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banalidades

por M.J., em 04.07.16

tal como a chuva em exagero, o calor a pico, trinta e sete graus, o suor a escorrer, a pele a crestar, a sensação do corpo amolecer, querer dormir apenas e só, dá-me cabo dos nervos.

acordei mais cansada do que quando me deitei.

apesar do fresco do quarto e da casa em geral, senti as pernas bambas, uma vontade louca de dormir outra vez.  na varanda o sol crestava as plantas, murchas e secas, a morrer vivas. bebi café que me soube mal, de tão quente e forcei-me a comer qualquer coisa na falta de apetite do calor.

o excesso mata-me.

um ano depois deram encaminhamento ao processo médico do tecido esquisito da mama esquerda. sinto caroços no banho, ali, numa espécie de aviso de que não me esqueci. encolhi os ombros a um ano para uma consulta hospitalar, na recomendação do médico de família. quem diz que o sistema não funciona? um ano depois tenho uma consulta de especialidade no hospital público. 

bastante eficaz. 

diz quem sabe que esta treta na mama não é nada e sinceramente, não estou preocupada. a minha hipocondria morre no calor e esqueço certezas de morte e de efeitos que a quimioterapia faz em gente a que assisto sem querer. esqueço dos pés sem pele, no veneno do tratamento, as unhas a sair, a boca aberta em ferida, que não vi mas contaram, o desespero, antes a morte que a cura.

viver é uma perda de tempo e ainda assim, há quem se sujeite a pequenas torturas pelo privilégio de continuar a respirar mesmo que o oxigénio queime a traqueia queimada.

está calor e preciso de escrever enquanto a adolescente do lado, em urros de histeria, grita que está arrependida. este era o bairro tranquilo, o mais tranquilo onde já vivi. ouvem-se rolas a arrulhar e galinhas nos quintais espalhados pela encosta. os cedros alojam ninhos e há poucos carros. é o bairro do silêncio e das longas tardes de verão a morrer ao longe, numa tranquilidade de paz até ser interrompida, de há uns tempos para cá, pela gritaria, música e idiotices de uma adolescente em fulgor, talvez fechada num apartamento quando as hormonas a mandam sair e pinar, espalhar a fertilidade pelo mundo.

se pudesse dava-lhe duas unhas saídas e a pele dos pés queimada.

se não me interessam as dores dos outros por que caralho mas insistem em atirar ao focinho?

 

publicado às 11:17


3 comentários

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De sarabudja a 04.07.2016 às 11:38

Dizem alguns que a vida se encarrega de nos atirar com aquilo de que fugimos.
Se queres que te diga, dou por mim a fazer um exercício de tentar desvalorizar certas e determinadas coisas, numa tentativa de que a vida não perceba que as abomino. Sei lá eu... há dias em que acredito em toda a qualquer teoria não cientifica.
Adiante.
Cá eu gosto muito do calor. O quente exagerado das manhãs faz-me saltar da cama e ter vontade de fazer coisas, sair de casa. Já o depois do almoço revela uma sarabudja chata, aborrecida, sonolenta e birrenta.

Das curas: conforme vou contactando com pessoas que se submeteram a tratamentos químicos, vou percebendo quão agressivos podem ser. A vontade de ficar por cá é tão maior do que o medo da dor ou mesmo da dor infligida pelos efeitos secundários.
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De M.J. a 04.07.2016 às 12:51

é isso. o calor em excesso faz-me chata, aborrecida, sonolenta e birrenta: tu depois de almoço, eu o dia inteiro.

ou então sou assim sempre e culpo o sol :)
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De Cristina a 04.07.2016 às 14:56

cá para mim, a catraia tua vizinha chumbou e está de castigo...

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e agora dá aqui uma olhada