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banalidades: outono

por M.J., em 17.09.19

agora que o primeiro cheiro de outono surge no ar, começo finalmente a respirar. 

foi um ano incrivelmente estranho, este, desde o último outono.

as mudanças foram tantas e tão grandes que, houve dias, pensei ser assoberbada por todas; pensei transformar-me nelas sem dar conta; pensei deixar de ser eu para ser outra pessoa, qualquer, totalmente diferente, a dar vivas porque é verão, por exemplo.

deus ma libre e guarde.

 

os pequenos toques de outono são subtis mas existem.

as árvores começam a ficar acastanhadas em vez de pretas de incêndio.

há folhas secas que dançam no ar em vez de fagulhas que morrem em trevas.

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a luminosidade é diferente e nunca a consegui descrever.

só sei que o céu, em dias claros de outono, parece um lago de água tépida.

olhar as nuvens não faz doer os olhos.

a brisa não é como a salvação no deserto mas uma pequena carícia no rosto.

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de manhã há neblina e café em chavéna bem quente onde sabe bem a aquecer as mãos. já não se põe gelo no café mas sente-se a escaldar nos lábios com conforto.

na rua há um corropio matinal em vez da dolência de férias. as pessoas caminham com rumo, em rotinas, horários e coisas certas.

de certeza que há quem o odeie. eu gosto. 

 

é possível agora ir à praia sem passar horas à procura de estacionamento, levar encontrões no paredão ou esperar 50 minutos por um lugar na esplanada.

o silêncio volta ao mar e consegue-se ouvir cada onda sem gritos, respirar maresia em vez de protetor solar e apreciar a areia sem cheiro de tabaco, onde pessoas depositam piriscas numa espécie de funeral sem padre.

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o outono surge mesmo ainda no verão e eu começo, novamente, a respirar.

o miúdo está na creche das nove às cinco.

organizo trabalho sendo pessoa para além de mãe. retorno a leitura, a escrita e sinto prazer em ir dormir, todas as noites, porque o dia seguinte terá espaço para todos nós: eu e eles e não só ele.

e este eu que surge é mais paciente, mais feliz, com mais disposição para brincar com ele, para o adormecer, para o amar de forma mais completa porque não é possível amar de todo quando nos inutilizamos em função do outro.

seja o o outro quem for.

 

(juro, muito bem jurado, que o que mais me custou e custa, na maternidade, é a perda total da dimensão do tempo e o deixar de conseguir perceber que cada momento, menos bom ou muito bom, é - como em tudo na vida - uma fase. só uma fase. e que essa incapacidade de perceber que é só uma fase, essa incapacidade de ficar assoberbada pelo momento que me consome toda, foi e ainda é, o calcanhar de aquiles disto tudo. mas falo disso depois.)

 

a vida começa a ser novamente doce.

há tempo para antecipar dióspiros maduros que se derretem na boca, castanhas assadas em frente à lareira, séries no sofá debaixo das mantas e passeios ao fim de tarde ao lado do mar, com um sol agradável e um ar fresco que convida a casacos. há tempo para ver a dança das folhas, para apreciar a neblina matinal e para ouvir o silêncio a meio da tarde. 

há.tempo. 

 

finalmente, 18 meses depois da minha vida se ter transformado e eu ter deixado de me reconhecer, há pedaços de mim que vão vindo à tona, conjugando-se com a novidade, com o amor e com o correr dos dias de uma forma completa e global.

o outono é só o corolário disso mesmo. 

publicado às 09:44


1 comentário

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De Nala a 17.09.2019 às 11:25

Que texto tão bonito. Que seja um excelente Outono para vocês! :)

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e agora dá aqui uma olhada