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o miúdo rebola

por M.J., em 19.07.19

gatinhar que é bom não é com ele, que ainda não percebeu como fazer força com os braços.

mas rebola. rebola profissionalmente, arrastando o rabo e a língua pelo chão. 

vai de uma ponta à outro do escritório em rebolanço enquanto o diabo esfrega um olho.

ou eu escrevo meia página.

não vale de nada dizer-lhe que a lingua não serve para lamber o chão:

não percebe o meu idioma. e eu não percebo o dele. 

 

posto isto, pondero aproiveitar essa capacidade, dispensar a empregada e colar-lhe uma esfregona à barriga.

entre pagar à senhora, pagar água, pagar produtos de limpeza ou ter o chão a brilhar de baba, gratuitamente...

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publicado às 11:08

nesta semana passaram cá por casa duas testemunhas de jeová.

tocaram à campainha e eu estava a meio de mudar a fralda ao miúdo, mas como pensava que podia ser a vizinha a pedir-me para trocar o carro mal-estacionado fui a correr. deixei o puto de pila à mostra e tudo.

enfim, quando vi quem era despachei-as rapidamente, mas sem me livrar de trazer um panfleto azul com os "segredos para manter uma família feliz".

pousei o papelucho na mesa da sala e fui à minha vida.

a empregada veio de tarde e nunca mais pensei no assunto

 

no dia a seguir, de manhã, deixei o miúdo com o rapaz e fui às compras.

quando voltei a criança estava sentada no tapete de atividades entretido e eu fui arrumar tudo. meia hora depois, como ele estava muito calado, estranhei e fui buscá-lo:

pois meus senhores, o meu filho, branco de pele, quase albino como a mãe tinha, naquele momento, a cara azul, as mãos azuis, os braços azuis enquanto mastigava qualquer coisa.

o quê? nada mais nada menos do que o filho da mãe do panfleto que a empregada tinha misturado no meio dos brinquedos sem se aperceber.

 

Oh-Meu-Deus-Jeová-Alá-Ou-Qualquer-Outro.

 

num segundo abri-lhe a boca à força, tirei o papel para fora que estava inteiro mas mastigado e comecei aos gritos muito histericamente pelo pai do miúdo que veio a correr. e eu:

isto é tóxico?

vaio matar o miúdo?

chama o 112.

como é que tu não viste isto?

o menino ainda vai ter um choque alérgico.

chama a ambulância.

já!!!!!!!!!!!!

 

pois muito bem, o rapaz vai ter com o puto, o puto começa a rir, todo bem-disposto, o rapaz vê que o papel estava mastigado, fala para a criança, lava a boca da criança, vira-se para mim e diz:

- bem, o pior que pode acontecer é a primeira palavra do miúdo não ser mamã mas jeová.

 

pronto.

é com isto que tenho de lidar.

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6 meses - o resumo

por M.J., em 12.06.19

fazes seis meses. e eu, que sempre me achei original, que sempre lutei por não cair na mesmisse do mesmo - acabando invariavelmente por o fazer constantemente - caio novamente nos clichés todos.

fazes 6 meses.

e faz 6 meses que eu já não sou quem era. 

 
 
 
 
 
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Senhoras e senhores sua excelência dorme e dorme dom rapazito. . #janasceu #newborn #newlife #janaoeprojetoaltino #bebe #babyboy💙

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há roupa tua espalhada pela casa. já não compro para mim, esquecida disso mesmo. perco-me em pequenas tshirts, pequenos calções, pequenas meias, pequenos macacões. lavo máquinas e máquinas de roupa e aproveito a brisa e o vento para arejar as ideias enquanto dobro babygrows e seco fraldas. 

 
 
 
 
 
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Podia ser barriga de cerveja mas o que se trata é de sopa. #babyboy💙 #bebemenino

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há bonecada toda espalhada pela sala. ou bonacos, como se enganou um dia o teu pai e a palavra ficou. apanho-os invariavelmente, todas as noites, para uma caixa que arrumo  um canto da sala. mas o espaço já não é meu. tropeço em peluches, escorrego em rocas, faço soar apitos e sons que saem de bonacos de plástico e tecido. 

 

há noites mal dormidas. não muitas, vamos ser sinceros. dormes por norma das nove da noite às seis da manhã. tem dias que acordas a meio da noite para o leite do conforto. mas dormes logo a seguir. mudamos-te, por isso, para o teu quarto. que eu decoro com o tema do principezinho. dormiste perfeitamente bem, nem notaste a diferença. mas notei eu a rumar ao quarto, de hora a hora, e o teu pai:

vais lá outra vez?

e eu:

é que ele pode estranhar.

e ele:

ele ou tu?

provavelmente eu. de certeza que fui eu. que só te mudamos agora - apesar de ter jurado, antes de nascer, que seria aos dois meses - porque eu não estava preparada para não ouvir a tua respiração quando acordo, os teus gestos, os teus movimentos.

 

há muita dor de cabeça. diária. quase constante. quero trabalhar, organizar prazos, pôr as coisas em dia e estás tu. a pedir atenção. a pôr tudo o que encontras na boca. a guinchar por um abraço. a dizer, sem palavras, que precisas que te dêm colo, que cantem para ti, que te dêem mimo. paro constantemente. pego em ti, abano-te no ar:

quem  é doce, doce, doce?

e tu, em gargalhadas a deixar escorrer a baba:

bhu.

a primeira vez que deste uma gargalhada tive uma vontade louca de chorar. se pudesse teria pegado nela e embalado num papel cheio de estrelas, com uma fita brilhante. para poder abrir como um presente sempre que quisesse. desde aí procuramos qualquer coisa que te faça rir com som. percebemos quais as palavras que te agradam:

bhu!

bonaco.

tolito.

tufo de cabelo. 

coisas aleatórias que ouves e que te fazem rir e a mim apertam a alma, numa espécie de euforia controlada

 
 
 
 
 
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Nos dias que correm o nosso melhor amigo é o babete. Ou OS babetes, no plural que um só não aguenta os quilos, paletes de baba produzida. #bebes #babyboy #babyboy💙 #baby #babete #baba

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a primeira noite que passei sem ti não foi o descanso que imaginei. aproveitamos que fazia 32 anos (32 vê lá, a tua mãe está uma senhora) e fomos passar o fim de semana num hotel na Covilhã. gosto da serra. vais perceber isso. ficaste com a avó. sonhei com aqueles dois dias. quando cheguei ao cima da rua naquela manhã solarenga, um aperto profundo entalou-me a garganta e quis chorar. ficavas para trás? não te levava? e a tua avó, eufórica, o fim de semana contigo ao colo, e eu com uma vontade louca de voltar para trás, agarrar-te com força e levar-te. 

acalmou depois. mas não creio que, tão cedo, o volte a fazer.

 
 
 
 
 
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Estão a ver a bóia ao fundo? Pois, foi porque sabiam que eu vinha ao primeiro banho a sério desde que o crianço nasceu. #relaxe #piscina #vamosaoqueinteressa

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já comes a sopa. toda. sem reclamar. também comes papa.

divertimo-nos sempre que te pomos comida na boca e cantamos.

tu ris e é vê-la escorrer entre os dentes que não tens. isso e mais roupa para lavar. mas o que é essa tarefa ao lado daquele sorriso de papa?

 

portas-te sempre muito bem em público. pudera. tens muito mais atenção que noutras alturas. ficas calado, às vezes no ovo, às vezes ao colo. e, inocentemente, ris para toda a gente que passa a falar achando que é para ti que se dirigem.

és mais simpático em 6 meses do que eu fui a vida toda. 

 

não gritas muito. não exiges muito. mas quando o fazes tem mesmo de ser ou a gritaria atinge auges estratosféricos. nessas alturas a minha paciência cede. penso: chora lá então, até te fartares. mas olho-te e a tua expressão parece de angústia e há algo que me consome a alma. corro para ti. canto qualquer coisa. ris. como se a minha voz tivesse o som de mil canções de embalar. 

 

fazes seis meses. não saímos tanto. mas saímos. não vivemos tão despreocupadamente. não fazemos coisas de impulso. mais do que nunca planeio coisinhas ao pormenor porque, de outra forma, é impossível. estás lá. és uma realidade e a tua presença precisa de ser incluída em coisas que não podem ser de impulso. vamos por isso muito mais praia, que é relativamente perto. convidamos muito mais pessoas para jantar cá em casa, porque às nove estás a dormir. e até já percebemos - coisa que não fazíamos antes - a dinâmica familiar dos amigos com filhos. 

 
 
 
 
 
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Aproveitar a tarde. #beach #praiadabarra

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fazes 6 meses. e a minha vida como era já não é. mas a tua presença, o teu sorriso, o teu respirar, os teus braços no meu pescoço, a tua cabeça encostada à minha, o balançar do teu corpo junto do meu fazem com a que minha vida, não sendo o que era, seja um pouco maior.

seja muito maior.

seja mais completa.

sim, meu filho, tal como no dia em que nasceste esparramo todos os clichés que achei nunca sentir.

e não tem mal. 

porque nunca, nem mãe, nem marido, nem amigos, nem eu própria me olharam algum dia da mesma forma como tu me olhas. 

 

 
 
 
 
 
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Quando queremos comer e rir ao mesmo tempo. #babyboy💙

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o drama

por M.J., em 07.05.19

cinco meses depois temos o grande problema.

não, não foram as cólicas; não foram as mamadas; não foi o acordar de hora a hora; não foi o não poder sair com ele.

não meus senhores, tudo isso correu bastante bem.

o grande problema tem 4 letras e revelou-se a consumição, o drama, a tragédia, o horror, o pesadelo, o filme:

SOPA

 

confiante que aos 5 meses o crianço estava disposto a alargar o âmbito da alimentação e entrar nessa coisa magnifica que é comer enchi-me de coragem e comprei uma yammi.

foi uma desculpa, sim senhor. podia perfeitamente fazer a sopinha num tacho e passá-la com  a varinha mágica. mas andava a namorar a maquineta há meses (claro que não tem a qualidade da bimby pois se assim fosse toda a gente que incha quatro vezes mais por ela era maluquinha) e aproveitei a desculpa das sopas para o efeito.

 

enfim:

sábado antes de almoço M.J. pega na maquineta, lê as instruções, vê as indicações da pediatra e faz a sopa à criança.

tudo muito bem.

depois, na hora de almoço, põe umas três conchas de sopa na taça da criança, comprada de propósito para o efeito, toda convencida que sim, a criança vai comer e chorar por mais (3 conchas meus senhores, atentem que coloquei 3 conchas de sopa na taça do miúdo) e prepara-se para o grande evento. 

  1. pomos o puto na cadeira (sim, já fica numa cadeira de refeições daquelas altas e reclináveis há imenso tempo porque ele quer estar connosco à mesa e até se cala quando lá está);
  2. colocamos um babete normal no puto;
  3. o pai do puto liga a câmara de filmar e aponta-a aos beiços do dito;
  4. a mãe do puto enche as trombas de sorrisos;
  5. a mãe do puto enche uma colher de bebé com sopa;
  6. a mãe do puto enfia a colher de sopa na boca do puto que...
  7. saboreia.
  8. dá com a língua na boca.
  9. põe a sopa para fora.
  10. mete a mão na boca onde tem os restos de sopa não deglutida;
  11. esfrega bem a mão na boca e na sopa;
  12. leva a mão aos olhos, ao cabelo e a tudo onde chegou antes de a mãe, com reflexos muito lentos, o impedir de continuar.

 

depois disto, o sorriso nos meus lábios foi só a descer.

enfiávamos sopa no puto, o puto enfiava sopa em nós. como continuávamos nisto, a camera de lado, uma fralda de pano a substituir o babete, já ninguém a rir, ele desata aos gritos na crise dos 3 minutos (basicamente chora pouco mas quando chora não está com meia medidas) e a gritaria é de tal ordem que desistimos.

demorou uns bons cinco minutos e o cenário final foi pior que a guerra entre os últimos starks e os mortos:

sopa no chão, na cadeira, na mesa. babete repleto de sopa, fralda repleta de sopa. pescoço da criança encharcado em sopa. o pai tem sopa nas mãos. a mãe tem sopa nas mãos, nos braços e, pasmem, nas mamas que ele cuspiu com tanta força que tudo apanhou.

ah pois é filha, não amamentaste leite, ele jorra sopa.

o drama. 

 
 
 
 
 
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A boca aberta de quem cuspiu a sopa todinha. Truques e dicas desse lado, há? #bebe #primeirascomidinhas #sopa #babyboy💙

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será melhor amanhã, disse a mamã ao telefone, a minha sopa ele come.

pois claro que sim.

tinha os mesmos ingredientes mas mais amor, achava ela. 

pronto, no dia a seguir em casa dos meus pais, insistimos:

miúdo a postos, fralda a postos, desta vez preparados, a avó vai com todo o amor dar sopa ao neto. 

rapidamente o amor transformou-se em sopa esguichada e cuspida aliada aos gritos.

não resultou. 

só se calou quando bebeu leite.

muito bonito.

 

estamos nisto desde sábado.

em todas as refeições de sopa (o almoço) há o mesmo filme:

rejeição em primeiro, cuspidelas em segundo, berraria em terceiro e, se insirtimos engasga-se.

o chão fica com sopa, os babetes com sopa, a mesa com sopa. em todo o lado há sopa menos no estômago de quem a devia comer.

 

resultado: começo seriamente a pensar em desistir da filha da mãe da sopa e alimentar a criatura a leite até ir de erasmus. isso ou até ter dentes e provar uma boa cocha de frango de churrasco.

é que já não aguento com tanta sopa.

 

dicas há?

deixaram-me algumas no facebook e instagram. já segui a da colher, a da batata doce e a da paciência.

até agora miúdo 3 - sopa 0.

ai!

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amor de mamã

por M.J., em 29.04.19

desde que o miúdo nasceu que a mamã rejuvenesceu. e fez coisas que sempre se recusou a fazer por medo ou desconhecimento.

a primeira foi conduzir sozinha distâncias grandes.

a mamã tirou a carta já numa fase tardia. usava o carro por necessidade apenas na aldeia. e pouco mais. qualquer saída longe disso não ia. era eu que a levava. recusava-se terminantemente. que não. que não nascera para isso. que não. que não.

quando o miúdo nasceu queria vê-lo todos os dias. de onde mora até cá são mais de cinquenta quilómetros. era inviável eu ir buscá-la ou o rapaz. era inverno, tínhamos um recém nascido e não podíamos fazer 4 vezes 50 quilómtros todos os dias.

um dia de manhã a mamã ligou-me. eu estava a amamentar e atendi ainda meio ensonada. ela pediu-me para ir abrir a porta. não percebi nada. "qual porta?" "a da rua", disse ela, que estava lá. e eu logo: "quem chateaste para te trazer?" e ela, num orgulho que só visto: "o carro".

pois é. a mamã veio sozinha, pela auto-estrada porque precisava mesmo de ver o neto.

a mamã que nem nunca metera a quinta mudança a não ser nas aulas e no exame de condução. 

o amor é mais forte, disse, e foi.

 

a segunda:

há coisas que numa casmurrice se recusa a aprender. a maior é tudo o que seja novas tecnologias. é uma espécie de birra para não sair da zona de conforto.

são incontáveis as vezes que lhe quis oferecer um telemóvel que servisse para mais do que fazer chamadas.

nunca queria. e sei bem porquê: tinha medo de não conseguir lidar com aquilo e ser uma desilusão.

fartei-me de lhe explicar que se não se desse bem com ele voltava para o outro e eu ficava com o novo.

nunca quis. não, não e não.

quando o miúdo nasceu queria fotografias dele. o primeiro álbum que mandei fazer foi para ela. com fotografias quase todas iguais em que ele aparece com aquela expressão de ananás que guincha (os recém-nascidos não têm outra), sempre de olhos fechados.

foi o delírio com o álbum. mas evidentemente que a criança cresce e as fotografias são diferentes. por isso, todas as semanas levava que eu imprimia na impressora cá de casa. numa folha de papel normal. até que os tinteiros acabaram e eu não quis comprar outros. se ela quisesse mandava fazer outro álbum disse-lhe. o que não fazia sentido eram aquelas fotografias todas ranhosas em papel ranhoso. 

ficou triste.

na semana passada perguntou se o meu telemóvel velho, anterior a este, ainda funcionava. que queria aprender a lidar com ele.

perguntei-lhe porquê: pois que queria ver fotografias do neto, várias, muitas, sempre que quisesse. e mais! queria vê-lo quando lhe telefonasse. 

muito bem, disse eu, ainda desconfiada mas contente. muito bem. e ontem comprei-lhe o telemóvel.

o rapaz, numa paciência infinda ensinou-a a atender e fazer chamadas de voz e também por skype. foi uma novidade. carregava muito no ecrã e os ícones apagavam-se. mas depois percebeu a mecânica da coisa. também lhe passamos sei lá quantos megas de fotos do miúdo para o telemóvel. e foi logo as trombas dele a rir, sem os dentes todos, que eloa quis que ficasse como capa.

enfim, hoje de manhã ligamos-lhe pelo skype quando ela estava no trabalho. pôs o telemóvel no ouvido. dissemos-lhe para o pôr à frente dos olhos. do lado de cá estava dom rapazito a rir. foi uma histeria. um minuto depois estavam seis ou sete mulheres em frente ao telemóvel a olhar para o miúdo. o rapaz ria perante a histeria do mulherio do outro lado. o miúdo não percebia nada mas ria-se para o telemóvel quando eu fazia bhu.

depois de almoço voltou a ligar. aprendeu a lidar com a coisa. e nem tem teclas

o amor não precisa de teclas, eu sei. 

 
 
 
 
 
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A mamã veio visitar o neto. #flowers #flores🌸 #orquideas #love

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sobretudo, nem quero imaginar quando daqui a um mês eu o rapaz formos no primeiro fim de semana sozinhos e ela ficar aqui em casa, com o miúdo, dois dias inteiros, ambos os dois, em amena cavaqueira.

falta mais de um mês. marquei depois de me assegurar que ela podia ficar com ele. isto há um mês e pouco atrás.

desde essa altura que ela fala disso. 

espero chegar a casa e ainda ter o puto.

não vá ela comê-lo de beijos. 

 

o amor está todo nela. 

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adrenalina

por M.J., em 17.04.19

no último ano emprenhei, pari, comprei casa e constituí uma empresa.

só faltou plantar a árvore e voltar a editar um livro para a suprema realização.

e ainda assim, pasmem, tem dias que me sinto insatisfeita no correr das horas.

sem evoluir.

fico sentada à janela, a ver o dia passar e pensando, muito sinceramente que preciso de mais. de agitação. de intensidade. de coisas novas. de adrenalina.

 

hoje tive:

tenho o carro na reserva e não há gasóleo em lado nenhum.

estou a viver no limite e adeus páscoa na serra ao lado da mamã.

 

obrigada senhores da greve por manterem esse direito nos dias que correm.

agora sim, estou plenamente satisfeita.

 

(notas:

1. praguejava quando o rapaz - doutorado em sistemas de condução automática (não sei se é mesmo assim que se diz) - me dizia que é uma realidade próxima, quase, quase a chegar e que tudo o que temm rodas vai andar por aí a deambular sozinho. agora mal posso esperar).

2. e esta coisa de dez milhões de pessoas estarem reféns de 800? não é belo?)

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resumo dos quase 4 meses

por M.J., em 08.04.19

pronto, o puto já levanta e quase segura a cabeça.

às vezes fica ali, meio a balançar, como se tivesse bebido uma cachacinha depois de almoço e o peso do álcool fosse mais forte. mas, por norma, faz jus ao pescoço. 

 

também dorme a maioria das noites, de forma completa. não são doze horas a roncar mas vai fazendo períodos de 5 a 6 horas seguidas.

é bom. a não ser claro, quando acorda às sete da manhã a um sábado.

nessas alturas não é agradável.

 

 
 
 
 
 
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Quando o puto acorda às sete da manhã a um sábado e se recusa a dormir não há como não pensar seriamente em sair de casa para comprar tabaco. #naohapachorra #nemaosabado #voualiejavenho #ounao #arre

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não sei como teria sido se o miúdo fosse um pedinchão durante a noite.

que ainda estamos habilitados a isso.

sempre que acordo às 4 da manhã é como se um comboio me tivesse passado por cima e eu ainda estivesse a perceber se estou morta ou não. ando meia desgrenhada pelo quarto sem saber muito bem onde pegar ou começar.

fazer isto um ano ter-me-ia levado à loucura.

ou a ele. 

um dos dois seria.

talvez fosse a ele que eu sempre posso tomar café.

 

 
 
 
 
 
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Bom dia, vamos ao café? Houve um tempo que vos dava os bons dias no blog com música. Agora nem música nem blog. Só café. #cafe #coffeetime #coffee #vamosaoqueinteressa #blog #eagoraseila

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não há maneira de evitarmos o babete neste momento.

baba-se a rir, baba-se a chorar, baba-se a comer, baba-se a respirar, baba-se a existir. olhamos para ele, dizemos bhu e enquanto ele sorri com os dentes todos que não tem há rios de baba a escorrer pela cara.

os babetes têm sido a solução.

e creme no pescoço, que quando dei conta que tinha o dito irritado fiquei tão aflita que passei o dia a bezuntá-lo.

ajudou. está praticamente bom.

 

 
 
 
 
 
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Brevemente nos cinemas a comédia dramática: "o coelho, o urso e o duplo queixo". #baby #doudou #babete #babyboy #comeedorme

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também deu uma pulada.

há pouca roupa que lhe sirva, já, e vamos acumulando a que não serve numa grande caixa de arrumação no quarto ainda não mobilado dele.

ontem, que tínhamos visitas, quis vestir-lhe um fato catita e simplesmente o rapaz não conseguia esticar as pernas.

esse e outro e outro e outro.

que bonito. só havia babygrows feios, de andar por casa, pelo que acabou vestido com um macacão curto nas pernas e nos braços enquanto eu tentava perceber que raio comeu ele na última semana para nada lhe servir.

 

 
 
 
 
 
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Vê-se logo quem o vestiu. #meninodopapa #bebe #janaoeprojetoaltino

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acorda sempre bem disposto.

ri-se desalmadamente todas as manhãs. e adora ficar nu.

tiramos-lhe a roupa e é vê-lo como se tivesse ganho o euromilhões. também começamos a perceber alguns traços de personalidade. não faz questão de atenção total mas se chora e não vamos dentro de um minuto, o gemido inicial transforma-se num choro tão intenso como se tivesse a ser capado. a frio.

um dia destes só consegui mesmo ir ter com ele uns 3 minutos depois. berrava tão alto que tive medo que a vizinha chamasse a CPCJ. e ficou 10 minutos ao colo, em suspiros fundos e soluçados, sentido comigo e com o mundo.

vai ser lindo, vai.

 

 
 
 
 
 
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Nos dias que correm o nosso melhor amigo é o babete. Ou OS babetes, no plural que um só não aguenta os quilos, paletes de baba produzida. #bebes #babyboy #babyboy💙 #baby #babete #baba

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comporta-se estupidamente bem com outras pessoas.

é simpático e tudo (não sai a mim, disso concordamos todos), anda de colo em colo e nada de choro. mas quando estamos sozinhos tem os seus 3 minutos, muitas das vezes do nada, mostrando que sim senhor, aqui ainda manda ele.

concedo-lhe isso.

por enquanto.

 

também descobrimos que gosta de ver tv.

os estudos sobre os malefícios da dita circulam na internet como cogumelos à chuva. há mães que preferiam perder um dos mamilos (os dois não, que pelo menos um tem de ficar para amamentar) do que pôr a criança em frente à tv. nós usamo-la de vez em quando na babytv e ele fica a olhar para ela, muito concentrado, dando pontapés no ar, falando numa língua que ninguém percebe constituída por 3 vogais e 2 consoantes (e, a, u, b, h) e, quando se farta, soltando um ou outro grito.

muito eficiente.

 

 
 
 
 
 
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É, vêm cá pessoas almoçar. É, a sala está assim. É, a tv está na babytv. É, engoli todas as palavrinhas que disse. #bebe #babyboy #almoço #domingo #sunday

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seja como for, por melhor que seja, não me imagino a passar por isto outra vez.

achei, outrora, que não queria filhos únicos.

eu sou e bem sei os malefícios.

mas sinceramente, só de pensar nisto com um outro miúdo a pedir atenção faz-me crescer ainda mais cabelos brancos. só de pensar no primeiro mês, nas minhas hormonas, nas mudanças de humor, no cansaço extremo, na incapacidade de tirar vinte minutos para fazer algo inútil mas que me dá prazer, há algo em mim que grita com muita força: NÃO. 

 

a maternidade é mais ou menos aquilo que eu esperava.

tem coisas boas, momentos maravilhosos, ocupa espaços vazios, transforma um pouco quem somos, dá-nos a experimentar algo que não sentiriamos de outra forma.

mas arranca pedaços de nós. arranca horas infindas, dias, noites, tempo.

sei que o ser humano tem tendência, depois da coisa passar, de desvalorizar o mau e hipervalorizar o bom: eu tento que isso não aconteça. tento ter presente realisticamente cada momento. entrego-me, aceito, vou mas não encho com corações e unicórnios todos os espaços. 

 

e pasmem-se, é verdade, ainda continuo a revirar os olhos, quase até ficar só parte branca à vista, quando me repetem incessantemente "é o melhor do mundo".

o melhor do mundo, meus senhores, é a conjugação de pessoas, factos, aspetos, momentos e objetos que nos fazem - todas as manhãs - respirar de alívio por ainda estarmos vivos. 

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da greve

por M.J., em 19.03.19

no dia em que me disseram que precisava de ir para a maternidade parir tive uma crise de ansiedade.

não foi nada bonito: uma grávida muito grávida, sentada no consultório da obstetra a chorar baba e ranho porque o momento que temera durante toda a gravidez finalmente chegara. ao contrário de muitas grávidas eu não ansiava pelo parto como o momento mágico em que tudo acontece. na minha cabeça, pelo contrário, existia um cenário apocalíptico de sangue, cocós, gritos, pernas abertas, desconhecidos e completa dependência de outrem. 

sou uma exagerada. não podia ser de outra forma nessa altura.

não foi portante novidade a consulta com a psicóloga antes de ir até à maternidade. que a pressa não era assim muita: o puto furou o saco onde estava metido (provavelmente decidiu fazer a espargata e a coisa correu mal) e o liquido ia saindo aos poucos. mas só aos poucos.

depois de ser acalmada pela santa psicóloga, que soube o que dizer quando eu ponderava mesmo fugir pela janela, encolher-me num canto e esperar que passasse (um excelente plano, sem dúvida) e entrei na maternidade, fui aos poucos perdendo o receio do drama sanguinário que a minha mente formulara durante os nove meses. 

é claro que a minha médica foi fundamental mas a pedra de toque que transformou todo o meu cenário de guerra em algo perfeitamente normal foi o trabalho das enfermeiras:

  • foi uma enfermeira que me ajudou com as dores a meio da madrugada, já depois de ter tomado comprimidos para a indução do parto;
  • foi uma enfermeira que me acalmou no caminho do bloco;
  • foi a enfermeira especialista no bloco que me esteve do meu lado desde que entrei até à mudança de turno, que me explicou tintim por tintim o que ia acontecer, que falou comigo sobre trivialidades, que me fez companhia e me ajudou em todo o processo;
  • foi a enfermeira que a substituiu depois que agarrou na minha mão no momento do parto, que me disse quando e como fazer força e que me incentivou com palavras simpáticas;
  • foi uma enfermeira no dia a seguir que ensinou o miúdo a mamar;
  • foi uma enfermeira que me disse que não havia mal algum em dar-lhe leite de fórmula quando ele perdeu imenso peso porque eu simplesmente não conseguia que ele mamasse;
  • foi uma enfermeira que me levou para um quarto vazio quando, na quinta noite sem dormir porque o outro miúdo berrava horrores, a minha cabeça parecia explodir.

tinha ouvido, lido milhentas histórias de casos de grávidas mal atendidas em maternidades/hospitais públicos por enfermeiros.

ouvira falar dos risinhos no canto da boca, da impaciência, da ironia, do gozo: "quando o fizeste não berravas assim", dos jeitos bruscos, do olhar para uma grávida como mais uma, para um bebé como mais um. ouvira falar de enfermeiras que insistem na amamentação como se nada mais houvesse, levando mães inexperientes ao desespero e a sentirem-se péssimas mães; enfermeiras brutas, antipáticas e sem a empatia e humanidade necessária para perceber que é um momento de extrema fragilidade (ou pode ser, para algumas mulheres) e que transformavam aqueles dias em pesadelos.

e depois, comigo, nada foi assim.

o momento do parto em si revelou-se perfeitamente natural, fácil até, botando por terra todos os meus piores pesadelos e fazendo-me rir pelos desabafos que fui deixando a quem me ouvia naquela altura.

os dias a seguir, na maternidade, que me causavam ansiedade também.

e tudo devido, sobretudo, ao trabalho das enfermeiras que me acompanharam todo o tempo. se há palavras que podem definir o trabalho delas (e deles, que deve haver eles, mas a mim só me calharam senhoras) foi a humanidade, o altruísmo, a empatia e o profissionalismo. 

 

é por isso, e por tantos outros casos que li, ouvi, vi em primeira mão, que estou com os enfermeiros na sua luta.

estou com eles enquanto classe muito mais importante do que a importância que lhe é dada pela sociedade, habituada a vê-los como meros lacaios dos médicos. 

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vergonha

por M.J., em 12.03.19

anda a polémica no ar por causa das escolhas da sic e tvi dos programas da noite de domingo.

que é um atentado às conquistas das mulheres, que se tratam as mulheres como gado, que as tvs deviam ter vergonha, etc e tal.

mais do mesmo: blá. blá. blá.

 

não me interpretem mal.

desde que engravidei que me sinto mais atenta às pressões da sociedade acerca do que é exigido às mulheres. que vejo os olhares de soslaio sempre que se percebe que a divisão de tarefas quanto ao puto é irmãmente dividida entre mim e o pai dele. que vejo o julgamento em outras mulheres sempre que dão conta de que o meu papel como mãe está no mesmo patamar que o dele como pai e as responsabilidades são exatamente as mesmas. que sinto em muita gente próxima que, supostamente, eu devia dedicar-me exclusivamente à criança e o pai ir trabalhar (porque, lá está, não fui presenteada com um pénis).

portanto, sim, nunca como hoje percebi tanto as diferenças exigidas a homens e mulheres e como estas últimas são sobrecarregadas, injustiçadas e estão numa posição muito mais merdosa do que o ser humano que nasceu com um penduricalho a mais.

 

posto isto, meus senhores, desculpem lá, mas não cabe à tvi e à sic educar seja quem for, sobretudo através da sua programação.

se me disserem que a rtp pode ter essa função até posso conceder um bocadinho. mas só. e só um niquinho.

no dia em que a educação da sociedade couber às televisões, desculpem lá mas, falando curto e grosso, estamos fodidos. era só o que faltava que a programação das tvs privadas fosse direcionada à educação das famílias. era quê? missa em horário nobre? o marcelo rebelo de sousa a falar de como ser um cidadão exemplar? ou o ricardo araujo pereira a explicar à plebe como se enxovalha com graça um pequeno tirano? e quem definia o quais os valores que a tv tem de transmitir? o grande comité para a educação dos meninos? a partir de que valores?

não meus senhores, não cabe à televisão a educação dos vossos filhos, irmãos, pais, avós e tios. 

e mais! se há programas destes, em que as mulheres desfilam como gado perante os olhares atentos de agricultores e futuras sogras, em que se sujeitam a uma avaliação minuciosa que parece ter saído do grande livro das moças, a culpa é vossa. porque reflete um pouco da sociedade em que estamos.

são vocês (e quando digo vocês, quero dizer nós) que ensinam na maior parte das vezes esses conceitos. que ensinam (ensinamos) uma data de valores desadequados, velhos, a cheirar a naftalina às nossas crianças, mesmo que nem nos apercebamos:

- não chores, um menino não chora, queres parecer uma menina?

- não sejas mariquinhas!

- não, não lhe visto vestidos que ela é traquinas e veem-se as cuecas.

- claro que não vais sair assim vestida de casa, pareces uma mulher da vida.

- como é que queres namorar se nem sabes fritar um ovo?

- já viste esse cabelo? assim não há homem que te pegue.

- o quê? andas aqui? então e o miudo está com quem?

e por aí adiante, em constante movimento.

 

tenderia até a dizer que são as mulheres que mais proliferam o machismo evidente apesar de não ter dados estatísticos para confirmar esta afirmação. mas posso falar do que vejo, do que leio, do que escuto. e o que observo são as mulheres em constante luta, à espera de lixar a primeira que se lhe aparecer à esquina. "espera aí que já te fodo", com os braços apontados enquanto clamam a deus e ao mundo: olha que programa hediondo! 

contei o episódio abaixo no meu instagram e facebook no domingo passado (se ainda não me seguem pensem nisso, que eu ando muito mais por lá do que por aqui pela facilidade de usar o telemóvel). 

 
 
 
 
 
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O puto dorme 6 horas seguidas durante a noite. Há uma ou outra que acorda mais do que uma vez mas há semanas que o padrão se mantém. Na semana passada fui a uma festa de aniversário de um bebé onde estavam uns 7 ou 8 e respetivos pais. E no meio de uma conversa em que só se falava de putos e se partilhava experiências tive a infeliz ideia de comentar que, felizmente, ele dormia 6 horas seguidas durante a noite. Juro que nem foi com o objetivo de me vangloriar até porque o mérito não é meu mas do puto. Foi apenas porque se falava de sono, dormir e leites noturnos. Pois meus senhores, logo a mulherada toda em coro: - 6 horas??? Ah, isso é agora, espera até aos dentes; ou, - Deixa ele chegar com viroses a casa e vais ver; e ainda, - Aproveita que dura pouco. Está bem então. Desculpai lá se a minha criança dorme mais porque não precisa das minhas mamas de 2 em 2 horas. Prometo que vou passar a acordar o miúdo para sofrer como vós. Este tipo de comentários não acontece noutras coisas. Ninguém diz: - O quê? Estás a adorar o teu trabalho novo? Espera dois meses até o teu chefe te assediar no elevador; ou: - Emagreceste 10 quilos? Daqui a uma semana já os recuperas todos; e ainda: - Carro novo? Dou-te um mês para o mandares para a sucata e morreres encarcerada. Então quais os motivos para que se comente este tipo de "não fiques contente que o pior está a chegar?" Ontem foi o dia da mulher. Vi centenas de posts de mulheres a desejar igualdade e respeito para as mulheres. Acontece que não o fazem entre elas. Quando comentei - ingenuamente - das 6 horas do puto um dos pais presentes ainda murmurou "6 horas? Quem dera!" Isto antes de ser atropelado pelo mau agouro da mulherada presente. De que vale nós mulheres desejarmos ser mais na sociedade se desejamos sempre que a vizinha seja menos? Se parece que estamos prontas à esquina para dizer: - o miúdo disse que gosta de ti? Espera até te roubar a mobília para comprar droga. #mãe #maes #desabafo #mulheres #maternidade #experiência #bebes #crianças

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e os comentários com experiências de outras pessoas foram sobretudo nessa linha: somos umas cabras umas para as outras. temos a maior tendência para nos lixarmos, acusarmos, julgarmos e por aí adiante acabando, no fim, por gritar muito alto que a culpa é da tvi e da sic, que deviam ter vergonha nos programas que passam.

não minhas senhoras, vergonha devíamos ter nós! vergonha devíamos ter nós por todas as vezes que achamos que era suposto a vizinha estar um nadita mais abaixo que nós.

 

tenho ao máximo tentado lutar contra isso. juro. vou conseguindo cada dia um bocadinho mais.

e não é por dar uma olhadela ao programa dos agricultores e das sogras que isso altera.

a alterar é só para me lembrar de nunca, jamais, educar o meu filho para que se comporte, pense ou sinta daquela forma. 

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resumo

por M.J., em 27.02.19

comprei tulipas amarelas no fim de semana. o objetivo era que, de alguma forma, combinassem com os girassóis do casamento e que estão espalhados em fotografias na sala.

aos poucos a casa vai-se transformando. passamos do "temos o essencial para viver" para "vamos melhorar isto". já há quadros nas paredes, candeeiros, fotografias e mantas no sofá. já há almofadas gigantes, velas e flores. e um bolo de laranja, no domingo, para dar um olá a velhos amigos de infância que passaram a conhecer o miúdo. 

estamos todos tão crescidos.

 
 
 
 
 
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As flores são tulipas mas cheira é a laranja. #cake #vamoslareceberpessoas #domingo #orangecake

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tenho uma série de posts na cabeça.

gostava de falar sobre o parto, sobre a gratidão à minha médica, sobre a humanidade da minha psicóloga, sobre a empatia e profissionalismo das enfermeiras. gostava de falar sobre mamas e amamentação e como nunca fui pressionada - ao contrário do que esperava - para o efeito e como me sinto tão aliviada por o puto beber leite em pó. e estar saudável. gostava de escrever sobre os fantasmas que me ensombraram nos primeiros meses, de alguns momentos de absurda angústia e de como tudo me pareceu negro em alguns dias. gostava de escrever sobre como a seita veio a aveiro para nos ver, de como me senti amada por duas pessoas tão especiais que demonstram que isto não são só blogs. gostava de explicar um sentimento de amor profundo que vai crescendo todos os dias um pouquito mais no peito. 

mas não tenho tempo.

 

continuo assoberbada em trabalho. deliberadamente.

porque me faz sentir mais do que mãe e porque, sinceramente, não me consigo ver apenas como mãe, ainda que baste para muita gente. ainda que saiba que há mulheres que dariam tudo para poder ficar em casa só a cuidar dos filhos - e nada tenho contra (nem a favor, simplesmente não é nada comigo). ainda que tenha perfeita noção do privilégio que tive ao poder escolher se queria ser só mãe durante seis meses ou não. e não quis. não podia. não dava. isso seria diminuir-me quando deveria acrescentar-me. seis meses em que apenas me dedicaria a alimentar, ver crescer, cuidar e ficar à espera que as horas passassem entre cocós e fraldas transformar-me-ia numa pessoa absolutamente frustrada e incapaz. transformar-me-ia numa péssima pessoa, inapta e sem perspetiva. não que isso transforme as outras pessoas, não me interpretem mal. mas transformaria a mim porque não tenho essa capacidade tão grande de me doar por inteira de forma absoluta e integral. para ser boa mãe preciso de ser boa pessoa. e para isso preciso de me sentir plena. preciso de me sentir útil em várias vertentes. por isso aqui estou, assoberbada em trabalho. muito mais do que algum dia tive porque me desdobro em 5. 

no entanto, cada prazo cumprido, cada objetivo concretizado inunda-me de felicidade. sou capaz. fui capaz. consegui. não fiquei presa às ideias concebidas. não me perdi nos medos. não fiquei meses sem ser eu, achando que me perdera. estou aqui. completo os espaços da minha vida, cada um com a sua importância sem os descurar. estou eu. completa.

 

o miúdo foi ontem às vacinas.

chorou que se fartou e depois, quando já não se lembrava, começou a rir enquanto a médica nos passava a receita para as não comparticipadas pelo SNS. e para uma almofada especial com o objetivo de evitar deformidades na cabeça que o miúdo cismou que dormir é sempre para o mesmo lado e ainda me ficava com a cabeça torta.

se a almofada resulta ou não... não sei. mas que ele gosta dela não há dúvidas.

 
 
 
 
 
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Vesti ganga pela primeira vez a ver se convenço a médica a espetar as vacinas com beijinhos em vez de seringas. #babyclothes #babyboy #vacinas #janaoeprojetoaltino

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tem engordado 41 gramas por dia.

uma pequena lontra ainda que continue num percentil baixinho. praticamente nenhuma roupa que compramos antes dele nascer lhe serve pelo que vamos renovando a coisa. tive de proibir a mamã de comprar porque me dói o desperdício e há coisas que ele vestiu duas vezes. é para esquecer.

 

já ri para nós.

posso mesmo dizer que ri mais para mim. é esperto. sabe perfeitamente quem lhe muda mais vezes as fraldas, quem lhe dá o leite, quem o embala e acorda a meio da noite quando o pai tem de conduzir no dia seguinte. portanto saca do sorriso desdentado e suborna-me para que me esqueça das birritas pequenas, das noites a dormir aos pedaços e do cansaço.

que tive sorte.

dorme bastante bem acordando agora, em média, duas vezes por noite. e durante o dia fica esparramado na alcofa ou na espreguiçadeira, ao meu lado no escritório, dormindo ou dando socos ao ar com toda a força. de vez em quando balbucia qualquer coisa. olho para ele, faço voz de bebé, ele ri e continuamos, cada um na sua tarefa. 

tudo tranquilo - na maioria dos dias.

 

já saímos com ele para praticamente todo o lado.

que o rapazito não acha grande piada a andar no ovo e prefere estar em casa. mas saímos. levamos leite extra nos doseadores, biberões com água medida e o aquecedor dos mesmos no carro. corre bem. por norma dorme o tempo todo. a não ser naquele dia, na Laskasas onde escolhíamos candeeiros, em que explodiu com tal força que poder-se-ia dizer que um terramoto tinha invadido a cidade. e viemos com ele para casa, a rir que nem perdidos, para lhe mudar a fralda que aquilo não era coisa que qualquer fraldário aguentasse.

 

o tempo vai passando.

ele vai crescendo.

e, estranhamente, eu também.

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