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da fotografia

por M.J., em 10.12.19

quando eu tinha 4 anos, o meu único tio materno casou-se e eu fui a menina das alianças.

foi o evento familiar do ano. compraram-me um vestido idêntico ao noiva, levaram-me ao cabeleireiro e fizeram-me um intrincado carrapito na cabeça (chamado ternu) com flores minúsculas brancas a imitar rosas.

adivinho a alegria e o orgulho da mamã.

no entanto, no meio de tanto preparativo e animação, ninguém me avisou para o facto de ter de subir ao altar sozinha e, pior do que isso, ter de entregar as alianças que carregava com toda a responsabilidade, ao senhor padre.

pelo que, a meio da cerimónia, desatei num pranto inigualável, aparecendo depois, como é evidente, a chorar, de beiço, com lágrimas, despenteada e vermelha em todas as fotografias seguintes. e mesmo no fim da cerimónia, ainda estava a M.J. em prantos, descabelada e feia a provar à mamã, em todas as fotos para a posteridade, que a minha simpatia como criança era inexistente.

 

acontece que no mês passado o miúdo tirou as fotos da praxe na creche. 

compramos-lhe umas jardineiras à moda, dei-lhe banho naquela manhã, penteei-lhe o cabelo à justin bieber (a única forma de ajeitar o cabelo meio alourado dele, da forma como cresceu) e levei-o num orgulho só para a creche.

quando o fui buscar, ao final da tarde, a educadora disse que ele chorou na hora da foto, que estranhou os fotógrafos e que, mesmo ao colo dela, tinha sido muito difícil a foto de grupo.

ok, pensei, e desvalorizei.

 

pois meus senhores, ontem chegaram, finalmente, as fotos da creche.

eis que abro, numa sofreguidão que só visto: o miúdo aparece com ar meio estranho na foto individual mas, ainda assim, normal.

e a foto de grupo?

pois que ainda me vêm as lágrimas aos olhos, das gargalhadas que dei, quando me lembro dela:

temos todos os meninos sentados, encostados à parede. nenhum ri mas estão com ar tranquilo, uns meios espantados, outros com a aparência de "mas que raio estou eu a fazer aqui". depois, aparecem as auxiliares sentadas ao lado, com ar alegre e, agora o que importa:

no lugar de destaque, ao colo da educadora que ri com ar feliz, está sua excelência meu filho, com a boca toda aberta, num choro forte e pleno. ali, o único aos berros ao colo de uma educadora sorridente. 

oh-meu-deus.

acho que me engasguei quando vi aquilo e não consegui parar de rir até me doer o estômago. 

 

pronto.

agora vou emoldurá-la e colá-la em grande destaque no quarto da criança, para ele se lembrar, para todo o sempre, como sai à mamã e não vale a pena achar que é original e único:

  • tem os mesmos problemas de pele que eu;
  • berra com desconhecidos como eu tenho vontade;
  • aguenta a dor física - caiu, pisou um olho e nem uma lágrima - mas berra como um bezerro desmamado quando o contrariam, tal qual eu
  • e come como uma pequena betoneira, como não podia deixar de ser, exatamente como eu.

Ai. 

juro que cada dia que passa admiro mais e, ao mesmo tempo, entendo entendo menos algumas mães.

admiro sobretudo as mães que trabalham fora de casa 8 a 10 horas por dia e depois, incrivelmente, ainda cai sobre as suas costas:

  • ir buscar e levar os filhos às creches, escolas;
  • preparar almoços e jantares;
  • limpar a casa e tratar da roupa;
  • serem as primeiras a ser chamadas em caso de doença das crias;
  • serem as responsáveis pelo acompanhamento das mesmas nas escolas;
  • serem vistas como as causadoras de cada defeito, comportamento errado dos filhos;
  • terem de cumprir com as suas funções profissionais com zelo e responsabilidade;
  • terem de manter o seu excelso marido satisfeito no lar e na cama;
  • terem de apresentar uma silhueta bonita;
  • terem de levar com as merdas que as outras mães debitam.

sinceramente, não sei como a maioria do mulherio não se passa dos carretos, manda tudo ao raio que parta e sai a rapar o cabelo, numa espécie de breakdown britney spears.

e talvez seja por isso que a maioria é tão azeda, tão prontinha a dizer "ai, se fosse eu".

fazemos o mesmo umas às outras e é por isso que a lista acima é cada vez maior, não é?

 

porque mesmo passando por tudo aquilo que enumerei acima, a verdade é que a maioria das mães tem estabilidade financeira que lhes permite comer e dormir debaixo de um teto; tem uma almofada fofa e quente onde chorar e dormir; tem acesso a cuidados de saúde (por pior que esteja o SNS acaba por ser muito bom) para si e para os seus filhos; tem acesso a alimentação diária; tem acesso ao mais básico do ser humano: ser visto como ser humano e não um pedaço de lixo. 

e mesmo assim essas são as primeiras a apontar o dedo, exigindo a morte e as chamas eternas do inferno a uma mulher que abandona um filho no lixo. 

 

vi centenas de posts de mulheres a pedir a morte para aquela mulher.

não vi nenhum de um homem.

foram as mulheres que sem dó nem piedade, acusaram, julgaram e nem por uma vez pensaram em questões básicas como:

  • como é viver na rua, numa tenda, sem qualquer condição de higiene?
  • uma mulher que vive na rua tem acesso a coisas básicas como tampões/pensos higiénicos?
  • como são os ciclos menstruais de uma pessoa assim?
  • como é que ela engravidou?
  • o que é que ela comia todos os dias?
  • como é que é sentir-se grávida quando não se sente gente? ela sentir-se-ia?
  • como será nem sequer ser-se portuguesa e não ter acesso a informações básicas como "não és extraditada se recorreres em caso de urgência ao hospital?" ela saberia?
  • como será não saber-se que se pode deixar um recém nascido na maternidade para adopção, e não ser criminalmente penalizado? ela saberia?
  • como será estar-se grávida vivendo ao frio, na rua, sendo vista como nada?
  • como se cria a ligação mãe/filho num caso como este?

os primeiros 3 meses de vida do meu miúdo foram os mais difíceis da minha vida.

e eu tive acesso a tudo e um par de botas, incluindo toda a ajuda necessária e conhecimento amplo das coisas.

e mesmo assim houve dias que só me apeteceu fugir, desaparecer e abandonar tudo. 

 

colocar uma criança recém nascida no lixo é um ato hediondo. concordo. 

mas todos os atos, mesmos os hediondos, devem ser vistos à luz das circunstâncias.

e é pena que as mães que às vezes se queixam da vida, do cansaço, da incompreensão dos outros;

que se martirizam com a culpa de não serem melhores;

que se queixam porque não conseguem colocar os meninos na música, no inglês, no karaté;

que se culpam por não passar 3 horas com eles, por não lhes poderem dar uma alimentação de 5 frutas variadas e peixe ao almoço e carne ao jantar;

as mesmas mães que nunca viveram na rua, que não sabem o que é sentir-se como lixo a dar vida a lixo, sejam as primeiras a exigir o fogo eterno do inferno, a morte a uma pessoa que não teve as mesmas oportunidades, incluindo aquela oportunidade de dormir numa cama, comer uma refeição diária quente e não ter de parir no meio da rua, como uma cadela sem dono.

 

acreditem:

o vosso heroísmo como mães, a vossa argumentação "mas eu passei por muito e nunca faria tal coisa, mas eu sofri horrores e sempre pus o meu filho à frente de tudo" vale zero. vale nicles. vale nada.

essa argumentação, esse sentimento é uma valente monte de merda quando não têm a capacidade de se colocar, por uns segundos, na pele de alguém que é vista, pela sociedade, com menos atenção, menos valores, menos direitos do que um cãozinho de raça

 

incrível. gostam tanto de criancinhas mas detestam seres humanos. 

 

contextualizando:

estou nomeada - pumbas - para sapo do ano na categoria "blog familiar".

 

passemos à mensagem:

meus senhores,

agora que sou mãe, uso carrapito, limpo cacas (reparem que não disse merda, um ponto para mim); aspiro com um aspirador nasal, de pôr na boca, ranhetas; passo noites sem dormir; e tenho roupas com manchas de vomitado, gostaria de vos explicar, num só argumento, porque devem votar em mim para blog do ano nesta categoria tão apropriada:

argumento único

a mesma pessoa que escreveu os excertos denominados de “antes” – e cujos posts podem consultar nos devidos links - foi a mesma que escreveu, mais recentemente, os posts denominados “agora”:

antes:

“e se a mãe está cansada porque passou o dia inteiro entre fraldas, mamadas e choro, possivelmente a maior parte da vizinhança está cansada porque passou o dia entre trabalho, stresse e trânsito.

e se os pais estão a morrer de sono por acordar de duas em duas horas, os vizinhos também.

a diferença: os pais ao menos tiveram o proveito de fazer o puto.” https://www.eagoraseila.pt/nao-vale-a-pena-virem-bater-me-ja-1093138

agora

“sempre que acordo às 4 da manhã é como se um comboio me tivesse passado por cima e eu ainda estivesse a perceber se estou morta ou não. ando meia desgrenhada pelo quarto sem saber muito bem onde pegar ou começar.” - https://www.eagoraseila.pt/resumo-dos-quase-4-meses-1234139

 

antes

“juro, e não estou a ser irónica, que quando vi a mãe do meu afilhado a chorar desalmadamente e a dizer-me, quando a cotovelei a perguntar o que se passava, que no fim me dizia, que pensei que a senhora do discurso tinha cancro. incurável. é que foda-se, ninguém podia chorar assim porque o filho ia para o jardim infantil.” - https://www.eagoraseila.pt/da-festa-o-resumo-119014

agora

"se alguém me perguntar se estou a chorar baba e ranho porque o meu menino amanhã vai para a creche (durante hora e meia a um quilómetro de casa) vou negar convictamente e com a mesma veemência com que limpo os olhos, assoo o nariz e tento abafar os soluços.” - https://www.eagoraseila.pt/sou-tao-atrasada-1238661

 

antes

“declaro aqui, sem qualquer pudor, de quem já foi a alguns e até se dignou mesmo a ir a uma feira de expo coisa, que os casamentos são a maior pirosada à face da terra.

toda a gente de bom gosto concorda.” - https://www.eagoraseila.pt/dos-casamentos-488674

agora

“enganei-me na mão, dentro da igreja e estava convencida que era o rapaz que estava errado. o padre disse que o amor não se faz com a língua e levou a multidão ao delírio. o rapaz mandou um pontapé numa vela à saída da igreja. deixei cair a cauda do vestido na água da piscina enquanto cortava o bolo. não comi absolutamente nada.” - https://www.eagoraseila.pt/houve-casorio-1-932878

 

antes

“…a necessidade de as pessoas transformarem as suas salas de estar em exposições de brinquedos depois de os filhos nascerem.

que os putos precisem de entretenimento até entendo.

que precisem de todos os centímetros da sala para isso ultrapassa-me.” - https://www.eagoraseila.pt/nunca-vou-entender-919426

agora

“há bonecada toda espalhada pela sala. ou bonacos, como se enganou um dia o teu pai e a palavra ficou. apanho-os invariavelmente, todas as noites, para uma caixa que arrumo a um canto da sala. mas o espaço já não é meu. tropeço em peluches, escorrego em rocas, faço soar apitos e sons que saem de bonacos de plástico e tecido.” - https://www.eagoraseila.pt/6-meses-o-resumo-1235106

 

antes

“apetece-me dizer isto: sou plenamente a favor de sítios que impedem a entrada de crianças (nem sequer usei o termo criancinha, isto promete).” - https://www.eagoraseila.pt/nao-deixai-vir-a-mim-as-criancinhas-439277

agora

“a primeira noite que passei sem ti não foi o descanso que imaginei. (…) ficaste com a avó. sonhei com aqueles dois dias. quando cheguei ao cimo da rua naquela manhã solarenga, um aperto profundo entalou-me a garganta e quis chorar. ficavas para trás? não te levava? e a tua avó, eufórica, o fim de semana contigo ao colo, e eu com uma vontade louca de voltar para trás, agarrar-te com força e levar-te. -https://www.eagoraseila.pt/6-meses-o-resumo-1235106

 

 

antes

“há criancinhas mesmo muita feias (…). e eu nem saberia se não fossem as mães insistirem em colocar fotografias delas na net. mas mesmo muita, muita, muita feias!" - https://www.eagoraseila.pt/e-ja-que-estamos-na-onda-446579

agora

caí nos clichés todos. ontem, enquanto fazia o jantar, enumerava-os pelos dedos das mãos, mentalmente. não houve um filho da mãe de um cliché que não me fosse escarrapachado em cima: (…) o achar que não havia miúdo mais giro naquela maternidade;” - https://www.eagoraseila.pt/nao-sao-banalidades-1228888

 

 

pois é, meus senhores. eis a ironia da coisa.

este blog é, atualmente, um blog familiar.

 

por isso...

convenci-vos que devia ganhar isto tudo mais não fosse para poder premiar a minha própria ironia com um galardão importante como este?

 

caso não tenha convencido, vide as respostas às questões colocadas pelos donos disto tudo, perdão, organizadores disto tudo:

conta-nos como foi o nascimento do teu blog.

bem, num bonito dia de novembro, entediada da vida e depois de ter fechado um blog por não pararem de me chatear porque nele escrevia sem filtro, decidi responder à eterna questão que a minha ansiedade me coloca constantemente:

e agora?

e a resposta:

sei lá.

pronto, foi assim.

 

como tem sido a interação com outros bloggers?

antes de parir era excelente. tinha muito tempo – e vontade, sobretudo vontade – para ler, cuscar, conhecer, interessar-me pela vida alheia. portanto, conhecia muita gente, falava com muita gente e ria com muita gente.

depois que engravidei e pari a minha vontade diminuiu e a minha paciência também.

a dinâmica dos blogs que conhecia também mudou um pouco. estamos todos mais politicamente corretos, temos todos os mesmos títulos, guiamo-nos todos pelas mesmas regras. escrevemos todos sobre o mesmo. acho eu, que pouco vou lendo, ultimamente, e guio-me mais pela “rama” (por isso posso estar a dizer muita asneiras).
seja como for, há 4 ou 5 bloggers com que me relaciono quase diariamente, sobretudo as meninas da minha seita sem glúten. pelo que, provavelmente, a minha interação continua a ser maior do que outras gentes que escrevem em blogs.

 

o que achas que leva as pessoas a gostarem do teu blog e a seguirem-te?

não sei. juro que não faço ideia. antes achava que era a minha capacidade de destilar asneiredo. o pessoal vinha ver como quem assiste a uma espécie de acidente de viação. sente um ligeiro incómodo, mas a curiosidade ganha. depois, achava que era pela minha presença. estava tão presente nisto que era quase mobília da casa e as pessoas iam passando para ver se tinha ofendido alguém e alguém tinha ofendido a mim.

agora, tendo em conta que no último ano escrevi praticamente 12 posts (boa média, não?) não sei. talvez haja gente a passar por aqui – não muita - pela curiosidade de tentar perceber como é que alguém tão acirradamente anti-criancinhas e espírito queixinhas se dá na criação de um bebé que, ainda por cima, come acendalhas.

 

consideras que o teu blog está bem categorizado nos Sapos do Ano?

não.

pronto.

é um ponto de honra. quer dizer, uma pessoa escreve mil posts assumindo-se como uma espécie de anti-cristo das famílias, apregoa todas as coisas horríveis que significa ser mãe, jura que jamais vai passar pela cena e depois, só porque casa, emprenha, vai parir e tem uma cria, já tem um blog familiar?

é tipo como, sei lá, se no último ano, nos incontáveis (foram 12) posts que escrevi só tivesse falado sobre o assunto “maternidade”.

e a verdade é que… pois, falei.

pronto.

se calhar está bem.

portanto, em resumo: isto é um blog familiar e agora só se dizem as palavras como “foscas, com um caneco, oh meu amigo, valha-me deus e bolas”.

ai.

 

quem levarias contigo para a ilha de Adão e Eva?

para responder a isso precisava de saber que ilha é essa.

os nossos antepassados da maçã e da cobra viviam numa ilha? não era no paraíso? o paraíso é uma ilha? se sim, qual? chama-se mesmo a ilha de adão e eva? não é o edem?

como não sei, prefiro acabar isto como deve de ser (atentem que tento aproximar-me do blogger comum ao escrever deve de, devia ganhar pontos) e responder à questão que nunca ninguém me colocou, mas que devia terminar toda e qualquer conversa, barra, entrevista, barra coisada em que alguém fala:

o que dizem os teus olhos?

pois os meus olhos, gente, atentai, dizem-me que estou velha e que, por isso, segundo o oftalmologista, é normal que veja as sombras que comecei a ver há dias e que julgava ser um descolamento da retina.

é nada, disse-me ele, é apenas da idade.

estou velha, meus senhores, e isto não é uma metáfora ou comédia.

portanto, faz favor de serem todos muito politicamente corretos e votar nesta idosa.

afinal… o lema é “não matem os velhinhos”.

paz!

comedor de acendalhas

por M.J., em 06.11.19

na última segunda-feira, para sempre conhecida como segunda-feira-quente, sua excelência senhor meu filho comeu acendalhas.

foi este o nível a que chegamos.

 

conto depressa:

depois de começar a gatinhar faz mais ou menos uma semana e pouco, ainda não estávamos habituados à sua autonomia de procura por coisas extra-parque, onde costumava ficar a lamber brinquedos, pôr musiquinhas parvas nas cenas com musiquinhas parvas (vou começar a arrancar os fios de tudo o que seja eletrónico) e andar à luta com balões.

 

portanto, quando saiu da creche, por volta das 17:00, depois de dormir a sua mini sesta e de, bem disposto, ter sido posto no parque pelo pai, nunca achámos que fosse sair do dito e dar uma voltinha de passeio, ao género de dora exploradora (ainda existe) mas sem mochila.

eu fui fazer a sopa do jantar, o pai foi trabalhar um pouco no escritório, ele ficou na sala, na sua atarefada vida.

dois minutos depois, enquanto descascava cenouras, ouvi um som de plástico.

demorou a fazer-se um clique na moina.

mas percebi, num rompante, que nenhum brinquedo com aquele som de plástico habita o espaço pelo que, num salto, corri à sala.

pois bem, meus senhores, a minha criança saíra do parque aproveitando a porta destrancada (na nossa falta de experiência nesta nova habilidade dele), gatinhara até perto da lareira - apagada - descobrira o pacote aberto das acendalhas e, com toda a tranquilidade do mundo:

  • tirou as ditas para fora;
  • possivelmente lambeu o plástico e uma ou duas;
  • e, quando cheguei trincava, com todo a garra e os dois dentes que deus lhe deu a caixa das acendalhas.

 

guinchei como uma menina histérica.

o rapaz saiu a correr do escritório.

lavamos-lhe a boca enquanto ele ria, todo contente da água na boca e a situação nova.

colocamo-lo no carro - e à caixa das acendalhas - e vá de correr para o hospital.

comigo em prantos.

a servir de sirene dos bombeiros.

 

pela primeira vez que me lembro (e nos últimos dois meses temos sido presença assídua em médicos) o miudo foi atendido em 2 minutos.

o que, sejamos sinceros, só serviu para aumentar o meu pânico.

entrou direto para a triagem e da triagem para observação.

a médica olhou para a caixa, olhou para ele todo bem disposto, ligou para o centro qualquer coisa de venenos.

do outro lado acharam estranho alguém querer comer aquilo (cheira mal, deve saber mal que nem petróleo) e dopois das perguntas da praxe, tendo em conta que as acendalhas estavam todas e ele comera a caixa (e tenho a certeza que comeu pedacitos pequenos, mas pronto) decidiu-se dar-lhe mais qualquer coisa para comer e esperar para ver a reação.

pois claro.

a criança comeu o que não devia e, como presente, dá-se-lhe um iogurte de aromas (só tinha comido dos naturais com leite de transição), com açúcar, que o fez ficar a choramingar por mais.

e depois, espera-se, enquanto ele rasga todo o papel da maca, enrola-se no dito ficando a parecer uma múmia e ri-se às gargalhadas durante o exame físico porque, creio, o toque da médica lhe fazia cócegas. 

contado é difícil de imaginar, vendo ainda é mais.

 

45 minutos depois estávamos em casa.

ele comeu papa porque a sopa não estava feita.

eu comi sopa porque não tinha cabeça para fazer o jantar.

a caixa das acendalhas ficou meia comida perdida na mala do carro.

as acendalhas permanecem no parapeito da lareira, ainda sem saber o que lhes aconteceu, lambidas abandonadas.

 

passou, a criança está bem.

 
 
 
 
 
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Portanto... pronto, é isto agora. #babyboy💙 #bebemenino #queconsumição

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eu mais ou menos.

julguei que a dificuldade maior fossem

  • as dores de costas na gravidez,
  • as noites sem dormir (ou acordar, vá, várias vezes) nos 3 primeiros meses,
  • o lidar com as minhas hormonas, absolutamente instáveis no pós parto.

julguei que a dificuldade fosse a adaptação às novas circunstâncias, ao sentir que a minha vida já não me pertence e que não sou dona dos meus minutos.

mas pelos vistos, analisando o historial, a dificuldade é impedir que o miudo coma coisas que não deve.

  • já comeu panfletos do jeová.
  • agora foram acendalhas.
  • vou esconder a minha coleção do eça, não vá mastigá-la toda.
 
 
 
 
 
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emedjay a própria. eis um presente. adivinhai quem deu!

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mais uma destas e quem come acendalhas sou eu, para ter um bocado de descanso numa cama de hospital.

oh senhores. 

palavra de mãe

por M.J., em 30.10.19

às vezes tenho pesadelos durante a noite.

não é nada de extraordinário e creio que afeta a todos.

há quem sonhe que está a cair, que esteja nu em público, que queira falar e não consiga. dizem que os sintomas são sempre os mesmos quando se acorda no meio disto: uma espécie de angústia, agitação, um ligeiro desespero e ansiedade.

e claro, o alívio supremo por afinal não ser só um sonho.

conheço gente que nunca sonha ou tem pesadelos. o rapaz, por exemplo, jura a pés juntos que não se lembra de um. 

eu, por norma, acordo sempre no meio de qualquer coisa dessas. na maior parte das vezes nem lembro o que sonhei. mas no pesadelo recorrente há essa coisa da angústia.

conto num minuto:

estou a frequentar o ensino secundário ou a faculdade e percebo, assim num rompante, que tenho teste ou exame amanhã e não estudei nada. nicles. batatóides. nem sei sequer qual é a matéria. nadinha. népias.

nessa altura sinto um desespero cego, uma ansiedade maluca de começar a estudar. 

e é nesse instante que dou conta que não sei qual será o exame e que não fui a nenhuma aula.

e pronto.

acordo.

se fosse psicóloga ou tretóloga (o pessoal que não é psicólogo mas acha que sim) teria, de certeza uma qualquer explicação para isto. 

como não sou não tenho.

creio apenas, pelo conhecimento da minha pessoa, que talvez esteja relacionado com a vontade, durante a minha primeira fase da vida, de sair do sítio onde nasci, vendo o estudo como a solução. sei de quem casasse para tal, quem emigrasse, quem fugisse.

eu optei pelo estudo.

a avó dizia "estuda que vais longe" e o longe para mim era literal. longe da serra, da terra, do campo, do sol a escaldar no verão, dos invernos gélidos com a água congelada nos canos e a lareira a servir como único aquecimento.

longe daquilo que, para mim, não me servia. 

ou pelo menos achava eu.

 

quando andava na escola primária - ou no jardim infantil, não posso jurar - lembro-me que perguntaram a todos os meninos na sala o que queriam ser quando fossem grandes. parece que agora, segundo li há uns tempos, não se deve sobrecarregar a criançada com tal pergunta, na antecipação de uma responsabilidade que não devem ter.

no meu tempo perguntavam. 

a maioria dos miúdos respondeu o normal: médico, professor (professores eram às carradas), futebolista e não sei que mais, que não me lembro.

mas lembro que uma menina (que tantos anos depois me acompanha por aqui e provavelmente não se lembrará disto) respondeu que queria ser como a mãe.

assim. a suprema resposta de provocar lágrimas na mãe se a tivesse ouvido.

e quando a professora lhe perguntou o que fazia a mãe - juro pela minha mão direita que é verdade - ela respondeu que a mãe ficava em casa a cuidar dela e do irmão, que fazia o almoço e tratava de tudo. 

e mil anos depois (mil não, só vinte e muitos) lembro-me perfeitamente disto na imagem que me acompanhou quando me perguntavam o que queria ser.

como se ser fosse ter uma profissão.

o que queres ser quando fores grande? tu, reduzido a algo: a existência ligada diretamente ao que fazes profissionalmente.

ser igual a trabalhar.

ser professor. ponto. resumo de quem és.

ser cabeleireiro. ponto. resumo de quem és.

ser dono de um café. ponto. resumo de quem és.

ser mãe. ponto. resumo de quem és. 

 

eu nunca quis ser a mãe.

ser a mãe era a serra, a dureza, o trabalho árduo, o sacrifício. o ficar. o permanecer. e eu não iria ser a mãe porque "se estudasse ia longe" e eu precisava da distância. 

e estudei então.

e saí e não voltei.

e tinha certeza aos 15, 20, aos 25, aos 28 que não seria a mãe. que o que me esperava era outra coisa, maior na minha perspetiva, mais gigante, mais importante.

eu não seria em resumo de quem era a mãe. 

 

acontece que. ponto. a reviravolta. 

aos 31 fui mãe. 

e a minha noção de quem sou, a minha noção de família modificou-se.

não por ser mãe, em si, como se isso fosse a definição de mim própria. apenas. como se isso fosse quem sou. só.

não por isso.

mas por toda a dinâmica.

é verdade: quem sou já não é quem eu era.

não é necessariamente melhor. nem pior. só diferente.

não há um amor maior. nem menor. só diferente.

não há uma pessoa maior. nem menor. só diferente. 

 

sou mãe. e tenho um marido.

a minha família é, por isso, aquilo que dizem ser "tradicional". não sou eu e dois gatos, como achei um dia que seria, olhando-me com desgosto aos espelho.

não sou eu e cinquenta velhos - pelo menos para já - num lar, enquanto conto a minha vida virgem e santa.

não sou eu e eu.

a minha família é maior.

 

e escrevo sobre isso, pois claro, porque escrevo sempre sobre quem sou.

este blog acompanhou todas essas mudanças desde que comecei a escrever nele faz seis ou sete anos. 

estranhamente há quem continue desse lado desde então. 

e que me vê como mãe.

como família.

 

tudo isto para dizer, meus senhores, deixando-me de lamechismos, que estou nomeada (linda palavra, ultimamente só sou nomeada de mãe) como blog familiar.

atentem: eu, que neste blog roguei pragas, exclamei horrores, espalhei ao mundo os malefícios da maternidade estou, é verdade, nomeada neste espaço - talvez já não uma tasca mas uma mercearia - como blog de família nisto que são os sapos do ano, essa iniciativa singela originariamente pensada pela minha magda.

 

e tenho uma síntese quanto a isso que bou-bos dizer:

se isto não é a suprema ironia aqui do sítio não sei o que mais seja.

mas muito obrigada.

juro. sem ironias. obrigada.

palavra de mãe.

comentários

por M.J., em 17.10.19

o que acontece é que o dia tem poucas mil horas para as mil horas que preciso.

a queixa não é nova. nem a primeira. o que não falta é mulherio a lamentar-se que o tempo não dá tempo para fazer o que é exigido pelo tempo.

uma consumição. 

claro que pensei, na espertice parola que me governa, que comigo seria diferente. como é evidente as coisas para mim são sempre absolutamente mais fáceis e, mentalmente, consigo desenvencilhar-me melhor que os outros. só que não. e as coisas acumulam. e nem a ajuda externa da moça que passa por cá a limpar chega. acumula-se roupa. os brinquedos estão espalhados. nem sempre as refeições são planeadas e com a variedade que seria recomendável. e ontem, estávamos todos tão cansados que o miúdo não tomou banho. 

é por isso que, também, não respondo aos vossos comentários. mas leio. leio todos com avidez e agradecimento. a sério. e agradeço. muito.

a maternidade - cum mil demónios, que este blog não fala de mais nada - trouxe muita coisa. 10 meses depois a minha vida tem mais minutos que os 60 das horas. há uma capacidade de eles pararem e bloquearem o tempo. ficam a pairar na dimensão das gargalhadas, do primeiro gatinhar, do sorriso aberto quando me vê, do embeiçamento quando repasso fotografias.

mas também aumentou a solidão de que sou feita. há mais gente mas menos gente. não sei explicar.

a partilha convosco - sobretudo no instagram - aumenta a gente que perdi. aquece um pouco o peito como as castanhas assadas que comemos ontem.

por isso desculpem a ausência de resposta aos vossos comentários.

e muito obrigada por eles.

 

regresso à creche

por M.J., em 07.10.19

depois de praticamente uma semana e meia em casa o miúdo voltou à creche hoje.

por mim não ia mais.

não que a culpa tenha sido da creche, em si, mas o miúdo nunca teve a mais leve doença até aos nove meses. assim que entrou na creche foram 15 dias de febre, com quatro deles a chegar aos 39.8, em períodos de 5 em 5 horas.

já senti pânico na vida mas nunca na dimensão daquele em que ele começava a tremer no aviso da febre. 

o diagnóstico foi comum, segundo o pediatra: adenovírus respiratório.

sa foda se é comum.

pôs a minha criança com otite, amigdalite e conjuntivite.

esteve a uma fresta de ser internado (só não foi porque, contrariamente à maioria dos miúdos, com febre fica ainda mais elétrico que o normal e a impressão clínica era boa), tiraram-lhe sangue daquela mãozita gorducha, tendo agora duas marcas ainda negras para mostrar ao mundo. 

lindo serviço.

por isso, por mim não ia mais à creche e a discussão foi séria ontem. só não rolaram pratos no meu histerismo porque ele estava a dormir. e porque até gosto dos pratos. pronto. 

o pai quer que ele vá. tanto quer que foi. diz que é absurdo agora fechar-se a criança em casa porque teve uma virose.

pois tudo bem, se fosse assim mesmo. só que, ponham isto na cabeça, não foi uma virose, meus senhores, foi a virose.

vamos lá ver: já algum de vocês teve febre 15 dias seguidos? foi bom? gostaram? se pudessem evitar ir ao sítio onde a apanharam o que é que faziam? iam lá novamente lamber o chão? é que eu tive de o levar hoje outra vez. e estava tão nervosa que gaguejei mais a dar os recados do que a joacine vai gaguejar no parlamento. 

e depois vem toda a gente com o discurso usado nestas merdas: que é bom, para ele ganhar defesas. gente, nem o centeno usaria tal argumento. 

a sério, se isso é verdade ou não, não sei, que nunca li estudo algum sobre a coisa. mas a mim soa-me sempre à mesma treta que sai da boca do andré ventura: é bosta. a sério. para mim é uma tentativa falhada de os pais não se sentirem tão mal por deixarem os miúdos 8 horas num sítio com outros miúdos e, em contrapartida, ainda ficarem doentes.

é a cena do "também estão verdes, não as comia". eu comia. como sempre. 

enfim, dizem que sim senhora, que ele tem de ganhar defesas (e febre, pelos vistos muita) e que estou a ser histérica. quase tanto como a catarina martins. 

pudera. cheguei a ter pânico dos termómetros. e estou a dois passos de pesquisar uma ama, com menos putos (quantos putos pode ter uma senhora em casa?) onde não haja dez miúdos a lamber o mesmo brinquedo. 

com mil demónios. 

e a verdade é que, vendo bem as coisas, com isto tudo trabalhei menos do que se ele estivesse em casa comigo. tive de rejeitar trabalho porque ele estava doente, atrasei e-mails porque estava no hospital com ele, deixei de dar respostas porque na minha cabeça havia febre de 5 em 5 horas para ser combatida. 

foi pior o soneto que a emenda, adianto já. ou a ementa, como diz uma senhora da minha terra. 

 

enfim, o miúdo está na creche.

acredito que esteja aos berros enquanto lambe qualquer coisa cheia de bicheza para, logo à tarde, me chegar novamente a casa repleto de animalada que o ataca em pulmões, boca, olhos, nariz e orelhas.

e claro, num altruísmo sem fim, vai passar depois aquilo para mim e para o pai fazendo-me ter noites de febre (sim, duas, duas inteirinhas em que transpirei meio quilo de suor de hora a hora e abati umas gramas de banha) e obrigando-me a lavar 58 máquinas de roupa num só dia.

alguém sabe o que é cuidar de uma criança com 40 graus de febre quando se tem, também, 40 graus de febre?

se não convido-vos a experimentar avançando desde já o adjetivo que me ocorre: supimpa. ou só pimpa. como quiserem.

 

por fim, uma nota de algo que vi nestes dias e me deixou a sentir pior do que a febre:

mães atrasadas mentais que deviam ter as trompas laqueadas para todo o sempre.

o caso é simples e conto em dois minutos: enquanto esperava o resultado das análises no hospital, um miúdo de 2, 3 anos, em tronco nu, com evidentes problemas mentais, corria pela sala de espera, ia de encontro às coisas e às pessoas, lambia o chão do hospital (sim, lambia, literalmente, com a língua que deus lhe deu, o chão da sala de espera, as cadeiras, as paredes, os vidros. lambia, meus senhores, lambia o hospital) e a mãe, uma catraia com pouco mais de 20 anos, berrava ao telefone com alguém acerca de problemas de dinheiro ignorando completamente a criança que, repito, lambia o chão do hospital. e tanto ignorou que, quando a criança caiu e rasgou o lábio, não parou de telefonar, nem sequer a olhou, acabando por ser uma senhora a pegar-lhe e chamar a enfermeira.

há crianças condenadas à nascença, não há?

por que caralho há um ira para animais e não há um ira para crianças?

se houver, aviso já, faço campanha de maneiras a que daqui a 4 anos o partido que o apoie tenha mais assento parlamentar que o partido da finada cristas, que a deus a tenha, ámen.

 

pronto, agora vou só ali imaginar a quantidade de bicheza que o meu filho está a guardar no corpo para ganhar aquilo que os estudiosos da matéria me dizem ser imprescindível para a vida: defesas. 

ao menos, se as ganhar, que tenham mais capacidade de intervenção que os seguranças do costa quando ele quer bater em velhinhos.

queixas

por M.J., em 23.09.19

é o segundo fim de semana em que me apetece colocar em posição fetal e dormir.

já nem quero saber:

escrevo sobre o assunto porque é este calo que me incomoda. juro. o puto ficou doente. é visível. não falo de outra coisa. pudera: não faço outra coisa. sua excelência sai à mãe e ninguém o atura doente. é um choro por tudo e um  par de cocós. às tantas sou eu que tenho vontade de chorar mais alto do que ele quando lhe limpo o nariz, os olhos e tento que ele coma.

rais parta: se ao menos eu perdesse também o apetite ainda ganhávamos alguma coisa com isso. mas nada. nicles batatóides (fritinhas, de preferência). 

 

dormir que é bom tá quedo.

dormi tanto estas duas noites como quando o pari. às tantas já via tudo azul que é a cor que me ocorre aos olhos quando começo a não aguentar mais. almoçamos em casa da mamã no domingo mas não lembro uma palavrinha do que foi dito. nem sequer se o assado estava bom. ou se as castanhas eram saborosas. na minha mente só uma coisa: cama, por favor.

no sábado, já a morrer, deixei-o ao paizinho e com a desculpa de ir comprar benuron em supositórios andei 50 quilómetros de carro, debaixo da chuva a praguejar baixinho. não lucrei nada com isso. enervei-me no trânsito - o pessoal desaprende a conduzir com chuva - e quando cheguei a casa o puto tinha dormido o tempo todo pelo que a fava quente a seguir saiu-me a mim outra vez. 

cum mil demónios, caramba.

 

não nasci para isto.

se for ver bem não nasci para nada. talvez para dormir, comer e queixar-me. desafio qualquer uma  superar-me nisso. pago um jantar se alguém ganhar.

vá, andem, digam, desabafem, avancem com as vossas queixas: ganho-vos com uma perna às costas. 

publicado às 12:00

depois dele nascer vais ver que os bebés fazem uma série de coisas magnificas:

 

1. eles vomitam. muito. de esguicho. em cascata. normalmente em cima das tuas mamas

é. tu vais embala-lo porque está a chorar descontroladamente, encosta-lo ao peito muito amorosamente, abana aqui, abana ali e sentes um jato quente nas mamas. é vómito. que não para. e mesmo que vás a correr para o wc, com o vómito já a escorrer pelo caminho é bem provável que continue a vomitar. e que quando acaba tu não sabes se tiras a roupa dele ou a tua. porque ele está vomitado até às orelhas e precisa de um banho mas tu também e não é fixe dares banho nua e vomitada. estás num impasse. é bom que tenhas uma terceira pessoa para ajudar. se estás a pensar engravidar deves ter. assegura-te que essa pessoa quer ajudar. 

 

2. prepara-te para não vomitares com cheiro do vómito

aquela coisa do "ai, sou tão sensível ao cheiro que uma vez, na queima, estavam a vomitar cerveja e eu também vomitei - não que eu tenha bebido, deus me livre - e foi horrível" pode acontecer-te na situação anterior. das duas uma: ou ganhas resistência ao cheiro ou, se fores como eu, vomitas enquanto limpas vomitado e ficas ainda com mais vomitado para limpar. é lindo. digno de uma obra de arte.

 

3. quando estão doentes fazem cocó. de esguicho. em cascata. normalmente não há fralda que resista

pois é. prepara-te para isso. vai haver muita merda.

não vale a pena estarmos com coisinhas: não é só bosta, fezes, cocó. é mesmo merda. muita.

tanta que não há fralda que aguente. ela escorre como uma espécie de lava líquida. numa noite, por exemplo, podes acabar por mudar 5 vezes a roupa de cama da criança. ou a tua se o menino dormir contigo. no meu caso foi só a dele. por sorte amanheceu antes de me acabarem os lençóis. mas esteve perto de ser dramático e ter mesmo de ir sujar os da minha cama.

isso e pijamas, bodies, babygrows, meias, calças e camisolas. numa diarreia a sério vai tudo. em casa, no carro, no médico. quase como um anúncio à rádio comercial. é montes de roupa. e tu tens de limpar. sim, com as mãozinhas, essas tuas tão arranjadinhas com nail art. experimenta mudar uma fralda repletinha de merda com unhas de meio metro com florzinhas. as minhas estão rentes e sabe deus. 

 

4. eles têm conjuntivite nos olhos. e tossem em cima de ti. e há ranhocas verdes que escorrem enquanto almoças.

pois é. e precisas de assegurar-te que os olhos estão limpos. e que não tocas num descuido nos teus próprios olhos depois de limpar os dele e antes de lavar as mãos. é difícil porque ele não fica quietinho, como nos anúncios, enquanto o limpas. esperneia e mexe-se como gente grande. e berra. muito alto. acho que eles não gostam que lhes mexam nos olhos. eu também não. se não tiveres cuidado em limpar bem as mãos é bem provável que fiques igual. e lá se vai a maquilhagem toda prontinha a usar. 

 

por isso. se estás a pensar em engravidar não vás na tanga que todos os momentos são certos e que não há condições perfeitas. lá perfeitas não haverá mas é importante que tenhas, pelo menos 3 coisas:

1. dinheiro. é mesmo. essa coisa do que o que conta é o amor é tanga. se não fosse preciso dinheiro a segurança social não andava a distribuir abonos e tudo e o pessoal não ficava tão stressado nos dias em que é para receber, assoberbando os grupos no facebook com a mesma pergunta: "quem é da CGD já recebeu? e do novo banco?".

é preciso muita massa. para medicamentos, roupa, comida e fraldas.

e nem venhas com essa treta de que o teu leite chega, as consultas médicas são gratuitas e podes usar fraldas de pano, agora na moda: o teu leite chega até aos seis meses; as consultas no público são de graça mas os medicamentos não são, e experimenta usar as fraldinhas de pano com uma diarreia a sério. quem fica na merda és tu. 

 

2. de uma pessoa com maturidade ao teu lado.

ele até pode ser giro e dizer que quer ser pai mas ser pai vai muito para além disso. assegura-te que ele sabe ao que vai. vê lá a situação do vómito que relatei no ponto 1. não sei como teria feito sem ele. precisas de um pai que o queira ser. que tenha a mesma disposição para tomar conta da criança que tu tens. na vida de um filho não há a mãe e os outros. há a mãe e o pai. tu até podes ter disposição para mártir mas deixa vir uma noite de merda, vómito e conjuntivite para ver se o martírio não é demais para uma pessoa só. 

 

3. de uma situação profissional estável

pois. trabalhar horas e horas sem tempo para nada vai tirar toda a paciência que possas ter para situações de vómito, merda  e conjuntivite. e se trabalhares num sítio onde a compreensão para o efeito seja zero deus te livre e guarde. vais ter de faltar muito ao trabalho. não é uma vez, nem duas, nem três. são muitas. pensa bem se atualmente estão disponíveis para isso onde trabalhas ou se podes ficar sem esse trabalho. se a resposta for positiva ótimo. se for negativa: nosso senhor t'ajude.

 

enfim, e em suma, eu tenho essas três coisas, no mínimo vá, e tem dias, como estes últimos que me apetece saltar de uma ponte. eu e as dezenas de fraldas cagadas e as seis máquinas de roupa lavadas esta tarde. 

se já engravidaste e não tens nada disto: parabéns. és uma heroína. digo isto sem qualquer ironia. és mesmo uma heroína.

mas confessa lá que não seria mais fácil de outra forma. 

 

o que é preciso é amor, pois é.

mas conjuntivites não se curam só com amor, fraldas não se mudam só com amor, roupa não se lava só com amor e o dinheiro não aparece na mesa de cabeceira por amor (quer dizer, depende da profissão). 

é ou não é?

banalidades: outono

por M.J., em 17.09.19

agora que o primeiro cheiro de outono surge no ar, começo finalmente a respirar. 

foi um ano incrivelmente estranho, este, desde o último outono.

as mudanças foram tantas e tão grandes que, houve dias, pensei ser assoberbada por todas; pensei transformar-me nelas sem dar conta; pensei deixar de ser eu para ser outra pessoa, qualquer, totalmente diferente, a dar vivas porque é verão, por exemplo.

deus ma libre e guarde.

 

os pequenos toques de outono são subtis mas existem.

as árvores começam a ficar acastanhadas em vez de pretas de incêndio.

há folhas secas que dançam no ar em vez de fagulhas que morrem em trevas.

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a luminosidade é diferente e nunca a consegui descrever.

só sei que o céu, em dias claros de outono, parece um lago de água tépida.

olhar as nuvens não faz doer os olhos.

a brisa não é como a salvação no deserto mas uma pequena carícia no rosto.

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de manhã há neblina e café em chavéna bem quente onde sabe bem a aquecer as mãos. já não se põe gelo no café mas sente-se a escaldar nos lábios com conforto.

na rua há um corropio matinal em vez da dolência de férias. as pessoas caminham com rumo, em rotinas, horários e coisas certas.

de certeza que há quem o odeie. eu gosto. 

 

é possível agora ir à praia sem passar horas à procura de estacionamento, levar encontrões no paredão ou esperar 50 minutos por um lugar na esplanada.

o silêncio volta ao mar e consegue-se ouvir cada onda sem gritos, respirar maresia em vez de protetor solar e apreciar a areia sem cheiro de tabaco, onde pessoas depositam piriscas numa espécie de funeral sem padre.

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o outono surge mesmo ainda no verão e eu começo, novamente, a respirar.

o miúdo está na creche das nove às cinco.

organizo trabalho sendo pessoa para além de mãe. retorno a leitura, a escrita e sinto prazer em ir dormir, todas as noites, porque o dia seguinte terá espaço para todos nós: eu e eles e não só ele.

e este eu que surge é mais paciente, mais feliz, com mais disposição para brincar com ele, para o adormecer, para o amar de forma mais completa porque não é possível amar de todo quando nos inutilizamos em função do outro.

seja o o outro quem for.

 

(juro, muito bem jurado, que o que mais me custou e custa, na maternidade, é a perda total da dimensão do tempo e o deixar de conseguir perceber que cada momento, menos bom ou muito bom, é - como em tudo na vida - uma fase. só uma fase. e que essa incapacidade de perceber que é só uma fase, essa incapacidade de ficar assoberbada pelo momento que me consome toda, foi e ainda é, o calcanhar de aquiles disto tudo. mas falo disso depois.)

 

a vida começa a ser novamente doce.

há tempo para antecipar dióspiros maduros que se derretem na boca, castanhas assadas em frente à lareira, séries no sofá debaixo das mantas e passeios ao fim de tarde ao lado do mar, com um sol agradável e um ar fresco que convida a casacos. há tempo para ver a dança das folhas, para apreciar a neblina matinal e para ouvir o silêncio a meio da tarde. 

há.tempo. 

 

finalmente, 18 meses depois da minha vida se ter transformado e eu ter deixado de me reconhecer, há pedaços de mim que vão vindo à tona, conjugando-se com a novidade, com o amor e com o correr dos dias de uma forma completa e global.

o outono é só o corolário disso mesmo. 


foto do autor



e agora dá aqui uma olhada