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aulas de preparação para o parto

por M.J., em 21.09.18

não me apetece nada fazer aulas de preparação para o parto.

tem sido motivo de discórdia entre mim, o rapaz e a mamã que insistem no quão seria bom frequentar algumas.

no entanto, a minha vontade é nula.

sinto quase repulsa na ideia de me sentar numa sala, com não sei mais quantas grávidas, muito lustrosas e felizes, a falar de nomes e roupas e ouvir alguém dizer-me que devo abraçar a dor, que se não controlar o esfíncter no dia do parto não tem mal nenhum e que é tudo muito bonito e agradável.

não é nada.

a sério.

de bonito não tem absolutamente nada e a prova disso é que depois de uns três meses de lua de mel com a situação, estou novamente a sentir as mudanças súbitas de humor, a incapacidade de lidar com a situação e a antever cenários atrozes de sangrias, pernas abertas, cortes em sítios onde não é suposto haver cortes, cocós, algálias e profissionais de saúde a contar à noite, em casa, da cena triste da pobre mãe que se cagou todinha a dar à luz.

bem sei. uma grávida não devia dizer "cagou". muito menos escrever. toda ela deve ser serenidade, calmaria, voz suave, mão na barriga, paz, amor e sintonia, vestidos vaporosos e bebés rechonchudos que nunca choram e são a melhor coisinha que o universo fez. 

 

a questão é que me recuso a ir a tais aulas.

provavelmente quanto menos souber do assunto melhor, no sentido em que é mais fácil dominar o cérebro nos cenários que me cria todas as noites antes de dormir. 

estou zangada.

zangada com o fato de não ter aceite - quando me foi proposto - recorrer ao privado e fazer uma cesariana com marcação prévia, acabando-se dessa forma a gritaria, as injeções nas costas (deve lá haver coisa mais agradável do que enfiarem uma agulha no meio da coluna), o não saber quando é que preciso de me transformar num pito de churrasco.

chateada com as dores nas costas que começam a aumentar, as mudanças súbitas de humor e as insónias.

zangada com a situação em que deliberadamente me coloquei apesar de já ter previsto tudo isto.

e se já é mau estar zangada sozinha, sem ter de ouvir ninguém em sorrisinhos constantes a falar de cueiros, cólicas, choros e dentes, não consigo imaginar quão mau será estar acompanhada por 15 ou 16 grávidas que nunca vi, numa sala, a ouvir sobre o que aí vem e que é tão magnífico.

 

há uns tempos, numa insónia deplorável, dei comigo a ler histórias tristes:

mulheres que dormiram uma hora noite durante meses, putos complicados que não paravam de chorar, casamentos que acabaram depois do nascimento dos filhos.

mulheres que tiveram um pontinho a mais na vagina, dado por um médico maroto, para satisfação dos maridos.

mulheres muito orgulhosas de ter ultrapassado mamilos estraçalhados, gretados e cheios de sangue mas a servirem para a sua - pelos vistos única - função natural.

mulheres que morreram no meio de uma marquesa, de perninha aberta e que a última coisa que viram do mundo foi um quarto de hospital depois de nove meses de dores de costas e enjoos. 

mulheres que nunca amaram os filhos e os transformaram em adultos infelizes.

mulheres que deram cabo da vida com a decisão de aumentar a natalidade do planeta, já por si cheiinho de gente a transbordar.

 

não devia ter lido nada disto, bem sei.

sou perfeitamente capaz de idealizar todos os cenários sem precisar de exemplos. se tiver esta ajudinha então o meu cérebro dá pulinhos de alegria e é um ver se te avias de situação bonitas.

sabem aquelas pessoas que não podem ouvir ninguém queixar-se de uma qualquer doença, que espetam nas trombas do interlocutor as suas próprias maleitas, muito piores? do género:

- eh pá, ando aqui com uma dor de estômago...

- ai nem me fale que eu há mais de quinze dias que não faço outra coisa que não seja beber água. não aguento mais nada. na-di-nha. se como qualquer coisinha são vómitos de jacto.

ou:

- olhe, caí e desloquei um pé...

- pois saiba o vizinho que tem muita sorte. eu estava sentada no sofá e ao levantar-me, mesmo sem cair, parti uma perna, o cóxis e a bacia. 

o meu cérebro é isso. é o típico:

- o quê? pode doer um bocadinho? a ti vai ser traumático.

- o quê? há quem não controle o esfíncter? tu vais ter a maior diarreia da história da maternidade.

- o quê? há mães que não gostam dos filhos? tu, provavelmente, vais ser a fundadora da religião que vai apregoar tal. 

e afins.

 

portanto, não, não vou frequentar aulas de preparação para o parto.

mesmo que a mamã e o rapaz insistam cada vez mais e eu tenha, como única resposta, grandes revirares de olhos (qualquer dias arrisco-me a deslocar os dois de lugar) e um encolher de ombros.

estou estropiada das costas, estive três meses de cama, vomitei como uma fonte, estou a pontos de ver os meus mamilos transformarem-se em bocais de garrafas pelo que me julgo no direito de decidir sobre não passar tempo a ouvir sobre o mundo maravilhoso da gravidez, de como a dor faz parte, e outras coisas agradáveis por parte de gente que não conheço, nunca vi e não me apetece conhecer.

santa paciência, mas não.

se não morrer no parto logo aprendo.

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oh vai ver ali:

publicado às 16:43


14 comentários

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De Anónimo a 21.09.2018 às 16:58

Aiiiiiii essa cabeçinha.............. Inspira...expira......
Se as aulas são imprescindíveis?Não.Não são.

Mas você mora em Lisboa.....há TANTO por onde escolher....Procure um sítio que lhe proporcione "prazer".....yoga para grávidas.... massagens para grávidas......cuide de si.....
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De Happy a 21.09.2018 às 17:11

Não te preocupes por aí além. Há muita, muita gente que já pariu sem que tenha tido aulas de preparação!!
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De azulmar a 21.09.2018 às 17:36

Tive 3 filhos de parto natural e não fiz qualquer curso. Até pode ser que ajude, mas se na altura seguires os conselhos das enfermeiras, correrá bem.
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De marta-omeucanto a 21.09.2018 às 18:15

Nunca fui a aulas nenhumas de preparação para o parto.
Não me iriam, provavelmente, servir para nada na hora em que a criança estivesse a nascer.
É tudo muito bonito na teoria. Na prática, as coisas funcionam de forma diferente.
Faz aquilo que achares melhor para ti, afinal, és tu que vais ter a criança.
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De Fatia Mor a 21.09.2018 às 18:59

De todo o conteúdo dos cursos de PpP acho que há dois que podem ajudar uma mulher: 1) o treino para o período expulsivo (quando bem ensinado) e 2) as alterações psicológicas, especialmente as do pós-parto, como forma de prevenção da depressão. De resto, apesar de achar que estás a romancear demasiado a coisa (não conheço grávidas lustrosas e nunca as vi assim tão exultantes com a gravidez), acho que há coisas que não são, de todo essenciais. Mas informa-te, porque há a possibilidade de, em determinados cursos, fazer sessões privadas, escolher os conteúdos que queres abordar, etc. Claro que tudo tem um preço, mas não perdias nada em informar-te melhor. Ah! E também há a parte de envergonhar os pais nos módulos de puericultura, em que eles trocam fraldas e dão banhos a bonecos "bebés" anatomicamente correctos. Vale a pena ver isso... Dei muitas e boas gargalhadas!

P.S. Só fiz o curso uma vez e chegou.
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De Quarentona a 21.09.2018 às 22:33

Eu também não fiz curso nenhum e depois, na hora do parto, revelou-se mesmo uma inutilidade... puseram-me a dormir :D
Agora a sério, segue o conselho da Fatia-Mor, parece-me ser o mais sensato, em todo o caso, a decisão cabe-te só a ti. Em todo o caso, com curso ou sem curso, tu melhor que ninguém saberás o que é melhor para ti e para o rapaz mais pequenito, segue o teu instinto, não costuma falhar ;))))
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De Ana a 22.09.2018 às 11:25

Tudo normal, todas as grávidas passam por períodos de dúvidas e medos. E nem sempre as coisas são bonitas como se pinta, é verdade, mas na maioria das vezes até acaba por correr tudo bem. Nem todos os cursos de preparação para o parto são assim lamechas como descreves, e podem ser muito úteis quando são cursos de preparação para a parentalidade e ensinam também como cuidar de um bebé. Outro tema abordado nos cursos que é muito importante: como muda o nosso estado de espírito após o parto, como lidar com o choque hormonal inicial, como é que o pai pode ajudar a mãe a ultrapassar esse turbilhão de hormonas e sentimentos complexos, e acima de tudo fazer-te perceber que não és especial, não és a única pessoa no mundo que passa por isso, que é o mais normal que há.

Se queres ir para o privado ainda vais bem a tempo. Aliás, muito a tempo, até porque nenhum privado aceita partos até ao final das 34 semanas de gravidez ou em casos em que se espera um parto ou um bebé com algum tipo de risco. Portanto essa opção só pode ser tomada mais perto do fim. Só uma nota: cesariana também tem epidural e o correspondente furo nas costas, e se fizeres uma cesariana vais dar graças a Deus por ele quando as dores começarem a apertar, nos dias que se seguem. E como estarás anestesiada da cintura para baixo, também poderás perder o controlo do esfíncter. Para além de que a recuperação é mais demorada e dolorosa e implica ainda alguns cuidados adicionais bem dolorosos durante as semanas que se seguem, ou seja, não é o mar de rosas que possa parecer.
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De Corvo a 23.09.2018 às 11:16

Está bem que não é a situação mais agradável na vida de uma mulher, mas também está muito longe de ser um cenário assim tão dantesco como pinta....ou teme.
Uma dorzita aqui, outra ali, um esforçozito mais decidido et voilá!
Aí está ele a pular cá para fora como um peixe escorregadio a saltar do balde para o cais.
:)
Felicidades.
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De Eu a 23.09.2018 às 14:56

Olá...
Eu estou a pensar em fazer... Para me obrigar a sair de casa e a ter uma rotina mais social. Estou de baixa e naturalmente, fechei me no meu casulo e só saiu por obrigação ou com a minha pisca (filha mais velha)
Aprende se alguma coisa, nada de fantástico mas sim até pode ser bom, mas no meu caso se for é mesmo para sair de casa
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De Anónimo a 24.09.2018 às 13:10

Que drama mulher!
Vais ter um filho não vais para guerra sem saberes quando, como ou se voltas!
Se achas que não te vão ensinar nada de novo, que já sabes tudo sobre bebés, pós parto, banhos, cuidados, alimentação... não vás.
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De M.J. a 24.09.2018 às 13:14

que simpatia mulher.
se acha que não tem nada de melhor a dizer... não diga.
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De Anónimo a 24.09.2018 às 14:21

Ok!
(Mas olha que das poucas aulas de preparação a que fui, uma ou outra foi útil - e olha que já tive o puto engasgado e foi bom saber com agir sem stress e sem ter de ligar para o inem).
Vai tudo correr bem. E acredita que quanto mais aceitares as coisas com naturalidade melhor ainda.

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