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banalidades

por M.J., em 26.12.18

o miúdo tem remela nos olhos.

da primeira vez achamos que era normal. já no segundo dia de manhã pegamos nele e fomos ao centro de saúde, muito alarmados, a pensar em conjuntivite e afins. resultado?

mandaram-nos embora sem sequer o deixar sair do carro, com um sorriso de soslaio e de complacência para com dois adultos que ainda não sabem muito bem o que fazer com três quilos de gente.

não é novidade.

da primeira vez que lá fomos, ao teste do pezinho, eu chorei copiosamente por ele chorar com as picadelas (tão magrinho, só pele e osso, nem sangue saía) e esquecemo-nos de levar o saco com as fraldas, mudas de roupa e afins pelo que, claro, depois de devidamente pesado, teve de colocar novamente a fralda usada. 

vê-se mesmo que somos altamente experientes na coisa. 

 

no dia 24 fui às últimas compras de natal.

em 31 anos de vida foi o primeiro natal que não passei em casa dos papás, no meu quarto de infância, com a lareira dos papás, a mesa dos papás e tudo o resto. o pobre gato ficou mesmo sozinho e eles vieram cá jantar connosco, num natal absolutamente diferente, totalmente novo e, para mim, ainda inesperado.

por isso, a caminhar meio esquisito, com dores nos pontos, fui às compras sozinha, na véspera de natal de manhã, numa espécie de liberdade, a conduzir pela primeira vez rumo a um mundo sem choros e fraldas.

faltava comprar pouca coisa e o centro comercial estava à pinha.

antes de ir buscar nozes e abacaxi entrei numa loja para comprar uma qualquer roupa para mim, assinalando o facto de já não ter uma barriga descomunal em que nada serve.

resultado: vi roupa pequena e todo o meu ser, numa espécie de epifânia foi chamado até lá para escolher bodies, fatos, meias, fraldas e coisas que lhe vão servir uma semana. comprei roupa que lhe vai durar um quinquagésimo do tempo que duraria a mim, ao mesmo preço, e vim para casa sem nada que eu pudesse vestir.

bem, posso sempre enrolar-me em duas fraldas, sei lá.

 

tudo isto tem uma série de altos e baixos.

as minhas hormonas ainda não estabilizaram e já dei por mim aos pulinhos de alegria seguido, em poucos minutos, de uma tristeza sem fim, com a varanda a ter ares muito apelativos de salto.

toda a gente diz que é normal e eu tendo a acreditar.

na verdade, acredito já em tudo o que me dizem porque percebi, muito sensatamente, que não sei da missa a metade.

ou a um terço. 

 

quanto ao resto... há mijadelas de todas as vezes que se muda a fralda, uma máquina de roupa para lavar todas as manhãs (é que sinceramente...), sono acumulado, biberões para esterilizar que não acabam e, felizmente, a capacidade de trabalhar todos os dias (mesmo ontem, dia de natal, que remédio) o que me dá a sensação de que é possível o retomar da realidade que era a minha antes. 

e em resumo: nunca a minha vida foi tão banal sem ser. 

publicado às 15:17


1 comentário

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De naomedeemouvidos a 29.12.2018 às 17:34

Quando o meu primeiro e único filho nasceu, há 12 anos, nunca escrevi uma linha sobre a montanha de pensamentos que me atropelaram, na altura. Acabei por guardar tudo na minha memória. Se tivesse escrito, acho que me encontraria aqui. Seguramente, encontro-me por aqui...

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e agora dá aqui uma olhada