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Estou deitada numa marquesa

por M.J., em 25.09.18

De um laboratório de análises clinicas, no meio de um exame à glicose.

Portanto... uma pessoa conta o açúcar da fruta, iogurtes e afins; não come gelados, sobremesas e etc e tal; e depois é obrigada a engolir 75 gramas de açúcar de uma vez só, para um exame?

SETENTA E CINCO GRAMAS?

Quantos milkas de caramelo tinha de comer para isso tudo?

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disto de ser drama queen

por M.J., em 24.09.18

estou a ser uma chata de merda com isto da gravidez.

e não, não temos pena.

cada um é chato com o que lhe incomoda e isto, a mim, tem-me incomodado por cinco.

uso o blog - mais uma vez - como um caderno de desabafos e medos e não me sinto minimamente mal por isso. sabem perfeitamente o que fazer caso não vos interesse (tal como eu fiz com tudo o que não me interessava também).

 

posto isto, ando um nadinha sem paciência para merdicites.

é o que dá ter um feitio azedo e um incómodo físico que não estava cá antes.

tenho menos tolerância:

  • para os conselhos não pedidos (e atenção, NÃO confundir as dicas/experiências pessoais como as que me têm deixado aqui no blog - e que agradeço do fundo do coração - com cenas de "deixa-te de mariquices"),
  • para as faltas de responsabilidade no trabalho,
  • para a sobranceria de mulheres que dizem "ai comigo correu tudo muito bem, foi uma coisa santa, não estejas com tanta coisa que não custa assim tanto",
  • para o barulho do cão do vizinho que ladra, invariavelmente, todos os dias às seis e meia da manhã (se o apanho sozinho nas escadas arranco-lhe a língua e sirvo-a estufadinha aos donos),
  • para o marketing das empresas de crio-preservação estaminal que me fizeram ter uma discussão com o rapaz (eu achava que devíamos preservar as células, ele achava que aquilo não servia para nada) até me informar a fundo sobre o assunto e perceber a tremenda TRETA que aquela porcaria é.

 

portanto, falando sobre alguns dos tópicos:

é bem provável que me salte a tampa e dispare em quem me tenta fazer passar por drama queen, que me diz que é tudo muito bonito e fácil, que não é nenhum exagero e que esta coisada toda da gravidez e do parto é muito simples e não custa nada (mais uma vez não confundir com nenhum dos comentários que me foram deixados até agora e me têm ajudado imenso).

 

ah M.J. então significa isso que só queres que te afaguem o ego e que te digam o que queres ouvir? é isso, sua hipócrita?

oh-bamo-lá-ver:

  1. eu por acaso digo a um insatisfeito com o trabalho, que se queixa das condições precárias que tem, que o meu é muito compensador e que me corre tudo muito bem e que nada mais me realiza como isto? e que ele devia deixar-se de merdas e contentar-se com o que tem, que não é assim tão mau?
  2. eu por acaso digo a alguém que ganha o salário mínimo e se queixa que o dinheiro mal chega para as contas, que eu cá ando muito confortável, que ganho mais e que, por isso, ele devia enfiar as queixas num certo sítio?
  3. eu por acaso digo a alguém que se vê à nora para pagar a renda de um apartamento t1 no centro de uma cidade em especulação imobiliária que está a ser muito parvo e que eu até estou a comprar uma vivenda?
  4. eu por acaso digo a um pai de 2 filhos que acabou de perder o emprego que se deixe de tangas e que devia ter pensado nisso antes de pensar em aumentar a natalidade?
  5. eu por acaso digo a uma pessoa que sofre de enxaquecas que as dores de cabeça leves que eu tenho não são assim tão difíceis de suportar e que essa pessoa, provavelmente, está a exagerar?

 

é que há coisas e coisas.

e o facto de a minha experiência em certas coisas ser muito positiva NÃO faz com que a dos outros tenha de ser igual.

 

uma vez li uma senhora a dizer a uma grávida que estava de baixa, que hoje em dia as mulheres são muito mariquinhas, visto que ela trabalhou até ao dia do parto e nunca se queixou.

pois bem, suprassumo das grávidas: quão triste é ter uma vida tão limitada que não pode pôr uns dias antes do parto para se preparar e descansar? e quão mesquinho é fazer sentir uma pessoa em gravidez de risco que aquilo que está a passar é secundário e essa pessoa é uma aproveitadora? é que, se vamos julgar sentimentos alheios, podemos ir por este lado, não?

 

ando sem paciência.

não o descarrego em quem convive comigo por uma questão de sensatez (e de gosto).

tento engolir anseios, dúvidas, medos e esta pequena parte do meu cérebro que me atraiçoa constantemente em pensamentos tétricos.

mas, com vossa licença (ou não, tanto se me dá) este sítio não vai ser flores, arco-íris, unicórnios e algodão doce durante bastante tempo.

 

agradeço imenso a quem por aqui passa e vai deixando palavras de conforto.

a maior parte desses comentários têm-me feito sentir como se eu não fosse uma atrasada mental (não ponho em causa se sou ou não, acho subjetivo). o tema da amamentação, por exemplo, ajudou-me mesmo a libertar um peso dos ombros e estou-vos muito agradecida por isso. (o post anda por aqui, se quiserem ler).

mas não se espantem se o tom de drama queen continuar enquanto me sentir incomodada. 

pode ser que daqui a um ano isto volte ao normal.

(se é que algum dia foi). 

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aulas de preparação para o parto

por M.J., em 21.09.18

não me apetece nada fazer aulas de preparação para o parto.

tem sido motivo de discórdia entre mim, o rapaz e a mamã que insistem no quão seria bom frequentar algumas.

no entanto, a minha vontade é nula.

sinto quase repulsa na ideia de me sentar numa sala, com não sei mais quantas grávidas, muito lustrosas e felizes, a falar de nomes e roupas e ouvir alguém dizer-me que devo abraçar a dor, que se não controlar o esfíncter no dia do parto não tem mal nenhum e que é tudo muito bonito e agradável.

não é nada.

a sério.

de bonito não tem absolutamente nada e a prova disso é que depois de uns três meses de lua de mel com a situação, estou novamente a sentir as mudanças súbitas de humor, a incapacidade de lidar com a situação e a antever cenários atrozes de sangrias, pernas abertas, cortes em sítios onde não é suposto haver cortes, cocós, algálias e profissionais de saúde a contar à noite, em casa, da cena triste da pobre mãe que se cagou todinha a dar à luz.

bem sei. uma grávida não devia dizer "cagou". muito menos escrever. toda ela deve ser serenidade, calmaria, voz suave, mão na barriga, paz, amor e sintonia, vestidos vaporosos e bebés rechonchudos que nunca choram e são a melhor coisinha que o universo fez. 

 

a questão é que me recuso a ir a tais aulas.

provavelmente quanto menos souber do assunto melhor, no sentido em que é mais fácil dominar o cérebro nos cenários que me cria todas as noites antes de dormir. 

estou zangada.

zangada com o fato de não ter aceite - quando me foi proposto - recorrer ao privado e fazer uma cesariana com marcação prévia, acabando-se dessa forma a gritaria, as injeções nas costas (deve lá haver coisa mais agradável do que enfiarem uma agulha no meio da coluna), o não saber quando é que preciso de me transformar num pito de churrasco.

chateada com as dores nas costas que começam a aumentar, as mudanças súbitas de humor e as insónias.

zangada com a situação em que deliberadamente me coloquei apesar de já ter previsto tudo isto.

e se já é mau estar zangada sozinha, sem ter de ouvir ninguém em sorrisinhos constantes a falar de cueiros, cólicas, choros e dentes, não consigo imaginar quão mau será estar acompanhada por 15 ou 16 grávidas que nunca vi, numa sala, a ouvir sobre o que aí vem e que é tão magnífico.

 

há uns tempos, numa insónia deplorável, dei comigo a ler histórias tristes:

mulheres que dormiram uma hora noite durante meses, putos complicados que não paravam de chorar, casamentos que acabaram depois do nascimento dos filhos.

mulheres que tiveram um pontinho a mais na vagina, dado por um médico maroto, para satisfação dos maridos.

mulheres muito orgulhosas de ter ultrapassado mamilos estraçalhados, gretados e cheios de sangue mas a servirem para a sua - pelos vistos única - função natural.

mulheres que morreram no meio de uma marquesa, de perninha aberta e que a última coisa que viram do mundo foi um quarto de hospital depois de nove meses de dores de costas e enjoos. 

mulheres que nunca amaram os filhos e os transformaram em adultos infelizes.

mulheres que deram cabo da vida com a decisão de aumentar a natalidade do planeta, já por si cheiinho de gente a transbordar.

 

não devia ter lido nada disto, bem sei.

sou perfeitamente capaz de idealizar todos os cenários sem precisar de exemplos. se tiver esta ajudinha então o meu cérebro dá pulinhos de alegria e é um ver se te avias de situação bonitas.

sabem aquelas pessoas que não podem ouvir ninguém queixar-se de uma qualquer doença, que espetam nas trombas do interlocutor as suas próprias maleitas, muito piores? do género:

- eh pá, ando aqui com uma dor de estômago...

- ai nem me fale que eu há mais de quinze dias que não faço outra coisa que não seja beber água. não aguento mais nada. na-di-nha. se como qualquer coisinha são vómitos de jacto.

ou:

- olhe, caí e desloquei um pé...

- pois saiba o vizinho que tem muita sorte. eu estava sentada no sofá e ao levantar-me, mesmo sem cair, parti uma perna, o cóxis e a bacia. 

o meu cérebro é isso. é o típico:

- o quê? pode doer um bocadinho? a ti vai ser traumático.

- o quê? há quem não controle o esfíncter? tu vais ter a maior diarreia da história da maternidade.

- o quê? há mães que não gostam dos filhos? tu, provavelmente, vais ser a fundadora da religião que vai apregoar tal. 

e afins.

 

portanto, não, não vou frequentar aulas de preparação para o parto.

mesmo que a mamã e o rapaz insistam cada vez mais e eu tenha, como única resposta, grandes revirares de olhos (qualquer dias arrisco-me a deslocar os dois de lugar) e um encolher de ombros.

estou estropiada das costas, estive três meses de cama, vomitei como uma fonte, estou a pontos de ver os meus mamilos transformarem-se em bocais de garrafas pelo que me julgo no direito de decidir sobre não passar tempo a ouvir sobre o mundo maravilhoso da gravidez, de como a dor faz parte, e outras coisas agradáveis por parte de gente que não conheço, nunca vi e não me apetece conhecer.

santa paciência, mas não.

se não morrer no parto logo aprendo.

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oh vai ver ali:

banalidades

por M.J., em 20.09.18

a questão é que as noites mal dormidas, provocadas por insónias inexplicáveis, câimbras nas pernas e dores de costas, começam a refletir-se nas coisitas do dia a dia.

para mim, dormir tem a mesma importância que beber muita água. na falta de um ou outro os efeitos provocados são físicos e emocionais.

fico irritadiça, inconstante, incapaz de raciocinar direito, com dores de cabeça e, em consequência, pensamentos circulares, viciosos, que começam e terminam sempre na mesma tecla, como uma espécie de comichão cerebral que não desaparece por mais que a tente contrariar.

a vontade é pegar numa caneta afiada, enfiá-la narina acima e coçar até a comichão desaparecer e eu conseguir ser novamente eu.

mesmo que a pessoa de trevas e pensamentos negros também seja eu.

 

a impossibilidade, incapacidade, seja lá o que for, de dormir transforma-me noutra qualquer pessoa.

deixa de haver copos meios cheios.

melhor: deixa de haver copos de todo. há só água esparramada no chão. isto nos dias bons. nos dias maus estamos em seca extrema e a morte é a única solução.

 

não sou, nunca fui - tenho a certezinha absoluta que nunca serei - uma pessoa dita "normal", ainda que a normalidade seja subjetiva.

o que sou, onde estou e afins, foi fruto de uma série de estranhas coincidências, laivos de sorte e uma resiliência sobre-humana moldada à força de não haver mais alternativas.

cheguei aqui e o que foi construído neste pedaço de carne que tem a sorte de poder caminhar, nem sempre é algo passível sequer, de ser olhado.

tenho mesmo a sensação de que se alguém conseguisse dissecar o meu cérebro e percebesse todos os ciclos viciosos de pensamentos, os planos, as ideias absurdas dignas de filmes de terror onde eu acabo sempre mal, arrepiar-se-ia a pontos de fugir muito rápido.

como uma espécie de peste bubônica, capaz de contagiar tudo ao redor, onde a fuga e muitos banhos de vinagre é o único escape, ainda que ténue. 

 

as noites mal dormidas começam a deixar-me um bocadito mais louca e de alma negra do que o habitual.

não é uma questão de sobrevivência. o meu corpo molda-se às necessidades e há a possibilidade de passar meses a dormir duas horas noite (já aconteceu, não morri).

mas a outra parte, aquela que me põe capaz de ser convivente com o outro, que me permite viver cada dia numa espécie de rotina calma, a apreciar os pedacitos dos dias, a saborear café quente, a vislumbrar beleza na dança das árvores, a planear as mil coisitas que nos fazem para o futuro, morre um pouco de cada vez.

e quem fica não é agradável. 

quem fica também sou eu.

mas é a parte que me recuso a querer ser. 

 

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mede-se pelo fato de desatar a chorar ao ver isto:

 

internem-me.

 

por favor.

alguém que me interne. 

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juro que não percebo

por M.J., em 14.09.18

por que raio de motivo nos grupos de facebook, instagram, blogs e afins, as mulheres que são mães, se tratam a todas por mamãs?

(às vezes é mesmo por mamas, mas depreendo que não estejam a referir-se aos seios, no prover de leite).

porquê?

fulana tal deixa de ser a ambrósia para ser só mamã?

 

eu até me habituei à compra dos babygrows, da escolha dos biberãos, da procura do carro mais adequado e ovo com airbag e dos preços das creches... mas pela vossa saúdinha mamária:

não me tratem por mamã, sim?

 

o meu nome de batismo não vai para segundo plano porque vou pôr no mundo três quilos e quinhentos de pessoa.

(sim, temos uma aposta do peso do crianço e este é o meu palpite). 

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banalidades

por M.J., em 13.09.18

uma vez, há muitos anos, alguém próximo disse-me - sem qualquer hesitação na voz, um ar de sabedoria - que as mulheres serviam para pouco mais do que apanhar porrada.

foi atirado com desprezo, como se fosse mesmo a sério e como se eu, enquanto pessoa ali a ouvir, não fosse mulher também mas uma coisa com pernas e braços.

só isso.

não é que as palavras me tenham magoado mais do que outras. aprendemos com a vida a ser resilientes - se não aprendermos somos sugados pelas circunstâncias - e percebi, mais cedo do que era suposto, que temos de filtrar certas coisas se queremos sobreviver.

portanto, não só não acreditei naquilo como, lembro-me perfeitamente bem, senti um certo sorriso interno a nascer por saber que provaria, mais dia menos dia, que as palavras eram tão falsas como flores artificiais em cima de sepulturas em cemitério.

 

não me interpretem mal.

as palavras não foram tidas em consideração. mas a maneira como foram ditas - e por quem foram ditas - aterraram em mim como um pedaço de papel queimado, a tentar desfazer-me em cinzas.

 

às vezes, em conversas com o rapaz, a luz do quarto apagada e o sono que teima em não vir, por entre os planos da viagem que fazemos juntos, as decisões da partilha da vida, soltamos pequenas inconfidências, episódios da vida que foi nossa e já não é.

não há nada em mim que ele não conheça. sabe da história e estórias que me constituem.

conhece os dias de arco íris e aqueles muito negros que, por uma questão de sobrevivência, não apago.

são menos do que os dele porque, felizmente, foi desde demasiado cedo abençoado com uma inteligência e racionalidade acima do comum. uma racionalidade que transportou para cada pedaço da vida e o faz ser grande, gigante, em tantos aspetos.

é o meu pequeno génio e tenho mais orgulho em cada pedaço dele do que nos meus maiores feitos.

 

soltamos inconfidências, coisas que já dissemos outrora, mas que nos afloram à mente. 

e quando ele conta qualquer coisa menos doce, quando as memórias são mais azedas de episódios - que todos temos - de outrora, é como se o meu peito se partisse e eu ficasse repleta em lágrimas. há uma dor muito aguda, mergulhada num pântano de angústia que o quer resgatar de coisas idas, trazê-lo ao meu colo, embalá-lo com muita força, acariciar-lhe o cabelo e prometer-lhe o mundo.

não que ele precise.

mas o meu peito anseia por descontinuar-lhe aquela dor, pequenita, que ficou de um ou outro acontecimento - como fica em todos nós, mais ou menos - e soprar-lhe coisas doces aos ouvidos, entregar-lhe mimos de amor, correr atrás de tudo o que não foi e devia ter sido, consertando todos os aspetos que fizeram, transformaram, construiram aquela memória.

 

creio ser isto uma outra dimensão do amor.

aquela que tortura um bocadinho, como pregos afiados espetados na carne, por não sermos capazes de apagar aquele acontecimento que ainda permanece no outro. 

não sei se o sente, desta forma, por mim.

espero que não.

as minhas trevas, ainda que resolvidas, são mais profundas, mais escuras, mais pesadas, mais para sempre. 

mas sei que, desde o primeiro dia em que decidimos que a vida seria percorrida pelos dois, lado a lado, que fez tudo, a cada segundo, a cada hora, para me mostrar - minto, para me provar - que por mais negro que tenha sido o passado, eu, enquanto eu, sou a pessoa mais importante que povoa a sua vida.

e que todos os episódios que me moldaram a mente em dor, incluindo aqueles em que fui rebaixada a uma coisa com pernas e braços, destinada a apanhar para o resto da vida, são laivos de algo que foi e nunca mais será.

 

não sei se amarei o meu filho como o amo a ele.

não é comparável, dizem-me. não é dimensionável, juram-me, e eu acredito.

mas se a vontade de proteger o filho do que ainda não aconteceu, for igual à de proteger o pai do que já passou, não sei se terei peito que aguente e se não explodirei, uma noite, na impotência de saber que o mundo é maior do que a minha capacidade de segurança.

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oh vai ver ali:

desejos

por M.J., em 12.09.18

esta noite dormi 3 horas. 

tive insónias e de manhã, cedíssimo, tive consulta na maternidade.

uma pessoa chega lá - com um frasquinho de urina nos pertences, um livro e uma garrafa de água - às oito e meia da manhã e espera, sentadinha até às 10, para ser atendida. até dormia uma sesta se não estivesse tanto calor (isso e para não perder a oportunidade de ver desfilar grávidas e perceber se aquele tipo de roupa poderia ser adquirida, não me fazendo parecer um bidão com pernas).

 

quando cheguei a casa, já por volta da hora do almoço, esfomeada, a suar por todos os poros, cansada de uma noite mal dormida, enfiei-me no banho e, depois de comer qualquer coisa, estendi-me na cama para descansar as pernas.

 

resultado: adormeci e acordei agora. (quem precisa de trabalhar quando está a formar uma pessoa na própria barriga, não é?)

 

O problema: acordei a meio de um sonho em que comia bolo de morango.

mas um sonho tão absurdamente real que tenho, ainda agora, o sabor do bolo na boca.

daqueles tipo torta, que comemos nos piqueniques, com um sabor enjoativo em demasia, o creme branco muito espesso e uma massa nada de mais. 

 

já comi uma bolacha e não consigo livrar-me daquilo.

na verdade, dava vinte euros por uma fatia de bolo de morango rasca.

dava uma roupa do puto - a minha preferida - por uma fatia de bolo rasca.

oferecia os serviços intelectuais do rapaz - por duas horas - por uma fatia de bolo de morango rasca.

sem morangos verdadeiros.

só aquele sabor adocicado, enjoativo e barato. 

 

alguma alminha caridosa que queira ajudar uma grávida com desejos?

não?

se o puto me nasce com cara de bolo culpo-vos a todos pela falta de solidariedade.

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experimentem trabalhar sentados

por M.J., em 11.09.18

12 a 14 horas por dia, numa secretária, e terem de optar entre:

  • ter uma postura direita, as costas erguidas e corretas mas, para tal, pressionarem a barriga contra a secretária (e não, ela não encolhe, não é banha);
  • terem a barriga à larga e, em contrapartida, estarem meios arqueados, dobrados, etecetera e afins.

 

portanto, inventam-se banheiras de hidromassagem para putos, cremes com álcool e sem álcool para peles menos e mais assadas, berços que se transformam em sofás, carros de passeio topo de gama que se modificam para serem alcofas, corta unhas que não cortam peles e ninguém se lembra de inventar uma merda qualquer que deixe as tristes das grávidas trabalhar direito?

 

não posso escolher entre a barriga e as costas... preciso das duas, senhores.

alguém que resolva isto que eu compro. 

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e não são os enjoos,

não são as pernas cansadas,

não é a falta de posição para dormir,

não é o medo constante se o puto mexe ou não,

não são as consultas ora no centro de saúde (meu deus do céu, o médico com que lido, só visto), ora na maternidade, ora na obstetra (um abuso de gente, mas antes a mais que a menos),

não é o marketing agressivo a dizer-me que se não recolher o sangue do cordão umbilical sou uma mãe de merda,

não é a comichão nos mamilos (o quê? não sentiram isso?),

não é o besuntar a barriga com cremes para que não ganhe estrias,

não são as hormonas que me fazem chorar.

 

não meus senhores, tudo isso não é o pior.

 

o que me chateia a pontos muito chatos, o que me faz sentir mesmo mal, é esta incapacidade de perceber as coisas à primeira, de trocar palavras, de dizer observações sem nexo, de não entender o que me perguntam, de querer dizer pescoço e anunciar lasanha, de, enfim, sentir uma coisa que nunca senti em todo a minha vida:

que sou burra, incapaz de aprender, de compreender, que o meu estado de alerta passou a pura distração, que preciso que me repitam as coisas muitas vezes e que, tem dias, até desisto de perceber só para não ter de fazer um esforço descomunal a entender o que um miúdo de cinco anos não tem dúvidas.

 

odeio, odeio, odeio. 

preferia enjoar mais dois meses, ganhar duas estrias no joelho e chorar dez horas seguidas do que esta sensação que, sim é verdade, devo tão pouco à inteligência que o meu cérebro devia estar numa instituição de aprendizagem especial.

oh valha-me deus. 

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