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à(s) rita(s) da minha vida

por M.J., em 15.08.16

durante anos tive para a vida um plano b. posso garantir que era um plano b muito fraquito, não pela ideia em si mas pela forma como o engendrei. e ainda assim, juro, levou-me a conseguir boiar nas ondas de porcaria que consistiam a minha vida. 

 

a rita conheceu-me - se conhecer for a palavra adequada para alguém que me lia - num blog antigo onde, na ingenuidade dos vinte e poucos anos, despejava a vida toda, sem filtros, na ideia de que o anonimato da personagem bastava para me proteger e ninguém quereria saber dos devaneios loucos de uma jovem adulta a passar por um pequenino pesadelo. 

a rita, tal como outras ritas, gostou do que leu. não questiono mais os motivos. cada qual gosta do que gosta e a rita começou a comentar, a seguir-me e creio, se não me falta a memória à data repleta de medicação e químicos, que trocamos e-mails.

no ponto mais baixo do que eu era, quando cai aos trambolhões, de rabo, degrau por degrau ali pela vida abaixo e fiquei sem saber quem era ou o que fazer, num cliché de novela mexicana em que a personagem principal colapsa na própria loucura, a rita atravessou o planeta e mudou-se para a austrália.

não lembro disso. mal me lembro de um único dia desses tempos tão negros. foi uma espécie de prova cega, em que toda a gente que constituía o meu porto seguro se mudou, alterou planos e vidas, como numa conspiração kármica para me dar a conhecer o sabor do meu maior medo: ficar sozinha.

 

depois, na inevitabilidade de começar a subir novamente, eu e a rita voltamos a falar. estava longe de estar curada. na verdade, analisando a coisa bem a fundo, creio que a palavra curada não se aplica na minha vida. há personalidades, feitios, maneiras de ser e ver as coisas que aliados a uma arrogância, vitimização, inteligência e egocentrismo nunca se curam de si próprias porque a toxicidade que lhe forma o adn é parte integrante.

dizia eu que não estava curada.

às vezes, naquele ano, ficava prostrada num desespero e mutismo cego que me consumia por dias de uma inutilidade incrível. sentia-me colocada contra a parede, obrigada a subir quando queria descer. sentia que havia perdido todo o controlo que demorara anos a conseguir. era novamente uma marioneta dos meus traumas. havia momentos em que sentia uma raiva louca de quem me trouxera até ali, quase um pedaço de pessoa novamente e sabia que precisava de fugir.

na verdade, não era realmente de fugir que eu precisava mas da ideia de poder fugir. da ideia de que se me apetecesse boicotar a vida como a conhecia, e recomeçar muito longe, ausente de tudo e todos, haveria essa possibilidade. era o meu plano b: a fuga, a pequenita luz, o minúsculo balde de água para um mar de lume, a diferença entre o absoluto caos e a ordem assente num pilar frugal de alternativa.

a opção.

e a minha opção, caso não aguentasse mais, era a rita, do outro lado do mundo. 

 

o ridículo é que nunca lho disse. durante anos, falávamos do que sentia e dos pequenos passos dados. trocávamos vivências e coisas diárias mas nunca lhe disse que ela era a minha fuga. que ela era o outro lado do plano. oh, um egoísmo tremendo, bem sei, mas as coisas às vezes são apenas como são.

 

vi há pouco tempo, numa série muito ridícula, a protagonista falar de como aguentava a vida: dez segundos de cada vez. nos primeiros quatro ou cinco tudo era doloroso, quase impossível. mas nos sete, oito e nove havia a esperança de chegar aos dez e quando os alcançava percebia que aguentava mais dez.

a rita era os meus dez segundos de vida.

 

escrever nunca me trouxe qualquer recompensa monetária. nunca ganhei um cêntimo com uma frase junta em palavras. nunca ganhei um almoço, um detergente, uma lata de feijões ou um prémio qualquer material por um texto, frase ou livro. mas trouxe-me mais do que a maioria às vezes consegue sendo só elas: trouxe-me, apenas por mim, pessoas.

transformo-me num papagaio com esta ideia mas a inevitabilidade desse facto, a presença diária de gente que nunca chegaria até mim se não me desnudasse numa personagem, mais parte de mim do que eu própria muitas vezes, chega a levantar dúvidas da realidade. sinto, tem dias, que falo comigo própria, numa esquizofrenia de louca, porque as pessoas com quem troco mensagens constantes, com quem marco encontros e que me acompanham, não podem ser reais e estar comigo por aquilo que debito que é quem sou.

ninguém poderia em consciência, querer ficar do lado de alguém absurdamente instável, contraditória, egocêntrica e doentia como eu.

e ainda assim, essa é uma verdade absoluta: a rita existe e foi, e é, os meus dez segundos de vida.

 

não sou actualmente metade da louca que fui em tempos. aprendi, com horas de terapia, a ser um pedaço aparentemente normal de gente. mas como qualquer um tem dias em que colapso. a semana passada foi o colapso deste ano. e a rita, voltou à cena, vestida dela própria. já não está na austrália mas em londres e permanece tão perto mas tão longe, de braços abertos - sabe-o agora quando lho contei, plenamente convencida que curada não precisava de mais plano b nenhum - pronta a ser a minha ideia de opção. pronta a receber-me na fuga, de mochila preta às costas, feita há anos na necessidade das opções.

 

não tenho grande coisa. não sou grande coisa. perco-me em labirintos dentro do que sou. às vezes, quando dou conta, estou totalmente assoberbada dentro do caos que existe no meu cérebro e a ideia de que só o nada me pode salvar é tão avassaladora e certa como álcool para um alcoólico ou heroína para um toxicodependente. 

e ainda assim há ritas na minha vida. pelo que sou nas palavras que escrevo. 

 

há a fuga, a opção de, o fraquinho plano b que me permite permanecer no plano a.

existes tu. e sem ti, minha rita, teria menos dez segundos: a diferença total entre viver e sobreviver.

obrigado.

 

publicado às 11:40


1 comentário

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De RC a 16.08.2016 às 13:43

Como ja te disse, nao sei como comentar isto. Apenas te posso dizer Obrigada, Obrigada por confiares em mim, por veres em mim alguem que de alguma forma de da os 10 segundos de que precisas quando precisas. Mi casa es tu casa, seja isso onde for no mundo e estando as nossas sanidades mentais como tiverem (sim, que eu tenho muito mais de louca que de medico em mim).
Quem sabe um dia destes e' a minha vez de ser corajosa e te contar do que fujo eu.

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