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banalidades

por M.J., em 17.10.18

tenho a sensação que estou a brincar aos crescidos. 

que acordei um dia de manhã e, toda contente, entrei na minha casinha de bonecas e disse "eu sou a mãe, tu és o pai e esta é a nossa casa". e que tudo ia correr da forma planeada, com uma caixa a fazer de fogão e bolos de lama às refeições.

tenho 31 anos e não estou minimamente preparada para este mundo de adultos.

e zango-me comigo própria - no correr dos dias e da pressão, na imensidão de merdas sem fim - por me ter colocado nisto propositadamente. 

 

não percebo.

estava no pleno controlo da minha vida.

fazia os meus horários com uma retribuição bem acima do razoável. tinha um apartamento arrendado por uma renda excelente, a cinco minutos do centro da cidade, com um senhorio absolutamente prestável, pronto a ajudar mais como pai do que senhorio.

passava férias quando me apetecia e, pela primeira vez desde que me lembro, sentia-me perfeitamente confortável na minha pele em todos os aspetos. incluindo financeiro.  

estava no controlo e a segurança disso preenchia-me os dias e as horas.

a vida era um rio sereno e as agitações de potenciais marés eram resolvidas facilmente nos intervalos.

 

depois - num impulso sem qualquer justificação lógica - decidi que afinal queria mais, mesmo que não fizesse a mínima ideia do que isso significava em termos de exigência. 

é claro que o meu corpo, o desgraçado sofredor das consequências da minha psique, decidiu avisar-me: não.

assim, um não afirmado com a mesma facilidade com que lhe dei chocolates durante anos.

e também é claro que eu devia ter percebido e continuado naqueles que eram os meus dias. devia ter encolhido os ombros e concordado, tomando os meus cafés na varanda, soprando os chás quentes a aquecer as mãos e sentindo-me perfeitamente feliz pelas horas. devia ter visto que aquele não não era problema algum mas sim a possibilidade de não me meter em trabalhos e continuar no controlo do rio sereno da minha vida.

 

como é evidente, neste meu historial de idiotice de decisões, não quis. 

e decidi contrariar o não que me foi dado.

resultado? o mundo resvalou e não tenho mais a tranquilidade dos dias.

 

não controlo a vida, os acontecimentos ou o meu corpo.

sou dominada por quem não sou e perco-me no meio dos cenários mais negros.

de repente tudo acontece e percebo, muito sensatamente, que não sou esta pessoa.

que devia ter percebido, quando disse não a mim mesma, que essa era a solução. que não devia armar-me aos cágados e engravidar, comprar casa e fingir que sou mais uma adulta muito consciente do que faz.

devia ter tido a plena consciência que possivelmente sou mais uma miúda imatura a brincar, quando acorda de manhã, no seu cenário de bonecas.

 

estou à espera do que aí vem e nada me parece famoso.

há leslies e furacões, incêndios, desgraças, doenças e tristezas que se formam na minha mente e me apontam o dedo, todos contentes, por ter querido ser quem não sou.

não é simpático e não me parece que seja só hormonal.

 

a avó disse-me uma vida toda:

quem nasce lagartixa nunca chega a jacaré.

eu ignorei-a e claro, o mais certo é que daqui a uns meses... nem lagartixa nem jacaré.

já esteve muito mais longe. 

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banalidades

por M.J., em 10.10.18

pronto, deixemo-nos de merdas:

fui ao raio da aula de preparação para o parto.

apesar de ter sido uma semana particularmente ocupada, em que assinamos a escritura da casa e organizamos tudo para a mudança; em que recebi uma dose de trabalho excessiva na empresa; e em que entrei nos sete meses e meio de gravidez, achei, ainda assim, muito simpaticamente, que não tinha o direito de decidir sozinha uma coisa que é dos dois e cedi. 

portanto, lá fomos então, no sábado de manhã, à aula de integração no curso (sim, depois da faculdade, das formações todas em que me coloco, entrei noutro curso) que promete ensinar-nos tudo o que precisamos saber sobre os três quilos e meio de pessoa que vou parir. 

 

a minha contrariedade era evidente.

não só porque enfim, estava contrariada, como o cansaço acumulado da semana se colava aos ombros. 

chegámos mesmo em cima da hora e demos de caras com uma série de casais sentados, alinhados, a olhar em frente.

havia apenas, ao canto, uma moça sozinha, com ar de quem ia desatar a chorar a qualquer instante e senti logo empatia por ela visto que, pondo o dedo na ferida, eu também estava:

a ideia da realidade do que aí vem assoberba-me sempre que vou a consultas e médicos, sempre que me falam do assunto ou sou obrigada a pensar em roupas, carros, ovos e mamas.

 

adiante.

a coisa decorreu exatamente como eu esperava.

ouvimos músicas sobre barrigas e amores imutáveis;

disseram-me nas trombas que ambos estávamos grávidos (gostava de saber então porque raio, sendo assim, só eu sinto dores de costas e só eu eu pareço um bisonte a cada dia que passa - juro que já não me consigo olhar ao espelho);

que era uma fase maravilhosa e única na nossa vida (claramente que a senhora não se sentiu uma bisonte quando emprenhou ou não dizia tal coisa);

e que era normal estarmos todos ansiosos.

- verdade seja dita, a não ser eu, que mordia os lábios de cinco em cinco segundos para conter o choro e a rapariga do canto que estava sozinha, mais ninguém me pareceu particularmente ansioso. - 

além do mais, como não podia deixar de ser, falou-se em amamentação.

e claro, não se questionou se alguém não queria amamentar. assumiu-se como é assim e é e ainda que estivesse a ferver por dentro não tive coragem de dizer que enquanto as mamas forem minhas, essa ainda é uma decisão a ser tomada.

 

enfim, saímos da coisa duas horas depois, após ter olhado umas cinquenta e seis vezes para o telemóvel na tentativa de que o tempo passasse mais rápido.

o rapaz não cabia em si de contente - juro que não entendo - e, para comemorar, quis que fossemos à pastelaria da moda comer croissants com chocolate que eu, muito educadamente recusei, uma vez que não preciso de açúcar para parecer aquela senhora que engordou até aos setecentos quilos. 

 

a sério que queria mesmo sentir as coisas de maneira diferente.

mas não é possível.

o desconforto, as hormonas - que me fazem oscilar entre ondas assoberbadas de amor pelo mundo, tristeza inexplicável e uma vontade séria de me atirar de paraquedas sobre o atlântico - a imensidão de trabalho, a mudança e tantas outras cenas idiotas impedem-me de raciocinar da forma racional necessária.

deixo-me dominar pelas pequenitas coisas sem sentido e pelos medos que me consomem a pontos de me parecer maluca.

preocupo-me com coisas que nunca me preocupei (meu deus, como pareço/estou enorme; minha santa senhora das mães, pobre criança que merecia uma progenitora melhor; era só o que faltava alguém decidir mais do que eu sobre as minhas mamas; e se morrermos os dois? o que será do pobre altino?; quer isto dizer que nunca mais vou ter uma noite de sossego na vida?) e descontrolo-me porque, na verdade, deixei de ter controlo sobre a minha própria vida e sobre o meu corpo.

não há possibilidades de plano b.

não há nada que possa fazer a não ser deixar seguir os dias e tentar não me afogar na imensidão de coisas que me estrafegam o cérebro e me fazem sentir uma espécie de ovelha muito ranhosa e tísica (só na palavra, porque de tísica, com esta barriga, não tenho nada) nesta coisa do mundo das grávidas.

 

tento levar cada dia como o dia.

recuso-me a pensar em demasia no depois mesmo que, quando o cansaço me consome, faça na mente os cenários mais negros e tente perceber qual o caminho certo por onde escapar, se há possibilidade de fugir, se não irei enlouquecer ou se, tudo isto, não é mais do que normal, na incerteza do que aí vem.

 

dizem-me que outras pessoas sentem da mesma forma. 

não acredito.

não haveria uma única creche aberta, um único jardim infantil e a espécie humana estava para sempre comprometida se toda a gente sentisse, uma vez que fosse, o turbilhão de coisas que tento abafar em trabalho, mudança e as mil merdas em que me assoberbo.

 

oh senhores. 

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não sei se a mulher foi violada

por M.J., em 04.10.18

usada ou, simplesmente, foi de livre vontade.

também não sei se o dinheiro que ela aceitou agora acabou e por isso vem a público;

se quer os seus cinco minutos de fama (parece que, de repente, o pessoal acha que denunciar casos de abusos sexuais faz deles umas estrelas - que eu saiba denunciar nas entidades competentes ou denunciar na comunicação social tem fins muito diferentes, mas isso sou eu);

ou se, simplesmente, quer exorcizar demónios.

 

o que me chateia um nadita é esta coisa, completamente estranha, do automatismo do pessoal:

"não acredito, a gaja já sabia ao que ia. foi para o quarto dele fazer o quê? ler a bíblia? se lá entrou foi porque quis".

mesmo antes de se investigar, de se tentar perceber, de as devidas entidades fazerem o seu trabalho.

assume-se logo que a moça se pôs a jeito.

que daria o cu e a vida - pelos vistos literalmente - para cheirar os lençóis da superestrela.

que foi uma sorte ele ter-lhe dado oportunidade - vejam bem - de ela ver in loco as partes do corpo dele. 

 

isto é porquê?

porque a senhora é mulher?

porque avançam que ela é prostituta?

ou porque sua santidade jogador de futebol seria incapaz de cometer algo ilícito, ainda para mais com uma parte do corpo tão sacrossanta?

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publicado às 11:25

banalidades

por M.J., em 02.10.18

mudamos até ao final do mês.

há centenas de pequenas e grandes coisas a tratar.

fui uma chata dos demónios com o processo de compra.

não fazia sentido ser de outra forma depois de ter visto tanto contrato correr mal. mandei dezenas de e-mails, cumpri as formalidades ao milímetro - mesmo que, conscientemente, soubesse da boa fé de toda a gente e que eu estava a ser picuinhas - e assegurei-me que tudo ficava por escrito.

e apesar de ainda não estar totalmente formalizado - falta pouquíssimo - correu tudo bem.

 

uma das coisas que mais me custou foi avisar o nosso senhorio da mudança. 

desde que vivemos nesta casa, há 3 anos, que não houve um único pedido que ele não satisfizesse.

foi de um altruísmo e generosidade sem par e juro que o peso de lhe dizer que íamos sair me martelou em cima dos ombros durante semanas. 

ainda pensei deixar a tarefa, muito cobardemente, para o rapaz.

mas depois percebi que não fazia sentido.

foi comigo que ele estabeleceu amizade, comigo que ambos - marido e mulher, já reformados - iam tomar café e falar de coisitas da vida.

fui eu que o chateei sempre que havia necessidade de algo e, por isso, não podia pôr a viola no saco e fingir que tinha nada a ver com o assunto.

marcou-se um café, portanto, e lá fui eu, de cara fechada, como se tivesse cometido um crime, sem carta de aviso de não renovação para não ofender ninguém, e certeza da tristeza que ia causar. 

apesar disso, não correu mal o aviso.

creio mesmo que ficaram genuinamente satisfeitos pelas mudanças da nossa vida, ainda que tenha percebido a tristeza que dominou o resto do café.

se pudesse arrendava esta casa só para não desiludir ninguém.

isso e para ter um sítio onde fugir sempre que o altino for um chato de um raio e não deixar ninguém dormir. 

 

as correrias com a mudança começaram entretanto.

três anos num novo sítio - e praticamente seis de vida em comum - conseguem fazer com que acumulemos muita tralha. mesmo que eu não seja pessoa de comprar por impulso, seja um par de calças, seja uma faca de cozinha: pondero, penso, repenso e decido de acordo com necessidade. aflige-me a acumulação de tralha, sem uso a um canto, apenas para encher os espaços da nossa vida.

ainda assim há coisas e coisitas que pedem para ser arrumadas e depois transportadas para a cidade de onde, muitas delas, vieram. 

- ainda bem, diz o rapaz, cheio de entusiasmo. caso contrário como enchias a casa?

é verdade.

todas as vezes que lá vou pondero se não teremos comprado coisa grande demais.

tenho a certeza que a sala é dois terços do apartamento onde vivemos agora.

o espaço cá fora, entre o muro e a estrada onde praticamente não passam carros, é enorme também e já me vejo, aos sábados, de costado ao sol a regar relva. 

cá para mim, como se não bastasse tudo o que já basta, arranjamos foi mais sarna para nos coçarmos.

- podemos ter um cão, diz ele, quando me vê com dúvidas.

pois podemos. e um gato. e mais dois putos além do altino que ainda fica a sobrar espaço. e um trio de periquitos. e um lago com peixes.

espaço não falta.

creio que a faltar, serão habitantes. 

 

agora, aos poucos, vou esvaziando esta casa das memórias.

assumo sempre as paredes onde habito como um pouco mais do que betão e tinta.

percebo-lhe as coisas que guardam e os momentos de uma vivência doméstica que fazem toda a minha vida.

revejo situações que fizeram dos meus dias a doçura que neles habita, tantas vezes, e começo a sentir uma espécie de dor afiada.

lembro das grandes decisões tomadas aqui, dos rumos que mudaram e nos trouxeram mais passos à frente.

recordo momentos, que passaram afinal tão rápido, e é como se ao mudarmos os perdêssemos na grandiosidade do que foram.

 

vou à varanda.

os cedros dançam na mesma valsa interminável desde que os vi no primeiro dia.

há um que continua seco e erguido ao céu, numa espécie de desafio à morte, mantendo-se fixo com raízes que morrem lentamente. não há vivalma na rua e as rolas arrulham nalgum canto que não vejo. 

o cão do vizinho solta um latido quando sente o meu movimento na varanda. rego duas plantas e tomo um café.

não fará sentido tal apego a uma varanda, na próxima casa onde há tanto espaço exterior. 

encontrarei outra coisa que faça os meus dias?

 

vou ter saudades.

mesmo que tenha jurado que esta nunca seria a minha cidade e, muito menos, a minha casa.

 

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enfim, pessoas que já passaram por uma gravidez:

 

tiveram dores de costas?

como lidaram com elas? 

alguma solução milagrosa que não seja esperar que a barriga volte ao sítio depois de porem no mundo os três quilos e quinhentos de pessoa?

tipo, sei lá, banhar todos os dias em leite de cabra salgado com sal dos Himalaias?

ou dormir em cima de um tapete felpudo comprado na feira de Arrentela?

 

como? de que forma?

é que se há dias que a coisa é minimamente controlável e as dores de costas são mínimas ou mesmo inexistentes, há noites de inferno que nem almofadas supostamente milagrosas resultam. 

e dói como o catano.

vá, partilhem:

  • doeu?
  • não doeu?
  • como aliviaram?
  • ou não aliviaram porque mãe que é mãe sofre e pronto?

 

ai, contem-me tudo.

 

(sim, a seita do arroz com quem almocei ontem diz que a minha barriga é mínima. as minhas costas não acham). 

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transformar coisas em ouro?

tornar-te invisível?

ler os pensamentos alheios?

transformar pedras em gelados de caramelo?

ser a pessoa com mais força do universo?

poder viajar no tempo?

ser uma bruxa do universo harry potter?

poder ter todos os livros que quisesse só com um estalar de dedos?

 

qual destes era M.J.? qual era?

 

NENHUM. 

se pudesse escolher, de todos eles jamais pensados, ponderados, obtidos queria o mais simples:

CONTROLAR O CLIMA.

 

arre que já não se aguenta tanto calor. 

com mil cães pulguentos. 

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publicado às 11:43

os casos de homicídio que às vezes assaltam as televisões e são notícia em tudo o que é jornal, com pormenores macabros, detalhes horríveis, questões impensadas, arrepiam-me como se me dessem cortes afiados na pele.

homicídio de mulheres e homens pelos respetivos esposos, de pais a filhos e de filhos a pais é algo que não consigo, sequer, perceber.

juro que faço um esforço.

penso: imaginemos que sou aquela mulher/aquele homem e decido matar o meu marido/a minha esposa. premeditadamente. escolho método e decido dias e horas. e agora? e agora o meu cérebro para. numa espécie de bug informático. desliga-se automaticamente e não passo daquilo. não dá, diz-me ele. é impossível. 

 

como se planeia uma coisa assim? olha-se para a pessoa que partilha connosco a vida, vê-se dormir, acordar, sentamo-nos à mesa a comer arroz e frango do jantar, e ponderamos ao mesmo tempo, enquanto se descasca uma laranja, as maneiras mais macabras de pôr fim aquele ser que respira e está ali à nossa frente, depois de decidirmos uma vida em conjunto?

como?

que particularidade cerebral é preciso para uma coisa assim? é doença? todos os homicidas são doentes?

ou há algo mais?

uma pequena parte do cérebro carregada de maldade que está presente em todos nós e, de repente, sem motivo aparente, se ativa e começa a dominar-nos?

teremos todos essa capacidade?

 

um dia destes, na confusão das hormonas que me têm dominado a vida e feito com que metade do meu tempo seja feito de choradeira - à vezes sem motivo algum, só porque sim, como se os olhos precisassem de ser refrescados - o rapaz deu comigo em prantos na cama, a meio da noite, numa coisa incontrolável, inconsolável.

foi provocado por um pesadelo - outra coisa frequentíssima desde que estou grávida:

era inverno, chovia desalmadamente e alguém me telefonava a falar de acidente e morte e fim e ele estava envolvido. quando sinto, ainda agora, o que senti naquele pesadelo, arrepiam-se os pelos dos braços e há um manto de escuridão, de finitude e de despedida que me cobre.

e ao mesmo tempo, havia uma decisão muito concreta, naquele pesadelo, depois daquele telefonema: sem ele eu também não seria. 

foi preciso uma boa meia hora para acalmar. mesmo sabendo que era um pesadelo e estava ali, deitada na minha cama, com ele ao meu lado a tentar entender, sem perceber metade do que se estava a passar - é impossível o rapaz acompanhar as lágrimas todas ligadas às hormonas - havia um sentimento horrível de desespero que me roía a pele. aquilo tinha sido tão real que, de repente, não sabia se eu era o rei a sonhar com uma borboleta ou uma borboleta a sonhar com um rei.

havia uma certeza de morte e tudo o resto passara para segundo plano.

tudo. incluindo eu: 

desistia. 

na verdade, acho que desistirei se - toca a bater na madeira - uma coisa dessas acontecer.

 

a ideia de que alguém é capaz de matar, gratuitamente, faz-me cortes na pele.

pela incompreensão.

gosto sempre de tentar perceber o que sente o outro. nem sempre concordo mas, na maioria das vezes, consigo entender. consigo perceber certas motivações, mais ou menos racionais, que estão por trás de comportamentos às vezes cruéis, outras vezes patetas.

sinto-me capaz de entender o que leva a maioria das pessoas a assumir certas coisas.

não é difícil se olharmos como um todo.

mas a morte assim, premeditada, de um alguém que pode ter sido já toda a nossa vida... bloqueia-me.

às vezes entendo mulheres que matam maridos que as violentaram toda a vida. são situações horrorosas de pessoas que foram maltratadas, torturadas física e psicologicamente, que tentaram sair daquela situação e foram impedidas pelo agressor. consigo perceber. num rompante a bolha estoura e acontece o acabar com a situação da única maneira que sentem ser possível.

consigo entender - e isso  não é concordar, pelo amor de deus - gente que mata um desconhecido na ânsia de um objetivo racional: roubar, por exemplo. há uma motivação egoísta mas, porventura, há também a desassociação da pessoa que se mata enquanto ser humano, visto que nem se conhece.

mas decidir, durante meses ou semanas ou dias, não interessa muito o tempo, pôr fim à vida de uma pessoa com quem se casou?

ou que nos pariu?

ou que parimos?

como?

que parte do cérebro é preciso ativar para adquirir essa capacidade fria e cruel e ser apenas um pedaço de carne, já morto, desprovido de qualquer sentimento de amor, empatia, respeito pela vida humana?

creio que quem mata, desta forma, está mais morto do que quem vai matar.

já não é ser humano. é só uma carcaça putrefacta, repleta de ondas de crueldade, cheias de pus e doenças hediondas.

e não entendo, não consigo, bloqueio.

como? como raio é possível?

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é só uma rápida nota

por M.J., em 26.09.18

depois de ingerir 75 gramas de açúcar como quem come uma maçã; e ter sido picada 8 vezes (quando era só preciso 3, mas as minhas veias são mais teimosas do que eu) tenho já confirmação:

não há diabetes por estas bandas.

 

estou tão contente que até bebia outras 75 gramas de açúcar para comemorar.

(só que não: andei o dia todo a tremelicar com o efeito de tanta glicose). 

 

3 vivas ao meu pâncreas. 

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Estou deitada numa marquesa

por M.J., em 25.09.18

De um laboratório de análises clinicas, no meio de um exame à glicose.

Portanto... uma pessoa conta o açúcar da fruta, iogurtes e afins; não come gelados, sobremesas e etc e tal; e depois é obrigada a engolir 75 gramas de açúcar de uma vez só, para um exame?

SETENTA E CINCO GRAMAS?

Quantos milkas de caramelo tinha de comer para isso tudo?

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disto de ser drama queen

por M.J., em 24.09.18

estou a ser uma chata de merda com isto da gravidez.

e não, não temos pena.

cada um é chato com o que lhe incomoda e isto, a mim, tem-me incomodado por cinco.

uso o blog - mais uma vez - como um caderno de desabafos e medos e não me sinto minimamente mal por isso. sabem perfeitamente o que fazer caso não vos interesse (tal como eu fiz com tudo o que não me interessava também).

 

posto isto, ando um nadinha sem paciência para merdicites.

é o que dá ter um feitio azedo e um incómodo físico que não estava cá antes.

tenho menos tolerância:

  • para os conselhos não pedidos (e atenção, NÃO confundir as dicas/experiências pessoais como as que me têm deixado aqui no blog - e que agradeço do fundo do coração - com cenas de "deixa-te de mariquices"),
  • para as faltas de responsabilidade no trabalho,
  • para a sobranceria de mulheres que dizem "ai comigo correu tudo muito bem, foi uma coisa santa, não estejas com tanta coisa que não custa assim tanto",
  • para o barulho do cão do vizinho que ladra, invariavelmente, todos os dias às seis e meia da manhã (se o apanho sozinho nas escadas arranco-lhe a língua e sirvo-a estufadinha aos donos),
  • para o marketing das empresas de crio-preservação estaminal que me fizeram ter uma discussão com o rapaz (eu achava que devíamos preservar as células, ele achava que aquilo não servia para nada) até me informar a fundo sobre o assunto e perceber a tremenda TRETA que aquela porcaria é.

 

portanto, falando sobre alguns dos tópicos:

é bem provável que me salte a tampa e dispare em quem me tenta fazer passar por drama queen, que me diz que é tudo muito bonito e fácil, que não é nenhum exagero e que esta coisada toda da gravidez e do parto é muito simples e não custa nada (mais uma vez não confundir com nenhum dos comentários que me foram deixados até agora e me têm ajudado imenso).

 

ah M.J. então significa isso que só queres que te afaguem o ego e que te digam o que queres ouvir? é isso, sua hipócrita?

oh-bamo-lá-ver:

  1. eu por acaso digo a um insatisfeito com o trabalho, que se queixa das condições precárias que tem, que o meu é muito compensador e que me corre tudo muito bem e que nada mais me realiza como isto? e que ele devia deixar-se de merdas e contentar-se com o que tem, que não é assim tão mau?
  2. eu por acaso digo a alguém que ganha o salário mínimo e se queixa que o dinheiro mal chega para as contas, que eu cá ando muito confortável, que ganho mais e que, por isso, ele devia enfiar as queixas num certo sítio?
  3. eu por acaso digo a alguém que se vê à nora para pagar a renda de um apartamento t1 no centro de uma cidade em especulação imobiliária que está a ser muito parvo e que eu até estou a comprar uma vivenda?
  4. eu por acaso digo a um pai de 2 filhos que acabou de perder o emprego que se deixe de tangas e que devia ter pensado nisso antes de pensar em aumentar a natalidade?
  5. eu por acaso digo a uma pessoa que sofre de enxaquecas que as dores de cabeça leves que eu tenho não são assim tão difíceis de suportar e que essa pessoa, provavelmente, está a exagerar?

 

é que há coisas e coisas.

e o facto de a minha experiência em certas coisas ser muito positiva NÃO faz com que a dos outros tenha de ser igual.

 

uma vez li uma senhora a dizer a uma grávida que estava de baixa, que hoje em dia as mulheres são muito mariquinhas, visto que ela trabalhou até ao dia do parto e nunca se queixou.

pois bem, suprassumo das grávidas: quão triste é ter uma vida tão limitada que não pode pôr uns dias antes do parto para se preparar e descansar? e quão mesquinho é fazer sentir uma pessoa em gravidez de risco que aquilo que está a passar é secundário e essa pessoa é uma aproveitadora? é que, se vamos julgar sentimentos alheios, podemos ir por este lado, não?

 

ando sem paciência.

não o descarrego em quem convive comigo por uma questão de sensatez (e de gosto).

tento engolir anseios, dúvidas, medos e esta pequena parte do meu cérebro que me atraiçoa constantemente em pensamentos tétricos.

mas, com vossa licença (ou não, tanto se me dá) este sítio não vai ser flores, arco-íris, unicórnios e algodão doce durante bastante tempo.

 

agradeço imenso a quem por aqui passa e vai deixando palavras de conforto.

a maior parte desses comentários têm-me feito sentir como se eu não fosse uma atrasada mental (não ponho em causa se sou ou não, acho subjetivo). o tema da amamentação, por exemplo, ajudou-me mesmo a libertar um peso dos ombros e estou-vos muito agradecida por isso. (o post anda por aqui, se quiserem ler).

mas não se espantem se o tom de drama queen continuar enquanto me sentir incomodada. 

pode ser que daqui a um ano isto volte ao normal.

(se é que algum dia foi). 

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