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amor de mamã

por M.J., em 29.04.19

desde que o miúdo nasceu que a mamã rejuvenesceu. e fez coisas que sempre se recusou a fazer por medo ou desconhecimento.

a primeira foi conduzir sozinha distâncias grandes.

a mamã tirou a carta já numa fase tardia. usava o carro por necessidade apenas na aldeia. e pouco mais. qualquer saída longe disso não ia. era eu que a levava. recusava-se terminantemente. que não. que não nascera para isso. que não. que não.

quando o miúdo nasceu queria vê-lo todos os dias. de onde mora até cá são mais de cinquenta quilómetros. era inviável eu ir buscá-la ou o rapaz. era inverno, tínhamos um recém nascido e não podíamos fazer 4 vezes 50 quilómtros todos os dias.

um dia de manhã a mamã ligou-me. eu estava a amamentar e atendi ainda meio ensonada. ela pediu-me para ir abrir a porta. não percebi nada. "qual porta?" "a da rua", disse ela, que estava lá. e eu logo: "quem chateaste para te trazer?" e ela, num orgulho que só visto: "o carro".

pois é. a mamã veio sozinha, pela auto-estrada porque precisava mesmo de ver o neto.

a mamã que nem nunca metera a quinta mudança a não ser nas aulas e no exame de condução. 

o amor é mais forte, disse, e foi.

 

a segunda:

há coisas que numa casmurrice se recusa a aprender. a maior é tudo o que seja novas tecnologias. é uma espécie de birra para não sair da zona de conforto.

são incontáveis as vezes que lhe quis oferecer um telemóvel que servisse para mais do que fazer chamadas.

nunca queria. e sei bem porquê: tinha medo de não conseguir lidar com aquilo e ser uma desilusão.

fartei-me de lhe explicar que se não se desse bem com ele voltava para o outro e eu ficava com o novo.

nunca quis. não, não e não.

quando o miúdo nasceu queria fotografias dele. o primeiro álbum que mandei fazer foi para ela. com fotografias quase todas iguais em que ele aparece com aquela expressão de ananás que guincha (os recém-nascidos não têm outra), sempre de olhos fechados.

foi o delírio com o álbum. mas evidentemente que a criança cresce e as fotografias são diferentes. por isso, todas as semanas levava que eu imprimia na impressora cá de casa. numa folha de papel normal. até que os tinteiros acabaram e eu não quis comprar outros. se ela quisesse mandava fazer outro álbum disse-lhe. o que não fazia sentido eram aquelas fotografias todas ranhosas em papel ranhoso. 

ficou triste.

na semana passada perguntou se o meu telemóvel velho, anterior a este, ainda funcionava. que queria aprender a lidar com ele.

perguntei-lhe porquê: pois que queria ver fotografias do neto, várias, muitas, sempre que quisesse. e mais! queria vê-lo quando lhe telefonasse. 

muito bem, disse eu, ainda desconfiada mas contente. muito bem. e ontem comprei-lhe o telemóvel.

o rapaz, numa paciência infinda ensinou-a a atender e fazer chamadas de voz e também por skype. foi uma novidade. carregava muito no ecrã e os ícones apagavam-se. mas depois percebeu a mecânica da coisa. também lhe passamos sei lá quantos megas de fotos do miúdo para o telemóvel. e foi logo as trombas dele a rir, sem os dentes todos, que eloa quis que ficasse como capa.

enfim, hoje de manhã ligamos-lhe pelo skype quando ela estava no trabalho. pôs o telemóvel no ouvido. dissemos-lhe para o pôr à frente dos olhos. do lado de cá estava dom rapazito a rir. foi uma histeria. um minuto depois estavam seis ou sete mulheres em frente ao telemóvel a olhar para o miúdo. o rapaz ria perante a histeria do mulherio do outro lado. o miúdo não percebia nada mas ria-se para o telemóvel quando eu fazia bhu.

depois de almoço voltou a ligar. aprendeu a lidar com a coisa. e nem tem teclas

o amor não precisa de teclas, eu sei. 

 
 
 
 
 
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A mamã veio visitar o neto. #flowers #flores🌸 #orquideas #love

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sobretudo, nem quero imaginar quando daqui a um mês eu o rapaz formos no primeiro fim de semana sozinhos e ela ficar aqui em casa, com o miúdo, dois dias inteiros, ambos os dois, em amena cavaqueira.

falta mais de um mês. marquei depois de me assegurar que ela podia ficar com ele. isto há um mês e pouco atrás.

desde essa altura que ela fala disso. 

espero chegar a casa e ainda ter o puto.

não vá ela comê-lo de beijos. 

 

o amor está todo nela. 

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publicado às 14:28


12 comentários

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De Magda L Pais a 29.04.2019 às 14:44

No dia em que a Maggie nasceu a minha mãe perguntou-me quando começava a trabalhar para ela ir ficar lá em casa...
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De Ana a 29.04.2019 às 15:03

E o amor de avó é completamente diferente de tudo...
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De Maribel Maia a 29.04.2019 às 15:17

Porque para melhor, muda-se sempre!!!
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De Fatia Mor a 29.04.2019 às 16:55

O amor move montanhas!
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De Luísa de Sousa a 29.04.2019 às 20:51

Vai comê-lo de beijos, de mimos e vais estragá-lo. Avó é assim mesmo! Beijinhos e fartei-me de rir com a forma como escreveste o post!
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De Quarentona a 30.04.2019 às 10:20

Este é, para mim, um dos melhores relatos que li aqui, tão bom que até me emocionei :))))
O poder de uma criança nova na família é indescritível, no entanto, tu descreveste-o magistralmente :))))
Fico tão feliz por ti, por vocês ;))))
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De Ana Filipa Silva a 30.04.2019 às 18:56

Oh MJ! Deixas-me de lágrima no olho!
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De Helena Lourenço a 01.05.2019 às 19:42

Que delícia de post.
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De Maria Araújo a 02.05.2019 às 19:32

O amor de mãe/avó é mágico.
Fiquei emocionada.
Há uns tempos, a propósito de um bebé, também, alguém dizia que os pais(avós) iriam tratar o neto como um coitadinho.
O meu comentário foi que o amor dos avós supera tudo e que eles surpreendem quando os filhos menos esperam.
Já vi tanto, M J.
E a tua mãe surpreendeu.
Parabéns.

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De Cristina M. a 02.05.2019 às 22:07

é quando vemos que o Amor não se divide; multiplica-se.
:-D

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