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cevada

por M.J., em 26.07.16

todas as manhãs em casa da avó havia café de cevada.

a água fervia no fogão e depois das bolhinhas estalarem no ar, num aviso de prontidão, eram-lhe adicionadas colheres de um pó castanho, invariavelmente dentro de um frasco às flores azuis, desbotado de velho.

o som da colher a mexer o pó no fervedor, metal com metal, numa espécie de encantamento, misturava-se com o cheiro do café, uma água negra que perfumava a cozinha e se misturava com o crepitar da lenha na lareira, se inverno, num encantamento familiar e rotineiro, de segurança dos dias.

depois de repousar a avó colocava o café numa chávena de plástico cor-de-rosa e adoçava com açúcar amarelo.

cheirava a café e repouso, a paz e a um novo dia. havia pão com manteiga, da véspera, e era o melhor pequeno almoço do mundo.

 

no fim de semana passado voltei a beber café em casa de uma das pessoas que mais amo neste mundo e que me acompanha nos percursos da vida.

tal como eu, também a ela lhe serviam, em criança, cevada fervida em água e pão com manteiga. 

havíamos jantado os quatro em gargalhadas. e quando noite dentro, com a brisa fresca vinda do mar a entrar portas dentro, senti o cheiro a cevada, a repouso, a paz e a começo a espalhar-se pela casa senti vontade de chorar.

bebi o café, água negra de cevada, com pedaços ainda por dissovlver e soube instantaneamente que regressara no tempo. que recomeçava lá atrás, com um fato de treino cor de rosa, dos power rangers e uma camisa branca por dentro, com uma grossa gola de renda. 

 

reencontramo-nos com aqueles que amamos, não é verdade?

por mais piroso que isso seja.

oh vai ver ali:

publicado às 10:30


5 comentários

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De sarabudja a 26.07.2016 às 11:00

(lágrimas que não escapam, se soltam).
Também eu bebia cevada, em dias de festa em família. Cevada feita pela minha avó, a que já cá não vejo, mas servida no pires, com a possibilidade de acompanhar com broa cozida no forno a lenha.
Muitas das minhas memórias boas cheiram a cevada e sabem a broa.
Os Sarabudjitos também têm o meu pai que lhes faz "pinguinhos". Desejo que possam ser felizes para um dia o leite pintado com café lhes lembrar o avô.
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De M.J. a 26.07.2016 às 11:04

vá, eu que nem sou disto:
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De sarabudja a 26.07.2016 às 11:12

Credo! Deixa-te dessas cenas gráficas.
Estamos bem assim: sem símbolos e sapinhos sorridentes.

Saia um refresco de máquina e um pão de leite com fiambre, ó faz o favor.
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De M.J. a 26.07.2016 às 11:16

a sair ;)
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De Joana B. a 26.07.2016 às 16:06

A cevada também fez parte da minha infância, preparada pelos meus pais e principalmente nas férias quando tomávamos o pequeno almoço todos juntos.
A minha mãe a preparar a cevada e depois comecei eu também a preparar e o meu pai a torrar o pão para comermos com manteiga.
E a minha irmã que preferia leite com chocolate a acompanhar o pão, não sabe ela o que é bom

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