outros por detrás dos portões. numa espécie de "olha eu aqui soltinho, a farejar folhas, a urinar onde bem me apetece, e vocês aí encerrados, numa pena de prisão eterna". claro que as respostas eram raivosos ladrares, saltos e uivos sem fim, por parte dos outros, ofendidos por tal desplante. 

"pronto, pensei, aquele ou é vadio ou fugiu de casa. mas pelo aspeto não precisa que chame já o IRA". 

no entanto, foi quando virava costas, e o burburinho de latidos acalmava, que percebi uma coisa extraordinária: o cão não estava perdido ou, sequer, havia fugido. não meus senhores. o animal é daqui da rua, de uma das casas da frente. e tanto é que, com a devida lata, depois de soltar mais umas pingas numa das árvores e de provocar um outro atrás do portão, saltou o muro de uma das vivendas, saltou o outro muro do lado (uns bons dois metros) e muito airosamente aterrou no seu jardim, recolhendo à habitação onde pertence.

e o mais bonito?

todos os dias, por volta do meio dia e meio, uma da tarde (ou pelo menos sempre que estou em casa) faz o mesmo:

arranja maneira de saltar dois muros, provocar a vizinhança canina, mijar tudo o que pode e depois voltar para casa, com - depreendo eu - a sensação de dever cumprido.

não é fantástico?

 

em todos os sítios onde moro há-de haver um cão artista:

fabuloso. 

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e que, tendo em conta o que assisto, faz todo o sentido:

"no início vem a poesia. no fim a matemática". 

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se recebo mais algum e-mail ou sms

por M.J., em 22.11.18

a falar de black friday começo a responder em termos menos próprios.

senhores das lojas: lá porque uma multidão de malucos vai para uma fila à meia noite, num dia de chuva; para comprar tralhas mais caras do que habitualmente graças às vossas manobras de aumentos dos preços; e que põe meia loja abaixo na procura de um aspirador mais barato dois euros e trinta cêntimos, não significa que estejamos todos nessa onda.

eu por exemplo, a única onda que tenho é a de azia (literal) que me anda a consumir há duas semanas, que me faz deitar fogo pela boca de dois em dois minutos e que, vá-se lá entender, aumenta sempre que me incomodam com isto. 

mais uma mensagem vossa e queimo o telemóvel com o meu hálito. 

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banalidades

por M.J., em 20.11.18

há uns anos atrás, quando o mundo se desmoronou e me transformei numa caixa vazia, consegui - em grande parte - ultrapassar a coisa porque não tinha problema, pudor ou outro em falar/escrever sobre o que sentia. era tanto assim que ainda há pessoas que me acompanham pela escrita hoje vindas dessa altura. 

falar era uma espécie de água fresca no deserto de dor que foram aqueles meses (podemos arredondar a anos) e, por isso, foi fácil deixar a ajuda entrar e encaminhar-me na direção certa (isso e o facto de que quando chegamos ao fundo e não há mais capacidade de escavar, a única solução é começar a subir).

 

a gravidez trouxe-me uma enxurrada de hormonas e, consequentemente, emoções que eu já não lidava há muito tempo.

a insegurança constante do que faço, o que sou, o que se espera de mim, o que eu espero de mim, o que consigo fazer, sentir e a inevitabilidade do "eu não tenho essa capacidade" foram uma constante nos primeiros 3 meses de gravidez e voltaram agora, no último trimestre. 

na maioria dos dias tento simplesmente não pensar muito nisso. mesmo que as minhas costas se ressintam, não tenha posição para estar, pareça ter um pipo na barriga e haja uma constante movimentação de pontapés, tremeliques e espargatas junto aos meus intestinos, pulmões, estômagos e outros órgãos que, bem vistas as coisas não parecem ser muito relevantes nesta altura do campeonato.

tento não pensar no que aí vem porque me assusta tanto que só me apetece fugir.

se alguém traçasse um perfil da minha pessoa diria que eu era uma fugitiva, incapaz de enfrentar à primeira os problemas.

sou sim. nunca o neguei. ainda que, na sua maioria, os acabe por enfrentar, na ausência de outras soluções. a batalha que travo é fundamentalmente comigo, as fugas são sobretudo na minha mente e a cobardia é normalmente antecipada e sofrida até à exaustão ainda antes de acontecer. são personalidades. feitios. ou outra coisa qualquer.

enfim, no meio deste turbilhão há dias que são, simplesmente, demasiado sobrecarregados.

o peso enorme do que está para chegar (e não necessariamente os 4 quilos de pessoa - subi a aposta) começa aos saltos na minha mente.

é incrível o tamanho do que me espera. e não falo do trabalho em si, das mamas que podem ou não dar leite ou das noites mal dormidas. falo na responsabilidade que é educar, moldar, fazer crescer de forma saudável um outro ser. sem o contaminar com quem sou. sem o encher de mágoas, traumas ou dores. sem o moldar à semelhança dos meus defeitos. levando-o a trilhar o mundo com a coragem que às vezes me falta. esse peso, o tamanho dessa responsabilidade - para a qual não sei se estou à altura - consome-me de tal forma, tem dias, que a pressão se incendeia e de repente fico parada, à espera que tudo seja uma espécie de sonho e tarda nada volte à simplicidade do que era.

 

além disso, a minha capacidade de falar ou escrever, preto no branco, as incertezas, inseguranças, medos e dores que me constroem nestes dias é uma novidade.

há algo em mim que grita "não digas, não contes, não fales. aguenta, sobrevive, descobre, ultrapassa". numa espécie de "fizeste a tua cama, deita-te nela. sozinha". numa espécie de "é esperado mais de ti do que esses queixumes azedos de medo". numa espécie de "desta vez não. desta vez és tu e mais ninguém porque já bastam todos os teus dedos apontados ao que és".

e daí a incapacidade de marcar com a psicóloga. daí a incapacidade de falar com quem pede que eu fale. daí a incapacidade de pegar em cinco minutos e enche-los de todos os medos, verbalizá-los, dar-lhes forma e, depois, enterrá-los no sítio de todos os outros. 

 

desta vez é mais difícil.

falar do que sinto e não sinto é colocar em voz alta algo profundo e cinzento que pode, muito sinceramente, moldar o azul bebé que se transformou a minha vida.

pode contaminar-lhe os ouvidos, a alma e tornar logo à partida em sal dissolvido, a rocha de granito que espero ser. 

é irrazoável e não ajuda.

mas ainda não sou capaz. 

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que queira partilhar a experiência?

tendo em conta o meu historial emocional - que nunca escondi - e o quadro depressivo anterior, a médica insistiu - com bastante convicção - na necessidade de fazer já umas consultas com terapeuta, no objetivo de evitar possível quadro de depressão pós parto.

concordei.

tudo o que aí vem se mostra aterrador na minha cabeça e não quero ser um fardo em vez de um porto seguro para os dois.

além disso, as lembranças que tenho da vaga de nevoeiro que foi a minha vida nessas alturas, da angústia e do terror cinzento estão ainda demasiado tatuadas na alma, para querer passar por tudo, outra vez, sem fazer o que esteja ao meu alcance para o evitar.

 

e também por isso gostava de saber - caso alguém tenha passado por tal situação e queira compartilhar, evidentemente - quais os sinais a que devo estar atenta, o que fizeram, como ultrapassaram e tudo o mais.

alguém?

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