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amor

por M.J., em 25.09.17

umas das maravilha do outono é o quantidade de coisas que saem do quintal da mamã.

desta vez, o carro vindo de lá até coimbra parecia um atrelado de feira.

sinto-me relativamente mal no transporte dessas coisas. é aquela ideia do chegar, carregar e vir embora, como se a mamã fosse minha empregada e precisasse de providenciar a minha alimentação. bem sei que as coisas não são assim e que ela sente verdadeira satisfação no dar, no sentir que contribui, na ideia de que o seu amor transborda em coisas físicas.

uma semana antes do almoço quinzenal ela telefona, em intervalos curtos, numa roda viva, com uma listinha de coisas na sua letra bem redonda:

e limões, queres? temos ali tantos a estragar-se.

e ovos? a tua avó tem tantos que metade deles foram para o lixo, tudo estragado. quatro galinhas a pôr todos os dias, bem vês.

e depois, à noite, ainda antes de ir para a cama, quando eu estou a pensar no que será o jantar:

e louro? pus a secar dois ramos de louro enormes. queres que separe umas folhas para levares? não andes a comprar. um euro por umas folhinhas, onde já se viu!

olha e batatas?se não as gastar tenho de as pôr para o lixo daqui a uns tempos. não queres dar ao senhorio? ou à empregada?

 

o rapaz encolhe os ombros nesta demanda de produtos da serra.

ontem perguntou, enquanto encanteirava uma abóbora gigante em cima de outra e dois cabos de cebolas, que podes dar um a alguém, mais dois meses e elas espigam, sabes que não dá para conservar muito tempo:

mas vocês querem alimentar meia cidade, ou quê?

pela mamã, sim, alimentava meia cidade, na ideia de que aqui se come mal, tudo se compra e paga a peso de ouro, desde raminhos de salsa cheios de químicos, a carne prestes a passar de validade e mais barata por isso. tem mesmo absoluto horror a que compre carne no supermercado.

que nojo, exagera muito no nojo, para parecer de fato enjoada, coelho? aquilo ainda é gato! e aqueles porcos cheios de doenças? não compres nada disso.

a culpa também é minha. uma vez caí no erro de lhe contar que tinha comprado um frango estragado e que só percebera em casa, dado o cheiro nauseabundo que tinha. foi uma única vez mas nunca mais tirou aquilo da cabeça. 

queres levar frango? pergunta num dos telefonemas, a lista ao lado.

não mãe, tenho aqui ainda muito.

pois claro, responde, andas a comprar essa porcaria, como o outro que cheirava mal.

foi só uma vez mãe. 

e não chegou?

não vale a pena. é tempo perdido.

 

e tomates? não queres tomates para fazer polpa?

M.J. traz cinco quilos de tomates, que ela congelou (e só não fez a polpa porque sabe que eu gosto de o fazer).

quanto mais enchemos o carro mais fica feliz.

uma animação imensa, na sensação completa de sentido. 

há mesmo legumes que só começou a cultivar quando percebeu que eu gostava: batata doce, xuxus, brócolos, couve flor, abacate. comprou até duas pequenas plantas de mirtilos e maracujás. e uma romãzeira quando o rapaz disse, a um almoço, que gostava de romãs.

há um prazer imenso no dar.

 

e castanhas? perguntou, num outro dia, na semana que passou. tenho aqui muitas.

e abóboras? abóbora menina... ando a dá-las ao porco, não tenho sítio para isto tudo. 

feijão verde? tenho aqui que nunca mais acaba.

e alfaces?

sim mãe, um bocadinho de cada coisa. um bocadinho sim? um bocadinho é meio quilo, não meia aldeia.

 

não vale de nada.

o bocadinho transforma-se em quilos de tudo, que depois me vejo e desvejo para acondicionar.

partilho com a vizinha de baixo, o senhorio e a empregada. o bocadinho transforma-se em abóboras gigantes e batatas doces cujo tamanho nunca tinha visto.

 

e chocolates? ele quer chocolate? pergunta quando estamos já a vir embora, na despedida, a lágrima no canto do olho, como se fossemos para a guerra ou para a china ou de armas e bagagens para dois anos e não duas semanas. 

o quê? pergunto eu a tentar aligeirar o ambiente, também cultivas milka no quintal?

e o rapaz, já com o chocolate na mão e a aletria no buxo, que ela faz de propósito para ele, na sabedoria que é o seu doce favorito:

está calada, não a desafies! qualquer dia chegas a casa e tens uma fábrica de produção de milka de caramelo e avelãs. e olha que esses não partilhas com meia cidade que eu não deixo.

publicado às 14:42


20 comentários

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De A rapariga do autocarro a 25.09.2017 às 21:03

Choremos juntas!!!!

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e agora dá aqui uma olhada