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banalidades

por M.J., em 13.09.18

uma vez, há muitos anos, alguém próximo disse-me - sem qualquer hesitação na voz, um ar de sabedoria - que as mulheres serviam para pouco mais do que apanhar porrada.

foi atirado com desprezo, como se fosse mesmo a sério e como se eu, enquanto pessoa ali a ouvir, não fosse mulher também mas uma coisa com pernas e braços.

só isso.

não é que as palavras me tenham magoado mais do que outras. aprendemos com a vida a ser resilientes - se não aprendermos somos sugados pelas circunstâncias - e percebi, mais cedo do que era suposto, que temos de filtrar certas coisas se queremos sobreviver.

portanto, não só não acreditei naquilo como, lembro-me perfeitamente bem, senti um certo sorriso interno a nascer por saber que provaria, mais dia menos dia, que as palavras eram tão falsas como flores artificiais em cima de sepulturas em cemitério.

 

não me interpretem mal.

as palavras não foram tidas em consideração. mas a maneira como foram ditas - e por quem foram ditas - aterraram em mim como um pedaço de papel queimado, a tentar desfazer-me em cinzas.

 

às vezes, em conversas com o rapaz, a luz do quarto apagada e o sono que teima em não vir, por entre os planos da viagem que fazemos juntos, as decisões da partilha da vida, soltamos pequenas inconfidências, episódios da vida que foi nossa e já não é.

não há nada em mim que ele não conheça. sabe da história e estórias que me constituem.

conhece os dias de arco íris e aqueles muito negros que, por uma questão de sobrevivência, não apago.

são menos do que os dele porque, felizmente, foi desde demasiado cedo abençoado com uma inteligência e racionalidade acima do comum. uma racionalidade que transportou para cada pedaço da vida e o faz ser grande, gigante, em tantos aspetos.

é o meu pequeno génio e tenho mais orgulho em cada pedaço dele do que nos meus maiores feitos.

 

soltamos inconfidências, coisas que já dissemos outrora, mas que nos afloram à mente. 

e quando ele conta qualquer coisa menos doce, quando as memórias são mais azedas de episódios - que todos temos - de outrora, é como se o meu peito se partisse e eu ficasse repleta em lágrimas. há uma dor muito aguda, mergulhada num pântano de angústia que o quer resgatar de coisas idas, trazê-lo ao meu colo, embalá-lo com muita força, acariciar-lhe o cabelo e prometer-lhe o mundo.

não que ele precise.

mas o meu peito anseia por descontinuar-lhe aquela dor, pequenita, que ficou de um ou outro acontecimento - como fica em todos nós, mais ou menos - e soprar-lhe coisas doces aos ouvidos, entregar-lhe mimos de amor, correr atrás de tudo o que não foi e devia ter sido, consertando todos os aspetos que fizeram, transformaram, construiram aquela memória.

 

creio ser isto uma outra dimensão do amor.

aquela que tortura um bocadinho, como pregos afiados espetados na carne, por não sermos capazes de apagar aquele acontecimento que ainda permanece no outro. 

não sei se o sente, desta forma, por mim.

espero que não.

as minhas trevas, ainda que resolvidas, são mais profundas, mais escuras, mais pesadas, mais para sempre. 

mas sei que, desde o primeiro dia em que decidimos que a vida seria percorrida pelos dois, lado a lado, que fez tudo, a cada segundo, a cada hora, para me mostrar - minto, para me provar - que por mais negro que tenha sido o passado, eu, enquanto eu, sou a pessoa mais importante que povoa a sua vida.

e que todos os episódios que me moldaram a mente em dor, incluindo aqueles em que fui rebaixada a uma coisa com pernas e braços, destinada a apanhar para o resto da vida, são laivos de algo que foi e nunca mais será.

 

não sei se amarei o meu filho como o amo a ele.

não é comparável, dizem-me. não é dimensionável, juram-me, e eu acredito.

mas se a vontade de proteger o filho do que ainda não aconteceu, for igual à de proteger o pai do que já passou, não sei se terei peito que aguente e se não explodirei, uma noite, na impotência de saber que o mundo é maior do que a minha capacidade de segurança.

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oh vai ver ali:

publicado às 10:54


4 comentários

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De desalinhada a 13.09.2018 às 12:01


(não consigo escrever mais nada, estou lavada em lágrimas)

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