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quando me despedi - vai fazer agora uns anitos - passei por uma fase de cruzamento: é aquela coisa do ter várias estradas para seguir mas, por necessidade, ter de escolher uma. 

admiro aquela coisa de a vida permitir que algumas pessoas tenham todo o tempo, toda a possibilidade, todo o dinheiro, todo o apoio para poderem escolher o que querem fazer, e ser, baseado apenas naquilo que gostam e em quem são.

a maioria de nós, pobres mortais, ainda que com alguma liberdade de escolha e apoio, tem apenas uma bala e um alvo certo: escolhes aquele a pronto, prepara-te o resto da vida para ele.

 

como é sobejamente conhecido comigo não foi assim. dei o tiro, escolhi o curso, tirei-o como era devido, comecei a trabalhar como era devido e preparei-me mentalmente para o aperfeiçoar de uma profissão que seria a minha, o resto da vida, como era devido.

só que não.

a minha infelicidade, alguns anos depois era tão palpável que se podia espremer e inundar o mundo.

na verdade, inundou todo o meu mundo.

e não houve outra hipótese que não descartar. ou melhor, não descartando de todo enveredar por outro algo, outra rumo que pudesse complementar aquele.

 

tive sorte, é verdade, nos passos que dei até aqui. mas a sorte é um pequeno dedo mindinho nos 4 restantes de uma mão. pelo meio houve uma série de trabalho, uma dose enorme de teimosia e capacidade de adaptação.

nunca pensei, há uns anos, nas minhas incapacidades e fobias, que fosse capaz de alargar a mente, de a abrir ao prisma do lado.

de estudar sozinha o que nunca pensara, furar caminho, perseguir um determinado objetivo: mas fui.

creio que, na maioria das vezes, somos todos. 

 

é certo que bater com a cabeça na parede durante tanto tempo - tanto que fez galos e marcas e cicatrizes constantes - ajudou. foi fulcral no processo. permitiu-me ter uma tal dose de inconformismo que pude sempre dizer "para ali não".

para ali não. não mais.

e essa dose de inconformismo, de capacidade de arriscar mesmo a tremer de medo, essa possibilidade de me lançar em frente sabendo que tudo podia ir de vela, trouxe-me até aqui.

não é que aqui seja propriamente a melhor posição do mundo. mas este aqui permite-me ir lanchar à meia tarde fora de casa. permite-me acompanhar o miúdo (pelo menos até ao próximo mês, altura em que ele vai para a creche) nas suas rotinas, ali bem ao meu lado. permite-me não me sentir presa: presa a uma semana longa em que a liberdade seria dois dias. presa a lamentos de uma vida num trabalho que não realiza, não satisfaz, não acrescenta. 

 

a senhora que cá vem a casa fazer umas limpezas semanais tem a minha idade.

chamo-lhe senhora porque é o que é: absolutamente deslumbrante de tão linda, elegante e delicada. falamos sempre, enquanto partilhamos um cafezinho no terraço. fazer limpezas não é o trabalho da vida dela. mas, estranhamente, realiza-a. permite-lhe ter liberdade de tempo e movimento. ajustar o trabalho ao ritmo da vida dela. e é muitíssimo boa no que faz: despachada, expedita e perfeccionista.

e por isso ganha bem: tem imensas solicitações que vai gerindo como pode e quer. meio bairro tem-na a limpar a casa.

tirou o curso de educação de infância. esteve num colégio/creche, enfim, uns três anos. percebeu que preferia limpar casas do que aquilo. e assim fez. diz que é bem mais feliz. eu acredito. se tivesse que aturar 15 miúdos todos os dias acho que preferia ser cantoneira. ou limpar esgotos. 

foi a dose de inconformismo dela que a trouxe aqui. e o aqui dela é, para muita gente, uma valente porcaria: limpar casas, olha que coisa.

para ela é fantástico.

 

há uns dias disseram-me, quando me queixava que tinha de trabalhar até muito depois das duas da manhã, que era uma sortuda porque, ainda assim, no dia a seguir podia estar com o meu filho. que muita gente trabalha até essa hora e no dia a seguir, bem cedinho, vai trabalhar para outro lado.

acredito. 

o inconformismo não cabe em todo o lado. nem o dedo mindinho de sorte. quando há contas para pagar então, às vezes o inconformismo só serve para se fechar muito bem fechadinho numa gaveta da sala. ou da cozinha. 

mas muitas vezes, o medo do arriscar tolhe tantos os movimentos, castra tanto as pessoas que as leva a aguentarem anos e anos repletos de dias lúgubres e tristes, a fazer algo que não se gosta, não se quer, com quem não se gosta e não se quer. como se vida fosse reduzida ao sábado e ao domingo e um deles é até para limpar a casa toda. 

no meu caso o incoformismo deu-me 7 dias semanais a fazer o que gosto e quero.

sete.

s-e-t-e.

significa que os fins de semana não são fins de semana. que o horário de trabalho não é horário de trabalho. que as férias não são férias. significa que há um aperto todos os dias na necessidade de perceber de contas e contabilidade, finanças e tudo o que é necessário para manter isto de pé. significa que me tornei uma espécie de one woman show: que tenho de dominar um bocado de tudo, fazer um bocado de tudo e não esperar pelo fim do mês para receber o ordenado na conta e ir à minha vida. significa que quando saí da maternidade, no mesmo dia, vim trabalhar à noite. significa que o miúdo pode estar a chorar e eu não posso ir a correr ter com ele porque estou ao telefone com clientes. significa que a praia está ali ao lado mas não posso passar lá 15 dias de férias, a torrar e a fazer castelos de areia porque tenho 7 dias semanais a trabalhar. significa que precisei de começar do zero outra vez. de me torturar em dúvidas e medos. de avaliar todas as decisões e esperar pelo "eu bem te avisei". 

foi o raio do inconformismo que fez tudo isso. 

quão sortuda sou?

publicado às 10:17


5 comentários

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De imsilva a 05.08.2019 às 10:38

Ai, meu Deus! Tanta gente a precisar de ler este texto. Foi um bom desabafo, e um bom rssumo daquilo que a vida pode ou não ser.
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De meandmyboy a 05.08.2019 às 11:06

Temos sempre pros e contras MJ. Olha eu ando farta do meu trabalho. Quando forem as minhas férias em Outubro vou ter que fazer qualquer coisa para mudar. Depois dou novidades. 😙
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De Gaffe a 05.08.2019 às 14:12

Tenho saudades tuas.
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De M.J. a 05.08.2019 às 14:21

e eu tuas.
tantas.
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De Maria Araújo a 10.08.2019 às 13:50

És uma guerreira.

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e agora dá aqui uma olhada