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banalidades

por M.J., em 19.10.18

acordo muitas vezes zangada.

não sei explicar os motivos. gostava de acordar contente, sorridente e saltitante, tomar café com ar de bem com a vida e ver com olhos benevolentes as árvores a dançar na rua; ou ouvir com sorriso simpático os latidos do rato que o vizinho insiste em dizer que é cão.

não tem acontecido ultimamente.

perco a paciência com muita facilidade e dou graças por, felizmente, o meu trabalho não me exigir um contacto físico permanente com pessoas.

nesta fase, tenho a certeza, não haveria uma única alminha que me aturasse.

e com razão.

 

coimbra não está a ser simpática para mim na despedida.

não foi da última vez e desta também não.

mesmo estando em opostos de vida, quer-me parecer que esta cidade está sempre desejosa de se livrar de mim, misturando karma, natureza, situações e afins para me dizer, mais uma vez "isto não é para ti".

não é que esta estadia de 3 anos tenha sido má. pelo contrário. em termos de conquistas pessoais foi a maior. e não falo da gravidez.

cresci de uma forma inacreditável no decorrer destes últimos anos e, creio, as circunstâncias de estar e viver nesta cidade foram fulcrais para isso. sobretudo a nível profissional. não me imagino já a sobreviver numa vida de constante espera pelo fim de semana e total perda das horas, pensando que o trabalho é mau ou horrível. entendo que muita gente precise - e quem sabe se não precisarei outra vez - de se sujeitar a uma vida onde o trabalho é só trabalho e as oito horas distribuas de volta dele sejam feitas somente em função do pagamento no final do mês. 

mas é triste.

não que dê grande valor à dimensão do tempo, como um todo.

mas custa-me vivenciar o presente como pedaços de agulhas espetadas na pele e, viver um trabalho dessa forma, é uma dimensão tortuosa de dores. 

 

coimbra ajudou-me no virar dessa página.

foi fulcral, diria mesmo, e por isso não devia estar tão mal agradecida.

mas, ainda assim, o último mês tem sido profícuo em situações stressantes e chatas que me impelem para lá daqui, dizendo "sim, sim, parola, vai-te lá embora, que isto nunca foi teu".

 

primeiro foi o vizinho.

já estava habituada às suas infidelidades conjugais, às putas a subir as escadas de madrugada e aos gemidos ao estilo pornográfico. fui aguentando sem lhe dizer nada porque a mudança estava próxima e porque o nosso quarto fica do lado oposto do apartamento dele e, por isso, não se ouve.

no entanto, a coisa tornou-se constrangedora quando a mamã nos visitou para ajudar a embalar coisas, dormiu no sofá da sala e passou metade da noite a ouvir um filme porno, sem querer incomodar-nos, mas também se poder fazer mais nada. incluindo dormir.

quando me contou, no dia a seguir, entre bocejos e até um pouco envergonhada, precisei de me conter para não bater à porta do animal e dizer-lhe umas quantas verdades.

em contrapartida, nesse dia, quando saí de casa a partir das dez da manhã, deixei maria callas em altos berros, o mais alto que o sistema de som dava, durante todas as horas que passei fora.

a mamã não dormiu de noite. ele não dormiu de dia. 

acho que o fulano não gostou e pareceu querer bater-me quando subi as escadas à noite.

já eu achei uma vingança muito leve, em boa verdade: teve o privilégio de ouvir arte, a mamã foi obrigada a ouvir uma puta. 

 

depois foi a tempestade com nome de gato que passou no fim de semana: deixou-nos sem água e às escuras praticamente 3 dias.

meu deus, e a falta que a eletricidade faz.

sem luz não há iluminação, televisão ou, pior do que tudo, internet. sem internet não se trabalha. e sem trabalhar não se cumprem prazos.

foram 3 dias a correr daqui para a casa nova, noutra cidade, sem fazer nada num lado nem noutro, sentindo o trabalho a acumular, respondendo a e-mails pelo telemóvel, gastando o pacote de dados e sentindo-me incompleta.

creio que precisava de uma intervenção para desintoxicar da internet.

e a falta de água? quão magnifico é não saber como lidar com o xixi acumulado na sanita, gastando litros de lixívia como se fosse o descarregar do autoclismo e comprar garrafões de água para desperdiçar na sanita?

 

por fim, os cedros que me fizeram companhia nestes três anos, caíram na estrada em frente.

as telhas do prédio voaram e caíram em cima do carro do rapaz causando prejuízos magníficos na chaparia.

é claro que a minha lata velha, estacionada mesmo ao lado, não apanhou um arranhãozinho que fosse. nem um esmurranço. ficou ali, incólume, sorrindo da desgraça alheia enquanto o outro, triste, novo, brilhante, comeu com as telhas no lombo e diz ser preciso quase uma milena para voltar ao sítio.

não é bem?

 

coimbra está a despachar-me e eu entendo. 

estou a trocá-la novamente, por uma cidade mais ventosa, arejada, sem manias de não me toques, golas de renda nos pescoços dos putos, veludos ou cervejas e mijos espalhados pelas ruelas. 

podia era ter sido mais meiga, agora no final, quando eu já dizia bem dela. 

não foi.

uma consumição. 

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publicado às 11:28


4 comentários

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De Fleuma a 19.10.2018 às 17:12

Ninguém, absolutamente ninguém por estes lados, consegue reproduzir tão meticulosamente, certos sabores existenciais.


Só por este tempero valeu a pena entrar.

Saúde,
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De Quarentona a 19.10.2018 às 23:14

Apesar de me doer essa tua aversão à cidade que adoro e que lamento que não te tenha mostrado o seu lado contrário ao que descreves, o lado encantador que eu quero acreditar que não sou só eu que vejo, vou ter saudades tuas... muitas! Desejo-te o melhor do mundo, do fundo do coração :))))
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De Maria Araújo a 20.10.2018 às 17:18

Banalidades que nos põem ao corrente do que são algumas vidas.
Felicidades na nova cidade
Beijinhos
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De Joana B. a 13.11.2018 às 15:13


um beijinho

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