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resumos

por M.J., em 28.01.19

no sábado, durante a madrugada, vi-me claramente a descer as escadas, abrir a porta da rua e sair, de pijama e tudo, descalça, saltar o muro sem abrir o portão e caminhar pelas ruas do bairro, longe o mais possível de casa, do quarto, das fraldas e dos gritos do miúdo.

não sai, claro que não.

nem respirei fundo.

continuei a praguejar entre dentes enquanto lhe mudava a fralda e ouvia os gritos incessantes como se alguém lhe estivesse a arrancar a pila em vez de a limpar, enquanto lhe aquecia o biberão no aquecedor de biberões (uma coisa magnifica, tenho a dizer) e lhe enfiava a tetina na boca levando-o a calar-se.

fiquei, portanto.

e enquanto ele comia com a sofreguidão de um desnutrido (afinal só engordou 57 gramas por dia na penúltima semana) continuei a imaginar-me a caminhar nas ruas do bairro, do mais pacato onde já morei, sozinha, em silêncio. podia até sentir os pés descalços na estrada molhada, o frio cortante da noite no pijama fino (o quarto parece uma estufa por causa da paranoia do pai do miúdo) e os latidos dos cães à minha passagem.

e algum vizinho haveria de ver-me da janela, descabelada e remelenta, a tremer de frio mas com um grande sorriso nas trombas porque estaria a sentir algo que me faz mais falta do que milkas de caramelo: o silêncio.

e era isso que conseguia quase sentir, sentada na cama com o puto, a ver-lhe deslizar pela goela abaixo um biberão de leite: um silêncio absoluto sem gritos, acordares sobressaltados, gemidos, bolsares, puns ou aquele silêncio falso, repleto da preocupação de que alguma coisa não esteja bem.

um silêncio sem as minhas pragas mentais e os meus berros interiores. sem os meus discursos e discussões internas, de mil vozes a apedrejarem-se umas às outras, numa esquizofrenia louca.

o silêncio absoluto quebrado por um ou outro comboio que passa, um cão que late ou os meus pés no alcatrão gelado.

esse silêncio precioso para quem dele precisa, por personalidade e feitio.

 

é que nem é a coisa do levantar que me incomoda, os acordares a meio da noite ou o dormir às mijinhas.

tudo isso se aguentaria (e aguenta) se o miúdo berrasse em mute. se chorasse baixo, sem dar à goela.

#masnão.

enquanto não houver leite berra tão alto que, qualquer um de vós, esteja onde estiver, o poderá ouvir se se puser à escuta, só se calando quando houver uma tetina na boca. 

e é por isso que juro aqui por cinco biberões: se tivesse que acordar de duas em duas horas para amamentar e estar acordada mais uma para ele comer já me tinha atirado da varanda, partido os dois pés e entrado em hipotermia.

e juro também aqui, pelo esterilizador de biberões, que dou a mão à palmatória, sim senhores, mães do mundo que amamentam durante seis meses sempre que o puto quiser: sois umas heroínas. seis meses disso? e fazem mais alguma coisa?

claro que se tivesse optado por esses seis meses não poderia ter começado a trabalhar no dia a seguir ao sair da maternidade.

e não poderia, evidentemente, passar entre 8 a 10 horas diárias no escritório, com ele na alcofa ou no baloiço, a trabalhar que nem uma louca na tentativa de restabelecer a sanidade e as finanças (que meus senhores, se quiserem dar cabo de uma poupança tenho um conselho: tende filhos e comprai casa). 

são opções. 

cada um com as suas. 

 

quando ele fez um mês fui sair, à noite, com uma amiga.

na verdade, só me lembrei que ele fazia mêsiversário (existirá, já vos explico porquê) quando, entre pauzinhos de sushi e cavacas a percorrer o céu, se fez luz de qual era o dia em questão.

depois senti-me mal, ao chegar a casa e encontra-lo de barriga cheia e fralda mudada, no colo do pai, a dormir o sono dos justos mesmo com o barulho da PS4 e dos jogos com flechas e tiros.

senti-me mal não por ele dormir de pança cheia, evidentemente, mas porque abri o instagram - para dar a conhecer ao mundo a festa das cavacas voadoras - e  bati com as trombas numa fotografia da senhora que partilhou o quatro da maternidade comigo, onde aparecia um bolo todo catita, com uma vela ainda mais catita e uma figurinha em açúcar de um bebé deitado. e toda uma legenda de "fazes hoje um mês, meu amor, e todos os meses serão o teu dia".

ora bolas, pensei. era suposto ter ficado em casa a festejar o mêsiversário do puto.

o primeiro, pois claro, e todos os outros até fazer um ano. com direito a bolo (claro que o meu seria em forma de biberão) e fotografia de nós três com roupas de veludo em frente à árvore de natal.

não fiz nada disso: saí de casa com uma das pessoas mais importantes da minha vida, enchi o bucho de sushi, ia apanhando com uma cavaca nas fuças e regressei ao lar antes da meia noite, com a cara dolorida de tanto rir, enjoada com uma tripa de ovos moles e restabelecida para outra semana, sem me apetecer fugir do quarto a meio da noite, descalça na procura de mim em silêncio.

são opções.

cada um com as suas. 

 

no entanto, agora que penso nisso, espero que o puto não seja uma adulto frustrado, a precisar de consultar o psiquiatra, com um litro de leite na mala e a concluir - como todos concluímos - que os seus problemas derivam da infância e, sobretudo, porque a mãe nunca festejou com ele o primeiro mêsaniversário como todos os seus colegas.

se assim for... que remédio tenho eu se não pagar-lhe o psiquiatra.

 

(para quem estiver a contar: é mais um post sobre maternidade. e para que preencha todos os requisitos até deixo ficar uma foto que se isto é para fazer as coisas, fazêmo-las bem: já preencho os requisitos de babyblog?)

 
 
 
 
 
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Como vou conhecer as tias @omeunomenaoemazda e @mariadaspalavras vesti-me à beto. Resta saber se não babo a gola toda antes de chegar ao restaurante. #seitadoarroz #babyhands #babyboy💙 #laranjinha

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tive uma epifânia

por M.J., em 25.01.19

enquanto o puto gritava que nem um maluco:

se fosse agora em vez de altino... era tito.

há lá nome mais supimpa, pimpão e catita?

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publicado às 14:59

também vos digo

por M.J., em 22.01.19

preferia perder a mão esquerda atropelada por um camião TIR do que ser obrigada a seguir e ler os vários grupos de mães que circulam no facebook.

basta-me ler alguns prints que se me doem de tal forma as mamas que só me apetece cortá-las. 

e sinceramente, tendo em conta o que por lá circula, não sei como só morreram 60 miudos a mais em 2018 do que no ano anterior.

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pergunta para uma alheira

por M.J., em 15.01.19

por que é que os donos de cafés, restaurantes e demais espaços de copos e bebes se referem aos seus estabelecimentos como "a casa"? 

"ah, porque aquela casa é minha".

"queria mesmo trazer vitalidade a esta casa".

"já estou nesta casa há quarenta anos"

 

dizer "a casa" é dar credibilidade ao facto de se vender bejecas?

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de noite é que se começa o dia

por M.J., em 15.01.19

acordei às duas da manhã para mudar fralda e fazer leite. 

acordei às quatro e cinquenta da manhã para mudar fralda e fazer leite.

acordei às seis menos vinte da manhã, quando mal tinha fechado os olhos, com o puto aos berros como se o estivessem a circuncidar a frio.

tirei-o do quarto que basta um de nós não dormir.

não é que ser eu a não dormir seja boa solução. ou ideia. não é segredo que a falta de sono me transtorna a pontos mais sensíveis que a maioria dos mortais. o passado é uma lembrança constante e as noites mal dormidas tiveram, há alguns anos, consequências que ainda se notam na pele. o facto de dormir mal, hoje em dia, porque tenho um puto aos gritos não é sinónimo de que seja melhor ou mais bonito do que antes. não há beleza nenhuma numa criança a fazer uso dos pulmões como um bezerro desmamado.

uma vez que estava acordada e havia o risco de ele dar uso às cordas vocais, novamente, decidi trabalhar. portanto bebi um café, comi duas bolachas ranhosas, molengas, esquecidas no armário desde antes de parir e sentei-me no pc. forço os olhos cansados e começo. praguejo mentalmente. que se lixe. quando o paizinho do puto acordar e voltar da reunião te-lo-á o resto do dia:

podem conversar os dois sobre esta ideia magnifica que foi parir.

ainda que nenhum dos dois o tenha feito.

sobra sempre para os mesmos. 

 

dormir pouco põe-me mal humorada, rouba-me perspetiva e capacidade de analisar qualquer situação a frio e racionalmente. transformo-me na lamurienta (mais do que o normal, atenção, não que não o seja mesmo a dormir doze horas) azeda, com vontade de ir atravessar passadeiras, em horas de ponta, para atrapalhar o trânsito. tenho uma constante palavra afiada no canto da boca e era capaz de ser o pombo com que jogo xadrez quando não há lógica em discursos ou inteligência por onde se pegue.

optar por trabalhar é, portanto, uma boa ideia. limpa-me a cabeça, distrai-me o cérebro, mata-me os olhos e impede-me de desatar aos gritos - eu, que detesto gritos - pela casa, praguejando como um pedreiro e correndo o risco de traumatizar, de uma vez para sempre, um puto que ainda nem consegue focar objetos e sabe tanto que sou mãe dele como a tetina do biberão que lhe enfiei na boca há menos de uma hora.

vamos ao trabalho então. por sorte, não sou só eu! os senhores do lixo também o fazem, os padeiros, os bombeiros, os polícias, os enfermeiros, os médicos, os estudantes em noite de queima e a cristina ferreira: sou solidária convosco pessoal. 

 

uma última nota: se gostam da vossa vidinha como é aceitem um conselho (ou concelho?): por favor não tenham filhos. sobretudo se forem mulheres: é altamente prejudicial para a vossa saúde.  

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mãe a tempo inteiro

por M.J., em 11.01.19

não tenho - como é bom de intuir - qualquer apetência de ser aquilo a que as pessoas modernas chamam de "mãe a tempo inteiro".

se ser "mãe a tempo inteiro" é passar 24 horas com o nariz enfiado em casa, a avaliar consistências e frequências de cocós, fazer looks de vestimentas minúsculas, pensar em leite, dar leite, preparar leite, sonhar com leite, lavar roupa, arrumar roupa, avaliar macacos no nariz, decidir sobre horários de sono, aturar cólicas, carregar ao colo, carregar ao peito, carregar ao ombro, abanar, embalar, balouçar, balançar, mover, oscilar e afins... minha pobre criança... temos de te arranjar outra.

se calhar sou só mãe a meio tempo. ou em part-time, que faço isso tudo mas não em 24 horas: a criança não foi concebida sozinha e o paizinho dela também tem mãozinhas.

 

não me venham com coisas. cada um é para o que nasce e nada contra quem o decide. mas pensar em fazer isso, só isso, até a criança ter dentes com aparelho tem, para mim, o mesmo desafio intelectual de ficar sentadinha na relva a ver crescer uma cenoura. 

dá. 

admiro quem o faz.

quem abdica de uma vida profissional por livre e espontânea vontade e começa a dedicar-se unicamente a essa... profissão. porque sejamos francos, se há exigência profissional é nisto: é toda uma constante labuta de fraldas, leites, cocós, embalos, almoços, jantares. é toda uma exigência de paciência, apetência para análise e capacidade de acalmar uns brutos pulmões que quando se enervam fazem tremer paredes.

cum mil demónios.

só de pensar em fazer disso a minha vida nascem-me borbulhas no corpo todo, numa espécie de alergia.

 

portantos, com s no fim, ser mãe sim senhor (tanto mais que o puto já aí está) mas com conta, peso e medida (que sim, é possível, não sejamos dramáticos). 

aceito todas as ajudas: a avó quer vir visitá-lo e passar dois dias com ele ao colo a chamar-lhe meu menino? faz favor, é para já. há uma creche aqui ao lado que o aceita aos quatro meses? abdicamos de almoços e jantares fora, de um hotel ou outro e vai-se estimular a criança com outros amiguinhos, a crescer em sociedade desde pequeno. e o papá tinha pensado tirar aquelas duas horas para jogar PS4 mas o menino está rabujento? olha que lindo que ele é, até são parecidos, jogam os dois! 

porque esta coisa da mãe a tempo inteiro é muito bonita mas tem uma grave falha que não entendo: então e o pai? ele há anúncios de mamãs e bebés, há livros de bebés e mamãs ( e cito "no primeiro mês a mãe é a pessoa mais importante da vida do bebé" fim de citação), há fraldários nas casas de banho das mulheres (e não nas dos homens), há toda uma vestimenta para a mulher que é mãe, há todo um incentivo laboral para a recém mamã sair mais cedo (mesmo que não amamente) mas... e o paizinho da criança? por que é que se parte do princípio que só a mulher importa nesta fase? 

não sou grandemente feminista. abomino as capazes, por exemplo, e nunca me preocupei em queimar sutiãs (mesmo quando já estão velhos). mas este assunto incomoda-me assim um txiquinho ao ponto de pensar em reivindicar com um cartaz na rua ("não matem o intelectual das mãezinhas"). 

quando decidimos ter um filho foi uma decisão conjunta. eu não o conseguia fazer sozinha e houve uma contribuição equitativa para que ele aparecesse. claro que quando fiquei grávida quem suportou enjoos, dores de costas, azias, esquecimentos e outros incómodos fui eu. e quem teve que apanhar com uma seringa na coluna, ficar quase oito horas numa marquesa sem se pode levantar, fazer xixi para uma arrastadeira e outras coisas que, enfim, é melhor não falar, também fui eu. e também fui eu que fiquei sozinha com ele na maternidade, a meio da noite, ainda sem conseguir mexer uma perna, com pontos em sítios que era suposto não serem cortados e tive de lhe mudar a primeira fralda, perceber o primeiro (ou segundo) choro, saber como lhe enfiar com um mamilo na boca e passar a noite sem dormir (depois de outras duas nos mesmos termos) com medo que o miúdo bolsasse, se engasgasse ou outra desgraça qualquer. mas pronto. ficamos por aí.

porque quando ele nasceu a importância que ambos assumimos na vida dele é exatamente a mesma. sou tão mãe dele como o rapaz é pai. temos as mesmíssimas responsabilidades. sabemos ambos mudar-lhe a fralda, preparar-lhe o leite, adormecê-lo, acalmá-lo, embalá-lo e todas as coisas que três quilos e seiscentas de pessoa exige. 

por isso, meus senhores, não sou "mãe a tempo inteiro". talvez seja, na minha vida completa "mãe a meio tempo".

o outro meio é do pai dele. 

é que assim tem dois pais a tempo integral. 

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se alguma pessoa

por M.J., em 11.01.19

decidir mandar uma posta de pescada pelo uso das gotas contra as cólicas que dou ao puto está desde já convidada a vir aturá-lo quando ele grita que nem um vitelo desmamado com dores de barriga.

 

não quero ser a mãe do ano.

só quero ultrapassar estes 4 meses com os tímpanos inteiros, a sanidade mental minimamente sã e a sensação de que três quilos e seiscentos de pessoa não conseguem mandar para o manicómio dois adultos bem mais pesados. 

 

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  1. só diz que os filhos não cheiram mal aos pais quem nunca mudou uma fralda;
  2. não encontrei uma maluquinha das mamas desde que fui parir. o que é uma pena. tanto discurso ensaiado que não tive oportunidade de debitar;
  3. quem faz roupa de bebés não tem noção dos tamanhos: metade da indicada para a idade dele não serve e a outra metade é para ele nadar lá dentro;  
  4. quem faz roupa para bebés assume que se eles são machos as mães não ligam à roupa que compram. em metade das lojas a secção das pilas é metade da dos pipis;
  5. o termómetro de medir febre tem certas funções (que não as óbvias) que  não cheiram bem. imagino quantos termómetros usei, muito ingenuamente, sem saber onde tinham estados antes;
  6. até agora, a única pessoa que achou estranho sugar macacos do nariz do puto com a boca fui eu;
  7. achava que mal ia o mundo quando alguém comprava água de colónia para bebés. isto, claro, até o meu filho soltar gases;
  8. as toalhitas são a melhor invenção desde as fraldas descartáveis;
  9. o leite em pó é a melhor invenção desde as toalhitas;
  10. são já cinco as vezes que saímos de casa, com ele num braçado, e esquecemos a mala com toda a tralha que ele precisa. teria graça se, na última vez, não tivesse cocó até aos joelhos;
  11. a melhor maneira de evitar opiniões das mães/sogras é não ser o primeiro neto: aprenderam já, com os outros, que há coisas que não se dizem;
  12. tem dias que me sinto numa espécie de prisão sem direito a liberdade condicional durante mais de 18 anos. a diferença é que eu não arranquei os tomates do carlos castro com um saca rolhas.

 

 

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banalidades

por M.J., em 26.12.18

o miúdo tem remela nos olhos.

da primeira vez achamos que era normal. já no segundo dia de manhã pegamos nele e fomos ao centro de saúde, muito alarmados, a pensar em conjuntivite e afins. resultado?

mandaram-nos embora sem sequer o deixar sair do carro, com um sorriso de soslaio e de complacência para com dois adultos que ainda não sabem muito bem o que fazer com três quilos de gente.

não é novidade.

da primeira vez que lá fomos, ao teste do pezinho, eu chorei copiosamente por ele chorar com as picadelas (tão magrinho, só pele e osso, nem sangue saía) e esquecemo-nos de levar o saco com as fraldas, mudas de roupa e afins pelo que, claro, depois de devidamente pesado, teve de colocar novamente a fralda usada. 

vê-se mesmo que somos altamente experientes na coisa. 

 

no dia 24 fui às últimas compras de natal.

em 31 anos de vida foi o primeiro natal que não passei em casa dos papás, no meu quarto de infância, com a lareira dos papás, a mesa dos papás e tudo o resto. o pobre gato ficou mesmo sozinho e eles vieram cá jantar connosco, num natal absolutamente diferente, totalmente novo e, para mim, ainda inesperado.

por isso, a caminhar meio esquisito, com dores nos pontos, fui às compras sozinha, na véspera de natal de manhã, numa espécie de liberdade, a conduzir pela primeira vez rumo a um mundo sem choros e fraldas.

faltava comprar pouca coisa e o centro comercial estava à pinha.

antes de ir buscar nozes e abacaxi entrei numa loja para comprar uma qualquer roupa para mim, assinalando o facto de já não ter uma barriga descomunal em que nada serve.

resultado: vi roupa pequena e todo o meu ser, numa espécie de epifânia foi chamado até lá para escolher bodies, fatos, meias, fraldas e coisas que lhe vão servir uma semana. comprei roupa que lhe vai durar um quinquagésimo do tempo que duraria a mim, ao mesmo preço, e vim para casa sem nada que eu pudesse vestir.

bem, posso sempre enrolar-me em duas fraldas, sei lá.

 

tudo isto tem uma série de altos e baixos.

as minhas hormonas ainda não estabilizaram e já dei por mim aos pulinhos de alegria seguido, em poucos minutos, de uma tristeza sem fim, com a varanda a ter ares muito apelativos de salto.

toda a gente diz que é normal e eu tendo a acreditar.

na verdade, acredito já em tudo o que me dizem porque percebi, muito sensatamente, que não sei da missa a metade.

ou a um terço. 

 

quanto ao resto... há mijadelas de todas as vezes que se muda a fralda, uma máquina de roupa para lavar todas as manhãs (é que sinceramente...), sono acumulado, biberões para esterilizar que não acabam e, felizmente, a capacidade de trabalhar todos os dias (mesmo ontem, dia de natal, que remédio) o que me dá a sensação de que é possível o retomar da realidade que era a minha antes. 

e em resumo: nunca a minha vida foi tão banal sem ser. 

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uma semana e uns dias depois

por M.J., em 21.12.18

percebi os motivos que levam a que a licença de maternidade contemple cinco ou seis meses - pagos integralmente pela segurança social - quando ontem adormeci, literalmente, com a cara em cima do teclado, os óculos à banda e a uma poça de baba em cima das teclas hjkl.

foi o rapaz que me veio encontrar naqueles preparos.

reparem, no meu caso, quem não chora não mama ou melhor, quem não trabalha não ganha. e por diversas questões, ocasiões e outras coisas acabadas em ões não entra, no meu caso, a licença de maternidade que entra no caso do rapaz. por isso - e para sentir (também) que controlo a minha vida - comecei a trabalhar aos bocejos mal cheguei da maternidade.

 

não é que dom rapazito seja particularmente exigente.

com barriga cheia e cu limpo não há menino. é certo que já começa a acordar de três em três horas para comer, contrariamente aos primeiros dias (quem ouvir há-de dizer que estes não são os primeiros dias), numa espécie de relógio afinado. come do leite da mãe (que sou eu, para que fique assente) e leite em pó, numa mistura recomendada na maternidade tendo em conta que, nos primeiros dois dias, perdeu quase oito por cento do peso com que nasceu.

confesso que é um alívio.

continua a comer do meu leite mas não preciso de estar duas ou três horas com ele agarrado às mamas (a moça que estava no mesmo quarto que eu na maternidade começava a amamentar às duas e parava às seis, minha santa engrácia) e sinto que tenho autonomia para continuar a vida.

é aquela coisa das expectativas: ele não veio parar a minha vida como a conhecia mas sim juntar-se a ela sendo possível, através de uma série de coisas que vamos aprendendo, conjugar tudo sem simplesmente sentir que sobrevivo apenas para o nutrir.

e o certo é que recuperou o peso todo e mais algum.

o rapaz diz que ele está agora mais para leitãozito do que frango de churrasco e eu concordo.

continua a presentear-nos com jatos de urina nas trombas quando lhe mudamos a fralda (a propósito, se alguém souber de algum truque para evitar a coisa agradeço) e chora com vontade quando sente os pés ao leu ou tem cólicas. sinceramente, nunca pensei ficar tão feliz por ouvir alguém dar puns ou sentir o cheiro a cocó no meu colo (e que fedor. não é verdade que os filhos cheiram sempre bem aos pais).

 

e no meio disto tudo começo a recuperar a vida que ficou lá atrás (não está esquecido o relatar do episódio de como decidiu nascer mais cedo).

é certo que tenho tido ajuda.

a mamã passou por cá umas quatro vezes a arrumar, lavar e passar toda a roupa (e se era roupa senhores, e se já há aí roupa senhores); a empregada limpou a casa que estava numa espécie de pandemónio depois de eu ter estado 4 noites fora (o pobre rapaz só cá vinha dormir e mal tinha tempo para outra coisa); e nós conseguimos sair umas três ou quatro vezes deixando-o com a mamã em casa, muito contente, numa espécie de festival de alegria, por ter um bebé para olhar. sinceramente, olha mais para ele do que eu, com ar de satisfação, de quem encontrou um tesouro há muito perdido. 

 

agora que estou cansada disso não restam dúvidas.

e quando o cansaço aperta já sei que, emocionalmente, começo a ficar numa espécie de montanha de emoções. perco a perspetiva em relação a tudo e as hormonas dominam-me. como naquela noite em que o rapaz nos foi encontrar aos dois a chorar, o miúdo com cólicas, eu sem saber o que fazer para o acalmar, duas horas depois de ter começado.

resultado? fui mandada para cama e a criança parou de chorar em cinco minutos, numa espécie de "vês? até é simples".

 

a vida vai retomando o seu curso.

pensei a esta altura estar louca, descabelada, desequilibrada, a chorar dias inteiros e a sentir que tudo se escapava entre as mãos. pensei estar mais gorda que a popota e dar-me por satisfeita por dormir uma hora diária. no entanto, visto as mesmas roupas que vestia antes da gravidez e enquanto as piores consequências forem adormecer ao pc e encher o teclado de baba; chorar dez minutos porque ele chora; e dormir noites de dez horas com duas ou três interrupções de 30 minutos... parece-me que tudo vai bem no reino da dinamarca onde ele, sendo rei e senhor (não fosse dom rapazito) se entrosou connosco, numa harmonia totalmente inesperada.

assim seja.

ámen. 

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