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banalidades

por M.J., em 20.11.18

há uns anos atrás, quando o mundo se desmoronou e me transformei numa caixa vazia, consegui - em grande parte - ultrapassar a coisa porque não tinha problema, pudor ou outro em falar/escrever sobre o que sentia. era tanto assim que ainda há pessoas que me acompanham pela escrita hoje vindas dessa altura. 

falar era uma espécie de água fresca no deserto de dor que foram aqueles meses (podemos arredondar a anos) e, por isso, foi fácil deixar a ajuda entrar e encaminhar-me na direção certa (isso e o facto de que quando chegamos ao fundo e não há mais capacidade de escavar, a única solução é começar a subir).

 

a gravidez trouxe-me uma enxurrada de hormonas e, consequentemente, emoções que eu já não lidava há muito tempo.

a insegurança constante do que faço, o que sou, o que se espera de mim, o que eu espero de mim, o que consigo fazer, sentir e a inevitabilidade do "eu não tenho essa capacidade" foram uma constante nos primeiros 3 meses de gravidez e voltaram agora, no último trimestre. 

na maioria dos dias tento simplesmente não pensar muito nisso. mesmo que as minhas costas se ressintam, não tenha posição para estar, pareça ter um pipo na barriga e haja uma constante movimentação de pontapés, tremeliques e espargatas junto aos meus intestinos, pulmões, estômagos e outros órgãos que, bem vistas as coisas não parecem ser muito relevantes nesta altura do campeonato.

tento não pensar no que aí vem porque me assusta tanto que só me apetece fugir.

se alguém traçasse um perfil da minha pessoa diria que eu era uma fugitiva, incapaz de enfrentar à primeira os problemas.

sou sim. nunca o neguei. ainda que, na sua maioria, os acabe por enfrentar, na ausência de outras soluções. a batalha que travo é fundamentalmente comigo, as fugas são sobretudo na minha mente e a cobardia é normalmente antecipada e sofrida até à exaustão ainda antes de acontecer. são personalidades. feitios. ou outra coisa qualquer.

enfim, no meio deste turbilhão há dias que são, simplesmente, demasiado sobrecarregados.

o peso enorme do que está para chegar (e não necessariamente os 4 quilos de pessoa - subi a aposta) começa aos saltos na minha mente.

é incrível o tamanho do que me espera. e não falo do trabalho em si, das mamas que podem ou não dar leite ou das noites mal dormidas. falo na responsabilidade que é educar, moldar, fazer crescer de forma saudável um outro ser. sem o contaminar com quem sou. sem o encher de mágoas, traumas ou dores. sem o moldar à semelhança dos meus defeitos. levando-o a trilhar o mundo com a coragem que às vezes me falta. esse peso, o tamanho dessa responsabilidade - para a qual não sei se estou à altura - consome-me de tal forma, tem dias, que a pressão se incendeia e de repente fico parada, à espera que tudo seja uma espécie de sonho e tarda nada volte à simplicidade do que era.

 

além disso, a minha capacidade de falar ou escrever, preto no branco, as incertezas, inseguranças, medos e dores que me constroem nestes dias é uma novidade.

há algo em mim que grita "não digas, não contes, não fales. aguenta, sobrevive, descobre, ultrapassa". numa espécie de "fizeste a tua cama, deita-te nela. sozinha". numa espécie de "é esperado mais de ti do que esses queixumes azedos de medo". numa espécie de "desta vez não. desta vez és tu e mais ninguém porque já bastam todos os teus dedos apontados ao que és".

e daí a incapacidade de marcar com a psicóloga. daí a incapacidade de falar com quem pede que eu fale. daí a incapacidade de pegar em cinco minutos e enche-los de todos os medos, verbalizá-los, dar-lhes forma e, depois, enterrá-los no sítio de todos os outros. 

 

desta vez é mais difícil.

falar do que sinto e não sinto é colocar em voz alta algo profundo e cinzento que pode, muito sinceramente, moldar o azul bebé que se transformou a minha vida.

pode contaminar-lhe os ouvidos, a alma e tornar logo à partida em sal dissolvido, a rocha de granito que espero ser. 

é irrazoável e não ajuda.

mas ainda não sou capaz. 

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publicado às 11:00


5 comentários

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De Outra a 20.11.2018 às 12:26

O meu último trimestre de gravidez também foi complicado. Diria que o pior mesmo foi o último mês. Enchi-me de medos, primeiro pequenos, depois grandes...depois simplesmente monstruosos...não consegui assumir a ninguém aquilo que estava a sentir. Não falei. Guardei e achei que conseguia devorar aquilo tudo sozinha. Que se as outras (mães, leia-se) conseguem, também eu havia de conseguir.
Desmoronei no dia em que o puto nasceu e não fosse alguém me dar a mão (mais a minha vontade férrea de superar as coisas) teria caído em depressão. Andei bem pertinho...
Fala. Ou escreve. Mas não guardes. Vais precisar de ter estrutura para gerir muitas emoções...se puderes despeja uma parte já.
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De Magda L Pais a 20.11.2018 às 12:32

Já te disse que gosto de ti? Nos dias cinzentos e nos azuis, quando não precisas e quando precisas? E que - e falo pela seita - estamos sempre disponíveis para te ouvir, sem críticas e sem julgamentos?
Dito isto, não há mães perfeitas nem há um manual de instruções que possas seguir à risca para teres sucesso com o Altino. Olha o meu exemplo com a Maggie que, desde os 12 anos, luta com a depressão quando eu nunca a tive na vida. Somos o que precisamos de ser, nem melhores nem piores, apenas nós. E isso é o suficiente
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De Fatia Mor a 20.11.2018 às 16:28

Não estás sozinha. Recordo-me dos medos, dos anseios, do que "não sei se sou capaz" que raramente proferi em voz alta. Quanto alívio teria sentido se o tivesse verbalizado. Quantas lágrimas derramei no abafado da noite para não pensarem que estava a cuspir no prato, ao chorar por uma gravidez santa, uma criança saudável, um momento de felicidade.
Nunca tive um quadro prévio como o teu, por isso, apenas posso imaginar como isso ainda te consome mais. Mas não estás sozinha. Nunca estarás! E quando for preciso estou aqui (e outras diria eu) para te dizer que isto não é tudo rosa e azul bebé, há dias bem cinzentos mas que fazem parte do pacote.
Estamos aqui para te ouvir, cavar o buraco - se for preciso - e dar conta desses medos!
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De Quarentona a 21.11.2018 às 14:29

Como sabes, toda a minha gravidez foi um mundo de medos, terrores e tantas vezes pânico incontrolável, mas por razões que antecederam essa gravidez e que bem conheces. O final dos 9 meses de total consumição foi para mim um enorme alívio, cheguei até a pedir um parto induzido às 36 semanas, ele acabou por nascer às 40 e a partir daí senti que já tinha maior controlo sobre aquele ser, senti que ele já não partiria sem que eu me apercebesse de que a sua vida corria risco e assim poder agir. Mas não penses que foi tudo um mar de felicidade, porque não foi, também senti a sombra da depressão pós-parto, mas talvez por ter passado toda a gravidez numa ansiedade descontrolada, essa tristeza que me invadiu foi uma forma de descompressão, ou pelo menos, eu quero acreditar assim. O conselho que te dou é vive um dia de cada vez, devagarinho como aqueles chás que tanto gostas de tomar enquanto observas o dia do lado de fora da janela, saboreia cada minuto do teu bebé porque depois vais sentir que passou tudo tão rápido. Chora quando tiveres que chorar, fala, escreve e, caso sintas necessidade, pede ajuda. Da minha parte, estou cá para o que precisares.
Vai tudo correr bem :))))
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De Nuno a 25.11.2018 às 23:35

Acho que tens sobretudo de ter calma qualquer mãe ou pai de primeira viagem se sente inseguro/a é normsl quando chegar a hora serás capaz basta nao exigir-se de ti msis do que podes dar

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