Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




banalidades

por M.J., em 24.07.19

não sei o que aconteceu ao tempo nos últimos tempos.

às vezes olho para trás e reparo: "olha, passou um ano desde que"; "já passou um ano desde então". e já. já passou.

e há uma névoa nalguns dias, como se algo tivesse ficado esquecido na grande mudança que foi a vida. como se alguns pedaços de mim tivessem ficado por aí espalhados na dinâmica que se gerou quando engravidei.

que isto comigo continua a ser assim: se é, é porque é; se não é, é porque não é. 

do "ai senhora das cruzes, não consigo engravidar" passei do "ai cruzes da senhora, estou grávida".

houve sempre um imenso lamento, o tempo todo. "não temos casa decente para ter uma criança" ao "temos uma casa gigante e agora como tratar disto tudo?".

que isto as palavras são como as cerejas (bem boas, por sinal, este ano) e de umas passo às outras: a casa é enorme, sim senhor e vamos fazendo o que queremos nela de acordo com o plano. ora mobilar isto, ora mobilar aquilo, ora tratar do exterior, ora a fachada, ora a garagem, ora o diabo a quatro.

há uma infinidade de dinheiro que se escorre. que falar de dinheiro não é bonito mas necessário: escorre. olho para trás: isto há uns anos era impossível, a não ser que vendesse trinta quilos de fígado.

e depois, há uma euforia no ar, como se fossemos todos milionários:

chamamos o construtor e é um "ai que não posso agora, cinquenta e duas obras de reabilitação"; a empresa que veio vedar toda a parte exterior (ter meio bairro a olhar cá para dentro não era muito agradável) atrasou quase um mês, para além do combinado, porque "ai que não posso agora, cinquenta e duas obras para fazer". em tudo o que é loja com coisas para casa há um corropio de gente. a cidade parece crescer numa espécie de entusiasmo coletivo. até quando?

 

enfim, já passou um ano desde que.

no meio deste ano mantive-me à tona na conquista das mil e duas coisas que achámos necessário. e os cabelos brancos aumentaram exponencialmente. ainda não os pintei desde que engravidei na falta de tempo, vontade e pachorra. sa lixe.

 

há um sem número de preocupações diárias: manter uma empresa não é doce e fácil.

manter uma casa, nossa, também não.

nem falo do acompanhar o crescimento do puto. e este é calminho, saudável, risonho. os meus cabelos ficam ainda mais brancos só de ouvir colegas e amigos contarem as próprias experiências: miúdos que acordavam de duas em duas horas, ininterruptamente, durante dois anos. miúdos que adoeciam frequentemente e era semanas no hospital. miúdos que não queriam biberão e era mama até quase aprenderem a ler "os maias".

deus. tive sorte.

penso nisso agora que já passou um ano desde que: tive tanta sorte. tenho tanta sorte. 

 

e mesmo assim, olhando para trás, dou comigo a lamentar o que ficou nas curvas da mudança. os livros que deixei de ler por falta de tempo e vontade. os cafés serenos, na varanda, a ver nascer o dia, irremediavelmente perdidos no apartamento que ficou. as tardes doces de verão a fazer mantas em croché para o puto que dormia na minha barriga. há uma melancolia. o ouvir das rolas que ficou, o canto das cigarras que acordava o pequeno bairro nas tardes de verão que não voltarei a ouvir. 

comigo continua a ser o é ou não é. 

mesmo quando já passou um ano desde que. 

Autoria e outros dados (tags, etc)

oh vai ver ali:

publicado às 10:00


6 comentários

Imagem de perfil

De imsilva a 24.07.2019 às 11:41

Adorei este texto, mas tenho que te avisar, só agora é que começou! Empresa, casa, filhos, como te compreendo, cabelos brancos, nunca os pintei e gabam-nos bastante.Parabéns por este primeiro ano!
Imagem de perfil

De M.J. a 25.07.2019 às 10:39

cabelos brancos gabados. é isso que quero. faço como?
Imagem de perfil

De Maria Araújo a 24.07.2019 às 21:41

Pois passou.
E passa.
O que importa é que ele cresça com saúde.
E vais ter muitas alegrias, e preocupações, quando ele começar a andar, a falar, a fazer birras e tudo o que os bebés adoram para pôr os cabelos dos pais em pé...e brancos.

Sem imagem de perfil

De Anónimo a 25.07.2019 às 17:52

È mesmo. As banalidades da Vida, de que nos vamos lembrar a Vida toda..
São essas banalidades das quais fazemos o nosso caminho, a nossa luta, o nosso desassossego, a nossa Fé... Isso é Viver.. com ou sem cabelos brancos " eu pinto os meus "...Boas banalidades .Seja feliz....
Sem imagem de perfil

De matilde a 01.08.2019 às 09:05

Muitos parabéns pelo teu destaque!! Adoro cerejas,são deliciosas!! Quanto ao teu texto,está muito bem escrito,ainda bem que tiveste sorte com o teu filhote,desejo que continuem sendo felizes!! Quanto ao tempo,realmente,o tempo passa depressa demais,nós nem damos conta do tempo passar,infelizmente,

Comentar post



foto do autor