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banalidades

por M.J., em 17.10.18

tenho a sensação que estou a brincar aos crescidos. 

que acordei um dia de manhã e, toda contente, entrei na minha casinha de bonecas e disse "eu sou a mãe, tu és o pai e esta é a nossa casa". e que tudo ia correr da forma planeada, com uma caixa a fazer de fogão e bolos de lama às refeições.

tenho 31 anos e não estou minimamente preparada para este mundo de adultos.

e zango-me comigo própria - no correr dos dias e da pressão, na imensidão de merdas sem fim - por me ter colocado nisto propositadamente. 

 

não percebo.

estava no pleno controlo da minha vida.

fazia os meus horários com uma retribuição bem acima do razoável. tinha um apartamento arrendado por uma renda excelente, a cinco minutos do centro da cidade, com um senhorio absolutamente prestável, pronto a ajudar mais como pai do que senhorio.

passava férias quando me apetecia e, pela primeira vez desde que me lembro, sentia-me perfeitamente confortável na minha pele em todos os aspetos. incluindo financeiro.  

estava no controlo e a segurança disso preenchia-me os dias e as horas.

a vida era um rio sereno e as agitações de potenciais marés eram resolvidas facilmente nos intervalos.

 

depois - num impulso sem qualquer justificação lógica - decidi que afinal queria mais, mesmo que não fizesse a mínima ideia do que isso significava em termos de exigência. 

é claro que o meu corpo, o desgraçado sofredor das consequências da minha psique, decidiu avisar-me: não.

assim, um não afirmado com a mesma facilidade com que lhe dei chocolates durante anos.

e também é claro que eu devia ter percebido e continuado naqueles que eram os meus dias. devia ter encolhido os ombros e concordado, tomando os meus cafés na varanda, soprando os chás quentes a aquecer as mãos e sentindo-me perfeitamente feliz pelas horas. devia ter visto que aquele não não era problema algum mas sim a possibilidade de não me meter em trabalhos e continuar no controlo do rio sereno da minha vida.

 

como é evidente, neste meu historial de idiotice de decisões, não quis. 

e decidi contrariar o não que me foi dado.

resultado? o mundo resvalou e não tenho mais a tranquilidade dos dias.

 

não controlo a vida, os acontecimentos ou o meu corpo.

sou dominada por quem não sou e perco-me no meio dos cenários mais negros.

de repente tudo acontece e percebo, muito sensatamente, que não sou esta pessoa.

que devia ter percebido, quando disse não a mim mesma, que essa era a solução. que não devia armar-me aos cágados e engravidar, comprar casa e fingir que sou mais uma adulta muito consciente do que faz.

devia ter tido a plena consciência que possivelmente sou mais uma miúda imatura a brincar, quando acorda de manhã, no seu cenário de bonecas.

 

estou à espera do que aí vem e nada me parece famoso.

há leslies e furacões, incêndios, desgraças, doenças e tristezas que se formam na minha mente e me apontam o dedo, todos contentes, por ter querido ser quem não sou.

não é simpático e não me parece que seja só hormonal.

 

a avó disse-me uma vida toda:

quem nasce lagartixa nunca chega a jacaré.

eu ignorei-a e claro, o mais certo é que daqui a uns meses... nem lagartixa nem jacaré.

já esteve muito mais longe. 

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publicado às 11:10


8 comentários

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De Anónimo a 17.10.2018 às 17:41

"(...) decidi que afinal queria mais, mesmo que não fizesse a mínima ideia do que isso significava em termos de exigência.(...)"

Claro que não fazia ideia....não se culpabilize de nada. Não entre em sofrimento.
Conheço (tão bem) esses atropelos da mente , esses sufocos que nos paralizam.
Sei que nestas alturas tudo o que nos rodeia nos estrangula. Seja indulgente consigo. Permita-se essas incertezas. Permita-se ser você própria( mesmo cheia de furacões, de tempestades...). Não está sózinha e sabe disso. O Amor que a rodeia é tão açucarado. E...caramba.....só nessa barriga estão quase 4kg de açucar puro!!
.......
Isto é para si:

"Passar à outra margem não significa necessariamente uma deslocação para outra parte diferente daquela onde já nos encontramos. Às vezes tudo o que nos falta é habitar a nossa vida de outro modo. É simplesmente caminhar com outro passo pelos caminhos que já fazemos todos os dias. É abrir a quotidiana janela, mas devagar, tendo consciência de que a abrimos. É reaprender outra qualidade para um quotidiano talvez demasiado abandonado às rotinas e aos seus automatismos."

José Tolentino Mendonça, in "O Pequeno Caminho das Grandes Perguntas"

Beijinho virtual.






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