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Quarentena | O diário de #26 a #34

por M.J., em 11.05.20

[para quem quiser saber a explicação deste diário é só clicar aqui]

 

Dia 26, 27 e 28 | 45, 46 e 47 de isolamento| Dia 27 de abril
Limpamos no sábado de manhã. À tarde ficamos por casa. Sinceramente já não me lembro a fazer o quê. Juro. Acho que fiz um bolo de maçã e tenho a vaga idéia de termos dado uma volta de carro.
É, foi isso.
E à noite vi after life. Está aí o ponto alto da quarenta.

No domingo fomos comprar pão de manhã.
Aproveitei e trouxe um folhado de salsicha. Dividimo-lo ao lanche.
Choveu, acho, durante o dia. Ou isso, ou esteve cinzento.
De tarde adormeci no chão da sala. A ideia era deitar-me lá para brincar com o miúdo. Quando dei conta ele estava deitado com a cabeça nas minhas pernas e eu estava cheia de dor de costas.
Excelente educadora.

Por uma questão de curiosidade tentei ver o Big Brother. Juro. Não consegui e desisti 30 minutos depois. Nem é por ser xunga, ridículo ou obrigar a uma inteligência de meio por cento. É que é chato. Cha-to. Ca seca.
Gente do céu.

Hoje consegui trabalhar de manhã. Na sala, claro está.

Choveu a cântaros a manhã inteira, esteve sol de tarde. O planeta pode estar muito satisfeito com o nosso confinamento. O clima é que não o demonstra. Está mais bipolar que eu.
Dass.

De tarde adormeci enquanto esperava que o miúdo acordasse. São coisas. Do escritório ouvia o rapaz a perguntar "não há mesmo dúvidas, pessoal?". É uma pena não haver teleescola para o ensino universitário. Podia ser que assim recuperasse o meu escritório.

No final da tarde fomos gastar gasóleo. Novamente. Andamos de carro pelas redondezas, vemos jardins alheios e pensamos como poderá ser o nosso.
É um bocado triste mas cada um com a sua.

Amanhã é terça. Podia ser sábado.
Ou feriado.
Ou o raio que parta.

 

Dia 29 | 48 de isolamento | 28 de abril
Choveu uma parte da tarde.
Não fiz praticamente nada.
Minto: lavei e estendi 2 máquinas de roupa, fiz gelatina, dei uma volta aqui pelas redondezas com o miúdo, aspirei a casa, tratei do almoço e agora do jantar.
E mesmo assim parece que não foi nada.

Tive mesmo de ir às compras de manhã, adiantando a compra semanal para a terça em vez da quinta.
Vi muita gente com máscara (sobre isso ver stories, não tenho capacidade de falar mais no assunto), e muita gente com luvas.
Vi pouca gente a desinfetar as mãos à saída, com o desinfetante fornecido pelo hipermercado.
E muita gente a mexer no cabelo.
Os cabeleireiros devem estar mesmo a fazer falta.
Santa estupidez.

De resto, o que marca o dia foi o susto tremendo (mais um) provocado pelo miúdo:
Quando acordou da sesta e pedinchou comida dei-lhe um gomo de maçã. Comia sentado na cadeira da papa, enquanto eu arrumava a louça, e em meio minuto engasgou-se.
Corri para a cadeira, bati-lhe nas costas e nada.
Estava aflito, cada vez mais, pelo que em segundos que me pareceram horas agarrei-o e entrei escritório dentro, interrompendo a aula do homem, que pegou no puto em frente aos alunos e o "desengasgou".

Pormenor: mal a criança conseguiu respirar pôs à boca o resto da maçã que ainda tinha na mão.
E só chorou nesta situação toda quando lha tirei.
Matem-me.

Depois ficamos sentados no sofá, os dois, comigo a engolir as lágrimas e tentar não pensar nos "e ses".
É tudo tão frágil!
Tão momentâneo!
Tão passageiro!
Tudo tão passível de desaparecer em minutos de tal forma que, reparem, estamos enclausurados, numa espécie de globo de neve, muito fechados a rodar sobre nós próprios enquanto a nossa pequenez continua em direção à inevitabilidade da nossa finitude.

 

Dia 30, 31, 32, 33 | 49, 50, 51 e 52 de isolamento | 02 de maio
Pondero se não é tempo de acabar com este diário.
Ajudou a passar estes dias mesmo que estes dias não tenham ainda passado.

Na quarta a mamã fez anos e fizemos um almoço cá em casa. Creio ter sido mais seguro juntamo-nos nesse dia do que agora, quando abrirem os portões.
Foi um misto de regresso a casa e reencontros.
E foi bom.
Houve presentes, jarros na jarra e muitos sorrisos.
Gargalhadas.
Planos.
Acabar com o medo.

Não me lembro do que fiz na quinta e na sexta. Sei que caminhamos num dos dias, que fiz panquecas noutro e que levamos o miúdo a passear.
Mas, ainda assim, foram dias cinzentos e nublados. Quer na rua, quer na minha mente.
Não consigo lidar com a paragem do trabalho.
Sinto-me inútil.
Bem sei que somos mais do que uma atividade profissional mas não consigo ser sem ela. Sinto-me incompleta, medíocre e sem equilíbrio.
Sou muito melhor mãe, esposa, mulher e pessoa quando estou completa como trabalhadora útil e capaz.

Pelo meio deixei queimar a comida do miúdo, não fui andar de bicicleta, parti um pirex e acumulei 4 máquinas de roupa para lavar.

Hoje veio o sol e tudo parece mais simples.
Limpamos a casa e saímos, de carro, para ir comprar morangos e uma orquídea como meu presente de dia da mãe.
O miúdo comeu morangos cujo sumo se espalhou pelas mãos e roupa.
E a minha orquídea está erguida em flor a lembrar-me que estive com a minha mãe esta semana e nenhum de nós está doente.

Talvez acabe este diário amanhã agora que as coisas começam a recomeçar.

 

Dia 34 | 53 de pandemia | 3 de maio
Há quem ofereça flores à mãe, brunchs, pequeno almoço na cama, jóias ou pingarelhos feitos nas creches e jardins infantis.
Eu, por outro lado, recebi do meu filho toda uma confirmação de que tem o mesmo feitio da caca que eu.
É um mini eu, sem tirar nem pôr, e fez questão de mo nostrar.
Muito agradável.

Tivemos choro ao antes do almoço, só porque sim.
Choro depois de almoço, só porque sim.
Choro antes do lanche.
Choro depois do lanche.
Antes do banho.
Depois do banho.
Antes do jantar.
Arre.

Tem dias (como o de hoje) que se revela em todo o seu esplendor, para me atirar à cara que é a minha cara:
Não suporta que o contrariem.
Tem nicles paciência.
Zero resistência à frustração.
Se for para comer está bem, mas podia comer sempre um bocadito mais.
Brincar é giro mas nada se compara a ver tv.
Tem um péssimo feitio quando tem sono. Ou fome.
Acha que caminhar é sobrevalorizado.
Está-se bem na rua mas se for para escolher prefere estar na sala, a brincar tranquilamente. Sobretudo se houver bonecada em plano de fundo.

Sou eu.
Why God, why?

Por isso, e porque apenas demos um passeio higiénico e não há expectativa da situação mudar nos próximos tempos, ainda estamos em isolamento e o diário continua.
Mas foi só isto, o meu dia.
E comprar pão para o pequeno-almoço, almoçar quase na hora do lanche, dormir no sofá depois de almoço e acabar de ler o livro #arainhabranca.
Finalmente.
Amanhã cá estamos para nova dose.

E vosso dia da mãe?
Foi só ternura, carinho, amor ou tiveram a mesma sensação delirante de "why God, why?" que eu?

Quarentena | O diário de #21 a #25

por M.J., em 08.05.20

[para quem quiser saber a explicação deste diário é só clicar aqui]

 

Dia 21 | 40 de isolamento | 20 de abril
Hoje o diário é do que NÃO fiz:
Não arrumei a roupa.
Está ali em cima da mesa da sala, num cesto, porque se a arrumo noutro lado fica ainda mais tempo sem ser devidamente dobrada e arrumada.

Não li.
O kobo continua fechadinho, cheio de livros. Não têm sido bons dias para leituras.

Não fiz o almoço.
Comemos restos de panados de frango feitos no forno que sobraram do jantar de sexta.
Panados requentado não é lá grande espingarda mas era isso ou cozinhar.
A escolha foi óbvia.

Não fiz o jantar.
Vamos comer restos de porco que sobraram do almoço de ontem. Era isso ou mandar vir qualquer coisa e não me apetece comer a pensar quantos covids estou a enfardar.
Porquinho requentado também é bom.

Não vi tv.
Só a conferência de imprensa que nos educa e informa nos tempos atuais.
Sem paciência para filmes ou séries novas.

Não fiz exercício.
Nem a simples caminhada por campos e vales.
Choveu o dia todo por isso foi ficar em casa.

Não falei com praticamente ninguém.
O homem deu aulas o dia todo fechado no escritório e o miudo só diz nanana.

Por outro lado, trabalhei manhã e tarde, nos intervalos de entreteter o miúdo, alimentar o miúdo, caminhar atrás do miúdo, dar banho ao miúdo, adormecer o miúdo e arrumar as tralhas do miúdo. .
Que raio de dia.

 

Dia 22 | 41 de isolamento | 21 de abril
Hoje li, arrumei a roupa, fiz o almoço, vou fazer o jantar e ainda caminhei os 30 minutos da praxe.
Pronto.
Começo já assim que é para me sentir orgulhosa por ter quebrado a tendência de ontem.

Acabei de ler "A Senhora dos Rios" - de Phillipa Gregory - que não andava nem desandava. Ontem à noite peguei nele com garra e acabei hoje.
Não é aquela cooooooisa toda mas gostei.
Agora vou passar para a Rainha Branca cuja série vi há pouco tempo na HBO.
E parece que também há uma vermelha...

Caminhei com o miúdo.
Estava vento e ele foi o caminho todo a bater palmas e a mandar beijinhos.
De manhã dei-lhe uns potes com tampa e balões com arroz.
Foi giro mas a educadora teria feito isto com outra classe.

O rapaz esteve a dar aulas o dia todo.
Já nem sei como é trabalhar no escritório sem ouvir em fundo a BabyTv e os guinchos do miúdo.
Igualdade de género?
Devia ser mas continua a calhar-me a mim os almoços, jantares, aspirar a casa para o miúdo não comer migalhas e afins.
Diz que é por ter de dar aulas à distância e pelo facto de a minha empresa ter os clientes moribundos com a crise.
Pode ser.
Mas ainda assim, creio que se eu tivesse uma pila seria diferente.

Por causa das coisas vai pintar o muro sozinho.

Só por curiosidade: têm contribuído para as audiências da teleescola? Que estão a achar?
Até amanhã.

 

23 | 42 de isolamento | 22 de abril
Senti saudades logo de manhã.

Acordei a pensar naqueles tempos, há 50 anos atrás, em que levava a criança à creche, trabalhava a manhã inteira no escritório em vez da sala, sem ouvir babytv, almoçava fora às vezes, tomava café na praia muitas vezes, e trabalhava a tarde inteira sem pensar em covids, crise económica e quarentena.
Ah! As saudades dessa longínqua época!

Como não vale de nada ter saudades, tomei ações:
Apreciei a cidade através do íman do frigorífico e planeei uma voltinha à tarde.
Exigi uma manhã de trabalho no escritório. O miúdo ficou com o pai na sala a meter os pés onde não deve.
"Esqueci" de fazer o almoço pelo que acabamos por mandar vir bacalhau com natas de um dos nossos restaurantes favoritos.

Comemos assim às duas da tarde, quando o miúdo acordava e pedia comida também.

De tarde o turno educadora foi meu por isso abancamos os dois, eu e a criança, no pátio.
Seria mais giro se ele não estivesse o tempo todo a tentar comer os meus chinelos, voltar para dentro e com ar de nojo da relva.
Que diva, meu deus.

Ao final da tarde fomos então dar uma volta de carro.
Não saímos mas deu para apanhar ar, lavar as vistas e pensar no que vamos fazer quando o estado de emergência for levantado e esta longa, longa era de trevas se desvanecer.

 

Dia 24 e 25 | 43 e 44 de isolamento | 24 de abril
A verdade é que tenho de me lembrar algumas vezes os motivos de escrever este diário.

Há dias em que não tendo nada de significativo a apontar parece-me perda de tempo. Depois lembro-me que é exatamente por isso, para não perder o fio à meada, que aponto as coisitas que fazem o dia.
Para que todas as horas não se tornem numa nuvem indistinta de nada.

Ontem fui às compras de manhã. Encontrei gel desinfetante nas prateleiras e não havia filas.
Cheguei a casa muito contente até perceber que me tinha esquecido do gel na caixa ao pagar.

Hoje fui buscá-lo.
A fila chegava ao estacionamento.
Deus .
Antes gostava de ir às compras. Agora, só de pensar em ter de tomar banho mal chego a casa, desinfetar produto a produto (incluindo o desinfetante) e sobreviver aos covids todos perco a vontade.

Nem imagino quando tiver de ir comprar roupa e experimentar.
Que salganhada!

Depois, ontem, não saímos.
Fiquei no pátio a tarde toda com o miúdo, a ler e a impedi-lo de comer coisas estranhas.
Creio mesmo que passei pelas brasas.

Hoje está cinzento pelo que estamos dentro de casa, a fazer dos peluxes bolas de futebol.

Consegui entregar um trabalho em tempo, hoje de manhã, o que me pareceu uma grande vitória.
E arrumei um cesto de roupa quase do meu tamanho. Isso devia dar-me direito a um estatuto qualquer.

Estou a cozinhar moelas.
Vou partilhar tudo no stories.

Entretanto tirei os livros ao miúdo.
A gota de água foi quando rasgou a página de um.
Consigo perdoar muito coisa, incluindo a desarrumação dos armários da cozinha.
Rasgar, roer ou estragar livros é que não, meu menino.

Anunciaram o levantamento de algumas medidas em maio.
Sinto-me aliviada.
Esta prisão forçada, esta angústia pelo panorama económico está a dar cabo de mim. E olhem que nós nem estamos no vermelho.
Nem imagino quem esteja com medo de não conseguir pôr comida na mesa.

É tudo uma consumição, uma valente bosta, uma sensação de que fomos apanhados na esquina e nem tivemos assim tanta culpa, desta vez.

E amanhã é dia de limpezas, só para ajudar.
Arre.

Contem-me: como estão?

publicado às 10:30

Quarentena | O diário de #16 a #20

por M.J., em 07.05.20

[para quem quiser saber a explicação deste diário é só clicar aqui]

 

Dia 16 | 35 de isolamento | 15 de abril
A criança dormiu desde as 20.00 até às 9.45 da manhã. Um recorde de sono, é verdade, mas tivemos de o despromover de despertador.

Depois tomou o pequeno almoço de leite, pedinchou do meu pão, do pão do papá e não se calou enquanto não o tiramos da cadeira dele.
Percebi, minutos depois, que estava tão calado porque foi comer migalhas para debaixo da mesa. Oh Deus.
É por isso que aspiro todos os dias.

Choveu a cântaros a manhã toda. E uma parte da tarde também. Tratei do grande mistério da roupa, do almoço e brinquei com o miúdo. Estou uma dona de casa feita:
Mulher, esposa e mãe. Mais um cadinho e apelidam-me do lar enquanto passo a ferro com vestidos que me cobrem até ao pescoço. 
Mal posso esperar

De tarde consegui trabalhar. Assustei-me foi quando 20 minutos depois percebi que o miúdo estava em absoluto silêncio.
Fui ver: roía com toda a força um livro, da Disney com o titulo "Ser Amável".
DEUS NOSSO SENHOR, QUEREM VER QUE ATÉ O HUMORZINHO AZEDO PUXOU A MIM?

É que sinceramente.
Até aceito birras do não comer a sopa, o atraso no caminhar aos 16 meses ou o esmurrar sapatos novos em 30 dias. Mas não perdoo esta falta de respeito para com livros.
Já lhe disse: outra destas, faço-te a trouxa e vais recambiado para os avós.
Pobre livro.

De resto, não fomos caminhar porque estava a chover. Demos, ainda assim, uma volta de carro, sem sair, ao fim da tarde.

E daqui a nada vamos acender a lareira e esparrarmar-nos no sofá enquanto planeamos o que fazer no pátio, desde relva artificial, à mobília e à bacia de plástico que servirá de piscina à criança.
Quando não se tem cão...

Tudo fino desse lado?

 

Dia 17 | 36 de isolamento| 16 de abril
Noite muito, muito mal dormida: desde as duas da manhã até às cinco estive numa espécie de dormitar intermitente.
Horrivel.

Acordei, por isso, com uma enorme dor de cabeça.

As quintas são dias de compras. Há sempre pouca gente quando chego e muita gente quando saio. E carrinhos cheiinhos de compras que engrossam as filas. Acredito que em casa o pessoal duplique o que come e, como tal, duplica o que compra.
Faz sentido, pelo menos.

A dor de cabeça não passou durante compras ou, quando em casa, desinfetei iogurte a iorgurte, banana a banana e o próprio desinfetante. Qualquer dia temos que lavar com sabão o sabão que lavamos.
Oh Deus.

A malfadada dor também não passou durante nem depois de almoço. Resultado: não consegui fazer nada a não ser morrer um bocadinho no sofá.

Vi Friends, no conforto das coisas normais.
[Começa é a ser ridículo o número de vezes que vejo a série].
Há um mínimo.

Comprei um comando de brincar para o miúdo, esperançosa que largasse os a sério.
Claro que sim.
Assim que percebeu que aquilo não faz nada mandou-me brincar eu com ele.
Que bom.

Choveu de forma intermitente, mas a sério, o dia inteiro. Por isso, na hora do lanche fizemos o passeio higiénico de carro.
Em troca fui presenteada pelo mais bonito arco-íris que já vi. E como bónus não vinha colado a uma #hashtag.

Diz que "Não importa a distância que nos separa, se existe um céu que nos une." - Drummond de Andrade.
Na verdade, não sei se acredito muito nisso. Mas as minudências da vida tendem a transformar dias de cinza em 7 cores brilhantes no céu.

Tal qual aqueles instantes em que pai e filho fizeram da cozinha um parque de diversões/cavalitas com gargalhadas infindas à mistura.

 

Dia 18 | 37 de isolamento | 17 de abril
Fomos ao encontro da mamã, a meio caminho, na troca quinzenal de coisas necessárias.
O miúdo deu uns passinhos tímidos à frente dela.
Mas não houve colo nem abraços nem beijos nem outro contacto que não conversa distante.

Desta vez vieram centenas de ovos.
A avó mantém 4 galinhas cujos ovos vai vendendo. Agora fechada em casa os ovos acumulam-se e frustrada ameaçou po-los fora e acabar com as galinhas.
A mamã jurou-lhe que eu tinha uso para todos e trouxe-os. Mais de uma centena de ovos. Nem que nos alimentasse a omeletes os gastava todos. Assim distribuí-os às dúzias pela vizinhança que agradeceu muito pelos ovos das galinhas mais que felizes.
Quebrei foi o isolamento social.

Passei a manhã, portanto, de volta disso, da desinfeção das alfaces, laranjas e limões aos quilos. E morangos, tudo lá de casa.
Claro que os comemos de sobremesa. .
De tarde a criança brindou-me com mais umas caminhadas, agora sozinhinho e com mais confiança (ainda que eu vá atrás a garantir que não se atira. Às vezes dá-se-lhe um ar e atira-se de alto rindo muito quando o apanhamos 🤷‍♀️).

Pensei fazer um bolo para gastar ovos mas lembrei-me do descalabro de açúcar do início da semana e desisti.

Li um bocado (comecei a releitura de "E tudo o vento levou") e ao fim da tarde fomos caminhar no sítio do costume.
Infelizmente, hoje tinha gente e não fizemos o percurso todo.

Trabalhei foi nada que o rapaz açambarcou o escritório em reuniões à distância.
Mas está sol, é sexta feira e vamos jantar panados de frango do campo com ovos de galinhas contentes.
Não vivo na aldeia mas parece.

Está aí alguém?

 

Dia 19 |38 de isolamento | 18 de abril
Limpamos a manhã inteira. Sinto mesmo falta da empregada. O miúdo quer limpar também e anda atrás do aspirador que nem um tolo.
Adiante.

Esteve um sol magnífico mas não saí. Depreendo que hoje toda a gente tenha saído. Porque ontem os números foram animadores, porque estamos fartos, porque sol é sol.
Entendo quem sai e quem não sai. Mas como esta noite tive um pesadelo com o miúdo cheio de febre, a tremer e arroxeado (como quando teve o adenovirus) não quis sair.

Nem a caminhada de 25 minutos diária.
É bem verdade que o medo nos tolhe.

Começamos o tratamento do pátio, agora que o jardim ficou para segundo plano (dói).

Hoje lavamos o muro meeiro. Amanhã pintamo-lo.
Precisamos de relva falsa e plantas e prateleiras e milhentas coisas. Também quero comprar uns baloiços e escorregas para miudos pequeninos. E uma tenda. A ver se encontro à venda online.

Fiz um bolo de maçã e iogurte a meio da tarde, na saga de gastar os ovos. Não segui a receita que aquilo era açúcar e óleo a dar com um pau. Mesmo assim ficou muito bom.
A sério.

A orquídea está linda, linda. E encontrei nas limpezas uma caixinha de música que me ofereceram há anos em Espanha, numa viagem pelo meu aniversário. (É ver o video com som).
Este ano ia comemora-lo com um bom jantar no Naperon.restaurante em Odexeice e uns dias à beira mar. Assim parece-me que vou é festejar em casa, com uma garrafa de vinho para desinfetar por dentro.

É o que é.
Pelo menos já sei qual o bolo que poderei fazer.

 

Dia 20 | 39 de isolamento | 19 de abril
Esteve um dia bonito de primavera.

Lavamos o pátio de manhã. Ou melhor, o homem da casa lavou, a criança estorvou e eu andei no meio dos dois.
Depois colocamos a relva.
O projeto está agora a um terço.

Almoçamos o que era suposto jantar ontem.
Mas depois de um dia cansativo o homem cismou que queria Mcdonalds e mandamos vir.
Não sou apreciadora por aí além e foi chato pela sensação de "será que isto está infetado?"
Mas enfim, dias não são dias.

Depois de almoço ficamos no pátio.
O miúdo demorou a querer pôr as mãos na relva com um ar de absoluto nojo sempre que lhe tocava.
Temos diva, querem ver?

Trabalhei um niquito de tarde e adiantei refeições da semana, que já não posso com cozinhar duas vezes ao dia.
Ainda que a mamã me diga, com ar de espanto: mas para quê comer requentado se podes fazer fresquinho?
Pois

Há no ar uma espécie de sensação de o pior já passou.
Sentem-na?
E mesmo assim hoje não saímos nem temos previsão de o fazer, no meio de polícias a fechar as praias, restaurantes que não abrem e sítios públicos que são agora privados de pessoas. .
Está a passar.
Passará realmente?

 

publicado às 10:30

[para quem quiser saber a explicação deste diário é só clicar aqui]

 

Dia 11 | 30 de isolamento | 9 de abril
Choveu o dia praticamente todo. E durante a noite, que acordei várias vezes.
Ao menos isso.

Fiz pão de manhã.
Percebi que o pão comprado no domingo acabou e não me apeteceu ir à padaria e dar de caras com filas de quilómetros. O pessoal leva demasiado à letra o #vaificartudobem e assume que já está tudo bem.
Olhem que não está.

Pela primeira vez o pão ficou decente.
É mais bolo do que pão, vá, ou pelo menos leva açúcar: mas em tempos de guerra não se limpam armas. Só fornos. E levedou, é o que interessa.
Haja fermento

Almoçamos cachorros quentes que não me apetecia cozinhar.
Bem bom

Não fiz nada de jeito o dia todo, que parece que já é férias. Pelo menos é o que diz a agenda. E o espírito de festividades é enorme.
#not

A  mamã ensinou-me a fazer aletria à distância. E a meio da tarde conseguimos 30 minutos sem chuva para a caminhada diária.
Foi bom

Vou dar banho ao puto e ver se encontro restos no frigorífico para a janta. Por este andar ganho raízes no sofa.
#whocares

Citação do dia: Eu nem sequer gosto de escrever. Acontece-me às vezes estar tão desesperado que me refugio no papel como quem se esconde para chorar. - Eugénio de Andrade

 

Dia 12 | 31 de isolamento | 10 de abril
Começo já por aqui: fiz um ovo/coelho de Páscoa. Ou melhor, o rapaz fez, eu colei e disse umas cem vezes ao miudo para não comer o material.
Gostou muito de mergulhar as mãos em tinta, depois chorou porque não o deixamos lambe-las.
Cheguei ao fim cansada e com as mãos cheias de cola.
Ganhei ainda mais respeito por todas as educadoras deste país. .
Ontem acendemos a lareira.
Li um pedaço, ouvi música e depois adormeci a ver star trek. Valeu pela sensação de conforto e normalidade.

As tradições são para manter por isso hoje almoçamos bacalhau. E à noite vai polvo.
É mais gula do que penitência mas não fui eu que criei a regra.

De manhã comprei pão para a semana toda.
E fomos caminhar 20 minutos.
O miúdo percebe sempre que vamos sair e fica muito feliz. Adoro viver aqui.

Lavei 3 máquinas de roupa (não entendo tanta roupa suja) e de tarde nada de chuva.
Ma-ra-vi-lha.

Foi um bom dia.
Sinto que hoje não há covid que m'aflija.
Vale a pena ser santa a sexta.
Até amanhã.

 

Dia 13 | 32 de isolamento | 11 de abril
Resumo do dia muito resumido: limpei de manhã, cozinhei de tarde.
Sinto-me a escrava Isaura.

Primeiro que limpar aqueles armários da cozinha é uma chatice. Depois é uma sensação estúpida limpar aquilo tudo e passado duas horas o puto sujar com as mãos gordurosas cheias de baba no chão e em todo o lado onde chega.
Dói.

Almoçamos o resto do polvo do jantar de ontem. Não era o da mamã mas escapava bem.
#podiaserpior

Caminhamos depois da sesta dele, no sítio do costume. O rapaz queria ir à praia, farto da paisagem habitual mas regras são regras de maneiras que nicles.

Depois disso vai de cozinhar. Ele é sopa, ele é comidinha pra criança, ele é bolo,
[que a propósito correu mal, é ver os stories enquanto há], ele é cortar, lavar, passar.
Devia chamar-me Maria, está visto.


Esteve sol, nublado, bom tempo e nem por isso. Seja cão se entendo.

Não tenho amêndoas nem ovos de Páscoa. Mas o puto deu mais de 10 passos sozinho hoje.
Umas compensam as outras ;)

Páscoa Feliz minha gente.

 

Dia 14 | 33 de isolamento | 12 de Abril, domingo de Páscoa
[Primeira parte do Diário]
Acordei com alergia. Isso significa que passei o dia todo, incluindo este momento, a espirrar e a assoar o nariz. Já me dói o céu da boca e o peito, para não falar do próprio nariz, quase em carne viva.
Era tudo o que precisava agora.
As desgraças neste tempo não vêm só aos pares.

Fomos caminhar de manhã, deprimidos o suficiente por esta Páscoa sombria. As ruas estavam desertas [imaginar aqui a voz do Espadinha, sff] e os pássaros cantavam mais do que o habitual.
Desfiei memórias de outras Páscoas, mais bonitas e senti uma ligeira dor.
Temperada com espirros, claro está, e lenços.

Almoçamos camarão.
Se é para passarmos por esta bosta durante meses, sem frequentar restaurantes, vamos comer bem em casa enquanto for possível.
E juntei mousse de chocolate ao pão-de-ló enjeitado.

O miúdo dormiu uma sesta anormalmente longa e caminhou algum tempo ligeiramente sozinho.
Depois abriu o ovo e provou uma nesga de chocolate pela primeira vez na sua existência. Gostou mas é, tal como ele, vez única.

Passei o resto da tarde no sofá, a curar a alergia e a soneira provocada pelo antihistaminico.
Estou de mau humor. Apetece-me gritar ao mundo que quero a minha mãe.

Tenho elogiado a atuação dos nossos políticos muito contra alguma opinião. Mas se pudesse dava hoje com um carneiro morto nas trombas da ministra da saúde: não se diz a um povo no dia de Páscoa que esta porcaria pode prolongar-se ad eternum e, quem sabe, nunca mais voltará ao normal.
Isso é o mesmo que dizer aos gauleses que o melhor é suicidarem-se já em vez de combaterem os romanos.

Uma nota positiva: a nossa orquídea oferecida há 5 anos, que nunca floriu desde então, presenteou-nos hoje com flor.
É só uma coisita que não vale nada, eu sei. Mas ajudou mais do que o ovo de chocolate.

 

[Segunda parte]
Ainda mal tinha terminado de escrever a primeira parte do diário de hoje quando em tempo real vi o miúdo cair de cabeça na esquina da mesinha da sala.
Bateu com o sobrolho.
Inchou imenso e fez uma ligeira ferida.

Entrei em pânico.
Pensei que não valia a pena ligar à saude24 que iam demorar meses a atender.
Pois bem, atenderem logo
Quando digo logo é logo.
Muito surpreendida.

Criança está bem e não precisa de ir às urgências.
Só precisa de jantar menos o que vai ser um drama franciscano.
O que não chorou na queda vai chorar pelo prato meio cheio.

Ainda me doi o coração do medo.
E penso o que seria se vivesse num país governado por loucos com o Brasil ou os EUA.
Sinceramente, já não quero mandar com um carneiro morto em ninguém.
Bem, talvez na mesa, mas isso não conta.

Não ganhei para o susto.
E continuo a espirrar mas agora o ranho confunde-se com o choro.

 

Dia 14 e 15 | 33 e 34 de isolamento| 13 e 14 de abril*
Demasiado lixada ontem para fazer diário. Na verdade, se pudesse passava-lhe uma esponja por cima.
Presumo que seja normal, em tempos destes, esta dualidade de emoções e dias negros.
Ontem foi o meu.

Para compensar rapaz saiu a comprar meio quilo de mimo na pastelaria melhor cá do sítio.
Não era um bem de primeira necessidade. #safodrique
Crucifiquem-no.

Mais bem disposta hoje.
Fomos à praia de manhã cedinho.
Caminhamos 15 minutos e encontramos 5 pessoas e 3 cães. Querem ver que os cães podem passear e eu não?

Além disso, segundo os entendidos, se toda a gente usar máscaras ficamos protegidíssimos por isso #nadaatemer

De tarde montei o estandarte no pátio e passamos duas horas, eu e o puto, a brincar à sombra com a brisa quente.
O rapaz açambarcou novamente o escritório para dar aulas remotas e a alternativa era trabalhar na sala enquanto ouvia o bando dos amiguinhos a ir acampar, ou a fazer bolo de cenoura. #dispenso
Os clientes também estão em casa e estão, por isso...

Os meus chinelos novos chegaram. E a minha melhor amiga (piroso ter uma aos 32 anos mas é mais triste quem não tem nenhuma) mandou-me álcool gel sem ser necessário vender a casa para o pagar.
Agora é só transformar umas meias velhas em máscaras et voilá: #deusnocomando

Estou azeda.
Podemos estar azedos no instagram?
Vou ali comer bolo (acaba-se o bicho, acaba-se a peçonha). De qualquer das formas vamos sair disto falidos, com o cabelo mal cortado e mentalmente instáveis.
Acho que mais gordo, menos gordo... não virá daí mal ao mundo.

* percebi agora que me enganei na numeração dos dias. não era 14 e 15 mas 15 e 16. no entanto, para manter a uniformidade da coisa fica assim na mesma. que falta de profissionalismo.

publicado às 10:30

Quarentena | O diário de #6 a #10

por M.J., em 05.05.20

[para quem quiser saber a explicação deste diário é só clicar aqui]

 

Dia 6 | 25 de isolamento | 4 de abril

Comecei o dia a regar plantas. As suculentas cresceram de forma estranha e acho que é por estarem dentro de casa.
Se calhar vão para a rua outra vez.

Limpei a manhã toda.
Irra.
Dei cabo das mãos com lixívia e misturei-a com um produto qualquer que não devia.
Ficou um cheiro estranho.

Percebi que tenho mais produtos de limpeza que comida na despensa.
Casa pobre mas limpa, não é o lema?

A sala ficou arrumadinha até o miúdo vir da sesta. Meia hora depois e isto estava um pandemónio. Há fotos do antes e depois. É só ver para me dar razão. .
De qualquer das formas teve direito a mimo por uma hora: colo, chupeta e tv. Como prenda caminhou 5 passos sozinho. Não consegui tirar foto: estava atrás dele para o segurar.

Caminhei 10 minutos: telefonaram-me e não se ouvia nada com a ventania. Voltei para casa. Mesmo com vento fabuloso.
Quando entrei vi passar um carro da polícia com a frase "fique em casa".

Esteve cinzento o dia inteiro.
É sábado.
Costumávamos tomar o pequeno-almoço almoço na praia, ou o café depois de almoço. Hoje tomamos em casa, mas brindei-nos com chocolate.

Fiz croché ao fim da tarde porque não sabia mais o que fazer.
Ainda não limpei o exaustor.

O gato da vizinha fez-nos uma visita.
Lavei 3 máquinas de roupa. Está toda seca mas por dobrar. Talvez passe alguma em agosto.
E vocês?

Música do dia: "ainda não acabei" de Manel Cruz.

 

Dia 7 e 8 | 26 e 27 de isolamento | 5 e 6 de abril
Ontem fomos comprar pão de manhã. E outras coisas que o colesterol gosta e que servi de almoço com sopa. Não havia vivalma na pastelaria.

Choveu o dia todo. Hoje choveu até meio da tarde. Não custa nada estar em casa com chuva. Pelo menos para mim.

Li parte do segundo livro de Os Jogos da Fome.
O miúdo encontrou-o em cima do sofá e mordeu-lhe a capa. Lindo serviço num livro que não é meu.

Comecei a ver Peaky Blinders e quase acabei a primeira temporada. Bastante boa. Adoro aquele sotaque cerrado.

Não fiz grande coisa no domingo. Nem hoje. Trabalhei de manhã mas está tudo muito calmo. Reparei que a agenda está vazia desde meados do mês passado
Reflexos do tempo.

O miúdo andou a desfazer brinquedos. Agora está ali molengo. A chuva faz disto.

Caminhamos 15 minutos no sítio do costume. Vimos uma família ao longe e um cão fez-nos companhia durante um bocado.

Temos uma infestação de caracóis que aparecem no não-jardim sempre que chove. Ontem o rapaz sacou do veneno e fez um holocausto. Há cascas por todo lado. #nojo.

O kobo chegou hoje e passei meia tarde e organizar ebooks. Alguém tem algum para a troca?

Vou cozinhar daqui a nada e pôr o miúdo a dormir (que, a propósito, descobriu recentemente vários tipos de choro: o guinchado, o com balbuciamento "nanananananana" e o buaaaaaaaaaa literal).

Daqui a nada é Páscoa e ainda não comi amêndoas.
Que soneira.

Aposto que no meio das vossas quarentenas ninguém matou caracóis.

Hoje não há música mas citação:
“Os dias terríveis são, afinal, vésperas de dias admiráveis." Almada Negreiros.

 

Dia 9 | 28 de isolamento | 7 de abril
Choveu a manhã inteira. De tarde esteve sol. O tempo está tão bipolar como eu.

Já não posso com o bando dos amiguinhos da BabyTv. O miúdo quer ver aquilo em loop e tenho para mim que os bonecos são atrasados cognitivamente.

Além disso, tira tudo o que seja almofadas do sofá, junta os tapetes todos que consegue num monte e sujou os vidros com aquelas mãos gorduchas cheias de baba.
Arre.

Praticamente mal vejo o rapaz que tem um prazo qualquer para hoje e está trancado no escritório noite e dia. Sinto-me mãe solteira excepto na hora das refeições que ele vem ao cheiro da comida.

Trabalhei na sala. Lavei uma máquina de roupa (mistério como se suja tanta roupa nesta casa) e fomos varridos a massa com atum ao almoço.

Caminhei 5 minutos até começar a chuviscar.

O rapaz ofereceu-me um rato. O desgraçado muda de cor e faz doer os olhos.

Blindamos o andar de cima à prova da criança. Agora só falta fazer o mesmo às sardaniscas que encontrei na entrada.
Isto mais parece uma quinta.

Estou em casa e farta de pessoas. Se vejo mais alguém a agradecer merdas como estar vivo pergunto se o vírus também não é de agradecer. Qual é a paranóia do pessoal querer sentir-se muito grato e em dívida ao universo por esta situação merdosa?

Citação do dia: estar vivo é o contrário de estar morto de Lili Caneças.

 

Dia 10 | 29 de isolamento | 8 de abril
Tive de ir comprar fruta. Não sei o que acontece com a fruta que apesar de comprar imensa não dura nada.
Havia muita gente na estrada e mais ainda no supermercado. Quando entrei nada de filas, quando saí a fila para entrar chegava ao parque de estacionamento.
Haja paciência.

Vi dezenas de pessoas com máscaras. Não achava mal se as soubessem usar. O tempo que perdem obcecados com "NÃO HÁ MÁSCARAS, VAMOS TODOS MORRER, VOU USAR PAPEL HIGIÉNICO PARA FAZER UMA" podiam consultar o amigo google para saber como se usa.
Não ponham a desgraçada debaixo do nariz.
E enfiem as mãos noutro sítio qualquer que não a fuça, pá.

Quando cheguei estava irritada com o mundo. E comigo: esqueci ambientador para o wc e trouxe mais chocolate.
Sinceramente.

Caminhei um bocado mas, como nos últimos dias, começou a chover mal subimos a rua.
É o são Pedro a gozar comigo. 

Filho da mãe.

O puto acordou da sesta mal humorado. Fez uma birra de tal forma que apeteceu-me ir comprar tabaco. Depois lembrei-me que ia ver gente a usar mal a máscara e desisti.

Acabei a tarde a rodar as caixas de música cá de casa. Acalmou a mim e à criança. 


A ver se logo leio um pedaço. Com o kobo deixei de ter 30 livros em lista de espera para passar a ter 200.
Atrasada

Citação do dia: Não, eu não odeio as pessoas. Só prefiro quando elas não estão por perto.
Charles Bukowski

publicado às 10:30

Quarentena | O diário de #1 a #5

por M.J., em 04.05.20

bem sei que não se deve repetir conteúdo em várias redes sociais. no meu caso então, que as pessoas são as mesmas em quase todas as plataformas, é um bocado parvo.

mas este blog acompanha-me há muitos, muitos anos.

gosto dele.

é um pedacinho de casa. e por isso, mesmo contra as regras, decidi passar para ele o diário que fiz no instagram (e automaticamente no facebook) desta quarentena, ou isolamento, ou o que quiserem chamar. 

o objetivo era escrever aqui mas acabei por me render ao instagram. porque é mais fácil, mais rápido, a interação é maior. 

este blog é como a minha casa de infância, onde permaneço e fico no meu quarto, devidamente arrumado e limpo pela mamã, exatamente como o deixei, à minha espera para sempre.

as redes sociais são as casas onde vou passando e vivendo, sabendo ainda assim, do que me espera no lar da minha infância.

 

o diário fica aqui, para aqueles que apenas estão comigo nesta casa de infância.

para aqueles que desde o início entram aqui, pela porta de entrada, e se sentam numa das mesas à espera do café e da jola, jogando à sueca ao lado da janela.

[já se quiserem ver as fotos dos dias vão mesmo ter de passar pelo instagram. basta clicar em cima dos títulos].

 

#1 | Dia 20 de isolamento | 30 de março

Decidi escrever um diário enquanto olhava para uma parede.
Por pura necessidade, caminhei na estrada deserta perto de casa. Não vi ninguém. Apanhei vento e vi uma joaninha.
Quando cheguei olhei 10 minutos para o jardim que não é jardim. Tínhamos decidido fazê-lo em março. Adiou-se.
Usei bifes de peru, esquecidos no congelador, para o almoço. Falei com uma das poucas pessoas que amo no mundo e que continua a dar o corpo às balas naqueles que são atualmente os heróis nacionais.
Tentei ensinar, mais uma vez, o miúdo a caminhar sozinho. Decidi fazer um bolo, que ainda não fiz, e criei uma lista das coisas a fazer nos próximos tempos e que inclui limpar o exaustor, passar roupa que está no cesto desde dezembro, mandar vir o kobo e fazer um album online para a mamã.
Esforcei-me muito para não deprimir. 
Escolhi como música do dia: distance, de Norma Winstone.

 

Dia 2 | 21 de isolamento| 31 de março
Os senhores da Auchan não entregaram metade das coisas que comprei online. Não só esperei horas para entrar no site, como só recebi metade. Cancelei a outra compra.  Não é possível que não haja qualquer tipo de porco ou de peixe que encomendei. Nem chocolate. E nem sequer ligaram a avisar que se iam atrasar na entrega um dia. Recomendo zero. 
Muito chateada por isso. Amanhã preciso de ir às compras ao continente.
Arre.
Em contrapartida comprei o kobo na fnac. Se me enviam só metade do dito não respondo por mim.
Criança tem um dente de trás a nascer. Com tal força que fez uma espécie de afta. Está rabugento e deixo-o ver TV. Eu também estaria se tivesse uma cratera nas gengivas.
Choveu a manhã toda e a tarde vai pelo mesmo caminho.
Afinal não passei a ferro roupa nenhuma. Nem limpei o exaustor ou os rodapés. Mas fiz o bolo e uma lista de todas as coisas do trabalho da empresa que sempre fui adiando por falta de tempo.
E fui procurar o croché que fazia antes para retomar.
Estar parada é que não.
As flores que trouxe à coisa de um mês de casa da mamã estão a morrer e dei comigo a chorar por isso.
Não perguntem.
Falei meia hora com ela ao telemóvel, a rir muito e cheia de força. Expliquei-lhe (mais a mim do que a ela, mas enfim) que era impossível estarmos juntos agora. Custa-lhe sobretudo pelo miúdo, nesta fase que passa tão rápido e que ela está a perder. Mas é isso ou perder todas as outras fases futuras.
Não se arrisca.
Fiquem em casa. Está chuva e frio, não vale a pena sair. E ouçam boa música.
A de hoje é “fim do Céu” dos Quinta do Bill com letra de José Luís Peixoto. 
Se isso não vos der asas à alma não sei o que pode dar.

 

Dia 3 | 22 de isolamento | 1 de abril
Ora então fui às compras de manhã. Estava sol, não havia gente na rua e até cantei com a rádio.A pensar encontrar a III Guerra Mundial no Continente tal como da última vez, fiquei surpreendida: pouquíssima gente, sem filas no talho ou na peixaria, sem encontrões nos frescos e legumes, com tudo nas prateleiras e sem aumentos de preço. E funcionárias a desinfetar as mãos entre cada cliente.
Além disso pairava um ar de “normalidade”. Música, pessoas a rir, gente a trabalhar.
Quando passamos tanto tempo em casa a ouvir notícias, sem sair para nada tendemos a achar que o mundo está numa redoma de medo e foi muito satisfatório perceber que há normalidade mais não seja no supermercado.
Comprei um ovo de Páscoa da kinder para o miúdo (é para nós, mas temos de tirar a foto da praxe) e ovinhos de chocolate, só para lembrar a época.
Não há padre nem encontros de família mas seja cão se não há chocolates e flores.
Almoçamos salmão, para tirar a barriga de miséria, e como esteve sol acabei por lavar roupa. Enquanto a estendia o miúdo arrancou erva que tentou comer, foi a gatinhar até ao fundo do pátio para tentar lamber uma pedra e atirou uma bola para debaixo do carro.
Ontem à noite adormecemos enquanto víamos episódios antigos de star trek. Mais uma vez não li nada. E ainda tenho a roupa à espera de ser passada.
Queria muito escrever no blog mas o sapo está a precisar de uma boa app para isso. Fica a dica.
Dizem que estamos a conseguir achatar a curva e que as escolas provavelmente não vão abrir este ano. 
Tenho saudades da educadora do meu filho, de ir almoçar fora e tomar café na Praia da Barra. E dava o dedo mindinho para passar uma tarde na Costa Nova com o miúdo na relva e a brisa com cheiro a mar.
Como tenho os dedos todos não há hipótese que não seja ficar em casa.
E ouvir música a sério. 
Hoje Mad World na versão dos  Imagine Dragons. 

 

Dia 4 | 23 de isolamento | 2 de abril
Finalmente consegui voltar a trabalhar no escritório depois do rapaz ter monopolizado o mesmo para as aulas remotas.
Trabalhar na sala não é a mesma coisa e não sei como é que o pessoal consegue passar o dia a trabalhar no sofá com o pc no colo. Ficava torta das costas e visgarolha.
Esteve um sol magnífico o dia todo. O miúdo já caminha apoiado apenas por uma mão. Viva. Além disso, agarra-se ao andador e vai para todo o lado. Quando ele caminhar vamos ter de mudar a casa toda ou muda-a ele.
Almoçamos enquanto ele dormia e comemos de sobremesa os morangos que comprei ontem. Não dava 5 vinténs por eles e foram os melhores que já comi este ano. Vá-se lá entender.
Decidimos tirar as alianças dos dedos, não por divórcio mas para evitar potenciais alojamentos do bicho mau que anda por aí. Agora, de vez em quando, percebo que tenho o tique de rodar a aliança porque vou com as mãos ao dedo e está nu. Não gosto da sensação.
Fomos caminhar 15 minutos depois do lanche. Eu e o miúdo. Vimos um cavalo e a primavera, ambos indiferentes ao mundo de pernas para o ar.
De manhã estive a fazer uma colagem de fotos para dar à mamã. Estamos a rir em quase todas. Já quase esqueci da sensação de estarmos em público sem sentir que somos uma potencial ameaça. E ali estávamos, juntos em restaurantes e na praia, sem medo e sem dar valor algum a esse dado adquirido.
Voltaremos a ir despreocupadamente ou olharemos sempre pelo ombro, incapazes de um abraço?
Música do dia: Lullaby Love de Roo Panes.

 

Dia 5 | 24 isolamento | 3 de abril
5 dias deste diário que não interessa a ninguém.
De manhã fomos ter com a mamã: encontramo-nos a meio caminho, eu saí, abri a mala do carro dela, retirei as coisas que lá estavam, coloquei as coisas que levava para ela, entrei dentro do carro, fizemos inversão de marcha e voltamos.
Comigo a chorar o caminho todo.
Quando cheguei desinfetei as coisas sentindo vergonha de mim própria. E culpa. Desinfetar as coisas que a mamã me deu com amor?
Não consigo evitar uma dor profunda por isso.
Deixei-lhe uma montagem de fotos num quadro de cortiça com a mão do miudo pintada.
Em troca temos jarros na sala, carne fresca, laranjas e limões.
E chocolates.
O miúdo dormiu uma sesta anormalmente longa, das 12.30 às 16.00. Aproveitei para trabalhar. Agora anda elétrico a mexer em tudo. Parece que os legos crescem cá em casa.
Caminhei 15 minutos no caminho do costume. A meio lembrei-me de umas flores amarelas, silvestres que apanhava na infância. Chamávamo-las de pão com queijo. Gostava tanto delas que a mamã colocou umas quantas num vaso para mim há uns anos.
Quando isto acabar vou plantar várias no jardim.
Para desanuviar passei a ferro, finalmente, as toalhas e individuais que estavam no cesto desde dezembro.
Não ficou lá grande coisa. Paciência.

Música do dia: Deolinda de Jesus na versão de Isabel Silvestre .
Estou aqui.
Alguém aí?

 

[amanhã sai o diário de #6 a #10. Se tiverem muita curiosidade, já sabem onde está. até amanhã].

publicado às 10:25

ainda não chegamos a meio...

mas lá chegaremos.

por M.J., em 26.03.20

ontem recusei-me a ver notícias depois do almoço.

sinceramente uma pessoa deixa de conseguir aguentar o bombardeamento diário de más notícias. há um nível que se consegue absorver, depois deixa de ser possível sobretudo quando a única ação a tomar é sentar-nos e esperar.

 

não consigo mais com o bombardeamento de coisas más.

há uma qualquer morbidez doentia do universo que nos atira à cara, constantemente, mortos, feridos, doentes, fome, crise, gente com medo, gente com muito medo, gente a morrer de medo.

e há um limite para o que conseguimos assimilar até o cérebro desligar por pura proteção.

 

cada um se queixa do que sente e do que lhe dói.

e todas as queixas são válidas. não há umas mais válidas do que outras porque só quem está no convento sabe o que lá vai dentro e, neste momento, estamos todos lá enfiados, proibidos de sair num voto de isolamento qualquer. 

e a maioria de nós não sabe ou não quer rezar. 

é isto.

 

não vi notícias.

estamos todos pendentes, numa espera qualquer que nos vai levar a algum lado ainda que o lado, visto rudemente, pareça a bancarrota.

mas não pode ser de outra forma, porque o outro lado é a morte. e morrer é fodido, já sabemos. da bancarrota podemos erguer-nos, já da morte, meu amigos, nem para quem acredita em deus há salvação.

em alturas de páscoa, só um ressuscita e foi só uma vez.

 
 
 
 
 
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Hoje pela primeira vez desde que isto começou (e ainda foi há tempo nenhum) acordei assustada, cansada e sem paciência. As dúvidas do amanhã são imensas. Mesmo que o pior se evite (e duvido disso) que a pandemia se controle... que será de nós depois? Quantas empresas vão falir? Economicamente como sobrevive um país que para? Como pode haver dinheiro para medidas sociais se as empresas não laboram e não podem pagar impostos? . . A claustrofobia dos meus pensamentos aliada a um bebé que não pára e não deixa pensar obrigaram-me a sair ao sítio onde nunca anda ninguém. . O vento na cara fez milagres. E depois o altruísmo da @carmencjp fez-se sentir e sempre a um metro de distância veio trazer-me legumes que tinha a mais e pão caseiro que fez... com luvas. E uma flor. . E as lágrimas de medo transformaram-se em lágrimas de comoção, de agradecimento e de esperança. . Todos juntos, nos pequenos gestos, nas pequenas coisas, ultrapassamos isto. ❤❤ As, e se ansiedade vos consumir e tiverem mesmo de sair escolham sítios isolados. A quarentena vai durar muito. Demasiado tempo. Não aguentamos todos fechados meses. É preciso apanhar ar nem que seja dentro do carro, sem sair, com as janelas abertas. #altruimo #amizades #amizade #obrigada #agradecer #ansiedades #eagoraseila #legumes #covid

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apetecia-me gritar muito alto.

temos tendência a querer culpar e/ou ser o outro porque não sabemos fazer de outra maneira.

quem trabalha quer ficar em casa, quem está em casa quer ir trabalhar.

quem vai passear o cão queria ir às compras, quem vai às compras queria estar em casa, quem está em casa queria ir passear o cão.

 
 
 
 
 
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São permitidos pequenos passeios higiénicos. Nós fazemos 25 minutos diários num sítio sem ninguém. . Lembrem-se: 15 dias de recolhimento não são 15 dias de vacinas. Isto não vai ficar tudo bem daqui a 15 dias. A cura não vai chegar em 15 dias. Não vamos todos abraçar-nos em 15 dias. | Vai durar muito. Vão ser meses. Muitos. Cabe a nós adaptar-nos, adquirir resiliência e não achar que a culpa é dos outros, é aos outros que cabe fazer algo, são os outros que precisam de acabar com isto. | Os outros somos nós. Não desesperem, tentem ficar em casa, se puderem, e preparem-se lentamente para uma longa batalha que, felizmente, podem combater no conforto do sofá. | Um dia de cada vez com os olhos no dia de amanhã, deve ser o lema. E falemos. Convivamos digitalmente para que a solidão não nos consuma. Estamos-todos-ao-mesmo. . . . #coronavirus #covid #covid19 #pandemia #pandemic #isolamentosocial #fiqueemcasa #stayathome #ficaemcasa #ficaemcasacaralho #liberdade #resiliencia #paciencia #adaptar #adaptação

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todos opinam porque, sejamos francos, não há mais nada a fazer.

já se fez pão, já se fez bolos, já se desenharam arco-íris. já vimos diretos no instagram (há mais diretos do que gente para os ver), já vimos o rodrigo guedes de carvalho a falar grosso e dar sermão. já vimos o bento rodrigues a quase implorar-nos para ficar em casa. já limpamos e desarrumamos a casa. já saímos com e sem máscara. já dormimos tudo o que estava em falta ou não dormimos nada. já fizemos tudo e não resta grande coisa a não ser opinar.

isso e rezar.

e engordar.

ou emagrecer se for o caso de não haver dinheiro para comprar comida.

 

opinamos porque caso contrário morremos sufocados.

e portanto, a culpa é do governo, a culpa é da china, a culpa é do vizinho, a culpa é dos cães, a culpa é dos velhos, a culpa é nossa.

e já ninguém aguenta com esta merda porque não fomos ensinados a aguentar tal coisa.

e ninguém aprende como viver numa pandemia de uma quarta para uma sexta. é impossível.

 

não sei como é que se estão a aguentar desse lado.

espero que minimamente bem.

que não percam a sanidade mental ou a perspetiva. que não caiam na angústia de sentir que isto é para sempre porque não é.

ou que achem que daqui a uma semana está tudo resolvido porque não está.

 

espero que não romantizem esta merda.

não tem nada de romântico. nem de bom. que não se encham de ideias que é fixe para o crescimento pessoal, para aprenderem a ser melhores ou para valorizarem um cu limpo.

isto não é romântico, nem belo, nem tem assim tanta coisa positiva.

 
 
 
 
 
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Há dias em que parece que não vai nada ficar tudo bem. Na verdade, acredito que apenas vai ficar mais ou menos. É o que é. Se assim for já não é mau. | Há uma semana que acordo às seis da manhã e não consigo dormir. Encontrei um canal de YouTube que me ajuda a "readormecer": é de uma senhora, dos seus sessenta e muito, portuguesa do norte, que se filma a fazer receitas e a mostrar as coisas que gosta: toalhas de renda, louça, flores. Ouvir a senhora, em videos de baixa qualidade, cheia de orgulho nas suas coisas hipnotiza-me. É como se a sensação de irrealidade de tudo isto viesse ao de cima e eu volto ao sono porque só podemos estar a sonhar. | Não sei qual o vosso estado de espírito. Depreendo que se forem pessoas normais não estejam lá muito felizes ou tranquilas ou satisfeitas. Vamos apenas estando, não é? Vamos indo, vamos vendo, vamos estando. . . . . . #coronavirus #covid #covid19 #covid_19 #quarentena #isolamentosocial #isolamento #resiliencia #medo #estadodeemergencia #estadodeespirito #pensamentos

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mas para sobreviver, que é disso que se trata, é importante que não nos afundemos em considerações de horror. é importante que ainda sejamos nós e que, para isso, tenhamos a capacidade de  ver uma coisa bonita, sentir algo que nos faz bem ou soltar uma gargalhada. 

 

porque quando isto acabar - e vai acabar - temos de continuar na vida. os que estiverem vivos, claro está.

temos de erguer as mangas e prosseguir.

temos de sair das nossas casas, outra vez, e enfrentar o trânsito, o desemprego, a necessidade de não desistir e viver de cabeça erguida.

já o fizemos antes. vamos fazê-lo depois.

 

até lá precisamos de três coisas:

  1. manter-nos vivos;
  2. manter-fisicamente sãos;
  3. manter-nos mentalmente sãos. 

façamos para isso o que precisarmos, dentro das contingências que temos.

eu estou aqui para algum de vós, se vos puder ajudar. 

 

 
 
 
 
 
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Hoje só tiro fotos de coisas bonitas. Só falo de coisas bonitas. Esqueçamos por segundos o medo: vamos olhar uma flor. Esqueçamos por segundos a angústia: vamos sorrir com uma joaninha que apareceu no meu quintal. Esqueçamos por segundos a impotência: vamos saborear uma fatia de bolo de laranja acompanhado de um café. | Um dia de cada vez, não esqueçam. Em casa, um dia de cada vez o melhor possível, da melhor forma. | E a primavera chegou. Apesar de tudo chegou. Não esqueçam: #estamostodosaomesmo . . . . . #flores🌸 #flores #flowers #orquideas #orquídea #orquidea #joaninha #joaninhavoavoa #cafe #coffeetime #cafezinho #cafe☕ #bolo #bolodelaranja #bolocaseiro #covid19 #quarentena #esperança #resiliencia #positivevibes #umdiadecadavez #aveiro #fiqueemcasa #stayathome #primavera🌸

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corona compras

por M.J., em 17.03.20

fui hoje às compras. tinha mesmo de ser.

saí cedo, de máscara (que tinha de quando estava grávida e tive uma alergia imensa ao pó) e luvas, como convém em fase de mitigação. 

à entrada do continente ainda não havia fila. os seguranças organizavam a coisa de maneira a que não se verificasse multidões lá dentro. 

quando entrei senti-me numa espécie de "isto é o fim, comprem tudo o que puderem".

algumas pessoas usavam máscaras e luvas. outras nem por isso. comprei alguns legumes e frutas que precisava. quando fui à secção da carne e peixe havia gente aos magotes. senti-me na feira, em criança, em frente aos senhores que vendiam bacalhau barato. 

não tirei senha nem fiquei por ali.

 

a maior parte das pessoas colocava coisas indiscriminadamente nos carrinhos. encontrei-me várias vezes com uma senhora que, com ar atarantado e em jeito de missão, praticamente corria por todos os corredores, atirando coisas para um carro e um cesto. 

não sei se é paranóia, se é segurança. 

 

vamos às compras como quem vai a uma espécie de batalha campal só que o inimigo é invisível. temos medo de algo, que sabemos que anda no ar e no meio de todos nós, mas precisamos, inevitavelmente, de trazer coisas que podem ter o inimigo nelas. 

comprei mais chocolates e bolachas do que o que tinha planeado mas já verificamos que nesta fase é algo que nos conforta. é estúpido e talvez tente compensar na elíptica. no entanto, quando a ansiedade surge e a paciência foge, um quadrado de chocolate faz milagres. 

gorda por cem, gorda por mil.

 

não coloquei as mãos na cara uma única vez. mas senti mil comichões, mil vontades de coçar os olhos e um ligeiro pânico quando a máscara parecia escorregar. 

é só desagradável. 

encontrei também pessoas que caminhavam com toda a tranquilidade e ar de "vocês são muita parvos". na sua maioria eram mais velhos. talvez quem sobreviveu a uma revolução com  flores ache que está safo de um inimigo que não vê.

a maioria dos idosos andava por ali totalmente desprotegida. tive muita vontade de lhes pedir para irem para casa, o mais rápido possível. depois pensei que provavelmente não tinham outra opção. ou não sabiam. ou não queriam saber.

quantos irão precisar de ventiladores que não temos?

 

vi gente jovem a comprar muita coisa. pessoas que normalmente não vejo em supermercados. assumi que algumas estavam a comprar coisas para vizinhos e familiares mais velhos.

sobretudo quando um carrinho empurrado por um moço com vinte e poucos anos estavam pensos para incontinência.

 

não comprei carne nem peixe.

a mamã assegura-me carne porque continua a haver animais lá por casa. peixe, paciência, não temos nenhum aquário e não sei pescar. ficar numa fila horas é que não. não agora. mas comprei iogurtes e vegetais e produtos de limpeza em falta.

 

quando cheguei à caixa nenhuma funcionária tinha máscara.

trabalhavam de luvas mas nãos servia para nada. a maioria punha as mãos na cara. fosse para coçar uma comichão, tirar o cabelo da frente dos olhos ou outra coisa qualquer. 

a senhora da caixa onde fui pediu várias vezes desculpas por estar a demorar, mas aquela não era a função dela. disse-lhe que não tinha que pedir desculpas nenhumas. evidentemente. quis dizer-lhe que eu é que lhe devia pedir desculpas porque a minha necessidade colocava-a a ela em risco. não vamos todos morrer, é certo, ou sequer sentir mais que uma ligeira gripe. mas quem sabe se ela terá as complicações que nos assustam a todos? quem sabe se não sou eu agora infetada, sem saber, e a causar-lhe essas potenciais complicações no futuro?

uma merda.

 

na caixa do lado um senhor reclamava porque a funcionária estava a demorar. tive vontade de mandá-lo para o caralho, em alto e bom som, mas isso ia aumentar a nossa "estadia" no local e não é recomendado.

as pessoas são absolutamente sem noção.

 

na fila para as caixas disse a um idoso para passar à minha frente. um homem, atrás de mim, resmungou que cada um devia ir na sua vez. apeteceu-me muito mandá-lo reclamar na cona da tia mas percebi que isso ia também aumentar o tempo que lá estávamos. e não é recomendado. 

 

quando cheguei ao carro, senti que tinha passado por algo muito estranho.

algo novo.

algo mau.

em casa tomei banho, desinfetei tudo e pus a roupa para lavar. mas apetecia-me mesmo tomar banho em lixívia e nunca mais passar por semelhante coisa.

 

por mais que não entenda o açambarcamento das pessoas percebo, ainda assim, a vontade de comprar. a vontade de correr ao supermercado. no meio do medo, da impotência, da incerteza estes atos permitem às pessoas uma falsa sensação de controlo. de sentir que de alguma forma estão a fazer algo. porque é difícil só esperar. só permanecer e aguardar. por isso vão. e compram. porque nunca se sabe e o seguro morreu de velho. e cautela e caldos de galinha nunca fizeram mal a ninguém. e mais vale prevenir que remediar. e no meio disto tudo compra-se e compra-se e compra-se e esquece-se de quem não pode fazê-lo agora. e de quem chega ao supermercado e encontra os produtos mais baratos esgotados. e não tem dinheiro para os mais caros.

as pessoas esquecem-se ou fingem que não se lembram. 

e há algo que me espanta: de onde surgiu tanto dinheiro, de repente, para o supermercado? estamos a meio do mês. nesta altura muitas famílias já estariam à espera do dia 30 para as compras mensais. mas vemos carros e carros de coisas. o pessoal anda a contrair créditos para comprar bens que não precisa? ou foram às poupanças das férias para açambarcar papel higiénico?

 

tenho tido muita vontade de dizer palavrões.

e partir coisas.

não estou em posição de me poder queixar. podemos estar os três em casa. conseguimos trabalhar os dois. nenhum de nós está no grupo de risco e nenhum de nós sai de casa a não ser para o absolutamente necessário. mas tudo isto é claustrofóbico, causa medo, insegurança e impotência.

 

vai passar, sabemos que sim. 

até lá há que viver com calma. um dia de cada vez. mesmo que as urgências pediátricas de aveiro tenham fechado e estejamos com medo. mesmo que uma empresa que levou tanto tempo e esforço a criar e implementar não aguente mais do que seis meses sem clientes. mesmo que tenhamos familiares em grupos de risco e que precisam de continuar a sair de casa.

vamos ver. 

é isso, não é?

vamos ver.

e então? que têm feito?

por M.J., em 16.03.20

apanhado muito sol à varanda?

comido muito bolo?

ido a vários supermercados restabelecer o stock de papel higiénico?

 

eu por cá tenho desesperado.

já me tinha esquecido como pode ser exigente ter um puto em casa, sobretudo um que passou a fase do "vamos dormir todo o dia" e "até me entretenho aqui sozinho" para "espera, não vais mijar sozinha porque eu vou berrar até o vizinho chamar a CPCJ".

 

acho que se isto fosse uma guerra oferecia-me para soldado.

no quarto dia de confinamento.

 

meus senhores:

acho que mais rapidamente muro da cura do que da doença.

blogs em tempo de coronavírus

por M.J., em 13.03.20

então é o seguinte:

vamos estar todos em casa.

aqui já estamos, os 3, com um miúdo que não para 2 minutos. decidimos turnos para cada um poder trabalhar. não vamos sair a não ser para o estritamente necessário. ou simplesmente dar uma volta de carro, sem sair, apenas para lavar as vistas.

a situação é grave.

muito mais do que a maioria de nós podia prever.

ainda que 80% de nós vá sentir pouco mais do que uma ligeira gripe, 10%, no mínimo, vão precisar de cuidados de saúde sérios. o nossos SNS não consegue suportar 10% de nós ao mesmo tempo, a precisar de cuidados de saúde sérios.

temos por isso de conter a coisa.

de não ficarmos todos doentes ao mesmo tempo.

o sacrificio que nos pedem não é assim tão grande.

quantas vezes dissemos "ai quem me dera estar em casa o dia todo?", "quem me dera ter tempo para os meus filhos?", "quem me dera poder arrumar o armário e limpar atrás do fogão?".

é agora.

temos tempo para isso.

fiquemos em casa, portanto.

façamos a nossa parte. 

é tempo de ver as séries em lista de espera, de ler os livros da prateleira, de trabalhar por teletrabalho (eu faço-o há anos, é possível, a sério), de pôr em curso aquele projeto de arrumar o quarto, aprender costura por youtube ou jogar aquele jogo da PS4 à espera há meses.

podemos todos contactar uns com outros pelas redes sociais. há dezenas de formas. tudo gratuito.

voltemos ao blogues, todos ao mesmo tempo. vamos encher as caixas de comentários outra vez. gritar uns com os outros, online, se for preciso, para falarmos serenamente com as pessoas que convivemos cá em casa.

vai correr tudo bem se todos fizermos a nossa parte.

 

eu estou aqui.

pronta a escrever mais.

a entreter-vos também, como em outros tempos. a relatar-vos a nosso dia a dia, de 2 adultos e um bebé de 15 meses, fechados em casa, os dois com trabalhos pendentes e ele com bichos carpinteiros no rabo. 

estou também no instagram (com quem falo com muita gente, acho fabuloso para isso).

 

estamos todos à distância de nada.

vamos aproveitar isso?


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e agora dá aqui uma olhada