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banalidades

por M.J., em 09.07.16

vim tomar café em frente a um cento comercial com estacionamento exterior.

Os sábados costumam ser dias longos que me arrepiam os pêlos dos braços ainda que não tenha real motivo para o efeito.

Levantei tarde e vim sentar na esplanada. É em dias como estes que sinto saudades atrozes de Aveiro, do bairro, da pastelaria em frente à rua e dos velhos que se juntavam para ver passar as horas.

É em dias como estes que me sinto absurdamente mais só e os resquícios do conforto que encontrei outrora para mudar esse sentimento de ausência me parecem irremediavelmente perdidos.

Sinto uma vontade louca de voltar para casa ainda que seja esta a casa. Ainda não mudei o domicílio fiscal no medo de prenúncio de para sempre.

Não suporto esta cidade. O calor atroz que se cola aos ossos. O abafado que não se corta com o vento do mar. O ar superior de quem se cruza pelos caminhos. Sinto saudades do cheiro a sal e das gaivotas. E até o café, de uma forma muito psicológica, me parece mais amargo.

Do supermercado sai uma senhora com um carrinho cheio de compras. Um trator com um pequeno atrelado acaba de chegar e estaciona num canto tentando não dar nas vistas.

A senhora é mais velha e caminha mancando, apoiando-se no carrinho em direcção ao trator.

Dele desce um homem que depreendo ser o marido. Caminha até ao atrelado em passos lentos, pesados, um pouco da barriga descomunal a ver-se por baixo do pólo azul que não cobre a gravidez abrupta, talvez de cerveja e vinho.

Fico a olhar hipnotizada. Encontram-se lado a lado, mancando ambos. Ele senta-se no atrelado, ela pega nas compras, saquinhos, latas, pacotes e encanteira dentro do dito. Ele não ajuda, olhando-a com aquilo que aos meus olhos se assemelha a frete.

A minha imaginação corre livre esquecida do calor. Cuecas que ela lava suadas. Os roncos da cerveja na almofada do lado. As asneiras ditas pelo nariz. O jantar a horas. As pingas de mijo no tampo da sanita. Arrepio-me apesar do calor enquanto na esplanada se entoa a música que uma amiga usou no casamento para cortar o bolo e me fez chorar baba e ranho. Ninguém chorou no meu. Nem eu própria.

Deus! E se fiz tudo mal? E se escolhi tudo ao contrário do que era suposto? E se pus do lado o que devia ser em função do que não sou? Quem nos manda decidir a vida quando não sabemos nada do que somos?

Bebo o resto do café enquanto a mulher, já dentro do atrelado, é conduzida, olhar em frente, antes trator que levar quilos de compras a pé e às costas.

Nunca mais é noite e tenho roupa para passar. Preciso mesmo de uma empregada constante.

oh vai ver ali:

publicado às 11:35


6 comentários

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De Cristina a 09.07.2016 às 20:31

não podes mesmo voltar a viver onde mais gostavas?...
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De M.J. a 11.07.2016 às 10:43

por agora não.
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De Cristina a 11.07.2016 às 18:41

prontos. :-)
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De Quarentona a 10.07.2016 às 19:16

Nem imaginas o quanto me custa ler-te nessa aversão à cidade que eu tanto amo...
Melhores dias virão ;)))))
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De M.J. a 11.07.2016 às 10:44

o que mais me irrita são os coimbrinhas... já me tinha esquecido dos coimbrinhas.
credo, como é que alguém os atura?
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De Quarentona a 11.07.2016 às 22:35

Eu também não os suporto! Além disso, em Coimbra não há só Coimbrinhas...
Mas compreendo-te, se tivesse que deixar a minha cidade para ir viver para outra, o mais provável seria sentir-me exatamente como tu!

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