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banalidades

por M.J., em 10.10.18

pronto, deixemo-nos de merdas:

fui ao raio da aula de preparação para o parto.

apesar de ter sido uma semana particularmente ocupada, em que assinamos a escritura da casa e organizamos tudo para a mudança; em que recebi uma dose de trabalho excessiva na empresa; e em que entrei nos sete meses e meio de gravidez, achei, ainda assim, muito simpaticamente, que não tinha o direito de decidir sozinha uma coisa que é dos dois e cedi. 

portanto, lá fomos então, no sábado de manhã, à aula de integração no curso (sim, depois da faculdade, das formações todas em que me coloco, entrei noutro curso) que promete ensinar-nos tudo o que precisamos saber sobre os três quilos e meio de pessoa que vou parir. 

 

a minha contrariedade era evidente.

não só porque enfim, estava contrariada, como o cansaço acumulado da semana se colava aos ombros. 

chegámos mesmo em cima da hora e demos de caras com uma série de casais sentados, alinhados, a olhar em frente.

havia apenas, ao canto, uma moça sozinha, com ar de quem ia desatar a chorar a qualquer instante e senti logo empatia por ela visto que, pondo o dedo na ferida, eu também estava:

a ideia da realidade do que aí vem assoberba-me sempre que vou a consultas e médicos, sempre que me falam do assunto ou sou obrigada a pensar em roupas, carros, ovos e mamas.

 

adiante.

a coisa decorreu exatamente como eu esperava.

ouvimos músicas sobre barrigas e amores imutáveis;

disseram-me nas trombas que ambos estávamos grávidos (gostava de saber então porque raio, sendo assim, só eu sinto dores de costas e só eu eu pareço um bisonte a cada dia que passa - juro que já não me consigo olhar ao espelho);

que era uma fase maravilhosa e única na nossa vida (claramente que a senhora não se sentiu uma bisonte quando emprenhou ou não dizia tal coisa);

e que era normal estarmos todos ansiosos.

- verdade seja dita, a não ser eu, que mordia os lábios de cinco em cinco segundos para conter o choro e a rapariga do canto que estava sozinha, mais ninguém me pareceu particularmente ansioso. - 

além do mais, como não podia deixar de ser, falou-se em amamentação.

e claro, não se questionou se alguém não queria amamentar. assumiu-se como é assim e é e ainda que estivesse a ferver por dentro não tive coragem de dizer que enquanto as mamas forem minhas, essa ainda é uma decisão a ser tomada.

 

enfim, saímos da coisa duas horas depois, após ter olhado umas cinquenta e seis vezes para o telemóvel na tentativa de que o tempo passasse mais rápido.

o rapaz não cabia em si de contente - juro que não entendo - e, para comemorar, quis que fossemos à pastelaria da moda comer croissants com chocolate que eu, muito educadamente recusei, uma vez que não preciso de açúcar para parecer aquela senhora que engordou até aos setecentos quilos. 

 

a sério que queria mesmo sentir as coisas de maneira diferente.

mas não é possível.

o desconforto, as hormonas - que me fazem oscilar entre ondas assoberbadas de amor pelo mundo, tristeza inexplicável e uma vontade séria de me atirar de paraquedas sobre o atlântico - a imensidão de trabalho, a mudança e tantas outras cenas idiotas impedem-me de raciocinar da forma racional necessária.

deixo-me dominar pelas pequenitas coisas sem sentido e pelos medos que me consomem a pontos de me parecer maluca.

preocupo-me com coisas que nunca me preocupei (meu deus, como pareço/estou enorme; minha santa senhora das mães, pobre criança que merecia uma progenitora melhor; era só o que faltava alguém decidir mais do que eu sobre as minhas mamas; e se morrermos os dois? o que será do pobre altino?; quer isto dizer que nunca mais vou ter uma noite de sossego na vida?) e descontrolo-me porque, na verdade, deixei de ter controlo sobre a minha própria vida e sobre o meu corpo.

não há possibilidades de plano b.

não há nada que possa fazer a não ser deixar seguir os dias e tentar não me afogar na imensidão de coisas que me estrafegam o cérebro e me fazem sentir uma espécie de ovelha muito ranhosa e tísica (só na palavra, porque de tísica, com esta barriga, não tenho nada) nesta coisa do mundo das grávidas.

 

tento levar cada dia como o dia.

recuso-me a pensar em demasia no depois mesmo que, quando o cansaço me consome, faça na mente os cenários mais negros e tente perceber qual o caminho certo por onde escapar, se há possibilidade de fugir, se não irei enlouquecer ou se, tudo isto, não é mais do que normal, na incerteza do que aí vem.

 

dizem-me que outras pessoas sentem da mesma forma. 

não acredito.

não haveria uma única creche aberta, um único jardim infantil e a espécie humana estava para sempre comprometida se toda a gente sentisse, uma vez que fosse, o turbilhão de coisas que tento abafar em trabalho, mudança e as mil merdas em que me assoberbo.

 

oh senhores. 

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publicado às 12:24


5 comentários

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De Quarentona a 10.10.2018 às 16:42

Ahahahahahahahahahah, desculpa, Émejóta, mas impossível não me rir... não estou a gozar com as tuas emoções, nem tão pouco a menosprezar o que sentes, daqui escreve-te a mais paranóica das grávidas, tanto que nunca mais arrisquei outra gravidez. Mas é mesmo isso, a solução é tentar viver placidamente cada dia, uma vez que já não dá para voltar atrás, e aguentar estoicamente todas as dores, angústias e receios que te assaltem, sempre acreditando que tudo vai correr bem, porque vai :))))
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De amarquesademarvila a 10.10.2018 às 17:30

Esse é aquele lado da maternidade de que não se fala, mas existe! É real e muita gente passa por ele... atrevo-me a dizer que todas as mulheres que estão ou já estiveram grávidas tiveram o mesmo turbilhão de emoções. Claro que, umas de forma mais intensa outras menos. Lembro-me de uma amiga, psicóloga por sinal, que me veio visitar quando a minha filha mais velha nasceu e ela disse-me o seguinte: - É normal tu amá-la com todas as tuas forças, adorá-la e achares que ela é linda mas também é normal teres vontade de a atirar fora ou fechá-la num armário para sempre! - e foi um alívio ouvir isto! Afinal o que eu sentia era normal!

E a gravidez não é igual para todas. Se há quem adore há quem abomine, e isso não faz de nós melhores ou piores mães. Faz de nós pessoas e mães normais!
Um beijinho
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De A-lupa-de-alguem a 11.10.2018 às 07:44

Uma coisa que me ensinaram nessas aulas e que passados tantos anos ainda utilizo, é respiração em momentos de stresse...
Tudo a correr bem.
Felicidades
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De Ana a 11.10.2018 às 10:28

Permite-te sentir tudo o que sentes.
É só isso.
E os dias vão-se compondo.
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De Anónimo a 15.10.2018 às 17:17

Provavelmente, quando chegar a hora de amamentar vai fazer o mesmo que fez com a aula de ginástica de preparação - vai em frente e pronto. :) Mas não é a única grávida a sentir-se um bisonte - foi assim que eu me senti grande parte da gravidez, quando comecei a crescer. E só engordei 9 Kg. O meu marido olhava para mim, torcia a cara e dizia que eu parecia um buda.
Companhia nas consultas nunca tive. Partilha de emoções, novas sensações também não. Odiei estar grávida. Mas posso dizer-lhe que, embora nunca tivesse feito projectos para ser mãe, ser mãe é o melhor da minha vida. espero que depois destes 9 meses, a vida lhe sorria. Apesar dos seus escritos, que eu adoro, tem um coração de manteiga. Oh, se tem!

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