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constatações

por M.J., em 08.09.16

quando, no sábado, me deitei na cama que foi minha por mais de duas décadas - e continua reservada na espera, a cama da miúda, no quarto da miúda, com os bonecos da miúda - a janela aberta deixou entrar o ar fresco da noite. cheirava a terra seca e ouviam-se os grilos. nem um carro, nem um som a não ser o nosso respirar, olhos presos no tecto, nas paredes, no espaço que foi meu criança e adolescente.

a mamã reservou as mesmas coisas de outrora. há uma fotografia minha na escola primária. estou sentada numa mesa com um livro do quarto ano aberto em frente. lembro-me exactamente daquele dia. a professora escolheu um livro do ano que estava à nossa frente e eu sentei-me contrariada porque aquele não era o meu livro. vestia um fato de treino cor de rosa, por baixo uma camisa branca com uma grande gola de renda engomada e sem vincos. tinha umas botas castanhas de camurça nos pés, argolas de ouro nas orelhas e o cabelo, sem qualquer branca mas como sempre revolto, (isto não é cabelo, são sete camadas de penas, a cabeleireira amiga da mamã com o discurso habitual dos dias santos de corte) estava desgrenhado a tapar pescoço e feições. 

apresentava já duplo queixo e um ar sério de missa. nunca fiquei a rir em fotografias de criança. assumia a carantonha, muito séria, consciente da incapacidade fotogénica. deixa lá minha filha, não és uma menina bonita mas tens outras qualidades, que beleza não enche barriga.

(ai não, que não enche!).

mais tarde a mamã havia de reclamar muito daquela foto para a qual pagou mil e quinhentos escudos, já numa moldura a imitar madeira. que não tinha jeito nenhum, não se avisar os pais da presença do fotografo. que nem os cabelos estavam decentes e a cara de fugir. quis dizer-lhe para não comprar aquilo, feio de dó, mas nem pensar em deixar ir as trombas da filha. na escola, os meus colegas que não compraram, mil e quinhentos escudos dá para muito pão e fotografia não enche estômago vazio, viram as suas divinas trombas serem rasgadas em quatro, depois de retiradas da moldura, e serem postas no lixo pelo insensível fotografo.

não houve traumas, depreendo, mas uma coisa dessas hoje teria honras de correio da manhã.

a mamã guardou a fotografia. guardou também a boneca de porcelana, gigante, a quem lava a roupa todos os anos, que os colegas do ensino básico me deram pelos meus doze anos. guardou o espanta espíritos que o grupo do nono ano me ofereceu. guardou o diploma da amizade que me entregaram, no aniversário, os colegas do ensino secundário, grupito frágil a separar-se mal chegou a faculdade.

há pedaços de eternidade no quarto de infância onde dormi no sábado.

cheirava a terra seca e o silêncio comia o ar. os grilos apregoavam amor em cantorias sem fim. e quando ele perguntou, ao meu lado, olhos fixos no tecto:

- quantas vezes pensaste dormir nesta cama com alguém, que amasses, em planos concretizados de vida?

tive de confessar, caixa de óculos e gordita, fato de treino cor de rosa e pão de milho, cinema aos dezoito anos pela primeira vez e mau feitio, bicho do mato e com baixa auto-estima, pouca resistência às frustrações e incapacidade de relacionamento com o outro... que nunca.

 

não és uma menina bonita mas tens outras qualidades, que beleza não enche barriga.

oh vai ver ali:

publicado às 09:30


8 comentários

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De Gaffe a 08.09.2016 às 09:42

Tinha tantas saudades tuas!
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De M.J. a 08.09.2016 às 09:48

estou sempre aqui.
às vezes só finjo que não estou :)
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De sarabudja a 08.09.2016 às 10:35

Quão longe do que és andaste toda uma vida...
Conserva o pão de milho e a mamã. Até as outras coisas para te não esqueceres do quanto caminhaste.
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De Rooibos a 08.09.2016 às 10:57

Gostei de ler este teu texto.
Eu tenho um sentimento misto pelas recordações. Por um lado, gosto de recordar os momentos que vivi e as pessoas com quem convivi (particularmente as que já partiram). Por outro lado, as recordações podem prender-nos a um passado que já não volta, além de que também trazem à memória momentos que eu gostaria de apagar.
Mas também me páro em frente a fotografias antigas ou a objectos que me lembram os tempos que já passaram.
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De conta corrente a 08.09.2016 às 12:42

Se tens outras qualidades, que não a beleza, és muito mais rica do que pensas. Além disso as mães sabem sempre tudo ;)
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De Gaffe a 08.09.2016 às 13:24

Não sabem nada, meu caro.
As mães raramente sabem tudo. Disfarçam é bem.
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De conta corrente a 08.09.2016 às 13:35

Check :) disfarçam bem e mais :)
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De Joana B. a 09.09.2016 às 11:19

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e agora dá aqui uma olhada