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vou-vos dizer

por M.J., em 27.02.20

tá tudo maluco.

mas maluco a sério.

ontem num grupo uma mãe escrevia sem erros - o que é raro - e com um português muito decente - também muito raro - que estava angustiadissima porque o vírus ia chegar e íamos deixar de poder abraçar entes queridos, passar horrores em hospitais e perder quem amamos.

pensei que fosse uma jornalista da cmtv infiltrada mas parece que não. a mulher estava firme e forte num drama muito sério.

 

depois descobri - pasmem-se - que há quem ache que o vírus foi criado com o propósito de matar meio mundo:

gente, pelo amor de deus, deixem de ser atrasados. é que se assum for quem o criou estaria bêbado ou era um funcionário muitíssimo incompetente dado os fracos resultados obtidos. vocês sabem que a taxa de mortalidade da coisa é minúscula? despeçam essa pessoa já por falta de capacidade de execução. atão mas um vírus com esse propósito não seria mais tipo... mortal? 

 

e depois, que é o que me está a dar nervos, os desinfetantes de mãos estão esgotados.

e eu que os uso desde há uma década porque sou uma nojentinha, que evito tocar em corrimões de escadas públicas há uma década, que desinfeto as mãos com aquilo há uma década quando percebi que o meu estava acabar (aquilo dura meses, gente, meses) e fui ao sítio do costume para comprar tive a resposta que está esgotado.

mas o quê?

andam a guardá-lo em casa para desinfetar o chão?

pensam que aquilo é para beber ao pequeno almoço?

ou que serve de acompanhamento ao champô para lavar as melenas?

tá tudo tolo? então mas ninguém lavava as mãos e agora vai passar a lavar de cinco em cinco segundos?

 

vou acabar este post como só se pode acabar uma coisa destas, outra vez:

foda-se!

publicado às 09:38

antigamente é que era bom

por M.J., em 26.02.20

antigamente é que era bom, dizem pessoas no facebook.

pessoas com que convivo, pessoas com que cresci. alguns da minha idade.

uma aberração.

 

antigamente é que era bom, dizem, no tempo da outra senhora. e do senhor.

e do tempo em que andávamos todos na linha. não foi assim há tanto tempo, mas era bom.

numa nostalgia de merda que não lembra ao menino jesus.

 

silenciei uma data de gente no meu facebook.

era isso ou silenciar na vida e não posso. não dá. mas senti espasmos de vómito quando vi publicações do antigamente é que era bom.

vindas do mesmo pessoal que apanhou porradinha no lombo como se não houvesse amanhã.

que comeu pãozinho de milho com carninha gorda (tudo no porco se aproveita) ao pequeno almoço e para acompanhar um vinhinho podre adoçado com açúcar e côdeas de pão com bolor. e isso era bom, e não matava ninguém. pois então, um quilo de bolor nunca matou ninguém, de pequenino é que torce o pepino e a cachaça aquece.

e todos sabemos que não morriam miúdos há 30 ou 40 anos atrás. porque antigamente é que era bom e hoje os médicos são todos incompetentes e o estado social tira as criancinhas às mães para os matar em instituições. 

é só ver o quadro abaixo do pordata:

Capturar.PNG

antigamente é que era bom, diz o mesmo pessoal que dormiu em caminhas a ouvir os ratinhos a passar no soalho.

ai tão bom. tão puro. que saudades.

o mesmo pessoal que viu avós terem quilhões (mas mesmo muitos quilhões) de filhos porque uns quantos iriam morrer e pelo menos quatro ou cinco haviam  de sobrar para sustentar os velhos. 

 

ai que bom.

que saudades do tempinho à luz da vela, com uma fogueirita a servir de aquecimento. tão bom. o trabalho liberta e o frio dá carácter. uma maravilha. uma delícia.

 

não há racismo, dizem no facebook.

o preto estava a ser pago para jogar, se ele é preto por que é que não pode ser chamado de preto?

é isso e os gordos.

e os cancerosos: se tem cancro por que é que não pode ser chamado de cancroso? ou se não tem dentes por que é que não pode ser chamado de desdentado?

isso não. que ninguém escolhe ter cancro. nem não ter dentes. só preto. preto, sim, escolhe. preto é preto.

que lindo.

 

que a culpa disto tudo é dos refugiados, dizem. fiquem lá na terra deles. a não ser que sejam portugueses na terra dos chineses potencialmente infetados. aí não. aí fiquem na terra dos outros que não queremos cá bicheza. 

ah! porque o vírus que nos vai aniquilar a todos veio dos chineses e a eles pertence. cristina ferreira dixit. e se cristina ferreira dixit o mundo para, escuta e olha.

uma aberração.

 

antigamente é que era bom, dizem compinchas meus, que passaram por infâncias de merda ainda não há tanto tempo.

era bom chegarem da escola, num autocarro a cair de podre e irem tomar conta das vacas, arrumar os porcos, tirar leite à animalada para ir vender por tusta e meia ao posto. era isso e não ter internet para despejar merda.

ca bom.

e era bom porque não havia comissões de proteção de menores, essas que querem tirar filhos aos pais em vez de os ajudar.  

se as comissões se preocupassem dar dinheiro aos pais em vez de lhes tirar os filhos... isso sim, era de valor. toda a gente sabe que se há coisa que o estado anda aí a fazer é arrancar miúdos sadios, saudáveis, limpinhos e bem tratados aos pais.

além de que, também é mundialmente sabido, se injetarmos dinheiro na carteira de pais que nem sequer banho dão aos miúdos a primeira coisa que vão fazer é comprar sabão. 

isso e batatas. 

 

os grupos das mães na sanita do mundo chamada facebook são qualquer coisa delirante.

já li de tudo, juro que já:

mulheres mães de miúdos prematuros, que nunca pagaram uma terapia do bolso, foram a este mundo e o outro fazer tratamento à pala do estado, recebem apoios monetários do estado, põem-nos na creche por tuta e meia mas queixam-se do estado social. [mas antigamente é que era bom. o puto morria e resolvia-se logo o assunto].

mulheres a queixarem-se dos hospitais, dos médicos - esses incompetentes que não ouvem as mães que sabem o que é bom - mas que entopem as urgências porque o puto tem 37.8 de febre:

- e mandou-me o puto embora sem sequer lhe passar um anitbioticozinho. 

não é preciso gente, encharquem-lhe com leite materno para a testa que passa (isso e enfiar leite materno nos ouvidos para curar otites. juro que li).

mulheres a queixarem-se de outras mulheres que recebem o rendimento social de inserção ao mesmo tempo que se queixam do estado que não ajuda as mulheres dando-lhes dinheiro em vez de lhe tirar os filhos.

há cada coisa que só visto, de outra forma não se acredita.

agora li que andam a fazer stock por causa do vírus que nos vai matar a todos: enlatados com força na despensa. a criançada há-de crescer à força da bela salsicha.

se não morre da doença, morre da cura.

uma beleza.

 

silenciei meio mundo no facebook, dizia eu, até perceber que a melhor solução é silenciar-me a mim própria, abrir as janelas e bater com a porta. aquilo não traz saúde a ninguém.

sobretudo quando vemos gente, que até estimávamos, a partilhar coisas hediondas, do antigamente é que era bom

no mesmo antigamente onde as condições eram merdosas.

onde as mulheres eram analfabetas (e os homens, vá) e ficavam em casa a apanhar porradinha no lombo juntamente com o ranchedo de filhos.

mas tal não era problemático porque as comissões não tiravam os filhos aos pais. mesmo que alguns tivessem dado a mão esquerda para serem retirados.

apanhei muita porradinha e ainda estou aqui, dizem os entendidos. 

e claramente que não lhe causou problema nenhum se acham que se deve continuar a fazer.

isso e vacinas: essas coisas horríveis, dizem.

há uns dias li uma senhora dizer que já não ía dar a rotarix ao filho porque, e cito, aquilo só serve para tirar dinheiro da carteira dos pais. e aquilo do rataqualquer coisa nem sequer é preciso porque afinal uma diarreia nunca matou ninguém.

tão não?

é diarreias e pneumonias, nunca mataram ninguém que fosse neste mundinho. 

 

a nostalgia do antigamente mata-me.

nunca estivemos tão bem mas gritamos a rodos que não. 

talvez fosse giro uma máquina do tempo levar os aficionados do antigamente até lá obrigando-os a passar um mês a comer uma sardinha para dez, a apanhar porradinha na lombeira para ganhar carácter, ir trabalhar para o campo e para as fábricas depois do exame da quarta classe, quando ainda mal conseguiam com um garrafão de cinco litros, e verem gente morrer sem assistência, sem ajuda e sem estado social porque sejamos francos, isso não era preciso no antigamente bom.

 

foda-se. 

carnaval

por M.J., em 21.02.20

[está o instagram mas vocês não são obrigados a seguir-me por lá]:

era de esperar que tivesse fotos do miúdo mascarado, não era?

NÃO TENHO!

comprei-lhe um fato de palhaço e tentei vestir-lho, convencida que iria ficar encantado com as cores e afins. 

pois que berrou com o laço, as cores, o fato e tudo o que lembrasse palhaçada.

 

é, portanto, o único menino da creche mascarado dele próprio.

 

se dúvidas houvesse que saía à mãezinha...

publicado às 11:59

eutanásia

tem limões no cu? esprema-os e deixe os outros espremer a vida também.

por M.J., em 18.02.20

há algum tempo que optei por não ver telejornais. sou assinante do expresso e vou lendo as notícias - já tudo o que seja opinião dispenso - diariamente. 

tirando isso acabou.

não consigo lidar com a quantidade de coisas que todos os dias passam na tv e assusta-me a proporção que as coisas tomam e o caminho para onde vamos.

dispenso essa ansiedade pelo que recuso assistir à merda do mundo onde estamos inseridos. 

é uma medida de self-preservation.

 

por outro lado não escrevo neste blog sobre temas fraturantes há anos.

sinceramente não tenho nada a acrescentar ao que toda a gente já diz.

não sinto que vá dizer nada de útil ou importante. e é por esse motivo que também não comento redes sociais (praticamente) a não ser em coisitas corriqueiras ou que me façam rir.

desisti de tentar dizer algo num tempo em que todos temos algo a dizer e gritamos muito, quase em cima de escadotes, para que todos nos ouçam quando, na verdade, ninguém quer ouvir ninguém porque estamos todos muito ocupados a gritar também.

uma consumição.

 

ainda assim, hoje não consegui.

é sobre o tema da eutanásia e tenho pouco a dizer a não ser uma pergunta:

as pessoas que são contra, que se sentem no direito de dispor sobre a vida alheia vão buscar os argumentos onde? ao intestino delgado ou ao grosso?

porquê esta coisa de que mando na minha vida e na vida alheia?

acharão, por acaso, que se a eutanásia for permitida vão desatar a matá-las enquanto fazem as compras semanais no supermercado?

acharão, por acaso, que se for permitido elas vão morrer assassinadas enquanto pensam se compram papel higiénico marca branca ou do outro em promoção?

pelo amor das vossas cuecas!

que pensamento vai na cabeça de alguém que se acha no direito de decidir sobre a morte dos outros? 

 

ontem passei-me como não me passava com este tipo de coisas há anos.

numa conversa que eu nem queria ter sobre o assunto.

numa conversa em que me mantive calada praticamente o tempo todo, fingindo que não estava ali, enquanto deliberadamente via coisas no telemóvel. 

mas acabei por explodir depois de ser provocada para o efeito:

que não, dizia-se, que nunca poderá ser permitido em pessoas com doenças mentais.

e nessa altura senti uma espécie de nojo acentuado no estômago.

uma vontade de desatar à murraça até a pessoa perceber, na sua pequenez, que não tem o direito de decidir que uma doença é mais causadora de sofrimento que outra. e aquela que não se vê pode ser mais incapacitante, mais dolorosa e mais terminal do que a outra visivel a olho nu.

- credo, que ainda sinto fumos ácidos na barriga. -

senti algo que não gosto de sentir.

uma revolta cega por me lembrar dos tempos em que também eu quis morrer e não me deixaram.

e por mais que o tempo passado e as coisas tenham mudado e eu esteja aqui hoje, na situação em que estou, aquela, naquela altura, era a minha decisão e ninguém - ninguém na altura nem ninguém hoje - tinha o direito de decidir por mim.

nem família, nem estado nem a puta que pariu quem seja que ache que pode dispor sobre o destino que quero dar à minha existência.

 

e nem sequer vou estar aqui a rebater argumentos de deus, pátria e família, de médicos que não o queiram fazer ou do bem supremo que é a vida.

porque simplesmente deixei de ter paciência para trocar ideias com gente que não percebe que nenhum médico é obrigado a fazer o que não quer - chama-se objeção de consciência-; se acreditam em deus é uma decisão vossa por isso limitem-se a seguir para vós aquilo que acreditam sem o impor aos outros (eu acredito no harry potter, são coisas); e a vida só é um bem supremo quando é realmente vivida e não quando se cola a nós como água a ferver, nos rói a alma e nos faz sentir que é uma tortura em vez de uma bênção.

 

o que eu gostava mesmo de perceber é o que vai na cabeça de alguém que acha que para além de decidir sobre os seus dias merdosos tem de decidir sobre a merda dos dias dos outros. 

"porque o suicídio é permitido", dizem-me os mesmos que são contra a eutanásia, "portanto, se querem morrer que se matem".

e essa é a humanidade, a tolerância, o altruímo que lhes permite decidir sobre a vida alheia!

oh inteligentes concebidos na ponta de um corno: é isso que que quem o decide quer fazer: matar-se.

só que com alguma dignidade.

e com a possibilidade de deixar de sofrer sem ser desfeito aos pedaços na frente dum comboio. 

porque sim, é muito melhor para a família ir apanhar dedos e cérebros desfeitos numa linha férrea, do que despedir-se da pessoa que não quer viver mais com uma réstia última de dignidade.

 

santa paciência.

foda-se que esta gente parece que tem limões no cu. 

 

p.s. - tinha-me esquecido que já tinha escrito sobre o assunto há anos. e na altura, mesmo sem falar em limões no cu, expliquei-me muitíssimo melhor:

se não me tivessem obrigado a permanecer, há uns anos atrás, não seria agora. não vos diria, não escreveria, não sentiria o sol no corpo. não saberia o valor do amor. não saberia da minha capacidade de amar.

teria sido um desperdício, bem sei.

mas seria o MEU desperdício. e só eu tinha direito de decidir sobre isso. 

 

 

maternidade

por M.J., em 14.02.20

não sei se já o disse mas se não o fiz, digo agora:

uma das piores coisas da maternidade foi a perda de mim enquanto pessoa real, com necessidades, vontades, defeitos e quereres.

 

não me julguem mal.

que fique aqui assente, escrito e reescrito neste ponto prévio que gosto muito do meu miúdo.

que desde que ele nasceu algo mudou em mim e tenho dores na garganta quando vejo crianças obrigadas a não o ser, a sofrer e a não ter a infância que é nosso obrigação prover.

que desde que ele nasceu sinto uma parte de mim maior. mais tolerante. mais capaz. diria até, se conseguisse abarcar a dimensão disso, mais humana. 

é isso.

mas também tenho olhos na cara.

também sou pessoa e também sinto tudo o que ele trouxe, todas as mudanças abruptas e intensas e toda a necessidade de me adaptar a colocar quem sou, muitas vezes em segundo lugar, mesmo naquelas coisitas que são muito nossas e que não fazem mal a ninguém.

é um ponto prévio idiota mas preciso dizê-lo. 

nesta coisa da maternidade não é suposto ninguém queixar-se.

estamos formatados para olhar para as mulheres e mães como mártires, com obrigações sobre humanas, sem dores, sentimentos ou outra necessidade que não o bem estar supremo da criança que pariram.

somos vistas, a sério que é, como uma espécie de nossa senhora não virgem.

e não somos.

a não ser as virgens ofendidas mas essas não me interessam.

 

só percebi a magnitude do que me esperava depois de parir.

não havia maneira de o saber antes.

a intensa responsabilidade que não compreendi nos meses a seguir ao nascimento dele, instalou-se agora nos meus ombros e permanece:

sou responsável pela vida que é dele.

pelo crescimento.

pela saúde.

pelos sorrisos.

pelas lágrimas.

sou responsável por torná-lo funcional.

por mantê-lo saudável fisicamente e não causar que seja inapto socialmente. 

por prover sustento, bem estar e dar-lhe um lugar no mundo onde pertença de corpo e alma. 

 

é minha responsabilidade porque nasceu de mim. e do pai. 

e isso faz com que, mesmo nas pequenas coisas, haja uma necessidade de me colocar para segundo plano.

 

quem nunca o fez não pode sentir ou imaginar o que significa isso mesmo nas coisas mais banais:

o sentarmo-nos cansados, esgotados no fim de um dia longo, esticarmos as pernas, escolhermos qualquer coisa na tv - que provavelmente nem veremos, caídos a dormir mal comece - e tenhamos de parar, interromper, porque um choro agudo se ouve.

mesmo que esse choro não signifique mais que a perda de uma chupeta. ou um sonho mau. 

e mesmo que o levantar seja só cinco minutos.

custa. cansa. chateia. consome. 

o planearmos um fim de semana, banal, banalzinho com apenas um passeio na praia ao final da tarde, e um almoço baratucho no centro comercial. e essas coisitas tão corriqueiras morrerem na praia a que afinal não vamos, perante uma virose que nos consome na preocupação e no medo de coisas graves e más.

mesmo que seja apenas uma febre de 37.8 e a rabujice infantil.

custa. cansa. chateia. consome. 

 

o cansaço.

o cansaço é real.

uma vez adormeci com a cabeça no teclado. não foi bonito e nunca me tinha acontecido. se fosse conduzir era certo e sabido que adormeceria no primeiro minuto. não ia ser bonito também.

a exigência nas pequenas coisas:

uma fralda que se muda e se volta a mudar quinze minutos depois. um biberão. uma cadeira da papa que se transforma numa mistela de comida espalhada. roupa. tanta roupa. que nunca mais acaba. dinheiro. é preciso dinheiro, não se iludam. não caiam na ideia de que tudo se cria. não é verdade. a preocupação constante. ainda não caminha? ainda não fala? tem a pele inflamada? não terá feito pouco xixi? caiu? tem febre? tem ranho? tem diarreia? chora porquê? porque choras tu?

 

não se iludam. a exigência das pequenas coisas é intensa. imensa. quase sobre humana. não é para todos e mesmo para aqueles que não é, não há outra opção que começar a ser. é preciso. fazemos.

 

mas o amor, só por si, não chega.

no meio das mudanças que a vida traz com um bebé, do turbilhão que nos faz rodopiar as horas, a ideia de que o amor chega, serve para tudo, tudo consola e tudo resolve é uma falácia.

o amor ajuda mas não chega. 

é preciso mais. é preciso ajuda. muita. de quem nos rodeia. é preciso coisas concretas, pragmatismo e uma boa dose de bom senso. é preciso objetos que ajudam, pessoas que ajudem, momentos que nos ajudem. 

para continuarmos a ser nós.

para podermos continuar sentados no sofá, desta vez, sem interromper o livro enquanto o pai ou a avó vão lá embalar e dar a chupeta.

para podermos sentir-nos quem somos e não apenas a mãe de.

 

se o sonho de alguém passa por ser mãe de então a experiência pode ser total e plena.

para quem quer ser mais do que isso, não chega.

é preciso o equilíbrio entre as vertentes da vida e isso obriga a que saibamos pôr-nos em segundo lugar... mas em primeiro também.

porque não somos virgens marias.

às vezes o que somos é virgens ofendidas. 

como quando nos recusamos a assumir a imensidão da exigência da maternidade e desatamos a envangelizar todo o mundo, depois de parirmos, para o fazerem também.

 

pois eu, minhas amigas sem filhos, se pudesse teria esta mesma criança, pois claro, daqui a 6 anos apenas. 

depois de viajar muito mais.

depois de viver muito mais.

depois de dormir muito mais.

depois de aprender muito mais da vida. 

para poder viver com mais maturidade e menos emoção a exigência que é ser mãe. 

 

mas como se diz na minha terra: porca capada não se descapa.

por isso, sim:

 

ele está aqui. derreto-me quando o vejo sorrir. sinto um orgulho desmedido quando aprende algo novo: a primeira vez que disse mamã, a primeira vez que se levantou sozinho, todas as vezes que gatinha pela casa na descoberta de um mundo estranho.

ele está aqui. é nele que penso antes de dormir e nele que penso quando acordo. não sei explicar os motivos. não sei por que sinto saudades dele quando está ausente um dia ou quando estou longe dele uma tarde. não sei explicar por que me dói quando chora mesmo por uma simples birra.

ele está aqui e daria, sem pensar duas vezes, a minha vida pela dele. mesmo que não consiga explicar o porquê. 

 

banalidades

por M.J., em 04.02.20

acabou-se-me o café.

foi assim uma coisa: cheguei de manhã, meia aparvalhada pelo acordar do miúdo quando ainda estou a meio do sono, e quando vou ver... pumbas, nada de café, acabou-se, ninguém comprou, oh meu deus.

o problema do café, na minha vida, é suis generis. não aprecio nadinha mas preciso. é o contrário do chocolate: gosto muitíssimo e não preciso.

contradições da vida.

 

sem café a manhã tem corrido lenta, lentinha, lentissima.

o que é mau dada a quantidade de trabalho que surgiu ontem (não perguntem, não consigo controlar o fluxo de trabalho e há dias que me apetece colocar-me em posição fetal e chorar) e o pouco tempo para fazer tudo.

claro que se a criança adoecer e ficar em casa mais vale fugir já.

é que ninguém, mas ninguém meus senhores, o atura. não para quieto meio segundo. tudo é motivo de descoberta:

uma garrafa? ah...., deixa mexer.

uma planta? ah.... deixa mexer.

um caixote do lixo? ah.... deixa mexer.

mil brinquedos que servem para mexer? ah... não quero!

bhá, três mil vezes bhá.

 

e ainda assim, esta descoberta do mundo aos seus olhos encanta-me, orgulha-me, transforma-me.

não serei jamais quem era. 

estes posts sem pés nem cabeça são a prova disso mesmo. 

 

pronto.

vou trabalhar. 

sem café.

alguém quer partilhar um comigo?

só para vos dizer...

por M.J., em 03.02.20

que a criança esteve duas semanas inteirinhas na creche.

sem bicheza.

hospitais.

pediatra.

febres.

e etc., etc., etc.

 

e hoje voltou para lá, alegre e contente, depois de um fim de semana em que foi estragado de mimos pela avó,

remexeu em tudo,

pegou em tudo,

abriu todas as gavetas,

todas as portas...

 

desfez uma pilha de papel,

e até nos deixou ir ver as vistas em passeio no sábado...

e tomar um cafezinho no domingo.

 

e hoje está sol!

...

...

hum...

...

...

quando a esmola é muita o santo desconfia...

 

seja cão!

por M.J., em 28.01.20

há palavrinhas mal ditas que me dão comichão no cérebro.

não são coisas enormes ou que delas venha mal ao mundo.

mas provocam em mim uma espécie de repulsa natural, que me faz tremelicar as narinas e abanar os óculos.

ouvi muitas a infância toda.

quando se tem mais de 30 anos (32, vá, também não é preciso acharem que estou quase nos 40) e se viveu toda infância numa aldeola do interior há, inevitavelmente, expressões, palavras, frases que povoam a nossa mente, num chavão que faz parte de nós.

portanto, não me é estranho ouvir coisas como prontos, até amanhê, mirtilios, arreceber, onte, ouros (em vez de euros), desgracia, adevidir, igreija, cambra municipal e etc, etc, etc.

sejamos francos, não é o facto de alguém falar desta forma que me chateia. o que me provoca varicela no cérebro é o repetir do erro, o avançar com prontos, mesmo que minutos antes tenha sido dito "não é prontos, mas pronto" e a pessoa encolhe os ombros, arreganha a beiça e volta a dizer mal porque, prontos, acha piada. 

uma vez corrigi alguém que dizia "ouros" em vez de euros.

disse-lhe sem qualquer maldade e até com delicadeza porque achava mesmo, acreditem, que a pessoa não sabia. pois que me olhou, com todo o desplante e disse que sim, que estava mal, mas que preferia dizer ouros porque euros não não tinha jeito nenhum.

ora foda-se! não tem jeito nenhum é ser-se atrasado por livre opção. 

 

é essa pequenez que me incomoda:

o saber que se diz mal, que aquela forma está errada mas repetir-se porque se acostumou, porque é confortável, porque lhes dá uma espécie de orgulho em ser diferente (que originalidade, hem?) porque há vontade expressa de mostrar ignorância em vez de conhecimento, porque há um orgulho em ser-se pequenito.

 

tenho uma péssima dicção, uma pronúncia que não esconde de onde venho e troco as vírgulas quando escrevo.

às vezes também conjugo mal verbos e escapa-me um ou outro palavrão quando estou muito chateada.

mas com mil demónios, seja cão se não corrijo - ou tento corrigir - sempre que me chamam a atenção.

 

e ai de quem se lembre de falar com o miúdo como se ele fosse atrasado.

não há chicha, popós, mé més, ão ãos ou bua. 

deus do vocabulário me ajude.

 

apre.

casa

por M.J., em 27.01.20

almoçamos em casa dos papás no domingo.

o miúdo vai percebendo, a cada dia, truques e manhas.

agora, sempre que algum de nós o contraria, seja por que motivo for, ergue o beiço e olha para o outro, na procura de socorro ou consolo.

perante tal ato dramático temos de virar a cara para não rir em frente  dele.

é claro que ontem usou essa técnica com a mamã:

quando o contrariei por algo que já nem lembro, armou o beiço e vai de gritar em prantos, um ar sofrido e magoado, os dentes todos à mostra, o olhar fixo nos avós até irem os dois, a correr muito, salvá-lo das minhas garras.

sim senhores, lindo serviço.

 

na serra, a esta altura há um silêncio que não se explica a quem nunca o ouviu.

deixei o miúdo ser apaparicado pela mamã e fui dar uma volta, dando conta do som do vento nas árvores, os latidos dos cães, ou o caraquejar de alguma galinha.

o gelo foi queimando ervas e plantas e dotando tudo de um acastanhado dourado.

a relva tem agora laivos avermelhados, as plantas no quintal estão secas e despidas e as árvores erguem-se sem folhas.

o limoeiro sucumbiu ao peso dos limões e da laranjeira caem laranjas numa abundância comum, ficando mortas no chão, um cheiro a azedo a pairar no ar. 

 

às vezes sinto falta da pacatez da serra, das horas que não correm ou do espaço aberto, amplo, para se respirar. 

desde que me mudei de coimbra que a sensação se atenuou.

viver numa casa, com espaço dentro e fora, poder respirar fora das quatro paredes sem ser na rua pública, sentar-me nas cadeiras do pátio, levar o miúdo a sentir a erva do jardim (ainda não é relva, talvez este ano) atenuou a saudade que sinto desde que saí da aldeia e que nunca confesso. 

mas ainda assim, há algo em mim que me puxa a casa saindo de casa. 

e o deslumbramento da beleza que não vi durante vinte anos ataca-me sempre, nestes almoços ou visitas domingueiras.

a nostalgia das lembranças de uma infância que julguei ter sido dolorosa queima-me no peito e quase esqueço do gelo nas mãos e nos pés à ida para o autocarro que nos levava à escola, do frio que corta mesmo dentro de casa, do isolamento que nos colocava a milhas de distância daquilo que eu julgava serem as oportunidades da felicidade.

 

 
 
 
 
 
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Há poucas coisas que me recordem mais quem sou, de onde venho e o que trago comigo do que voltar a casa. Não à casa onde vivo e que é minha, mas à dos papás onde vivi infância e juventude. A serra está vestida de beleza. É muito dificil explicar o som da água no rio, o cheiro das folhas secas, o dourado que o gelo dá ao tom de verde que já começa a despontar. A beleza da serra é crua e nem sempre visível, sobretudo a quem lá nasceu e desde sempre vive e viveu. É fácil que deixe de ser visível, escondida pelo frio cortante que a maior parte das casas não pode combater; ou pelo sol árido a queimar o corpo em dias infinitos de verão. É fácil que deixemos de ver beleza no isolamento, nos dias sempre iguais, na vida difícil e dura que nos coloca a muitos quilómetros de distância das oportunidades. E mesmo assim, reparem, há poucas coisas mais bonitas do que esta foto tirada há pouco quando voltava a casa vinda de casa. . . . . . #inverno #invernoeuropeu #inverno2020 #folhas #folhassecas #arvores #árvores #trees #winterdays #lar #entrefolhas #meular #paisagemlinda #instawinter #amofotografar #winterwear #folhaseca #casadecampo #treestagram #winterseason #folhascaindo #paisagem #paisagemnatural #folhasaovento #casa #wintermood #folhasdeoutono #blog #blogger #eagoraseila

Uma publicação compartilhada por Maria João (@emedjay) em

volto a casa vinda de casa.

há vinte anos de memórias e de construções de quem sou a lembrarem-me que tenho vinte anos para criar memórias e construir - também - quem trouxe a esta casa:

para que ele um dia voltando à sua casa indo desta casa, recorde a beleza da infância e os momentos em que corriam para ele quando erguia os lábios num beicinho contrariado. 

oh vai ver ali:

pronto, que fique bem assente que não temos cá em casa nenhum pequeno génio ou com ares de atleta.

aos 13 meses e pouco as únicas proezas da criança passam por um gatinhar perfeito, uma teimosia muito evidente, um guinchar muito afinado sempre que o contrariam, uma vontade de comer muito acentuada que não faz distinções entre sopas, pão, legumes ou carne/peixe, uma capacidade de se entreter sozinho sem chatear ninguém (quando não está doente) em períodos de tempo bastante aceitáveis e a proeza de dormir noites completinhas, desde as 20:00 às 8:00 desde praticamente os 3 meses.

claro que nenhuma destas capacidades se iguala aquela que melhor traduz os últimos meses: o apanhar de toda a bicheza na creche e trazê-la para casa.

isso sim, é a pedra de toque, refinada e que caracteriza a sua melhor qualidade.

 

de resto, constatei há uns dias, tem 13 meses e não caminha nem fala.

nadinha de nadinha. nadica.

assustei-me quando percebi isso.

o tempo é uma coisa estranha e nunca tinha pensado nos marcos de desenvolvimento dos miúdos.

é suposto, segundo li, que digam no mínimo seis palavras aos 12 meses e que caminhem. 

pois muito bem, ou o que li estava errado, ou a criança padece de qualquer coisa.

é claro que ninguém ligou às minhas constatações:

o rapaz mandou-me parar de ler coisas parvas na net, a mamã disse-me com um ar paciência mal contida que eu só tinha começado a caminhar aos 15 meses (e mal) e a educadora adiantou que nenhum miúdo na sala dele diz grande coisa. 

seja como for, não vai sair daqui o próximo ronaldo. 

e eu que tinha tanto perfil para ser a dona dolores!

 

como é que foi com os vossos?

já cantavam o hino aos 9 meses? 

 

 

 

 


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e agora dá aqui uma olhada