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da greve

por M.J., em 19.03.19

no dia em que me disseram que precisava de ir para a maternidade parir tive uma crise de ansiedade.

não foi nada bonito: uma grávida muito grávida, sentada no consultório da obstetra a chorar baba e ranho porque o momento que temera durante toda a gravidez finalmente chegara. ao contrário de muitas grávidas eu não ansiava pelo parto como o momento mágico em que tudo acontece. na minha cabeça, pelo contrário, existia um cenário apocalíptico de sangue, cocós, gritos, pernas abertas, desconhecidos e completa dependência de outrem. 

sou uma exagerada. não podia ser de outra forma nessa altura.

não foi portante novidade a consulta com a psicóloga antes de ir até à maternidade. que a pressa não era assim muita: o puto furou o saco onde estava metido (provavelmente decidiu fazer a espargata e a coisa correu mal) e o liquido ia saindo aos poucos. mas só aos poucos.

depois de ser acalmada pela santa psicóloga, que soube o que dizer quando eu ponderava mesmo fugir pela janela, encolher-me num canto e esperar que passasse (um excelente plano, sem dúvida) e entrei na maternidade, fui aos poucos perdendo o receio do drama sanguinário que a minha mente formulara durante os nove meses. 

é claro que a minha médica foi fundamental mas a pedra de toque que transformou todo o meu cenário de guerra em algo perfeitamente normal foi o trabalho das enfermeiras:

  • foi uma enfermeira que me ajudou com as dores a meio da madrugada, já depois de ter tomado comprimidos para a indução do parto;
  • foi uma enfermeira que me acalmou no caminho do bloco;
  • foi a enfermeira especialista no bloco que me esteve do meu lado desde que entrei até à mudança de turno, que me explicou tintim por tintim o que ia acontecer, que falou comigo sobre trivialidades, que me fez companhia e me ajudou em todo o processo;
  • foi a enfermeira que a substituiu depois que agarrou na minha mão no momento do parto, que me disse quando e como fazer força e que me incentivou com palavras simpáticas;
  • foi uma enfermeira no dia a seguir que ensinou o miúdo a mamar;
  • foi uma enfermeira que me disse que não havia mal algum em dar-lhe leite de fórmula quando ele perdeu imenso peso porque eu simplesmente não conseguia que ele mamasse;
  • foi uma enfermeira que me levou para um quarto vazio quando, na quinta noite sem dormir porque o outro miúdo berrava horrores, a minha cabeça parecia explodir.

tinha ouvido, lido milhentas histórias de casos de grávidas mal atendidas em maternidades/hospitais públicos por enfermeiros.

ouvira falar dos risinhos no canto da boca, da impaciência, da ironia, do gozo: "quando o fizeste não berravas assim", dos jeitos bruscos, do olhar para uma grávida como mais uma, para um bebé como mais um. ouvira falar de enfermeiras que insistem na amamentação como se nada mais houvesse, levando mães inexperientes ao desespero e a sentirem-se péssimas mães; enfermeiras brutas, antipáticas e sem a empatia e humanidade necessária para perceber que é um momento de extrema fragilidade (ou pode ser, para algumas mulheres) e que transformavam aqueles dias em pesadelos.

e depois, comigo, nada foi assim.

o momento do parto em si revelou-se perfeitamente natural, fácil até, botando por terra todos os meus piores pesadelos e fazendo-me rir pelos desabafos que fui deixando a quem me ouvia naquela altura.

os dias a seguir, na maternidade, que me causavam ansiedade também.

e tudo devido, sobretudo, ao trabalho das enfermeiras que me acompanharam todo o tempo. se há palavras que podem definir o trabalho delas (e deles, que deve haver eles, mas a mim só me calharam senhoras) foi a humanidade, o altruísmo, a empatia e o profissionalismo. 

 

é por isso, e por tantos outros casos que li, ouvi, vi em primeira mão, que estou com os enfermeiros na sua luta.

estou com eles enquanto classe muito mais importante do que a importância que lhe é dada pela sociedade, habituada a vê-los como meros lacaios dos médicos. 

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vergonha

por M.J., em 12.03.19

anda a polémica no ar por causa das escolhas da sic e tvi dos programas da noite de domingo.

que é um atentado às conquistas das mulheres, que se tratam as mulheres como gado, que as tvs deviam ter vergonha, etc e tal.

mais do mesmo: blá. blá. blá.

 

não me interpretem mal.

desde que engravidei que me sinto mais atenta às pressões da sociedade acerca do que é exigido às mulheres. que vejo os olhares de soslaio sempre que se percebe que a divisão de tarefas quanto ao puto é irmãmente dividida entre mim e o pai dele. que vejo o julgamento em outras mulheres sempre que dão conta de que o meu papel como mãe está no mesmo patamar que o dele como pai e as responsabilidades são exatamente as mesmas. que sinto em muita gente próxima que, supostamente, eu devia dedicar-me exclusivamente à criança e o pai ir trabalhar (porque, lá está, não fui presenteada com um pénis).

portanto, sim, nunca como hoje percebi tanto as diferenças exigidas a homens e mulheres e como estas últimas são sobrecarregadas, injustiçadas e estão numa posição muito mais merdosa do que o ser humano que nasceu com um penduricalho a mais.

 

posto isto, meus senhores, desculpem lá, mas não cabe à tvi e à sic educar seja quem for, sobretudo através da sua programação.

se me disserem que a rtp pode ter essa função até posso conceder um bocadinho. mas só. e só um niquinho.

no dia em que a educação da sociedade couber às televisões, desculpem lá mas, falando curto e grosso, estamos fodidos. era só o que faltava que a programação das tvs privadas fosse direcionada à educação das famílias. era quê? missa em horário nobre? o marcelo rebelo de sousa a falar de como ser um cidadão exemplar? ou o ricardo araujo pereira a explicar à plebe como se enxovalha com graça um pequeno tirano? e quem definia o quais os valores que a tv tem de transmitir? o grande comité para a educação dos meninos? a partir de que valores?

não meus senhores, não cabe à televisão a educação dos vossos filhos, irmãos, pais, avós e tios. 

e mais! se há programas destes, em que as mulheres desfilam como gado perante os olhares atentos de agricultores e futuras sogras, em que se sujeitam a uma avaliação minuciosa que parece ter saído do grande livro das moças, a culpa é vossa. porque reflete um pouco da sociedade em que estamos.

são vocês (e quando digo vocês, quero dizer nós) que ensinam na maior parte das vezes esses conceitos. que ensinam (ensinamos) uma data de valores desadequados, velhos, a cheirar a naftalina às nossas crianças, mesmo que nem nos apercebamos:

- não chores, um menino não chora, queres parecer uma menina?

- não sejas mariquinhas!

- não, não lhe visto vestidos que ela é traquinas e veem-se as cuecas.

- claro que não vais sair assim vestida de casa, pareces uma mulher da vida.

- como é que queres namorar se nem sabes fritar um ovo?

- já viste esse cabelo? assim não há homem que te pegue.

- o quê? andas aqui? então e o miudo está com quem?

e por aí adiante, em constante movimento.

 

tenderia até a dizer que são as mulheres que mais proliferam o machismo evidente apesar de não ter dados estatísticos para confirmar esta afirmação. mas posso falar do que vejo, do que leio, do que escuto. e o que observo são as mulheres em constante luta, à espera de lixar a primeira que se lhe aparecer à esquina. "espera aí que já te fodo", com os braços apontados enquanto clamam a deus e ao mundo: olha que programa hediondo! 

contei o episódio abaixo no meu instagram e facebook no domingo passado (se ainda não me seguem pensem nisso, que eu ando muito mais por lá do que por aqui pela facilidade de usar o telemóvel). 

 
 
 
 
 
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O puto dorme 6 horas seguidas durante a noite. Há uma ou outra que acorda mais do que uma vez mas há semanas que o padrão se mantém. Na semana passada fui a uma festa de aniversário de um bebé onde estavam uns 7 ou 8 e respetivos pais. E no meio de uma conversa em que só se falava de putos e se partilhava experiências tive a infeliz ideia de comentar que, felizmente, ele dormia 6 horas seguidas durante a noite. Juro que nem foi com o objetivo de me vangloriar até porque o mérito não é meu mas do puto. Foi apenas porque se falava de sono, dormir e leites noturnos. Pois meus senhores, logo a mulherada toda em coro: - 6 horas??? Ah, isso é agora, espera até aos dentes; ou, - Deixa ele chegar com viroses a casa e vais ver; e ainda, - Aproveita que dura pouco. Está bem então. Desculpai lá se a minha criança dorme mais porque não precisa das minhas mamas de 2 em 2 horas. Prometo que vou passar a acordar o miúdo para sofrer como vós. Este tipo de comentários não acontece noutras coisas. Ninguém diz: - O quê? Estás a adorar o teu trabalho novo? Espera dois meses até o teu chefe te assediar no elevador; ou: - Emagreceste 10 quilos? Daqui a uma semana já os recuperas todos; e ainda: - Carro novo? Dou-te um mês para o mandares para a sucata e morreres encarcerada. Então quais os motivos para que se comente este tipo de "não fiques contente que o pior está a chegar?" Ontem foi o dia da mulher. Vi centenas de posts de mulheres a desejar igualdade e respeito para as mulheres. Acontece que não o fazem entre elas. Quando comentei - ingenuamente - das 6 horas do puto um dos pais presentes ainda murmurou "6 horas? Quem dera!" Isto antes de ser atropelado pelo mau agouro da mulherada presente. De que vale nós mulheres desejarmos ser mais na sociedade se desejamos sempre que a vizinha seja menos? Se parece que estamos prontas à esquina para dizer: - o miúdo disse que gosta de ti? Espera até te roubar a mobília para comprar droga. #mãe #maes #desabafo #mulheres #maternidade #experiência #bebes #crianças

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e os comentários com experiências de outras pessoas foram sobretudo nessa linha: somos umas cabras umas para as outras. temos a maior tendência para nos lixarmos, acusarmos, julgarmos e por aí adiante acabando, no fim, por gritar muito alto que a culpa é da tvi e da sic, que deviam ter vergonha nos programas que passam.

não minhas senhoras, vergonha devíamos ter nós! vergonha devíamos ter nós por todas as vezes que achamos que era suposto a vizinha estar um nadita mais abaixo que nós.

 

tenho ao máximo tentado lutar contra isso. juro. vou conseguindo cada dia um bocadinho mais.

e não é por dar uma olhadela ao programa dos agricultores e das sogras que isso altera.

a alterar é só para me lembrar de nunca, jamais, educar o meu filho para que se comporte, pense ou sinta daquela forma. 

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resumo

por M.J., em 27.02.19

comprei tulipas amarelas no fim de semana. o objetivo era que, de alguma forma, combinassem com os girassóis do casamento e que estão espalhados em fotografias na sala.

aos poucos a casa vai-se transformando. passamos do "temos o essencial para viver" para "vamos melhorar isto". já há quadros nas paredes, candeeiros, fotografias e mantas no sofá. já há almofadas gigantes, velas e flores. e um bolo de laranja, no domingo, para dar um olá a velhos amigos de infância que passaram a conhecer o miúdo. 

estamos todos tão crescidos.

 
 
 
 
 
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As flores são tulipas mas cheira é a laranja. #cake #vamoslareceberpessoas #domingo #orangecake

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tenho uma série de posts na cabeça.

gostava de falar sobre o parto, sobre a gratidão à minha médica, sobre a humanidade da minha psicóloga, sobre a empatia e profissionalismo das enfermeiras. gostava de falar sobre mamas e amamentação e como nunca fui pressionada - ao contrário do que esperava - para o efeito e como me sinto tão aliviada por o puto beber leite em pó. e estar saudável. gostava de escrever sobre os fantasmas que me ensombraram nos primeiros meses, de alguns momentos de absurda angústia e de como tudo me pareceu negro em alguns dias. gostava de escrever sobre como a seita veio a aveiro para nos ver, de como me senti amada por duas pessoas tão especiais que demonstram que isto não são só blogs. gostava de explicar um sentimento de amor profundo que vai crescendo todos os dias um pouquito mais no peito. 

mas não tenho tempo.

 

continuo assoberbada em trabalho. deliberadamente.

porque me faz sentir mais do que mãe e porque, sinceramente, não me consigo ver apenas como mãe, ainda que baste para muita gente. ainda que saiba que há mulheres que dariam tudo para poder ficar em casa só a cuidar dos filhos - e nada tenho contra (nem a favor, simplesmente não é nada comigo). ainda que tenha perfeita noção do privilégio que tive ao poder escolher se queria ser só mãe durante seis meses ou não. e não quis. não podia. não dava. isso seria diminuir-me quando deveria acrescentar-me. seis meses em que apenas me dedicaria a alimentar, ver crescer, cuidar e ficar à espera que as horas passassem entre cocós e fraldas transformar-me-ia numa pessoa absolutamente frustrada e incapaz. transformar-me-ia numa péssima pessoa, inapta e sem perspetiva. não que isso transforme as outras pessoas, não me interpretem mal. mas transformaria a mim porque não tenho essa capacidade tão grande de me doar por inteira de forma absoluta e integral. para ser boa mãe preciso de ser boa pessoa. e para isso preciso de me sentir plena. preciso de me sentir útil em várias vertentes. por isso aqui estou, assoberbada em trabalho. muito mais do que algum dia tive porque me desdobro em 5. 

no entanto, cada prazo cumprido, cada objetivo concretizado inunda-me de felicidade. sou capaz. fui capaz. consegui. não fiquei presa às ideias concebidas. não me perdi nos medos. não fiquei meses sem ser eu, achando que me perdera. estou aqui. completo os espaços da minha vida, cada um com a sua importância sem os descurar. estou eu. completa.

 

o miúdo foi ontem às vacinas.

chorou que se fartou e depois, quando já não se lembrava, começou a rir enquanto a médica nos passava a receita para as não comparticipadas pelo SNS. e para uma almofada especial com o objetivo de evitar deformidades na cabeça que o miúdo cismou que dormir é sempre para o mesmo lado e ainda me ficava com a cabeça torta.

se a almofada resulta ou não... não sei. mas que ele gosta dela não há dúvidas.

 
 
 
 
 
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Vesti ganga pela primeira vez a ver se convenço a médica a espetar as vacinas com beijinhos em vez de seringas. #babyclothes #babyboy #vacinas #janaoeprojetoaltino

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tem engordado 41 gramas por dia.

uma pequena lontra ainda que continue num percentil baixinho. praticamente nenhuma roupa que compramos antes dele nascer lhe serve pelo que vamos renovando a coisa. tive de proibir a mamã de comprar porque me dói o desperdício e há coisas que ele vestiu duas vezes. é para esquecer.

 

já ri para nós.

posso mesmo dizer que ri mais para mim. é esperto. sabe perfeitamente quem lhe muda mais vezes as fraldas, quem lhe dá o leite, quem o embala e acorda a meio da noite quando o pai tem de conduzir no dia seguinte. portanto saca do sorriso desdentado e suborna-me para que me esqueça das birritas pequenas, das noites a dormir aos pedaços e do cansaço.

que tive sorte.

dorme bastante bem acordando agora, em média, duas vezes por noite. e durante o dia fica esparramado na alcofa ou na espreguiçadeira, ao meu lado no escritório, dormindo ou dando socos ao ar com toda a força. de vez em quando balbucia qualquer coisa. olho para ele, faço voz de bebé, ele ri e continuamos, cada um na sua tarefa. 

tudo tranquilo - na maioria dos dias.

 

já saímos com ele para praticamente todo o lado.

que o rapazito não acha grande piada a andar no ovo e prefere estar em casa. mas saímos. levamos leite extra nos doseadores, biberões com água medida e o aquecedor dos mesmos no carro. corre bem. por norma dorme o tempo todo. a não ser naquele dia, na Laskasas onde escolhíamos candeeiros, em que explodiu com tal força que poder-se-ia dizer que um terramoto tinha invadido a cidade. e viemos com ele para casa, a rir que nem perdidos, para lhe mudar a fralda que aquilo não era coisa que qualquer fraldário aguentasse.

 

o tempo vai passando.

ele vai crescendo.

e, estranhamente, eu também.

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banalidades

por M.J., em 18.02.19

às vezes penso se voltarei a escrever neste blog como escrevia antes.0

não é que tenha ficado descontente com a escrita mas, simplesmente, a vontade desapareceu. desapareceu em muito a tentação de escrever momentos, situações, pequenas coisas do dia, opiniões e tudo isso de que se constrói um blog.

é que na maior parte dos dias o que tenho a dizer é amargo. sinto-me mais amarga, nos últimos tempos. como se isso fosse possível bem sei, uma vez que, tendo em conta quem sou, nunca fui um doce de pessoa. 

és, és,

diz o rapaz, embora eu não acredite.

sinto-me mais amarga. mais azeda. mais frustrada.

no fundo, é como se cada dia pusesse de lado mais um pedaço de mim em função de outra coisa. coloco de lado mais uma vontade, um prazer, uma liberdade. e aos poucos, no meio desse deixar-me de lado, porque não há outra opção, vou perdendo quem sou.

na maior parte dos dias resigno-me.

eu, que nunca fui disso: não me resignei a uma vida no sítio onde nasci - e era a que esperavam de mim; não me resignei a trabalhar na área que achava que queria e me punha infeliz; não me resignei aos trabalhos que me consumiam aos poucos; não me resignei a não conseguir o que queria. a resignação nunca foi o meu forte. nem a paciência. ou o comodismo. ou o contentar-me com as pequenas coisas que tenho. é como sou. não há muito mais fazer (pausa para resignar-me a esta constatação). 

e esse facto, essa incapacidade de me acalentar com as pequeninas coisas, de ver unicórnios nas conquistas minúsculas, de me sentir plena por uma vivência, seja ela qual for, bate de frente com a situação atual.

é uma pena, bem sei, mas - repito resignando-me - as coisas são como são.

e é por isso que me vou sentindo cada dia um niquito mais amarga. um niquito mais azeda. um niquito mais frustrada.

pronto, tem de ser,

comento comigo enquanto faço isto e aquilo e não faço aquele e aqueloutro.

tem de ser porque tem de ser e eu vou perdendo os dias e as horas. portanto, queixo-me a mim. só a mim, pois claro. enumero mentalmente os meus queixumes e azedices. este, este, este. e prossigo. às vezes deixo-os consumirem-me de tal forma que faço uma pausa à vida. bato o pé e digo:

não, chega, comigo não,

mas dura pouco. dura quase nada porque a realidade assim o exige. e volto à resignação. volto ao deixar-me de lado. volto a sentir-me cada vez mais incompleta. mais vazia. cada vez menos eu.

não era suposto ser ao contrário?

 

há uma parte de mim que me aponta o egoísmo ao nariz.

sei disso, respondo-lhe, numa conversa, as duas de nós,numa pastelaria imaginada, a ouvir o som de porcelana das chávenas imaginadas e a sentir o cheiro do café que não existe. sei do meu egoísmo. sei dele desde que tenho consciência de mim própria. sei dele desde que me disseram, aos seis anos, que tinha de me confessar para fazer a primeira comunhão e precisava de apontar pecados.

quais pecados?

perguntei eu à avó. e ela, sem saber bem o que responder,

podias falar daquela vez que respondeste mal à tua mãe; ou quando empurraste a ana do muro; ou quando disseste uma asneira.

e depois, uma pausa depois,

ou do teu egoísmo. és um bocadinho, sabias?

não sabia, há época. soube mais tarde quando comecei a tentar entender-me. soube na adolescência - atirado tantas vezes à cara. soube na juventude. sei agora que me sinto velha, mais velha que mil pedras e é como se tivesse já perdido tudo o que havia para viver. 

sei desse egoísmo, pois então, ainda que todos os dias me resigne um bocadinho mais em função de outros. ainda que todos os dias me vá perdendo um bocadinho mais, me vá anulando um bocadinho mais e comece a ser a caricatura de mim que descrevia outrora por carolice:

velha; azeda; amarga; frustrada; cansada e incapaz de dar valor a cada pequena conquista. 

 

há conversas imaginadas entre mim e eu todos os dias.

temos discussões profundas e sérias em que os meus queixumes são analisados à exaustão.

nunca chegamos a qualquer conclusão que não o aumentar desses mesmos queixumes e dessa mesma exaustão, num aumentar de argumentos que me faz doer a cabeça. 

conforma-te, resigna-te diz a outra de mim. e quando eu contraponho, zangada, acresenta,

ou grita. mas baixinho, em murmúrio.

acaabando por concluir:

melhor mesmo era se escrevesses. para não acordares ninguém. 

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banalidades

por M.J., em 11.02.19

afundei-me em trabalho porque foi a maneira mais fácil de me provar que nada tinha mudado embora nada volte a ser o que era e eu não possa voltar a fazer o que fazia. afundei-me em mil compromissos, todos muito juntos, fiquei sem horas para dormir, para ler, para ver tv, para caminhar pelas ruas do bairro porque só dessa forma me é possível não pensar. assumo: tenho compromissos que não posso falhar e nada mais interessa, quem eu sou não interessa, o que sinto não interessa. que é isso que sinto há uns tempos. eu não sou eu e nada do que sinto vale um pataco furado. os meus desejos, anseios, medos, sonhos, vontades são colocados numa espécie de segundo plano, para tudo e todos inclusive para mim própria. e sempre que o sinto e percebo que não voltarei a ser eu, por mim, eu enquanto eu, só por mim, é como se me rasgassem o peito e tudo o que pensei ter enterrado há anos, num poço muito fundo, completamente ultrapassado, viesse a correr, numa espécie de avalanche de lama, inundando-me até não conseguir pensar, dormir, comer, ser ou fazer algo que não seja honrar compromissos. 

sei, com toda a força do que sou, que a única coisa que me mantém à tona nos últimos dias é a certeza de que assumi algo e vou levá-lo até ao fim. mesmo que uma parte de mim fique para trás e nada, nestes dias, me faça reconhecer quem sou. e tudo me aponte para uma direção contrária aquela que um dia planeei para mim. 

fazes a tua cama, deitas-te nela, dizia-me a avó, sentada na máquina de costura enquanto eu envolvia bonecas com restos de tecidos, em forma de vestido, e pensava nos livros todos que ia ler, nos sítios todos que ia visitar, nas pessoas que iria amar e na vida que seria minha, numa espécie de fúria por conquistar, mal saísse daquele lugar que, achava eu, me cortava as asas e impedia de ser maior.mal sabia eu que, de livre vontade, haveria um dia de me enjaular e impedir-me, de uma vez para sempre, de ser o que achava que queria ser. porque na verdade só achava. só achei. só acho. e quando não sabemos quem somos, o que queremos e para onde devemos ir, arriscamo-nos, no meio desse achar, a nunca nos encontrarmos, enjaulados na incerteza do que seria e não é.

estou cansada. 

mas não há um compromisso que não honre ou que deixe ficar para trás, no meio do cansaço que me consome. 

 

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pergunta para dois queijos*

por M.J., em 07.02.19

será oferecida quente, acabadinha de extrair, ou com dois dias para que haja um processo de decantação?

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* ou dois sacos de urina, se preferirem.

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sorriso

por M.J., em 01.02.19

estou cansada. diria mais: estou esgotada.

o miúdo passou grande parte da noite em claro.

eu também.

de repente começou a  produzir muco em quantidades industriais, com dificuldade em respirar pelo nariz o que lhe provocava mau estar e choro.

choro longo.

dolorido. 

 

dormi às mijinhas.

acordei de meia em meia hora, levando depois uma hora para adormecer.

de manhã, quando acordei com ele já mais restabelecido, os pulmões a funcionar na exigência do leite do pequeno almoço, estava bem mais cansada do que quando me deitei, à meia noite. 

pensei alimentá-lo e dormir a manhã inteira.

choviam garrafões de água lá fora e o vento fazia uivar as árvores em frente.

só queria dormir.

só queria que alguém alimentasse o puto.

que ele se levantasse e fosse ao frigorífico servir-se de uma meia de leite e uma carcaça com manteiga.

levantei-me meia a dormir.

acordei aos poucos enquanto ele comia a olhar-me fixamente, os olhos pretos, gigantes, sérios e contidos, numa concentração de quem faz algo de extrema importância.

depois disso não havia como dormir. 

 

tentei trabalhar a manhã inteira ainda que uma parte de mim dormisse.

o mesmo agora de tarde.

o escritório está quente e a chuva vai caindo em bátegas na janela.

fui bebendo chá, bem quente, na tentativa de acordar.

trabalhei meia a dormir.

 

e depois, há pouco, enquanto falava para o miúdo, numa das mil pausas de hoje, ele deitado a olhar para mim sem vestígios da noite anterior, agarrado ao coelho oferta da seita...

deu-me o primeiro sorriso (sem ser por reflexo) da sua curta vida.

um sorriso aberto e desdentado.

um sorriso a sério.

para mim.

 

o primeiro sorriso foi meu.

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808 24 24 24

por M.J., em 29.01.19

está na moda esta coisa da gratidão, não é?

pois eu hoje agradeço ao serviço saúde 24 que me descansou em dez minutos e evitou que fosse, outra vez, a correr muito para o centro de saúde porque o míudo estava a fazer barulho ao respirar. 

oh meu deus, que a minha competência como mãe deixa tanto a desejar.

não era suposto já saber isso tudo?

 

(soro nas narinas... pensava eu que era coisa só para a veia mas, pelos vistos, também serve para o nariz.)

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resumos

por M.J., em 28.01.19

no sábado, durante a madrugada, vi-me claramente a descer as escadas, abrir a porta da rua e sair, de pijama e tudo, descalça, saltar o muro sem abrir o portão e caminhar pelas ruas do bairro, longe o mais possível de casa, do quarto, das fraldas e dos gritos do miúdo.

não sai, claro que não.

nem respirei fundo.

continuei a praguejar entre dentes enquanto lhe mudava a fralda e ouvia os gritos incessantes como se alguém lhe estivesse a arrancar a pila em vez de a limpar, enquanto lhe aquecia o biberão no aquecedor de biberões (uma coisa magnifica, tenho a dizer) e lhe enfiava a tetina na boca levando-o a calar-se.

fiquei, portanto.

e enquanto ele comia com a sofreguidão de um desnutrido (afinal só engordou 57 gramas por dia na penúltima semana) continuei a imaginar-me a caminhar nas ruas do bairro, do mais pacato onde já morei, sozinha, em silêncio. podia até sentir os pés descalços na estrada molhada, o frio cortante da noite no pijama fino (o quarto parece uma estufa por causa da paranoia do pai do miúdo) e os latidos dos cães à minha passagem.

e algum vizinho haveria de ver-me da janela, descabelada e remelenta, a tremer de frio mas com um grande sorriso nas trombas porque estaria a sentir algo que me faz mais falta do que milkas de caramelo: o silêncio.

e era isso que conseguia quase sentir, sentada na cama com o puto, a ver-lhe deslizar pela goela abaixo um biberão de leite: um silêncio absoluto sem gritos, acordares sobressaltados, gemidos, bolsares, puns ou aquele silêncio falso, repleto da preocupação de que alguma coisa não esteja bem.

um silêncio sem as minhas pragas mentais e os meus berros interiores. sem os meus discursos e discussões internas, de mil vozes a apedrejarem-se umas às outras, numa esquizofrenia louca.

o silêncio absoluto quebrado por um ou outro comboio que passa, um cão que late ou os meus pés no alcatrão gelado.

esse silêncio precioso para quem dele precisa, por personalidade e feitio.

 

é que nem é a coisa do levantar que me incomoda, os acordares a meio da noite ou o dormir às mijinhas.

tudo isso se aguentaria (e aguenta) se o miúdo berrasse em mute. se chorasse baixo, sem dar à goela.

#masnão.

enquanto não houver leite berra tão alto que, qualquer um de vós, esteja onde estiver, o poderá ouvir se se puser à escuta, só se calando quando houver uma tetina na boca. 

e é por isso que juro aqui por cinco biberões: se tivesse que acordar de duas em duas horas para amamentar e estar acordada mais uma para ele comer já me tinha atirado da varanda, partido os dois pés e entrado em hipotermia.

e juro também aqui, pelo esterilizador de biberões, que dou a mão à palmatória, sim senhores, mães do mundo que amamentam durante seis meses sempre que o puto quiser: sois umas heroínas. seis meses disso? e fazem mais alguma coisa?

claro que se tivesse optado por esses seis meses não poderia ter começado a trabalhar no dia a seguir ao sair da maternidade.

e não poderia, evidentemente, passar entre 8 a 10 horas diárias no escritório, com ele na alcofa ou no baloiço, a trabalhar que nem uma louca na tentativa de restabelecer a sanidade e as finanças (que meus senhores, se quiserem dar cabo de uma poupança tenho um conselho: tende filhos e comprai casa). 

são opções. 

cada um com as suas. 

 

quando ele fez um mês fui sair, à noite, com uma amiga.

na verdade, só me lembrei que ele fazia mêsiversário (existirá, já vos explico porquê) quando, entre pauzinhos de sushi e cavacas a percorrer o céu, se fez luz de qual era o dia em questão.

depois senti-me mal, ao chegar a casa e encontra-lo de barriga cheia e fralda mudada, no colo do pai, a dormir o sono dos justos mesmo com o barulho da PS4 e dos jogos com flechas e tiros.

senti-me mal não por ele dormir de pança cheia, evidentemente, mas porque abri o instagram - para dar a conhecer ao mundo a festa das cavacas voadoras - e  bati com as trombas numa fotografia da senhora que partilhou o quatro da maternidade comigo, onde aparecia um bolo todo catita, com uma vela ainda mais catita e uma figurinha em açúcar de um bebé deitado. e toda uma legenda de "fazes hoje um mês, meu amor, e todos os meses serão o teu dia".

ora bolas, pensei. era suposto ter ficado em casa a festejar o mêsiversário do puto.

o primeiro, pois claro, e todos os outros até fazer um ano. com direito a bolo (claro que o meu seria em forma de biberão) e fotografia de nós três com roupas de veludo em frente à árvore de natal.

não fiz nada disso: saí de casa com uma das pessoas mais importantes da minha vida, enchi o bucho de sushi, ia apanhando com uma cavaca nas fuças e regressei ao lar antes da meia noite, com a cara dolorida de tanto rir, enjoada com uma tripa de ovos moles e restabelecida para outra semana, sem me apetecer fugir do quarto a meio da noite, descalça na procura de mim em silêncio.

são opções.

cada um com as suas. 

 

no entanto, agora que penso nisso, espero que o puto não seja uma adulto frustrado, a precisar de consultar o psiquiatra, com um litro de leite na mala e a concluir - como todos concluímos - que os seus problemas derivam da infância e, sobretudo, porque a mãe nunca festejou com ele o primeiro mêsaniversário como todos os seus colegas.

se assim for... que remédio tenho eu se não pagar-lhe o psiquiatra.

 

(para quem estiver a contar: é mais um post sobre maternidade. e para que preencha todos os requisitos até deixo ficar uma foto que se isto é para fazer as coisas, fazêmo-las bem: já preencho os requisitos de babyblog?)

 
 
 
 
 
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Como vou conhecer as tias @omeunomenaoemazda e @mariadaspalavras vesti-me à beto. Resta saber se não babo a gola toda antes de chegar ao restaurante. #seitadoarroz #babyhands #babyboy💙 #laranjinha

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tive uma epifânia

por M.J., em 25.01.19

enquanto o puto gritava que nem um maluco:

se fosse agora em vez de altino... era tito.

há lá nome mais supimpa, pimpão e catita?

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publicado às 14:59


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