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creche

por M.J., em 09.09.19

o miúdo adaptou-se minimamente à creche. eu nem por isso.

estamos na segunda semana e cada dia foi um pouquinho mais: uma hora no primeiro dia, hora e meia no segundo, almoço no terceiro, almoço e sesta no quarto e, hoje já fica até ao lanche. 

claro que trabalhar sem as constantes interrupções é bom.

já me tinha esquecido que é bom trabalhar. que é bom fazer coisas seguidas, com uma linha de pensamento contínua, sem quebras constantes de choro, atenção, fralda, leite, sopa, sono, chupeta e afins. mas, confesso que sempre que penso nele inquieto, com fome, sono, sujo, a pedinchar atenção e sem mim para prover a isso me dá um aperto no peito. 

no primeiro dia estive a dois passos de desistir da creche depois de ter chorado o equivalente à água necessária para apagar um incêndio de grandes proporções.

se não fosse o rapaz a dar-me um abanão psicológico - e a magda, e a maria - tinha pegado nele ao colo e fugido muito rápido aqui para casa, onde o colocaria numa redoma bem protegido.

depois lembrei-me de todas as vezes que não compreendi este sentimento em outras mães e ganhei um pouco de vergonha na cara. não, não serei uma mãe que vive única  e exclusivamente para a criança ainda que as minhas hormonas me gritem o contrário. 

por isso, hoje de manhã correu um niquinho melhor: pôr-lhe coisas na mochila não foi o equivalente a fazer-lhe a trouxa para a tropa; deixá-lo na creche não foi a mesma coisa que o entregar para adoção.

já conseguir trabalhar a manhã toda foi glorioso. quase tão bom como a primeira vez que ele me deixou dormir a noite completa ao fim de quatro meses. 

 

bem vos digo: ser mãe não mata mas mói.

e eu, meus senhores, ando toda moidinha. 

sou tão atrasada

por M.J., em 03.09.19

ontem foi assim:

 

hoje estou a chorar há 20 minutos, sendo que vou buscá-lo dentro de 30.

como é que alguém (eu) pode ser tão cruel ao ponto de deixar uma criança a chorar na creche e vir embora? 

oh senhores. 

a creche

por M.J., em 02.09.19

o miúdo entra na creche amanhã.

às vezes sinto palpitações por isso. e uma ligeira sensação de culpa: se trabalho às minhas próprias ordens ele podia ficar comigo, aqui, não é?

pois não. 

é extremamente difícil trabalhar com ele ao lado. e acaba por passar algum tempo sozinho, na sala, com música em fundo ou tv. a creche é a solução mais viável sobretudo porque é perto de casa e, nos dias em que não estiver assoberbada, ele fica comigo e pronto.

 

uma das coisas que achei abismal é o valor a pagar pela creche.

está certo que é calculado de acordo com os rendimentos - sendo uma IPSS - mas meus senhores, é quase como pagar propinas numa universidade privada. acho até que é mais caro do que isso, tendo em conta que vamos pagar o máximo.

vou-vos dizer: num país com baixa natalidade e onde um casal precisa de trabalhar (ambos os dois) não se compreende como as soluções propostas para apoio à primeira infância são tão caras.

gente!

das duas três: ou um dos pais fica em casa com a criança; ou os dois recebem pouco mais do que o salário mínimo e a mensalidade não é gritante ou, então, é espremer as nádegas para evacuar dinheiro.  

que a criança é fonte de despesas já sabemos. que o estado apoia muitos pais com abonos, subsídios mono-parentais, apoios e afins é verdade também. mas que despreza totalmente quem não se enquadra nesses parâmetros assumindo que não precisa e pronto, é também outra verdade universal.

é como se: ganhas o ordenado mínimo? estás desempregado? avança com a fabricação da criança que nós ajudamos.

ganhas um pouco mais do que isso? trabalhas que te lixas sessenta horas semanais, sem férias e fins-de-semana? fode-te que a responsabilidade é tua, a taxa de natalidade não precisa de ti e paga mais de duzentos paus por mês para a tua criança ir para a creche. e dá-te por satisfeito que podias nem isso ter ainda que descontes que nem um tolinho todos os meses. 

é. falar de dinheiro nunca foi giro. 

mas é necessário.

 

seja como for, a criança vai para a creche amanhã.

há um misto de: vou trabalhar a manhã inteira sem interrupções, sem mudar fraldas, alimentar, ajudar a fazer sestas, brincar com a criança: iei, viva; e vou trabalhar a manhã inteira sem interrupções, sem mudar fraldas, alimentar, ajudar a fazer sestas, brincar com a criança: oh merda para isto. 

e se ele não se adaptar? e se sentir a minha falta? e se estiver a chorar e ninguém o consolar? e se outro miúdo o morder? e se tiver fome e ninguém o alimentar? e se tiver que mudar a fralda e não o fizerem? 

dói-me o coração. horrores.

às vezes penso se não seria mais fácil abdicar do trabalho, ficar em casa com o miúdo e ter mais tempo para dar amor: não dizem que nestas coisas o dinheiro é o menos e o amor é o mais? começo a entender porquê.

fixe, fixe era que o banco também recebesse amor como prestação mensal da casa. 

e os senhores do continente onde faço as compras.

e os senhores da edp.

e das águas de aveiro.

e do gás.

e do combustível.

tenho tanto amor para dar e só querem dinheiro!

ya meu, tipo, é isso.

por M.J., em 30.08.19

ultimamente o facebook existe pelos grupos, esses antros de bolhas de informação.

já quase ninguém publica fotos no facebook, põe estados de alma no facebook ou informa o facebook do que está a pensar. para isso usa-se o instagram: há uma fotografia, arranja-se uma frase qualquer e voilá! está feito: muito mais bonito e com legenda. 

 

é por isso que o facebook, com os seus grupos tem-se mantido.

as pessoas aderem a uma série deles (e há de tudo, como no supermercado) e depois vão interagindo umas com as outras:  há de apoio a políticos, de ódio a políticos, de férias, viagens, costura, alimentação, jejum, estilo de vida, estilo de morte, religião, ateísmo, trabalho, desemprego e tudo o que se lembrarem.

juro.

faço parte de uma data deles. como espetadora assídua, somente. até me mantenho num ou outro de mães, em que não participo mas vejo. e depois posso sempre pensar no futuro da humanidade.

bem giro. 

 

o mais interessante? é que todos têm uma espécie de regra em comum:

é proibido corrigir-se erros ortográficos.

é sério.

pode criticar-se tudo: o que a pessoa tentou dizer, o que a pessoa tentou esconder, a vida da pessoa, o corpo da pessoa, a família da pessoa, a ideologia da pessoa, a religião da pessoa, o peso da pessoa, a idade da pessoa, as decisões da pessoa.

tudo é permitido.

menos, meus senhores, erros ortográficos.

isso aí, alto e para o baile, mas não.

 

e não era suposto que andando toda a gente em redes sociais onde, pasme-se, se escreve, houvesse uma tentativa de se escrever melhor? é que já nem digo aqueles erros mais... enfim, perdoáveis, em que se troca conselho por concelho, à por há, assento por acento, se separa o mos do comemos, se acrescenta um a ao recebe e põe-se hífen onde não era suposto.

enfim, uma pessoa até fecha os olhos a isso porque pronto, consegue-se compreender.

o que não se entende é aquele emaranhado de erros, todos seguidos, em que não se percebe um corno do que a pessoa quer dizer e é preciso vir um tradutor de chinês, japonês, turco, grego e holandês para decifrar a coisa.

e no meio disto ai de quem, muito timidamente escreva: "desculpe, o quê?"

ah, a ofensa! pois que a net não serve para corrigir erros, pois que a net não serve para apontar dedos ao português alheio, pois que ninguém precisa de dicionários ambulantes.

então a net serve para quê, caralho?

para nos dizer que na mínima dor de cabeça temos um aneurisma incurável?

para nos dar a convicção de que toda a gente pensa como nós porque estamos em pequenas bolhas de informação e só lemos o que queremos ler?

para estarmos incluídos em grupos de pessoas que a falarem tão mal como escrevem eram incapazes de manter uma conversa de 3 minutos enquanto cuspiam uma nata com café?

 

há dias, enquanto estendia roupa no pátio percebi que o vizinho do lado estava a dar uma festa na piscina.

ou melhor, o filho de 20 anos do vizinho do lado. e como a malta berrava em vez de falar era inevitável ouvir o que diziam. pois que tenho uma conclusão:

senhores, a juventude fala como se tivesse um travão de mão na língua que puxa a cada três palavras.

e depois, tipo, ela disse que, ya, não queria pinar comigo, tipo, que era cedo. e o outro, aos gritos também meu puto, é tipo, ela querer quer, ya, mas tipo, tava-se a fazer de difícil. e outro ya. e a resposta ya. 

OH-MEU-DEUS!

só me apeteceu berrar enquanto pespegava com meias no estendal:

ya meu! se no tal do pinanço fizeres tantas interrupções como quando falas... não há nenhuma que ya, tu tipo, pines!

 

enfim, as palavras são como as cerejas.

comecei nos erros da internet, acabei nos erros da fala. 

cerejas podres, portanto.

 

e por favor, qualquer erro que por aqui ande, ajudai-me a corrigi-lo, sim?

isto é uma indignação com cocós

por M.J., em 28.08.19

é inevitável: só quando passamos por elas é que nos apercebemos delas.

ou só quem está no convento sabe o que lá vai dentro.

ou pimenta no cu dos outros é refresco. 

pois é.

 

nunca tinha pensado na necessidade que é de haver fraldários nos vários espaços públicos. na verdade, quando pensava era que a sua existência era espaço desperdiçado: eu era assim. falar em crianças e coisas de crianças causava-me urticária. não estava dentro do convento e não aprecio pimenta.

faz parte.

uma vez li uma bloguer - não faço a mínima ideia quem - a queixar-se de que numa estação de serviço não existia um fraldário na casa de banho masculina. achei aquilo uma queixa tonta. tanta coisa na vida para nos queixarmos e a senhora estava indgnada pela ausência de um sítio onde limpar cocó de uma criança? 

claro.

até que tive um bebé. e esse um precisa de ser mudado de vez em quando. vá-se lá entender: dá uso ao rabinho. que despaupério um bebé fazer cocó. sobretudo fora de casa.

mas faz.

farta-se de fazer.

e tal como o meu sono ficou levíssimo - acordo com o som de uma aranha na parede, se for preciso - também o meu olfato apurou desde que a criança nasceu. juro. sou capaz de cheirar cocós a quilómetros de distância. é como se material radioativo saísse das entranhas do miúdo e eu fosse um daqueles aparelhos que o deteta. pela minha saúde se não é assim. 

ah e tal, se ele faz em espaços públicos pode esperar um bocado para ser mudado quando chegar a casa.

era o esperavas.

temos um nojentinho como bebé. à primeira cagadela (perdoai a linguagem mas é o que é) a criança berra, reclama, grita, um ai jesus. e depois o cheiro, meus senhores, incomoda. alguém quer estar a enfardar leitão com cheiro a cocó ao lado? ou fazer uma viagem de horas com perfume a caca no carro? pois claro que não. e ainda que quisesse: a pobre da criança tem mesmo de estar toda suja? com risco de assar? por acaso nós adultos andamos borrados por aí? (os que andam que tenham vergonha). 

por isso sim, temos que o mudar quando é preciso. 

e é aqui que a porca - ou porco - torce o rabo (perfeitamente propositado, dado o tema): há uma grave falha no que toca a fraldários nos espaços públicos:

1. ou simplesmente não existem;

2. ou existem só na casa de banho das mulheres.

e isso chateia-me sobremaneira. porque só estarem na casa de banho das mulheres é tão grave como não estarem de todo.

bem: juro que já deixei de tentar perceber quem acha que os bebés têm mais ligação com as mães do que com os pais. na verdade, não tenho a mínima paciência para mães que se queixam que os pais das crianças não as ajudam (ajudar como? é uma tarefa conjunta, não é um que faz e outro que ajuda) mas depois não deixam que eles façam seja o que for (deixa que eu faço, está tudo mal feito, não tens jeito nenhum) e pior, ficam muito orgulhosas quando os miúdos só as querem a elas (mas depois acham estranho estarem tão cansadas). enfim. cada um com as suas e isso é com elas. pouco se me dá.

agora o que me chateia é que a sociedade ache que tem de ser assim em todas as dinâmicas familiares. e que impinja que mudar o cocó do miúdo em espaços públicos tenha de caber 90% das vezes a mim porque, simplesmente, não há fraldários em espaços comuns ou no wc dos homens.

porquê? hã? porquê?

quer dizer que o meu marido se for sozinho passear com o miúdo tem de entrar na casa de banho das senhoras para mudar a criança? não vem daí mal ao mundo mas entendo o constrangimento.

quer dizer que o meu marido, enquanto pai, não pode ir sozinho jantar com o meu filho?

parece que, segundo a lógica de quem faz a coisa, das duas uma:

1. os bebés só cagam com as mães;

2. os pais nunca vão sozinhos com bebés de fraldas a lado nenhum;

3. esta coisa de haver casas de banho para mulheres e para homens desaparece quando há crianças e vai tudo à das mulheres.

 

e depois, como se isto já não bastasse, a maior parte dos fraldários são uma espécie de tampo que se puxa da parede, no meio do corredor das casas de banho, ficando um pessoa ali a empancar o trânsito para todas as mulheres que precisam de passar.

e é um ver se te avias onde pões o saco com a tralha do miúdo, a tua mala com as tuas coisas, as toalhitas, a fralda limpa, a fralda suja, o creme, etc e tal.

é uma tarefa chata que exige - sobretudo quando a criança decide explorar com as mãos tudo o que encontra, incluindo o rabo sujo - a presença de dois adultos para ser mais rápida e eficaz. mas que não pode ser porque só há fraldário - ou tampo branco - na casa de banho das senhoras. 

porquê? se foi por política de espaço então porquê nas senhoras? os papás têm mãos cortadas? têm tanta caapcidade de segurar a pila para fazer xixi mas depois não conseguem segurar a pila dos filhos para os limpar? a sério?

 

juro que isto é motivo para uma petição. 

se as crianças hoje em dia nas escolas podem ir ao wc com que se identificam mais, era bom que os bebés pudessem ser mudados nos wcs onde os pais se identificam mais, não?

é um assunto de merda, bem sei, mas só quem está no convento sabe o que lá vai dentro.

e no convento, meus senhores, também se caga.

ser-se frágil e pequeno

por M.J., em 13.08.19

no domingo  a mamã veio passar cá o dia connosco. agora que começamos a tratar do exterior da casa e o verão (ainda) convida a horas ao ar livre, sem calor infernal e uma brisa suave (há quem lhe chame ventania, mas uma pessoa aficionada por vento como eu acha que é brisa), passamos algum tempo a apanhar ar no trombil antes do almoço.

perguntei se queriam comer por lá. disseram-me que não. almoçamos, por isso, dentro de casa, de tv ligada:

péssima ideia.

 

o miúdo já dormia a sesta. nós íamos falando banalidades com a tv em fundo.

num momento qualquer chamou-me a atenção uma notícia sobre algo que se passava na capital do mundo, governada por um doido laranja: no mississippi ao primeiro dia de escola, uma operação policial detivera centenas de pessoas, imigrantes.

nada de anormal nos tempos que correm.

o que me chocou foi o que veio a seguir: os miúdos, imensos, ficaram a saber da novidade à saída da escola. e o jornalista que falava com uma criança recolhia a reação dela:

a menina chorava copiosamente e dizia, num desespero cego, que precisava dos pais porque não tenho onde ir comer e dormir. e agora? onde como? onde durmo? preciso dos meus pais, chorava. 

e aquelas necessidades, tão básicas, tão assumidas que estão como algo universal dado a uma criança invadiram o ecrã, assoberbaram o meu almoço, apertaram-me o peito.

precisa, é claro que precisa porque é impossível que o faça sozinha.

porque há um motivo para os adultos serem responsáveis por crianças.

porque há um motivo para o estado ser responsável por elas.

fiquei portanto, à espera que na notícia se dissesse que as entidades estatais competentes levaram as crianças a ver os pais, e que as acolheram até a situação se resolver. 

só que não.

segundo o jornalista nenhuma entidade local governativa fez nada quanto às crianças. arrancaram-lhes as famílias e, numa espécie de mundo terceiro, numa espécie de mundo animalesco, numa espécie de regresso às trevas, descartaram responsabilidades quanto aos menores. como se aquelas crianças não fossem crianças. como se aquelas crianças fossem objetos ou pedaços de lixo sem valor: desemerdem-se, desenrasquem-se, voltem para onde vieram. é problema vosso mesmo que tenham 10 ou 11 anos. 

 

doeu-me e não costuma doer.

porque parece que ganhei, como a maioria de nós, uma espécie de manto que me faz encolher os ombros às atrocidades do mundo: almoçamos e jantamos confortáveis enquanto observamos em primeira linha a morte, dor e crueldade na televisão. e não damos um suspiro. já nem encolhemos os ombros. estamos anestesiados. é uma banalidade. é assim o mundo. pronto. 

 

naquele dia, no entanto, aquela menina rasgou o meu manto de indiferença e aquilo magoou-me profundamente.

como se fosse eu. porque na maioria das vezes só conseguimos que nos doa se sentirmos que poderia ser em nós ou em quem amamos. e é triste. 

porque aquela menina, que em prantos dizia que precisava dos pais, fez-me lembrar de como é triste ser-se pequeno, frágil e depender de quem é maior.

fez-me lembrar de como é horrível ter-se seis ou sete anos e ter um medo constante de perder aquele que cuida de nós porque dependemos dele e não somos capazes de subsistir sozinhos.

e esse sentimento de impotência, essa fragilidade de ser pequeno e dependente, essa necessidade de crescer muito rápido para se ser adulto, não era suposta ser sentida por crianças. não era suposto que cravasse as garras na alma de quem é frágil e não tem meios de seguir sozinho.

aquele "preciso dos meus pais para comer e dormir" trazia um grito de medo e sobrevivência que não era suposto uma criança sentir. 

 

olho para o meu filho, de meses, que faz birras (sim, já as faz) porque quer o pato amarelo em vez do urso castanho. olho-o enquanto dorme e sinto espasmos de medo que algum dia ele perceba que precisa de mim para subsistir, para sobreviver. não é suposto.

não é suposto que a vida seja atirada com força a pontos de quem é pequeno e frágil tenha consciência total dessa pequenez e fragilidade e viva aterrorizado no medo que ela o absorva todo.

aquele acontecimento cravou-se no meu peito e ainda me sinto tremer quando penso nele.

fiz uma pesquisa rápida na net. a notícia original está aqui. se vos doer como doeu a mim é melhor que não vejam:

https://www.cbsnews.com/video/children-of-undocumented-immigrants-face-uncertainty-after-parents-apprehended-during-massive-mississippi-raid/

 

 

 

e de repente está tudo em stand by menos quem trabalha em postos de combustível.

esta semana as solicitações de trabalho pararam, os e-mails abrandaram, os telefonemas desapareceram. foi só depois de tentar perceber que conspiração é esta que me fez assim parar de trabalhar que, muito eurekamente percebi que é agosto. 

estamos em férias.

menos, volto a repetir, os senhores dos postos de combustível: a greve não começou e há filas.

filas, combustível que esgota e gente numa corrida de pânico a encher depósitos, garrafas e até a bexiga, se ela guardasse combustível.

incrível.

o português é incrível.

 

o que faria o português típico perante uma ameaça de falta de água? encheria a garagem numa espécie de piscina? transformaria a banheira num depósito? mataria o vizinho de apartamento de baixo para o transformar num tanque?

repito: incrível.

 

até já se viram começos de porrada, pancadaria, pauladas e afins num posto, filmado por alguém, numa qualidade ranhosa de imagem: gente, se é para passar na cmtv faz favor de filmar como deve ser, ora essa. 

 

em boa verdade, tudo se conjugou para este cenário negro e dantesco de falta de combustível: estamos de férias, logo há tempo para ficarmos nas filas; e chove, por isso não se pode alapar o rabo na areia. e depois, o combustível está quase dado, não é verdade? toda a gente tem dinheiro para abastecer. 

 

não se entende.

 

ontem, de tarde tive de ir ao supermercado comprar leite, fraldas e toalhitas para sua excelência meu filho.

desleixei-me e eram tão poucas que corria o risco de me transformar numa mãe daquelas da moda e embrulhar a criança num saco reciclado, lavando cocó à mão, em restos de água do banho. (ou em leite materno em excesso).

fui, esperando encontrar o que encontro em dias da semana antes das 5 da tarde: pouca gente, estacionamentos à larga, nada de confusões. 

pois claro que não: havia uma fila para entrar no supermercado e, pasmem, seguranças no estacionamento, na entrada e dentro do super. olhei espantada o telemóvel. os dias estão cinzentos, o puto está enorme: seria natal?

não, claro que não.

é o medo, o pânico, a dor de que os supermercados deixem de ter ração para toda a gente.

oh-meu-deus.

e a greve, repito, não começou e estima-se que nem comece. e os serviços mínimos oscilam entre os 50 e os 100 (cem, reparem, cem) por cento.

e vamos todos às compras, a correr muito, não vá termos de comer pedras à janta.

tudo maluco!

a culpa é da chuva, só pode. 

 

confessem cá: quantos depósitos cheios há por aí?

solidão

por M.J., em 07.08.19

às vezes sinto-me sozinha.

não tanto como outrora mas ainda sinto. mesmo quando há gente em casa, na rua, nos supermercados e pastelarias. mesmo quando mando e-mails, atendo telefonemas e vou a reuniões.

sinto-me sozinha, espanto, naquele cliché badalado do repleto de pessoas.

na verdade, sempre senti, acho eu, agora que penso nisso. esta incapacidade gritante de lidar com o outro tinha/tem essa consequência.

 

quando me sinto mais só escrevo.

antes escrevia muito. agora não tenho grande tempo. por isso só penso no que escreveria se tivesse tempo e paciência. depois esqueço o que teria escrito. é como se o tivesse feito sem fazer.

quando a solidão aperta mais vou às redes sociais.

não que ajude, longe disso. um moribundo que esteja para morrer apenas encontra nas redes sociais gente viva, de boa saúde e de férias; ou então gente totalmente morta, depende do que procurar. há uma falta gritante de meio termo.

participo pouco mas vejo. leio com avidez até, às vezes, pensando "caramba, as pessoas pensam mesmo isto? vivem mesmo isto? são mesmo assim?". acho que não são. nunca somos, não é?

deixei de ler blogs. tirando raríssimas exceções. é que é mais do mesmo: viagens. dicas. livros. dicas. maternidade. dicas. lamentos. dicas. séries. dicas. e por aí diante. nunca vi tanta dica na vida. sou capaz de encontrar 7 dicas para tudo. incluindo como não me sentir tão sozinha. alguém já escreveu, filmou, gritou sobre isso.

se já escreveu sobre como amolecer ou endurecer o cocó já se escreveu sobre tudo.

incluindo eu.

 

quando me sinto mais só também leio.

por norma releio. é como encontrar velhos amigos. que não desiludem porque, coitados, permaneceram ali. e eu não os desiludo a eles porque não me veem nem sabem quem sou. é uma relação perfeita.

só que não.

 

dizem que quando temos um filho nunca estamos sozinhas. também dizem que ficamos muito mais sozinhas quando temos um filho. há 7 dicas para nos sentirmos sozinhas quando temos filhos e 7 dicas para não nos sentirmos sozinhas quando temos filhos. é à vontade do freguês. só escolher.

como em tudo na vida.

 

alguém dizia, num almoço onde estive no domingo, que não abria as redes sociais no mês de agosto. exceto o facebook. porque estava toda a gente de férias menos essa pessoa. e isso fazia-a ter uma vontade imensa de estar de férias. e mesmo que quisesse ficar feliz por quem estava de férias acabava apenas por, ao fim de trinta e dois posts e meio sobre o assunto,  ganhar ranço a férias.

sorri. se eu tivesse de férias também tirava fotos disso e publicava. já da solidão que sinto de vez em quando não tiro fotos: não há imagens que retratem o vazio interior.

ou se calhar há.

isso e 7 dicas para ficarem bem tiradas.  

alguém por aí?

apeteceu-me dizer(-vos) bom dia

por M.J., em 06.08.19

(literalmente) há anos que não o faço.

publicado às 09:47

quando me despedi - vai fazer agora uns anitos - passei por uma fase de cruzamento: é aquela coisa do ter várias estradas para seguir mas, por necessidade, ter de escolher uma. 

admiro aquela coisa de a vida permitir que algumas pessoas tenham todo o tempo, toda a possibilidade, todo o dinheiro, todo o apoio para poderem escolher o que querem fazer, e ser, baseado apenas naquilo que gostam e em quem são.

a maioria de nós, pobres mortais, ainda que com alguma liberdade de escolha e apoio, tem apenas uma bala e um alvo certo: escolhes aquele a pronto, prepara-te o resto da vida para ele.

 

como é sobejamente conhecido comigo não foi assim. dei o tiro, escolhi o curso, tirei-o como era devido, comecei a trabalhar como era devido e preparei-me mentalmente para o aperfeiçoar de uma profissão que seria a minha, o resto da vida, como era devido.

só que não.

a minha infelicidade, alguns anos depois era tão palpável que se podia espremer e inundar o mundo.

na verdade, inundou todo o meu mundo.

e não houve outra hipótese que não descartar. ou melhor, não descartando de todo enveredar por outro algo, outra rumo que pudesse complementar aquele.

 

tive sorte, é verdade, nos passos que dei até aqui. mas a sorte é um pequeno dedo mindinho nos 4 restantes de uma mão. pelo meio houve uma série de trabalho, uma dose enorme de teimosia e capacidade de adaptação.

nunca pensei, há uns anos, nas minhas incapacidades e fobias, que fosse capaz de alargar a mente, de a abrir ao prisma do lado.

de estudar sozinha o que nunca pensara, furar caminho, perseguir um determinado objetivo: mas fui.

creio que, na maioria das vezes, somos todos. 

 

é certo que bater com a cabeça na parede durante tanto tempo - tanto que fez galos e marcas e cicatrizes constantes - ajudou. foi fulcral no processo. permitiu-me ter uma tal dose de inconformismo que pude sempre dizer "para ali não".

para ali não. não mais.

e essa dose de inconformismo, de capacidade de arriscar mesmo a tremer de medo, essa possibilidade de me lançar em frente sabendo que tudo podia ir de vela, trouxe-me até aqui.

não é que aqui seja propriamente a melhor posição do mundo. mas este aqui permite-me ir lanchar à meia tarde fora de casa. permite-me acompanhar o miúdo (pelo menos até ao próximo mês, altura em que ele vai para a creche) nas suas rotinas, ali bem ao meu lado. permite-me não me sentir presa: presa a uma semana longa em que a liberdade seria dois dias. presa a lamentos de uma vida num trabalho que não realiza, não satisfaz, não acrescenta. 

 

a senhora que cá vem a casa fazer umas limpezas semanais tem a minha idade.

chamo-lhe senhora porque é o que é: absolutamente deslumbrante de tão linda, elegante e delicada. falamos sempre, enquanto partilhamos um cafezinho no terraço. fazer limpezas não é o trabalho da vida dela. mas, estranhamente, realiza-a. permite-lhe ter liberdade de tempo e movimento. ajustar o trabalho ao ritmo da vida dela. e é muitíssimo boa no que faz: despachada, expedita e perfeccionista.

e por isso ganha bem: tem imensas solicitações que vai gerindo como pode e quer. meio bairro tem-na a limpar a casa.

tirou o curso de educação de infância. esteve num colégio/creche, enfim, uns três anos. percebeu que preferia limpar casas do que aquilo. e assim fez. diz que é bem mais feliz. eu acredito. se tivesse que aturar 15 miúdos todos os dias acho que preferia ser cantoneira. ou limpar esgotos. 

foi a dose de inconformismo dela que a trouxe aqui. e o aqui dela é, para muita gente, uma valente porcaria: limpar casas, olha que coisa.

para ela é fantástico.

 

há uns dias disseram-me, quando me queixava que tinha de trabalhar até muito depois das duas da manhã, que era uma sortuda porque, ainda assim, no dia a seguir podia estar com o meu filho. que muita gente trabalha até essa hora e no dia a seguir, bem cedinho, vai trabalhar para outro lado.

acredito. 

o inconformismo não cabe em todo o lado. nem o dedo mindinho de sorte. quando há contas para pagar então, às vezes o inconformismo só serve para se fechar muito bem fechadinho numa gaveta da sala. ou da cozinha. 

mas muitas vezes, o medo do arriscar tolhe tantos os movimentos, castra tanto as pessoas que as leva a aguentarem anos e anos repletos de dias lúgubres e tristes, a fazer algo que não se gosta, não se quer, com quem não se gosta e não se quer. como se vida fosse reduzida ao sábado e ao domingo e um deles é até para limpar a casa toda. 

no meu caso o incoformismo deu-me 7 dias semanais a fazer o que gosto e quero.

sete.

s-e-t-e.

significa que os fins de semana não são fins de semana. que o horário de trabalho não é horário de trabalho. que as férias não são férias. significa que há um aperto todos os dias na necessidade de perceber de contas e contabilidade, finanças e tudo o que é necessário para manter isto de pé. significa que me tornei uma espécie de one woman show: que tenho de dominar um bocado de tudo, fazer um bocado de tudo e não esperar pelo fim do mês para receber o ordenado na conta e ir à minha vida. significa que quando saí da maternidade, no mesmo dia, vim trabalhar à noite. significa que o miúdo pode estar a chorar e eu não posso ir a correr ter com ele porque estou ao telefone com clientes. significa que a praia está ali ao lado mas não posso passar lá 15 dias de férias, a torrar e a fazer castelos de areia porque tenho 7 dias semanais a trabalhar. significa que precisei de começar do zero outra vez. de me torturar em dúvidas e medos. de avaliar todas as decisões e esperar pelo "eu bem te avisei". 

foi o raio do inconformismo que fez tudo isso. 

quão sortuda sou?


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e agora dá aqui uma olhada