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só para vos dizer...

por M.J., em 03.02.20

que a criança esteve duas semanas inteirinhas na creche.

sem bicheza.

hospitais.

pediatra.

febres.

e etc., etc., etc.

 

e hoje voltou para lá, alegre e contente, depois de um fim de semana em que foi estragado de mimos pela avó,

remexeu em tudo,

pegou em tudo,

abriu todas as gavetas,

todas as portas...

 

desfez uma pilha de papel,

e até nos deixou ir ver as vistas em passeio no sábado...

e tomar um cafezinho no domingo.

 

e hoje está sol!

...

...

hum...

...

...

quando a esmola é muita o santo desconfia...

 

seja cão!

por M.J., em 28.01.20

há palavrinhas mal ditas que me dão comichão no cérebro.

não são coisas enormes ou que delas venha mal ao mundo.

mas provocam em mim uma espécie de repulsa natural, que me faz tremelicar as narinas e abanar os óculos.

ouvi muitas a infância toda.

quando se tem mais de 30 anos (32, vá, também não é preciso acharem que estou quase nos 40) e se viveu toda infância numa aldeola do interior há, inevitavelmente, expressões, palavras, frases que povoam a nossa mente, num chavão que faz parte de nós.

portanto, não me é estranho ouvir coisas como prontos, até amanhê, mirtilios, arreceber, onte, ouros (em vez de euros), desgracia, adevidir, igreija, cambra municipal e etc, etc, etc.

sejamos francos, não é o facto de alguém falar desta forma que me chateia. o que me provoca varicela no cérebro é o repetir do erro, o avançar com prontos, mesmo que minutos antes tenha sido dito "não é prontos, mas pronto" e a pessoa encolhe os ombros, arreganha a beiça e volta a dizer mal porque, prontos, acha piada. 

uma vez corrigi alguém que dizia "ouros" em vez de euros.

disse-lhe sem qualquer maldade e até com delicadeza porque achava mesmo, acreditem, que a pessoa não sabia. pois que me olhou, com todo o desplante e disse que sim, que estava mal, mas que preferia dizer ouros porque euros não não tinha jeito nenhum.

ora foda-se! não tem jeito nenhum é ser-se atrasado por livre opção. 

 

é essa pequenez que me incomoda:

o saber que se diz mal, que aquela forma está errada mas repetir-se porque se acostumou, porque é confortável, porque lhes dá uma espécie de orgulho em ser diferente (que originalidade, hem?) porque há vontade expressa de mostrar ignorância em vez de conhecimento, porque há um orgulho em ser-se pequenito.

 

tenho uma péssima dicção, uma pronúncia que não esconde de onde venho e troco as vírgulas quando escrevo.

às vezes também conjugo mal verbos e escapa-me um ou outro palavrão quando estou muito chateada.

mas com mil demónios, seja cão se não corrijo - ou tento corrigir - sempre que me chamam a atenção.

 

e ai de quem se lembre de falar com o miúdo como se ele fosse atrasado.

não há chicha, popós, mé més, ão ãos ou bua. 

deus do vocabulário me ajude.

 

apre.

casa

por M.J., em 27.01.20

almoçamos em casa dos papás no domingo.

o miúdo vai percebendo, a cada dia, truques e manhas.

agora, sempre que algum de nós o contraria, seja por que motivo for, ergue o beiço e olha para o outro, na procura de socorro ou consolo.

perante tal ato dramático temos de virar a cara para não rir em frente  dele.

é claro que ontem usou essa técnica com a mamã:

quando o contrariei por algo que já nem lembro, armou o beiço e vai de gritar em prantos, um ar sofrido e magoado, os dentes todos à mostra, o olhar fixo nos avós até irem os dois, a correr muito, salvá-lo das minhas garras.

sim senhores, lindo serviço.

 

na serra, a esta altura há um silêncio que não se explica a quem nunca o ouviu.

deixei o miúdo ser apaparicado pela mamã e fui dar uma volta, dando conta do som do vento nas árvores, os latidos dos cães, ou o caraquejar de alguma galinha.

o gelo foi queimando ervas e plantas e dotando tudo de um acastanhado dourado.

a relva tem agora laivos avermelhados, as plantas no quintal estão secas e despidas e as árvores erguem-se sem folhas.

o limoeiro sucumbiu ao peso dos limões e da laranjeira caem laranjas numa abundância comum, ficando mortas no chão, um cheiro a azedo a pairar no ar. 

 

às vezes sinto falta da pacatez da serra, das horas que não correm ou do espaço aberto, amplo, para se respirar. 

desde que me mudei de coimbra que a sensação se atenuou.

viver numa casa, com espaço dentro e fora, poder respirar fora das quatro paredes sem ser na rua pública, sentar-me nas cadeiras do pátio, levar o miúdo a sentir a erva do jardim (ainda não é relva, talvez este ano) atenuou a saudade que sinto desde que saí da aldeia e que nunca confesso. 

mas ainda assim, há algo em mim que me puxa a casa saindo de casa. 

e o deslumbramento da beleza que não vi durante vinte anos ataca-me sempre, nestes almoços ou visitas domingueiras.

a nostalgia das lembranças de uma infância que julguei ter sido dolorosa queima-me no peito e quase esqueço do gelo nas mãos e nos pés à ida para o autocarro que nos levava à escola, do frio que corta mesmo dentro de casa, do isolamento que nos colocava a milhas de distância daquilo que eu julgava serem as oportunidades da felicidade.

 

 
 
 
 
 
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Há poucas coisas que me recordem mais quem sou, de onde venho e o que trago comigo do que voltar a casa. Não à casa onde vivo e que é minha, mas à dos papás onde vivi infância e juventude. A serra está vestida de beleza. É muito dificil explicar o som da água no rio, o cheiro das folhas secas, o dourado que o gelo dá ao tom de verde que já começa a despontar. A beleza da serra é crua e nem sempre visível, sobretudo a quem lá nasceu e desde sempre vive e viveu. É fácil que deixe de ser visível, escondida pelo frio cortante que a maior parte das casas não pode combater; ou pelo sol árido a queimar o corpo em dias infinitos de verão. É fácil que deixemos de ver beleza no isolamento, nos dias sempre iguais, na vida difícil e dura que nos coloca a muitos quilómetros de distância das oportunidades. E mesmo assim, reparem, há poucas coisas mais bonitas do que esta foto tirada há pouco quando voltava a casa vinda de casa. . . . . . #inverno #invernoeuropeu #inverno2020 #folhas #folhassecas #arvores #árvores #trees #winterdays #lar #entrefolhas #meular #paisagemlinda #instawinter #amofotografar #winterwear #folhaseca #casadecampo #treestagram #winterseason #folhascaindo #paisagem #paisagemnatural #folhasaovento #casa #wintermood #folhasdeoutono #blog #blogger #eagoraseila

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volto a casa vinda de casa.

há vinte anos de memórias e de construções de quem sou a lembrarem-me que tenho vinte anos para criar memórias e construir - também - quem trouxe a esta casa:

para que ele um dia voltando à sua casa indo desta casa, recorde a beleza da infância e os momentos em que corriam para ele quando erguia os lábios num beicinho contrariado. 

oh vai ver ali:

pronto, que fique bem assente que não temos cá em casa nenhum pequeno génio ou com ares de atleta.

aos 13 meses e pouco as únicas proezas da criança passam por um gatinhar perfeito, uma teimosia muito evidente, um guinchar muito afinado sempre que o contrariam, uma vontade de comer muito acentuada que não faz distinções entre sopas, pão, legumes ou carne/peixe, uma capacidade de se entreter sozinho sem chatear ninguém (quando não está doente) em períodos de tempo bastante aceitáveis e a proeza de dormir noites completinhas, desde as 20:00 às 8:00 desde praticamente os 3 meses.

claro que nenhuma destas capacidades se iguala aquela que melhor traduz os últimos meses: o apanhar de toda a bicheza na creche e trazê-la para casa.

isso sim, é a pedra de toque, refinada e que caracteriza a sua melhor qualidade.

 

de resto, constatei há uns dias, tem 13 meses e não caminha nem fala.

nadinha de nadinha. nadica.

assustei-me quando percebi isso.

o tempo é uma coisa estranha e nunca tinha pensado nos marcos de desenvolvimento dos miúdos.

é suposto, segundo li, que digam no mínimo seis palavras aos 12 meses e que caminhem. 

pois muito bem, ou o que li estava errado, ou a criança padece de qualquer coisa.

é claro que ninguém ligou às minhas constatações:

o rapaz mandou-me parar de ler coisas parvas na net, a mamã disse-me com um ar paciência mal contida que eu só tinha começado a caminhar aos 15 meses (e mal) e a educadora adiantou que nenhum miúdo na sala dele diz grande coisa. 

seja como for, não vai sair daqui o próximo ronaldo. 

e eu que tinha tanto perfil para ser a dona dolores!

 

como é que foi com os vossos?

já cantavam o hino aos 9 meses? 

 

 

 

 

maternidade

por M.J., em 20.01.20

passei o domingo todo de cama com aquela coisa muito bonita chamada vómitos e diarreia.

foi horrível.

era impossível estar de pé, tremia constantemente de frio e as únicas corridas que consegui fazer foi para a casa de banho.

tudo patrocinado por sua excelência o miúdo cá de casa, que espalha bicheza como quem espalha a boa nova (seja ela qual for).

 

hoje de manhã foi para a creche mesmo também estando de diarreia.

passou a semana anterior em casa, todinha, para curar-se da amigdalite e da otite. já nada o contentava e, confesso, a mim também não. fartou-se dos brinquedos todos, fez birra porque queria isto mas afinal não queria e convenceu-me, no mínimo, umas cinquenta vezes que isto não é para mim e nunca devia ter sido mãe. 

depois passou, sobretudo quando fiquei o domingo inteiro sem mexer uma palha que não fosse limpar o meu próprio vomitado.

 

às vezes tenho uma vontade absurda de pegar no carro e ir comprar tabaco.

que eu não fumo, que fique bem assente.

claro que não vou mas a vontade existe. e se sei muito bem que nesta coisa de pais e filhos esquecemos rapidamente o péssimo para apenas permanecer o bom (juro que mal me lembro do horror que foi a gravidez e há uns dias até me convenci que de certezinha tinha exagerado), a verdade é que anseio muito que o tempo passe rápido. esta não é uma fase boa. as constantes viroses, doenças e etc., etc. que o consomem a ele e a nós matam-me aos pouquinhos.

é tudo uma fase dizem-me e concordo com essa verdade de la palisse: meus senhores, a própria vida é uma fase. o ótimo é que seja uma fase boa e não uma coisa merdosa, não é verdade?

 

depois que um filho nasce espera-se que as mães - não tanto os pais, e dava uma mama (ou as duas) para que me explicassem o porquê disso - deixem de ser pessoas integrais, com necessidades, vontades, cansaço, preguiça ou tudo aquilo que nos faz quem somos.

és mãe? pariste? então, olha, a partir de agora tu, enquanto pessoa, não existes ou interessas.

deves viver para o ser que colocaste no mundo.

e se comigo isso não acontece (se o dizem cago de alto e as tarefas cá em casa são repartidas totalmente em partes iguais) leio e ouço, num quase loop, mulheres a queixarem-se disso: que não têm tempo para ler, para ver uns míseros 20 minutos de tv ou sequer falar ao telefone com uma amiga. 

e mesmo assim, pasme-se, andamos por aqui todos a parir, numa espécie de paradoxo esquisito.

e mesmo assim vejo várias com 3 filhos, muito contentes e sorridentes, em fotos nas redes sociais.

sem vontade de ir comprar tabaco. 

 

quando me perguntaram os motivos de querer ser mãe, mesmo sendo tão avessa à ideia, respondi - porque é a verdade - que é algo demasiado grandioso na vida, algo demasiado importante para simplesmente abdicar.

que não queria chegar aos 40 e perceber que essa parte de mim tinha acabado e jamais saberia o que seria ser mãe e dar vida.

que não queria - como tanto vejo - descarregar num cão ou num gato aquela parte do amor que nasce connosco e não sabemos catalogar. 

foi por isso.

continua a ser.

não foi pelo chamado, pelos instintos maternais (que acho que continuo a não ter), por gostar muito de crianças (bha!) ou por todas essas coisas que a maioria das mulheres jura sentir. 

 

e ele está aqui. o último ano resumiu-se a ele. integralmente. deixei de fazer mil coisas, de viver coisas e precisei de me adaptar a mil coisas. tudo mudou e só consegui sobreviver à mudança porque tenho ao meu lado alguém mais forte, mais sensato a mais capaz do que eu. 

ele está aqui. derreto-me quando o vejo sorrir. sinto um orgulho desmedido quando aprende algo novo: a primeira vez que disse mamã, a primeira vez que se levantou sozinho, todas as vezes que gatinha pela casa na descoberta de um mundo estranho.

ele está aqui. é nele que penso antes de dormir e nele que penso quando acordo. não sei explicar os motivos. não sei por que sinto saudades dele quando está ausente um dia ou quando estou longe dele uma tarde. não sei explicar por que me dói quando chora mesmo por uma simples birra.

ele está aqui e daria, sem pensar duas vezes, a minha vida pela dele. mesmo que não consiga explicar o porquê. 

 

ele está aqui. e a dualidade de sentimentos, os altos e baixos constantes, a vontade enorme de fugir e a necessidade de ficar estão aqui também, mais fortes do que nunca. 

será isto ser mãe?

vento

por M.J., em 16.01.20

se há coisa que eu aprecie neste vale de lágrimas que é a vida... é o vento.

o que acaba por ser bom porque é gratuito (demos graças por isso) e vivo numa cidade particularmente bafejada por ele. sorte a minha.

 

vento faz-me lembrar casa ainda que casa seja um conceito estranho.

vento cheira a mar e a erva seca ou acabada de cortar.

traz a recordação de folhas douradas a bailar nas árvores e morrer no chão.

transporta o cheiro das mimosas a florir, das glícinas em esplendor e dos eucaliptos.

recorda-me um tempo onde corria de braços abertos, imaginava formas nas nuvens em debandada e observava os lençóis na corda, num frenesim de vento e brisa.

 

gosto de vento. mais do que chuva ou sol.

mais do que café ou chocolate.

gosto tanto de vento como gosto de abraços, lareiras e mantas quentes, livros com cheiro ao ontem, e passeios em frente ao mar.

 
 
 
 
 
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Há beleza em todo o lado. Mesmo no meio de uma caminhada fugida ao almoço enquanto o miúdo doente dorme a sesta. Oh, como adoro vento. #walk #walking #vento #wind #verde #green

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o toque do vento no meu corpo é a sensação de asas que não tenho, do quebrar das amarras que me prendem na vida e da possibilidade - que nunca tive - de planar leve, leve, leve pelos segundos que fazem os meus dias. 

tradições

por M.J., em 13.01.20

o fim de semana estava planeado há muito tempo:

uma das pessoas que mais gosto no mundo vinha jantar comigo no sábado, íamos na tradição ao são gonçalinho beber uns canecos, passava a noite cá em casa e almoçávamos todos no domingo.

e depois, à tarde, íamos os 3 a uma festa de aniversário surpresa de um familiar. 

ia ser giro. 

planeei sobretudo a noite de sábado há meses.

há qualquer coisa de único em sabermos que aconteça o que acontecer aquela é a nossa noite, há amizades antigas (as verdadeiras nunca são antigas) que permanecem e certas que coisas na vida que não mudam.

 

pois.

na quinta, quatro dias depois de ter ido para a creche depois das férias, o miúdo chegou-me a casa com os sintomas habituais de bicheza: olho remelentos, pouca vontade de comer, uma necessidade de colo que normalmente não tem.

ficou em casa, pois claro, na sexta. pensei que estava recuperado. andou de triciclo no pátio comigo e tudo. 

no sábado, de manhã os primeiros sintomas que a coisa não estava bem: febre de 39.6 e um choro constante.

quis levá-lo à urgência, logo. o rapaz não quis. que era cedo. pois sim, pensei, cedo o catano.

ainda assim esperei e a coisa não mudou.

 

às quatro da tarde percebei que tinha de desmarcar jantar e saída. não estava particularmente triste com isso porque, na verdade, estava preocupada com a febre do catraio que não descia.

do outro lado total compreensão. e preocupação. 

depois dessa hora foi sempre a descer (não a febre, mas a situação, em relação à merdosa de vida):choro, febre, vómitos, tosse, tremeliques, discussões entre mim e o pai da criança se devíamos ir ou não ao médico. esperar os 3 dias pode ser útil para o SNS, para mim é estúpido. chegamos a um consenso: íamos no domingo de manhã.

deitei-me com um amargo de boca, e de alma (e de cabeça e estômago, depois de limpar vomitado em várias divisões da casa):

afinal as tradições não são imutáveis.

afinal não existe o "aconteça o que acontecer".

não jantei alarvemente, não tirei fotografias giras para pôr no instagram, não ri de parvoíces e recuperei o tempo antigo. em vez disso deitei-me angustiada, preocupada e triste e acordei de hora a hora para acalmar um bebé doente.

senti uma imensa solidão e tristeza.

por ele, por estar sempre doente.

por mim. por nós.

tenho um medo terrível de nos perdermos no meio disto tudo. e não é pelo raio das cavacas nas trombas, pela multidão aos encontrões, por uma foto gira nas redes sociais.

é - sobretudo - pela sensação de que não controlarei, jamais a partir de agora, nenhum segundo da minha vida. e isso custa, cansa. chateia.

 

no domingo hospital com a criança.

depois de uma hora à espera (às 8 da manhã ainda não há muita gente doente, parece) o diagnóstico: otite, amigdalite, antibiótico para o bucho. 

passamos o domingo em casa, e aqui estamos, mais uma semana de quarentena, à laia de jogadores do vitória de setúbal.

estou pronta, que remédio, para pôr o trabalho em segundo plano, derrapar prazos, colocar coisas em segundo plano e seguir, nesta coisa engraçadíssima que é a vida.

não há outro remédioou antibiótico possível.

mas tudo isto deu-me a certeza (que já andava como que a marinar mas na dúvida) que a criança vai ser filho único. ponto. sem qualquer alteração possível pelo menos da minha parte.

se já é difícil controlar a vida com um, imagino lá como será com dois. 

a fábrica fechou, demos graças por isso. 

ah, as crianças

por M.J., em 10.01.20

4 dias meus senhores.

4 dias foi o tempo que o miúdo aguentou na creche, depois das férias de natal, até vir recambiado para casa com uma virose (ou, como que eu gosto de chamar, com coiso).

 

digo-vos já:

se algum dia tiverem vontade de criticar mães que mandam filhos doentes para a creche pensem duas vezes.

eu, por exemplo, no dia em que vi uma menina na creche doente com pés, mão, boca estive a dois passos de fazer um pequeno vendaval: como é que alguém pode ser tão irresponsável que leve uma criança doente para contaminar os outros todos?

depois lembrei-me que, se trabalhasse num sítio das 9 às 18, ou noutro qualquer, com patrões chatos e ficasse em casa sempre que a criança está doente já tinha sido despedida, dispensada ou alvo de muito assédio laboral.

por sorte - sorte, salvo seja - trabalho por minha conta, comando os meus destinos e posso deixar sua excelência em casa quando está coisado.

claro que me sai do corpanzil, porque se não trabalho durante o dia tenho de trabalhar à noite. e a ele também, que passa períodos sozinho, rodeado de bonecada, mas comigo no escritório ao lado a correr atrás do prejuízo.

ainda assim, fica em casa, com todo o conforto e a ser apaparicado ao mínimo ai. 

 

se tivesse de ir para a creche, que remédio tinha eu.

é que, reparem, atentem, tenham em atenção, desde setembro, malfadado mês em que foi introduzido nas lides dos vírus no também denominado infectário, perdão infantário (é creche, vá, mas assim tem piada) já padeceu das seguintes maleitas:

  1. um adenovírus que descarrilou para conjuntivite, amigdalite, otite e febrite altíssima e que o levou a quase ser internado. foram 15 dias de pânico a fazer-me tomar a decisão de que não voltaria à creche quando estivesse doente (por mim era nunca mais, mas o rapaz não concordou).
  2. diarreia explosiva durante uma semana inteira. nunca lavei tanta roupa na minha vida, digo-vos já, e todo o dinheiro que pagamos em saneamento é bem merecido dada a quantidade de fraldas que vão para o lixo.
  3. uma conjuntivite durante uma semaninha inteira que o fez lembrar camões, se camões tivesse, no olho tapado, quilos de remela a escorrer (dizer pus num texto sobre bebés não é bonito).
  4. o vírus pés mão boca também andou por aqui durante, pelo menos, uma semana. este foi particularmente desagradável porque a criança queria comer e não conseguia. e nunca lhe tirem comida: este bebé tranquilo transforma-se no conan osíris a berrar que lhe partiram qualquer coisa.
  5. uma bronquiolite (mesmo no dia de natal) que não foi particularmente grave (tirando a chiadeira, nada mais) mas que me assustou e fez com que o jantar no dia 24, em casa dos meus pais, durasse 20 minutos até voltarmos a casa com um miúdo a chiar do peito.
  6. uma série de episódios ocasionais de febre, sem qualquer outro sintoma, mas que obrigam a que permaneça em casa (fiquei vacinada do adenovírus: tem febre, não convive com putos). 

 

portanto, meus senhores, a fazermos as contas, foram mais dias em casa do que na creche. 

chefe algum entenderia isto. incluindo eu, se fosse o chefe algum. é tudo muito bonito mas uma empresa precisa dos colaboradores ou, caso contrário, não os tinha. 

ter filhos é um bênção e pardais ao ninho mas obriga a uma grande gestão da coisa.

obriga a mudarmos planos, a sermos prejudicados e a pôr tudo em segundo plano. e isso não é para todos e nem todos nos podemos dar a esse luxo. 

 

não sei qual é a solução para isto. consigo compreender todos os lados: das mães; dos pais; das creches; das empresas; dos putos doentes deixados no infectário do meu filho por pais que não têm outra opção; e da esponja que é o meu filho a  apanhar os vírus todos.

e sei porquê:

nesta semana, quando cheguei à creche, ele estava - atentem - a roubar muito descaradamente, sem qualquer tipo de pudor, uma bolacha meia comida da mão de uma menina.

assim, pumbas, é minha.

e aquela bolacha meia mastigada, repletinha de vírus, foi enfiada na boca dele, pela sua mão gorducha. 

 

a culpa é dele, meus senhores, só dele, que rouba comida aos outros porque come como uma pequena betoneira industrial.

e no meio disto tudo quem se lixa é o mexilhão - neste caso eu - que trabalho de noite, cuido dele de dia e preparo-me para ficar - tal como trimestre anterior - 5 fins de semana fechada em casa, consecutivos, porque estas coisadas de que ele padece começam sempre, pasmem-se, às quintas.

 

ah, as crianças!

futebol

por M.J., em 07.01.20

desisti de ver notícias.

é verdade e pode ser uma cobardia mas todas vezes que ligava a tv em canais de informação sentia um nó no estômago.

a possibilidade de guerra, os sinais de extrema direita a vir ao de cima, o planeta mergulhado em chamas e em cheias provoca-me um peso na alma e uma ligeira falta de ar. 

confesso até que percebi a importância do futebol quando um dia, depois de meia hora de atrocidades, as notícias passaram para clubes, táticas, campeonatos e joelhadas.

foi uma espécie de lufada de ar fresco a distrair-me da possibilidade de morrermos todos, um dia destes, esturricados, afogados, bombardeados e esfaimados. 

sou uma nova adepta de futebol. e mais, digo já, gosto de todos os clubes. sou adepta de todos, vejo todos, vibro por todos e desejo o melhor a todos. 

obrigado clubes por me darem qualquer coisa que me distraia da aterradora ideia de que pus um ser humano no mundo quando esse mundo vai lidar, novamente, com atrocidades inimagináveis. 

 

(só uma nota: extrema direita, a sério? somos tão pequeninos a esse nível? não aprendemos nada? somos de tal modo ignorantes que esquecemos tudo, encantados com alguém que fala, fala e não diz nada?

ah, pois, espera... é o mesmo idiota que fala de futebol às massas usando esta coisa dos cinco minutos de lufada de ar fresco para...

bolas. 

há outra coisa que me distraia?)

 

 

4. levanta-te e anda

por M.J., em 06.01.20

mas este só se levantou, pela primeira, às ordens de sua eminência, dom comando da tv.

 

 

publicado às 10:00


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