Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




banalidades

por M.J., em 02.10.18

mudamos até ao final do mês.

há centenas de pequenas e grandes coisas a tratar.

fui uma chata dos demónios com o processo de compra.

não fazia sentido ser de outra forma depois de ter visto tanto contrato correr mal. mandei dezenas de e-mails, cumpri as formalidades ao milímetro - mesmo que, conscientemente, soubesse da boa fé de toda a gente e que eu estava a ser picuinhas - e assegurei-me que tudo ficava por escrito.

e apesar de ainda não estar totalmente formalizado - falta pouquíssimo - correu tudo bem.

 

uma das coisas que mais me custou foi avisar o nosso senhorio da mudança. 

desde que vivemos nesta casa, há 3 anos, que não houve um único pedido que ele não satisfizesse.

foi de um altruísmo e generosidade sem par e juro que o peso de lhe dizer que íamos sair me martelou em cima dos ombros durante semanas. 

ainda pensei deixar a tarefa, muito cobardemente, para o rapaz.

mas depois percebi que não fazia sentido.

foi comigo que ele estabeleceu amizade, comigo que ambos - marido e mulher, já reformados - iam tomar café e falar de coisitas da vida.

fui eu que o chateei sempre que havia necessidade de algo e, por isso, não podia pôr a viola no saco e fingir que tinha nada a ver com o assunto.

marcou-se um café, portanto, e lá fui eu, de cara fechada, como se tivesse cometido um crime, sem carta de aviso de não renovação para não ofender ninguém, e certeza da tristeza que ia causar. 

apesar disso, não correu mal o aviso.

creio mesmo que ficaram genuinamente satisfeitos pelas mudanças da nossa vida, ainda que tenha percebido a tristeza que dominou o resto do café.

se pudesse arrendava esta casa só para não desiludir ninguém.

isso e para ter um sítio onde fugir sempre que o altino for um chato de um raio e não deixar ninguém dormir. 

 

as correrias com a mudança começaram entretanto.

três anos num novo sítio - e praticamente seis de vida em comum - conseguem fazer com que acumulemos muita tralha. mesmo que eu não seja pessoa de comprar por impulso, seja um par de calças, seja uma faca de cozinha: pondero, penso, repenso e decido de acordo com necessidade. aflige-me a acumulação de tralha, sem uso a um canto, apenas para encher os espaços da nossa vida.

ainda assim há coisas e coisitas que pedem para ser arrumadas e depois transportadas para a cidade de onde, muitas delas, vieram. 

- ainda bem, diz o rapaz, cheio de entusiasmo. caso contrário como enchias a casa?

é verdade.

todas as vezes que lá vou pondero se não teremos comprado coisa grande demais.

tenho a certeza que a sala é dois terços do apartamento onde vivemos agora.

o espaço cá fora, entre o muro e a estrada onde praticamente não passam carros, é enorme também e já me vejo, aos sábados, de costado ao sol a regar relva. 

cá para mim, como se não bastasse tudo o que já basta, arranjamos foi mais sarna para nos coçarmos.

- podemos ter um cão, diz ele, quando me vê com dúvidas.

pois podemos. e um gato. e mais dois putos além do altino que ainda fica a sobrar espaço. e um trio de periquitos. e um lago com peixes.

espaço não falta.

creio que a faltar, serão habitantes. 

 

agora, aos poucos, vou esvaziando esta casa das memórias.

assumo sempre as paredes onde habito como um pouco mais do que betão e tinta.

percebo-lhe as coisas que guardam e os momentos de uma vivência doméstica que fazem toda a minha vida.

revejo situações que fizeram dos meus dias a doçura que neles habita, tantas vezes, e começo a sentir uma espécie de dor afiada.

lembro das grandes decisões tomadas aqui, dos rumos que mudaram e nos trouxeram mais passos à frente.

recordo momentos, que passaram afinal tão rápido, e é como se ao mudarmos os perdêssemos na grandiosidade do que foram.

 

vou à varanda.

os cedros dançam na mesma valsa interminável desde que os vi no primeiro dia.

há um que continua seco e erguido ao céu, numa espécie de desafio à morte, mantendo-se fixo com raízes que morrem lentamente. não há vivalma na rua e as rolas arrulham nalgum canto que não vejo. 

o cão do vizinho solta um latido quando sente o meu movimento na varanda. rego duas plantas e tomo um café.

não fará sentido tal apego a uma varanda, na próxima casa onde há tanto espaço exterior. 

encontrarei outra coisa que faça os meus dias?

 

vou ter saudades.

mesmo que tenha jurado que esta nunca seria a minha cidade e, muito menos, a minha casa.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 10:36


3 comentários

Imagem de perfil

De C.S. a 02.10.2018 às 10:46

Adoro banalidades destas cheias de vida.
Todo um novo mundo se abre agora para vocês.
Beijinhos
Imagem de perfil

De Ninita a 02.10.2018 às 12:30

As mudanças são positivas e temos de as abraçar e seguir em frente. Claro que vais ter saudades. Da varanda, dos cedros, de tudo. È normal.
beijinhos
Perfil Facebook

De Mário Pereira a 02.10.2018 às 14:09

Tão boa, esta banalidade. Gostei tanto de a ler. Normalmente leio-te com prazer mas sempre com receio de a meio vir alguma nuvem mais negra nesse raciocínio tão límpido. Muitas vezes acerto. Hoje, tive a certeza que não. E acertei!

Felicidades, querida Éme Jóta.

Comentar post



foto do autor