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pergunta para uma alheira

por M.J., em 15.01.19

por que é que os donos de cafés, restaurantes e demais espaços de copos e bebes se referem aos seus estabelecimentos como "a casa"? 

"ah, porque aquela casa é minha".

"queria mesmo trazer vitalidade a esta casa".

"já estou nesta casa há quarenta anos"

 

dizer "a casa" é dar credibilidade ao facto de se vender bejecas?

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de noite é que se começa o dia

por M.J., em 15.01.19

acordei às duas da manhã para mudar fralda e fazer leite. 

acordei às quatro e cinquenta da manhã para mudar fralda e fazer leite.

acordei às seis menos vinte da manhã, quando mal tinha fechado os olhos, com o puto aos berros como se o estivessem a circuncidar a frio.

tirei-o do quarto que basta um de nós não dormir.

não é que ser eu a não dormir seja boa solução. ou ideia. não é segredo que a falta de sono me transtorna a pontos mais sensíveis que a maioria dos mortais. o passado é uma lembrança constante e as noites mal dormidas tiveram, há alguns anos, consequências que ainda se notam na pele. o facto de dormir mal, hoje em dia, porque tenho um puto aos gritos não é sinónimo de que seja melhor ou mais bonito do que antes. não há beleza nenhuma numa criança a fazer uso dos pulmões como um bezerro desmamado.

uma vez que estava acordada e havia o risco de ele dar uso às cordas vocais, novamente, decidi trabalhar. portanto bebi um café, comi duas bolachas ranhosas, molengas, esquecidas no armário desde antes de parir e sentei-me no pc. forço os olhos cansados e começo. praguejo mentalmente. que se lixe. quando o paizinho do puto acordar e voltar da reunião te-lo-á o resto do dia:

podem conversar os dois sobre esta ideia magnifica que foi parir.

ainda que nenhum dos dois o tenha feito.

sobra sempre para os mesmos. 

 

dormir pouco põe-me mal humorada, rouba-me perspetiva e capacidade de analisar qualquer situação a frio e racionalmente. transformo-me na lamurienta (mais do que o normal, atenção, não que não o seja mesmo a dormir doze horas) azeda, com vontade de ir atravessar passadeiras, em horas de ponta, para atrapalhar o trânsito. tenho uma constante palavra afiada no canto da boca e era capaz de ser o pombo com que jogo xadrez quando não há lógica em discursos ou inteligência por onde se pegue.

optar por trabalhar é, portanto, uma boa ideia. limpa-me a cabeça, distrai-me o cérebro, mata-me os olhos e impede-me de desatar aos gritos - eu, que detesto gritos - pela casa, praguejando como um pedreiro e correndo o risco de traumatizar, de uma vez para sempre, um puto que ainda nem consegue focar objetos e sabe tanto que sou mãe dele como a tetina do biberão que lhe enfiei na boca há menos de uma hora.

vamos ao trabalho então. por sorte, não sou só eu! os senhores do lixo também o fazem, os padeiros, os bombeiros, os polícias, os enfermeiros, os médicos, os estudantes em noite de queima e a cristina ferreira: sou solidária convosco pessoal. 

 

uma última nota: se gostam da vossa vidinha como é aceitem um conselho (ou concelho?): por favor não tenham filhos. sobretudo se forem mulheres: é altamente prejudicial para a vossa saúde.  

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mãe a tempo inteiro

por M.J., em 11.01.19

não tenho - como é bom de intuir - qualquer apetência de ser aquilo a que as pessoas modernas chamam de "mãe a tempo inteiro".

se ser "mãe a tempo inteiro" é passar 24 horas com o nariz enfiado em casa, a avaliar consistências e frequências de cocós, fazer looks de vestimentas minúsculas, pensar em leite, dar leite, preparar leite, sonhar com leite, lavar roupa, arrumar roupa, avaliar macacos no nariz, decidir sobre horários de sono, aturar cólicas, carregar ao colo, carregar ao peito, carregar ao ombro, abanar, embalar, balouçar, balançar, mover, oscilar e afins... minha pobre criança... temos de te arranjar outra.

se calhar sou só mãe a meio tempo. ou em part-time, que faço isso tudo mas não em 24 horas: a criança não foi concebida sozinha e o paizinho dela também tem mãozinhas.

 

não me venham com coisas. cada um é para o que nasce e nada contra quem o decide. mas pensar em fazer isso, só isso, até a criança ter dentes com aparelho tem, para mim, o mesmo desafio intelectual de ficar sentadinha na relva a ver crescer uma cenoura. 

dá. 

admiro quem o faz.

quem abdica de uma vida profissional por livre e espontânea vontade e começa a dedicar-se unicamente a essa... profissão. porque sejamos francos, se há exigência profissional é nisto: é toda uma constante labuta de fraldas, leites, cocós, embalos, almoços, jantares. é toda uma exigência de paciência, apetência para análise e capacidade de acalmar uns brutos pulmões que quando se enervam fazem tremer paredes.

cum mil demónios.

só de pensar em fazer disso a minha vida nascem-me borbulhas no corpo todo, numa espécie de alergia.

 

portantos, com s no fim, ser mãe sim senhor (tanto mais que o puto já aí está) mas com conta, peso e medida (que sim, é possível, não sejamos dramáticos). 

aceito todas as ajudas: a avó quer vir visitá-lo e passar dois dias com ele ao colo a chamar-lhe meu menino? faz favor, é para já. há uma creche aqui ao lado que o aceita aos quatro meses? abdicamos de almoços e jantares fora, de um hotel ou outro e vai-se estimular a criança com outros amiguinhos, a crescer em sociedade desde pequeno. e o papá tinha pensado tirar aquelas duas horas para jogar PS4 mas o menino está rabujento? olha que lindo que ele é, até são parecidos, jogam os dois! 

porque esta coisa da mãe a tempo inteiro é muito bonita mas tem uma grave falha que não entendo: então e o pai? ele há anúncios de mamãs e bebés, há livros de bebés e mamãs ( e cito "no primeiro mês a mãe é a pessoa mais importante da vida do bebé" fim de citação), há fraldários nas casas de banho das mulheres (e não nas dos homens), há toda uma vestimenta para a mulher que é mãe, há todo um incentivo laboral para a recém mamã sair mais cedo (mesmo que não amamente) mas... e o paizinho da criança? por que é que se parte do princípio que só a mulher importa nesta fase? 

não sou grandemente feminista. abomino as capazes, por exemplo, e nunca me preocupei em queimar sutiãs (mesmo quando já estão velhos). mas este assunto incomoda-me assim um txiquinho ao ponto de pensar em reivindicar com um cartaz na rua ("não matem o intelectual das mãezinhas"). 

quando decidimos ter um filho foi uma decisão conjunta. eu não o conseguia fazer sozinha e houve uma contribuição equitativa para que ele aparecesse. claro que quando fiquei grávida quem suportou enjoos, dores de costas, azias, esquecimentos e outros incómodos fui eu. e quem teve que apanhar com uma seringa na coluna, ficar quase oito horas numa marquesa sem se pode levantar, fazer xixi para uma arrastadeira e outras coisas que, enfim, é melhor não falar, também fui eu. e também fui eu que fiquei sozinha com ele na maternidade, a meio da noite, ainda sem conseguir mexer uma perna, com pontos em sítios que era suposto não serem cortados e tive de lhe mudar a primeira fralda, perceber o primeiro (ou segundo) choro, saber como lhe enfiar com um mamilo na boca e passar a noite sem dormir (depois de outras duas nos mesmos termos) com medo que o miúdo bolsasse, se engasgasse ou outra desgraça qualquer. mas pronto. ficamos por aí.

porque quando ele nasceu a importância que ambos assumimos na vida dele é exatamente a mesma. sou tão mãe dele como o rapaz é pai. temos as mesmíssimas responsabilidades. sabemos ambos mudar-lhe a fralda, preparar-lhe o leite, adormecê-lo, acalmá-lo, embalá-lo e todas as coisas que três quilos e seiscentas de pessoa exige. 

por isso, meus senhores, não sou "mãe a tempo inteiro". talvez seja, na minha vida completa "mãe a meio tempo".

o outro meio é do pai dele. 

é que assim tem dois pais a tempo integral. 

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se alguma pessoa

por M.J., em 11.01.19

decidir mandar uma posta de pescada pelo uso das gotas contra as cólicas que dou ao puto está desde já convidada a vir aturá-lo quando ele grita que nem um vitelo desmamado com dores de barriga.

 

não quero ser a mãe do ano.

só quero ultrapassar estes 4 meses com os tímpanos inteiros, a sanidade mental minimamente sã e a sensação de que três quilos e seiscentos de pessoa não conseguem mandar para o manicómio dois adultos bem mais pesados. 

 

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  1. só diz que os filhos não cheiram mal aos pais quem nunca mudou uma fralda;
  2. não encontrei uma maluquinha das mamas desde que fui parir. o que é uma pena. tanto discurso ensaiado que não tive oportunidade de debitar;
  3. quem faz roupa de bebés não tem noção dos tamanhos: metade da indicada para a idade dele não serve e a outra metade é para ele nadar lá dentro;  
  4. quem faz roupa para bebés assume que se eles são machos as mães não ligam à roupa que compram. em metade das lojas a secção das pilas é metade da dos pipis;
  5. o termómetro de medir febre tem certas funções (que não as óbvias) que  não cheiram bem. imagino quantos termómetros usei, muito ingenuamente, sem saber onde tinham estados antes;
  6. até agora, a única pessoa que achou estranho sugar macacos do nariz do puto com a boca fui eu;
  7. achava que mal ia o mundo quando alguém comprava água de colónia para bebés. isto, claro, até o meu filho soltar gases;
  8. as toalhitas são a melhor invenção desde as fraldas descartáveis;
  9. o leite em pó é a melhor invenção desde as toalhitas;
  10. são já cinco as vezes que saímos de casa, com ele num braçado, e esquecemos a mala com toda a tralha que ele precisa. teria graça se, na última vez, não tivesse cocó até aos joelhos;
  11. a melhor maneira de evitar opiniões das mães/sogras é não ser o primeiro neto: aprenderam já, com os outros, que há coisas que não se dizem;
  12. tem dias que me sinto numa espécie de prisão sem direito a liberdade condicional durante mais de 18 anos. a diferença é que eu não arranquei os tomates do carlos castro com um saca rolhas.

 

 

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banalidades

por M.J., em 26.12.18

o miúdo tem remela nos olhos.

da primeira vez achamos que era normal. já no segundo dia de manhã pegamos nele e fomos ao centro de saúde, muito alarmados, a pensar em conjuntivite e afins. resultado?

mandaram-nos embora sem sequer o deixar sair do carro, com um sorriso de soslaio e de complacência para com dois adultos que ainda não sabem muito bem o que fazer com três quilos de gente.

não é novidade.

da primeira vez que lá fomos, ao teste do pezinho, eu chorei copiosamente por ele chorar com as picadelas (tão magrinho, só pele e osso, nem sangue saía) e esquecemo-nos de levar o saco com as fraldas, mudas de roupa e afins pelo que, claro, depois de devidamente pesado, teve de colocar novamente a fralda usada. 

vê-se mesmo que somos altamente experientes na coisa. 

 

no dia 24 fui às últimas compras de natal.

em 31 anos de vida foi o primeiro natal que não passei em casa dos papás, no meu quarto de infância, com a lareira dos papás, a mesa dos papás e tudo o resto. o pobre gato ficou mesmo sozinho e eles vieram cá jantar connosco, num natal absolutamente diferente, totalmente novo e, para mim, ainda inesperado.

por isso, a caminhar meio esquisito, com dores nos pontos, fui às compras sozinha, na véspera de natal de manhã, numa espécie de liberdade, a conduzir pela primeira vez rumo a um mundo sem choros e fraldas.

faltava comprar pouca coisa e o centro comercial estava à pinha.

antes de ir buscar nozes e abacaxi entrei numa loja para comprar uma qualquer roupa para mim, assinalando o facto de já não ter uma barriga descomunal em que nada serve.

resultado: vi roupa pequena e todo o meu ser, numa espécie de epifânia foi chamado até lá para escolher bodies, fatos, meias, fraldas e coisas que lhe vão servir uma semana. comprei roupa que lhe vai durar um quinquagésimo do tempo que duraria a mim, ao mesmo preço, e vim para casa sem nada que eu pudesse vestir.

bem, posso sempre enrolar-me em duas fraldas, sei lá.

 

tudo isto tem uma série de altos e baixos.

as minhas hormonas ainda não estabilizaram e já dei por mim aos pulinhos de alegria seguido, em poucos minutos, de uma tristeza sem fim, com a varanda a ter ares muito apelativos de salto.

toda a gente diz que é normal e eu tendo a acreditar.

na verdade, acredito já em tudo o que me dizem porque percebi, muito sensatamente, que não sei da missa a metade.

ou a um terço. 

 

quanto ao resto... há mijadelas de todas as vezes que se muda a fralda, uma máquina de roupa para lavar todas as manhãs (é que sinceramente...), sono acumulado, biberões para esterilizar que não acabam e, felizmente, a capacidade de trabalhar todos os dias (mesmo ontem, dia de natal, que remédio) o que me dá a sensação de que é possível o retomar da realidade que era a minha antes. 

e em resumo: nunca a minha vida foi tão banal sem ser. 

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uma semana e uns dias depois

por M.J., em 21.12.18

percebi os motivos que levam a que a licença de maternidade contemple cinco ou seis meses - pagos integralmente pela segurança social - quando ontem adormeci, literalmente, com a cara em cima do teclado, os óculos à banda e a uma poça de baba em cima das teclas hjkl.

foi o rapaz que me veio encontrar naqueles preparos.

reparem, no meu caso, quem não chora não mama ou melhor, quem não trabalha não ganha. e por diversas questões, ocasiões e outras coisas acabadas em ões não entra, no meu caso, a licença de maternidade que entra no caso do rapaz. por isso - e para sentir (também) que controlo a minha vida - comecei a trabalhar aos bocejos mal cheguei da maternidade.

 

não é que dom rapazito seja particularmente exigente.

com barriga cheia e cu limpo não há menino. é certo que já começa a acordar de três em três horas para comer, contrariamente aos primeiros dias (quem ouvir há-de dizer que estes não são os primeiros dias), numa espécie de relógio afinado. come do leite da mãe (que sou eu, para que fique assente) e leite em pó, numa mistura recomendada na maternidade tendo em conta que, nos primeiros dois dias, perdeu quase oito por cento do peso com que nasceu.

confesso que é um alívio.

continua a comer do meu leite mas não preciso de estar duas ou três horas com ele agarrado às mamas (a moça que estava no mesmo quarto que eu na maternidade começava a amamentar às duas e parava às seis, minha santa engrácia) e sinto que tenho autonomia para continuar a vida.

é aquela coisa das expectativas: ele não veio parar a minha vida como a conhecia mas sim juntar-se a ela sendo possível, através de uma série de coisas que vamos aprendendo, conjugar tudo sem simplesmente sentir que sobrevivo apenas para o nutrir.

e o certo é que recuperou o peso todo e mais algum.

o rapaz diz que ele está agora mais para leitãozito do que frango de churrasco e eu concordo.

continua a presentear-nos com jatos de urina nas trombas quando lhe mudamos a fralda (a propósito, se alguém souber de algum truque para evitar a coisa agradeço) e chora com vontade quando sente os pés ao leu ou tem cólicas. sinceramente, nunca pensei ficar tão feliz por ouvir alguém dar puns ou sentir o cheiro a cocó no meu colo (e que fedor. não é verdade que os filhos cheiram sempre bem aos pais).

 

e no meio disto tudo começo a recuperar a vida que ficou lá atrás (não está esquecido o relatar do episódio de como decidiu nascer mais cedo).

é certo que tenho tido ajuda.

a mamã passou por cá umas quatro vezes a arrumar, lavar e passar toda a roupa (e se era roupa senhores, e se já há aí roupa senhores); a empregada limpou a casa que estava numa espécie de pandemónio depois de eu ter estado 4 noites fora (o pobre rapaz só cá vinha dormir e mal tinha tempo para outra coisa); e nós conseguimos sair umas três ou quatro vezes deixando-o com a mamã em casa, muito contente, numa espécie de festival de alegria, por ter um bebé para olhar. sinceramente, olha mais para ele do que eu, com ar de satisfação, de quem encontrou um tesouro há muito perdido. 

 

agora que estou cansada disso não restam dúvidas.

e quando o cansaço aperta já sei que, emocionalmente, começo a ficar numa espécie de montanha de emoções. perco a perspetiva em relação a tudo e as hormonas dominam-me. como naquela noite em que o rapaz nos foi encontrar aos dois a chorar, o miúdo com cólicas, eu sem saber o que fazer para o acalmar, duas horas depois de ter começado.

resultado? fui mandada para cama e a criança parou de chorar em cinco minutos, numa espécie de "vês? até é simples".

 

a vida vai retomando o seu curso.

pensei a esta altura estar louca, descabelada, desequilibrada, a chorar dias inteiros e a sentir que tudo se escapava entre as mãos. pensei estar mais gorda que a popota e dar-me por satisfeita por dormir uma hora diária. no entanto, visto as mesmas roupas que vestia antes da gravidez e enquanto as piores consequências forem adormecer ao pc e encher o teclado de baba; chorar dez minutos porque ele chora; e dormir noites de dez horas com duas ou três interrupções de 30 minutos... parece-me que tudo vai bem no reino da dinamarca onde ele, sendo rei e senhor (não fosse dom rapazito) se entrosou connosco, numa harmonia totalmente inesperada.

assim seja.

ámen. 

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(não são) banalidades

por M.J., em 17.12.18

é como se a minha vida fosse despida daquilo que era. o que era não é e o que é não era. e, mesmo assim, luto numa espécie de combate sem árbitro nem ringue para tentar encontrar o que foi, numa rapidez estonteante.

respiro fundo, digo "são só mais uns minutos" e prossigo.

há que prosseguir para não perder tempo a analisar cada minuto, as horas dos dias tripartidas e eu sem controlar cada uma, as tarefas alinhadinhas na agenda, agora sem agenda, sem tarefas, sem alinhadinho.

 

respiro fundo.

sei que estou, neste momento, sob um enorme cansaço que me pesa nos olhos, no corpo, nos braços.

só mais uns minutos.

se for a parar e a pensar nos últimos dias, todos seguidos, bloqueio, como naquela noite na maternidade quando na quinta noite sem dormir comecei a deambular no corredor, o puto na colo, à procura de um canto onde um qualquer bebé não berrasse e eu pudesse dormir umas duas horas seguidas. e a enfermeira a levar-me para um quarto vazio e a acordar-me para dar de mamar de duas em duas horas, numa humanidade sem fim, a dar-me pancadinhas no ombro, como se me embalasse e percebesse o esgotamento.

 

o puto não chora.

ou melhor, chora, claro está, mas só quando lhe mudam a fralda ou o levam ao banho. no resto do tempo fica quieto, a dormir ou a comer, consoante a hora.

não chora de fome e é preciso acorda-lo para que coma. não chora de tédio. não chora porque acorda. e sinceramente, não sei como seria se fosse igual ao miúdo da cama do lado que berrava noite e dia, numa gritaria incessante a pontos de levar qualquer um à exaustão.

 

é verdade que o puto não chora por dá cá aquela palha mas, quando chora eu olho para ele e morro aos pedacinhos.

as hormonas consomem-me. só podem ser hormonas.

aquele grito entranha-se na alma e é como se me batessem com ele. sinto fisicamente uma dor aguda quando médicos e enfermeiros lhe tocam para o analisar, para fazer rastreios, teste do pezinho e afins. ele chora e é como se o meu mundo fosse uma redoma de lágrimas e só me apetece pegar nele e esconder-nos aos dois, muito longe disto, do meu cansaço, do meu descontrole interno (mas irrepreensível por fora) e de todos os pesadelos que agora me ensombram, numa espécie de castigo:

e se ele perder peso em demasia?

está amarelo?

e se alguém lhe transmite algum vírus?

a sério que os rastreios estão todos bons?

e se este leite não chega?

e se os pés não aquecem?

 

caí nos clichés todos.

ontem, enquanto fazia o jantar, enumerava-os pelos dedos das mãos, mentalmente.

não houve um filho da mãe de um cliché que não me fosse escarrapachado em cima:

as lágrimas incessantes no momento do parto; o contar dos dedos numa sofreguidão que só visto; o achar que não havia miúdo mais giro naquela maternidade; as fotografias que acabaram com toda a memória do telemóvel; o comprar uma data de tretas sem significado algum mas que podiam ser precisas; o pô-lo a dormir comigo - mesmo com a cama dele ao lado; o chorar desalmadamente porque ele chora; o rir-me que nem perdida quando solta um pum ou quando faz xixi mesmo na hora que mudamos a fralda e nos presenteia com repuxos de urina nas trombas; a sensação de que uma parte de mim foi-me cortada, mesmo que nunca me tivesse apercebido dela antes e possa, de um momento para o outro perdê-la. 

caí nos clichés todos e não estou nadinha importada.

consome-me mais este cansaço, esta oscilação de humor. quero responder a toda a gente, comprar os presentes de natal de toda a gente, organizar a casa com método e precisão, responder a e-mails de trabalho em atraso, organizar refeições e as próximas tarefas. quero fazer tudo e concluo que consigo, basta só cortar mais uma hora de sono aqui, outra ali e esperar que estabilize e tudo isto volte ao normal para que eu possa ser eu, ainda que não sendo só eu, outra vez.

 

há mil coisas que queria escrever. estão aqui as palavras alinhadas, numa espécie de tsunami sem fim. queria partilhar como ele chegou, num momento para o outro, do acompanhamento incrível da minha médica, da consulta com a psicóloga horas antes do parto para me ajudar a não hiperventilar, da amizade que fiz com duas enfermeiras, da humanidade dos profissionais de saúde que me acompanharam. queria contar as peripécias que me fizeram rir às gargalhadas, das sensações das primeiras coisas, da doçura de alguns sorrisos. 

queria contar não por vós mas não perder na penumbra da mente estes momentos. tenho medo que o cansaço se instale e sejam só trevas e escuridão quando consegui, vá-se lá saber como, levar tudo isto como uma tarde solarenga de outono, com folhas secas, maças assadas e dióspiros doces. 

hei-de contar.

hei-de escrever.

agora vou só respirar fundo, garantir que são só mais uns minutos e prosseguir. 

sou muito mais do que algum dia imaginei ser.

e não sei ainda como lidar com isso.

 

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Ei-lo chegado

por M.J., em 13.12.18

para me provar por a+b que eu estava errada em tantas coisas e que, se mordesse a língua por todas elas, não havia mais palavras que pudesse dizer.

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chegamos a um ponto ridículo de politicamente correto.

não é de espantar e, se estiverem atentos aos sinais, percebem que faz parte do avançar dos tempos, que provavelmente vai aumentar ainda mais, numa espécie de onda tsunami, até voltar ao equilíbrio normal do "ide mas é dar banho ao cão (ou à cadela. ou ao gato. ao à gata. ou a qualquer animal. desde que a água não seja muito quente. nem fria. na verdade, de preferência sem água para não desperdiçar. mas também sem toalhitas) que já não há pachorra".

a PETA apresentou uma nova maneira de ver as coisas no que diz respeito à linguagem animal. segundo os senhores dizer "matar dois coelhos de uma cajadada só" incentiva a violência animal e deve ser substituído por outra expressão.

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o debate acirra-se. há quem diga que faz sentido, na evolução dos tempos. li até alguém, pasmem-se, a defender que se as touradas não são admissíveis, na evolução da humanidade, o mesmo se aplica a tais frases. como aquela coisa de a dona chica bateu no gato. e é evidente que faz todo o sentido. nós somos o que ouvimos e é por isso que, tendo em conta as audiências do correio da manhã, andamos todos a mandar tiros aos nossos maridos e a bater em jogadores de futebol. 

assim, porque não quero, de todo, estar desfasada destes tempos, fui à procura dos melhores provérbios, machistas, chauvinistas, inimigos dos animais, da alimentação saudável é do que é bom, correto e bonito, e decidi substituí-los pelo que deve ser.

escolhi só 3 (podiam ser 50) e espero que concordem comigo.

também aviso já: se não concordarem comigo tenho a apresentar-vos o argumento que é válido, justo e certo em tudo o que é redes sociais: é a minha opinião. chega por si só, basta e nada mais precisa. isso e claro, dar-vos uma carga de porrada porque, pelos vistos, defendermos os nossos ideais e convicções com violência também é bem.

vamos lá:

 

1. em terra de cego quem tem olho é rei

 

meus senhores: tudo mal aqui.

  • primeiro não se deve dizer cego. toda a gente sabe que "cego" não é bonito. tal como surdo. coxo. maneta. perneta. gordo. paralítico. há nomes mais adequados que se devem usar. além disso, porquê cego, no masculino? porque não cega?
  • depois... quem tem olho. qual olho? o da direita? o da esquerda? há claramente uma falta de rigor que pode levar à confusão e atuar em discriminações. 
  • e por fim... é rei. rei???????? como rei? para além de outra discriminação de género, num mundo civilizado, democrático e afins, onde já se viu usar a palavra rei? não senhores, há que mudar isto.

portanto, a minha proposta de substituição é: "em terra de invisuais, quem tem qualquer olho, seja de direita ou esquerda - e sem conotação com política - é rei, rainha, principe, princesa, duque, duquesa, presidente da república, primeiro ou primeira ministra, ditador, ditadora e/ou outro cargo ocupado politicamente". com o devido disclaimer, pois então, para que não haja mal-entendidos: "esta informação carece de fundamentação legal".

 

2. não adianta chorar sobre leite derramado.

aqui é que a porca torce o rabo. ou o porco. ou nenhum. e um, outro, ou ambos, ou nenhum só torcem o rabo se quiserem. e se se sentirem com disposição para o torcer. pronto.

e por que é que a porca ou o porco torcem, ou não, o rabo, se quiserem e se sentirem disposição para o torcer? porque este provérbio, que parece tão inocente e sem qualquer problema, é, no fundo, um incentivo a imensas coisas erradas nos dias de hoje:

  • não. como não? nunca se diz não. usar o não é educar de forma errada um ser humano. é meio caminho andado para levar ao trauma. não se contraria. não se nega. explica-se, sem usar a palavra não, com consideração, amor e paciência que algo é oposto ao sim. 
  • adianta. o "não adianta" vai contra as indicações das melhores mães (e pais, não discriminar. e avós, tios, primos, educadores e toda a aldeia que é preciso para educar. e quem diz aldeia, diz vila, cidade, país, lugarejo, localidade e/ou outro). vai no sentido contrário à filosofia de que temos que incentivar, mostrar que para a frente é que é o caminho (ou para trás, se ela quiser ir, nada de contrariar). 
  • chorar: toda a gente sabe que chorar é mau. devemos viver num constante mundo de felicidade. usar frases de motivação, aceitar, sorrir e saber que vivemos para ser felizes. não é suposto usar palavras negativas que nos traumatizem ou incentivem à dor. esqueçam a palavra chorar. 
  • sobre o leite. pronto. este é o pior. é totalmente absurdo o incentivo ao consumo de leite. nunca. jamais. completamente fora de questão. leite é o demo. a lactose faz mal. há vacas obrigadas a viver nos açores, imensos anos, com a única função de lhe espremerem as mamas. era só o que faltava. jamais. não é suposto que se use a palavra leite. a criança (ou adolescente. ou jovem. ou adulto. ou idoso. no feminino, masculino ou outro - seja lá qual for o outro) deve apenas beber leite materno enquanto quiser e, depois disso, esquecer tal alimento. incluindo o vegetal que pode não ser biológico. 
  • derramado:  derramado como? por quem? de propósito? alguém se atreveu a fomentar o desperdício num tempo de tão escassos recursos?

portanto, meus senhores, não há outra alternativa, este provérbio tem de ser substituído por "se quiser, lhe apetecer, tiver vontade e/ou outro, pode - ainda que não tenha o efeito desejado - manifestar alguma emoção menos feliz quando, por uma ação de que não é responsável, alguma bebida for desperdiçada (o que não é de todo aconselhado)".

 

3. filho és pai serás, como fizeres assim acharás.

mais um atentado a tudo o que é bom.

e explica-se de uma penada (não confundir com pernada, que incentivará, potencialmente, à violência) só:

  • primeiro deve dizer-se filho ou filha ou outro. vá. esta coisa do masculino é machista e traz o mundo aos tempos hediondos de hoje onde as mulheres vivem fechadas dentro de casa a fazer refeições e lavar cuecas.
  • depois é errada a admissão de que serás pai. ou mãe. ou outro. podes não ser. é uma opção tua. assumir, desde logo, que o vais ser é condiconar a tua vida. cortar-te as asas para voos mais altos. podias ser engenheiro, astronauta, futebolista ou concorrente do secret story e, afinal, não vais ser nada disso porque pai serás. ou mãe. ou outro. está mal.
  • e por fim a condicionante de "como fizeres assim acharás". é que podes não fazer. nem todas as ações têm consequências. se forem ações em que lutas pelos teus ideais não haverá qualquer consequência. mesmo que andes a descarregar porradinha de cara tapada.

assim, vamos lá chamar os bois pelos nomes (ou as vacas. ou qualquer outro animal. ou, se calhar mesmo, não usemos animais nisto. substituamos pelas "coisas"). assim, vamos lá chamar as coisas pelos nomes de coisas:

filho, filha ou outro és (ou podes não ser. se não fores não há mal), pai, mãe ou outro poderás vir a ser. (se assim quiseres. também podes ser engenheiro, astronauta, futebolista ou concorrente do secret story. ou outro. ou nada). o que fizeres ao teu pai, mãe ou outro (ou não fizeres, não és obrigado/a a nada) poderás vir (ou não, quem sabe?) a receber em troca. aliás, se for mau, mas praticado em defesa dos teus ideais está bem e não terá consequências menos boas".

 

pronto, é isto.

lembro-me do "cão que ladra não morde" e a discriminação que representa para todas as cadelas e todos os cães mudos.

ou do "patrão fora, dia santo na loja" e como incentiva à exploração do proletariado e põe em causa a igualdade de oportunidades.

ou ainda, "de pequenino se torce o pepino" e como poderá levar a uma má educação das crianças, torcidas sem dó nem piedade e, sobretudo, ao sofrimento dos pepinos. 

 

não tenho é tempo. 

preciso de ir ali fazer o frango - perdão, o arroz, perdão, qualquer coisa que toda a gente concorde - do almoço.

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