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cala-te pá

por M.J., em 11.07.16

os meus vizinhos do lado esquerdo (uma pessoa tem dois lados, não há nada mais certo) discutem constantemente. não me lembro, desde que aqui vivo, da inexistência de um serão em que, estando os dois, não desatem aos gritos, a mesma ladainha, uma incapacidade de outro tipo de comunicação.

parece que o motivo é sempre o mesmo e, por mais que queira, não consigo não saber: o homem é mulherengo ou a rapariga possessiva.

há todo um impropério de gritos, nomes de mulheres atirados como pratos, repetições constantes que ressoam pelas paredes mesmo que eu ponha callas em esplendor, game of thrones no máximo ou florence aos guinchos. sobrepõem-se sempre numa gritaria incomodativa, a voz fina e metálica da rapariga a atroar pelas paredes "quem é que eu sou? sou tua mulher!" e ele "cala-te pá, cala-te pá, cala-te pá, cala-te pá" numa constância de sons, como perdido, sem saber mais palavras "cala-te pá, cala-te pá, põe-te daqui para fora, calça-te pá!".

dá-me ganas, às vezes, de os mandar calar como a putos na escola. se me fosse possível chegaria ao pé dos dois, toda vermelha e irritada e arrancaria, com as unhas que não tenho, uma orelha a cada um virando-os contra a parede e obrigando-os a escrever na parede com a língua "se for para gritar ao menos que se saiba esgrimir argumentos que um puto de dois anos ainda não consiga".

foda-se!

não entendo este tipo de amor gritado. esta partilha de vida com acusações constantes, os histerismos a servir de comunicação, as palavras atiradas, cuspidas, sa foda, diz-se agora, depois dá-se uma pinadela, palavras são só palavras, não interessa nada, era pior se remoesse, como se as palavras não fossem jarros cheios de bosta, capaz de ferir mais do que um gesto. como se as palavras não ficassem para sempre e não houvesse mal nenhum em guinchar até rebentar numa vulgaridade bronca do "eu sou assim, quem quiser que se mude".

não suporto gritos e talvez seja por isso o meu horror a criancinhas.

engalfinham-se-me as unhas dos pés. sinto uma espécie de trauma, de horror gritado a pôr-me em fúria. enraiveço pelos troares de vozes inconsequentes "cala-te pá, cala-te pá, cala-te pá", "cala-te tu, cala-te tu, cala-te tu" numa espécie de "quem diz é quem é", dois adultos a partilhar a mesma casa com o mesmo poder de argumentação de crianças de cinco anos.

juro! se um dia os ouvisse a matarem-se um ao outro não mexia uma palha.

há gente que não nasceu para mais. 

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oh vai ver ali:

publicado às 09:30


9 comentários

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De sarabudja a 11.07.2016 às 09:44

Não sei se porque nos habituamos a amores gritados: desde pequenos há quem muito diga que nos ame e muito nos grite e nos silencie, obrigando-nos a continuar a amar, porque o sangue partilhado deve valer muito mais do que o sangue que nos sustenta a vida.
Não te falo das intervenções de pais e mães atentos, falo de pais e mães que vomitam os horrores aos seus príncipes e princesas que tanto dizem amar em reuniões da tupperware ou nas redes sociais.
Crescemos a achar que aquilo é o amor, faz parte. Que todas as cicatrizes feitas de palavras não são mais do que caminhos no nosso mapa da vida. Reproduzimos ou ouvimos reproduzir e deixamos.
Já me mudei de casa por ter uns vizinhos que discutiam todos os dias. Que gritavam facas e balas de canhão e eu percebia cada sílaba em casa e percebi-me a adoecer, a enraivecer, a entristecer, a não querer vê-los, a já não conseguir ouvi-los sequer em versão civilizada.

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De M.J. a 11.07.2016 às 10:42

às vezes encontramo-nos nas escadas.
sinto sempre vergonha.
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De sarabudja a 11.07.2016 às 10:49

Sabes o que me envergonhava mesmo muito? Era saber que havia uma pequenita, pouco maior do que o meu filho, que ouvia tudo aquilo, a quem eram dirigidas pedras e cuspidelas gramaticais e eu fazia nada para a tirar de lá, para fazê-los perceber que criaram uma selva dentro de um apartamento em prédio de vila pacata.
Envergonhava-me sobretudo a minha passividade diante das palavras. E já percebemos que elas matam o bem querer.
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De Mula a 11.07.2016 às 10:29

Parece que descreves os meus vizinhos há um ano atrás... Também nunca percebi quem era o mau da fita, só sei que me acordavam todos os dias de madrugada com os gritos. Entretanto ela suicidou-se e agora reina a paz no prédio... Como consegue ser apaziguadora a morte, por vezes... O divórcio também me serviria, mas parece que optaram por outra via... Fodida a vida...
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De M.J. a 11.07.2016 às 10:42

fodida a morte também.

(arre que história mais triste).
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De Susana a 11.07.2016 às 11:20

Muitos agora casam ou juntam-se porque é moda (ou porque os pais obrigam), sem nunca terem passado uns quantos dias juntos sem ser em férias, porque em férias ninguém se chateia, andam todos zen... E depois, quando começa a vida em conjunto, as obrigações, as responsabilidades, o olhar todos os dias para a mesma cara, dá nisso...
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De Anónimo a 11.07.2016 às 15:33

Tive a triste sina de conviver profissionalmente durante uns tempos com uma criatura que gritava, ou grunia , ainda não sei bem , para a sua amante " arrebento-te a boca toda" ; " filha da puta , que te rebento toda" , " vaca e vacarrona " ; " puta de merda" ; eram outras palavras que saíam com quem come pasteis de nata . Várias vezes lhe perguntei se ele achava que era assim que se demonstrava o amor , e se achava que devia tratar assim uma pessoa. A mesma pergunta fiz a ela, mas ela achava que "era normal " . Não consigo perceber , sinceramente não consigo. Acho isto tudo doentio
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De Cristina a 11.07.2016 às 18:46

que canseira, MJ. xiça.
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De Maria Araújo a 12.07.2016 às 10:29


Tremo muito e o meu coração salta quando ouço ou presencio pessoas que falam aos gritos.

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