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banalidades com cães à mistura

por M.J., em 28.11.18

aos poucos começo a adquirir as rotinas de viver, novamente, num sítio novo. 

descubro qual o restaurante que podemos ir, naquela do "comer qualquer coisa aqui perto porque não apetece cozinhar", o centro comercial para as compras, a farmácia, a lavandaria e a costureira. também consegui encontrar uma senhora para dar uma limpeza a isto que, sinceramente, mal aguento as costas sentada, quanto mais para aspirar.

são coisas corriqueiras mas que fazem sentido às rotinas dos dias e nos dão uma certa sensação de pertença.

 

a vizinhança apresentou-se.

na verdade, creio que devíamos ter sido nós a fazê-lo. imaginava-me já, de bolo caseiro na mão, um vestido muito vaporoso, ao género de filme dos anos noventa, a tocar às campainhas fazendo a devida apresentação.

não foi preciso.

uma das vizinhas já se tinha dado a conhecer por causa do último (e primeiro) habitante desta casa (o gato amarelo que ainda salta o muro para usar o terreno como wc) e outra das vizinhas do lado apanhou-me, num dia em que estendia roupa no terraço, para se apresentar e se colocar à disposição para qualquer coisa. 

foi querido e assegurei reciprocidade. e fiz ainda, pasmem, uma festinha ao cão que ela trazia ao colo, vestido, minúsculo e igual ao do vizinho do lado de quando vivíamos no apartamento.

não nos livramos de cães que parecem gatos.

 

a rua (ou bairro, ainda não sei bem) é essencialmente (ou melhor, totalmente) residencial. e vivenda sim, vivenda sim há um ou dois cães que se aproximam dos portões, quando vou caminhar, pondo os narizes húmidos pelas grades e abanando os rabos ou ameaçando dar umas trincas, se possível.

um dia destes, depois de almoço, quando olhava para as ervas daninhas que constituem o jardim (projeto da primavera do próximo ano) ouvi um burburinho de latidos, uivos e grande agitação por parte da animalada da rua.

por momentos pensei em assaltos, gente a acirrar cães ou alguma pessoa idiota que não tivesse mais do que fazer. pelo que, no meu andar à pinguim, esticando a barriga que me pesa como um garrafão de lixívia, me aproximei do portão, na procura de saber o que se passava. 

pois meus senhores, a coisa é digna de filme: um grande cão amarelo, com uma cauda farfalhuda, passava de casa em casa, com uma grande lata, ladrando a todos os outros por detrás dos portões. numa espécie de "olha eu aqui soltinho, a farejar folhas, a urinar onde bem me apetece, e vocês aí encerrados, numa pena de prisão eterna". claro que as respostas eram raivosos ladrares, saltos e uivos sem fim, por parte dos outros, ofendidos por tal desplante. 

"pronto, pensei, aquele ou é vadio ou fugiu de casa. mas pelo aspeto não precisa que chame já o IRA". 

no entanto, foi quando virava costas, e o burburinho de latidos acalmava, que percebi uma coisa extraordinária: o cão não estava perdido ou, sequer, havia fugido. não meus senhores. o animal é daqui da rua, de uma das casas da frente. e tanto é que, com a devida lata, depois de soltar mais umas pingas numa das árvores e de provocar um outro atrás do portão, saltou o muro de uma das vivendas, saltou o outro muro do lado (uns bons dois metros) e muito airosamente aterrou no seu jardim, recolhendo à habitação onde pertence.

e o mais bonito?

todos os dias, por volta do meio dia e meio, uma da tarde (ou pelo menos sempre que estou em casa) faz o mesmo:

arranja maneira de saltar dois muros, provocar a vizinhança canina, mijar tudo o que pode e depois voltar para casa, com - depreendo eu - a sensação de dever cumprido.

não é fantástico?

 

em todos os sítios onde moro há-de haver um cão artista:

fabuloso. 

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publicado às 15:27


1 comentário

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De Magda L Pais a 28.11.2018 às 15:55

na minha santa terrinha acho que só uma das moradias não tem cão. Todas as outras tem 1, 2 ou 3 (acho que há uma com 5 mas ainda não passei lá à porta). Mas há uma que acho um mimo. o cão é relativamente pequeno e os donos - como perceberam que ele gostava de passear pelas redondezas e voltar a casa, optaram por abrir um buraco no murro para ele poder sair e entrar sempre que quer

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