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banalidades

por M.J., em 05.11.18

tenho estado muito ausente, eu sei. mas há meses que parecem anos. e quando se está com oito meses de gravidez o tempo começa a ganhar uma dimensão dominada por certas coisas que antes não importavam.

estou mais lenta. demoro mais tempo a subir os degraus desta casa. uma casa tão maior do que a última onde vivi três anos. caminho mais mas desloco-me mais lentamente. não tenho noção do espaço que ocupo e, às vezes, esbarro nas coisas, como gatos a quem cortaram os bigodes. sinto apertos na barriga, numa espécie de contração sem dor. também me dói o peito, às vezes, numa ânsia sem fim. e a alma, num medo estranho. estou repleta de medo. de tudo. olho para o mês que passou e pergunto-me como sobrevivi sem desmaiar ou fugir, algo que teria feito há 3 anos atrás. mas como fugir com uma barriga deste tamanho?

tenho estado ausente. mudamos às três pancadas, em dias que não terminavam. enchemos a casa com todas as tralhas que são nossas e as quais fomos comprando aos poucos, numa vida juntos, que se acumulavam em demasia no antigo apartamento e que aqui quase nem parecem existir, no enorme espaço que sobra, como se fosse possível encaixar cá o mundo inteiro. colocamos objetos, caixas e sacos em carrinhas de mudança e passamos dias a arrumar. baixei-me e levantei-me tantas vezes que, pensei, talvez o puto se fartasse do carrossel e decidisse sair mais cedo. às vezes sentia tanto cansaço que me apetecia só chorar, enrolada numa bola de auto comiseração sem sentido. é incrível como me deixo dominar por coisitas sem significado algum. depois olho para ele, sem nunca se queixar, disposto a aguentar o forte, seguro e escondendo o cansaço e tenho uma enorme vontade de me lançar em prantos, sentindo-me culpada por tudo, mesmo que enfim, não haja motivo. o peso da culpa é tão absorvente que me transformo coisas boas em más e fica tudo confuso. pergunto-me: fui eu a culpada de engravidar e obrigar-nos a passar por isto? sou eu a culpada de não conseguir fazer o que fazia, meia bola, muito lenta, incapaz de não me cansar com facilidade? sou eu a culpada de ele se sentir cansado e fingir que não, para não me incomodar? sou eu a culpada do puto ter já dois quilos e provavelmente nascer enorme, de maneiras que não vai caber na roupa que comprei? sou eu a culpada de não andarmos a alimentar-nos saudavelmente porque quando chega à hora das refeições não tenho ânimo nem força para pensar em legumes, porções e nutrientes? sou eu a culpada daquela dor de cabeça que o atormentou ontem, por não conseguir ser mais forte e mostrar-lhe que estou exatamente igual a antes, pronta a ferro e fogo? sou. sei que sou. e por isso faço mil planos na mente. não me queixarei de nada, digo. aguentarei estoicamente sem um lamento ou um ai, mesmo que esteja aterrorizada com tudo o que aí vem e a minha mente me dê garantias que vou afundar.

deus, como estou cansada.

há uma linha de comboios perto da casa nova. de vez em quando ouço-os passar, em ritmo constante e penso como seria tudo diferente se me sentasse num, sem destino, fugindo de tudo o que sou e me atormenta. depois sinto pontapés no estômago, nas costelas, custa-me a respirar, doem-me as costas e a roupa deixa de me servir e logo percebo que não há comboio algum que possa apanhar agora. mesmo que não esteja preparada. mesmo que seja minha responsabilidade e obrigação preparar-me. nem que seja à força, nem que seja à custa de máscaras, nem que que seja à lei do engano mental. não tenho tempo para mariquices. não tenho tempo para melancolias, tristezas ou deambulações pelo que não é e poderia ter sido. não tenho tempo porque só ele me interessa. porque só as linhas da cara dele a entrar em rugas, o ar cansado, o cumprimento integral de cada obrigação, o manter-se pé ao leme do barco sem um queixume me importam. ponho nele todas as forças. não posso sobrecarregá-lo. não posso.e por isso continuo.

finjo que não estou cansada, que não tenho medo, que estou confiante, que a vida é um arco-íris e tudo vai correr.  

não sou poeta. mas sou perita a fingir que não é dor a dor que deveras sinto. 

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publicado às 14:19


3 comentários

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De Terminatora a 05.11.2018 às 18:08

É normal sentir um misto de sentimentos quando se está nessa condição, que nem sempre é maravilhosa. Raramente se fala das dores, cansaço e frustração que se sente nessas alturas. Não te deves sentir culpada de nada, afinal são precisos dois para fazer um filho. Uma mudança de casa numa gravidez é que é uma loucura. A minha irmã passou exactamente pelo mesmo, mas fico feliz por ver que o teu homem parece ser bem mais resistente que o meu cunhado.. Que até o berço deixou para a minha irmã montar quando ela veio do hospital... E ela montou-o sozinha, 2 dias depois de dar à luz.
Espero que tenhas dias melhores... Dias assim há sempre, mas não os deixes durar muito tempo :)
Beijinho
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De blogdocaixote a 06.11.2018 às 09:07

Não sei se os meus braços são suficientes, em sentido figurado e não só, mas olha, vai daqui um abraço. Bem apertado. Ou só o suficiente para não doer.
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De O Triângulo Perfeito a 06.11.2018 às 17:51

Não te sintas tão culpada... a gravidez é uma época sensível e que mexe com as nossas hormonas. Em breve terás o teu bebé junto de ti e começará uma nova fase. Força aí! :)

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