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juro que cada dia que passa admiro mais e, ao mesmo tempo, entendo entendo menos algumas mães.

admiro sobretudo as mães que trabalham fora de casa 8 a 10 horas por dia e depois, incrivelmente, ainda cai sobre as suas costas:

  • ir buscar e levar os filhos às creches, escolas;
  • preparar almoços e jantares;
  • limpar a casa e tratar da roupa;
  • serem as primeiras a ser chamadas em caso de doença das crias;
  • serem as responsáveis pelo acompanhamento das mesmas nas escolas;
  • serem vistas como as causadoras de cada defeito, comportamento errado dos filhos;
  • terem de cumprir com as suas funções profissionais com zelo e responsabilidade;
  • terem de manter o seu excelso marido satisfeito no lar e na cama;
  • terem de apresentar uma silhueta bonita;
  • terem de levar com as merdas que as outras mães debitam.

sinceramente, não sei como a maioria do mulherio não se passa dos carretos, manda tudo ao raio que parta e sai a rapar o cabelo, numa espécie de breakdown britney spears.

e talvez seja por isso que a maioria é tão azeda, tão prontinha a dizer "ai, se fosse eu".

fazemos o mesmo umas às outras e é por isso que a lista acima é cada vez maior, não é?

 

porque mesmo passando por tudo aquilo que enumerei acima, a verdade é que a maioria das mães tem estabilidade financeira que lhes permite comer e dormir debaixo de um teto; tem uma almofada fofa e quente onde chorar e dormir; tem acesso a cuidados de saúde (por pior que esteja o SNS acaba por ser muito bom) para si e para os seus filhos; tem acesso a alimentação diária; tem acesso ao mais básico do ser humano: ser visto como ser humano e não um pedaço de lixo. 

e mesmo assim essas são as primeiras a apontar o dedo, exigindo a morte e as chamas eternas do inferno a uma mulher que abandona um filho no lixo. 

 

vi centenas de posts de mulheres a pedir a morte para aquela mulher.

não vi nenhum de um homem.

foram as mulheres que sem dó nem piedade, acusaram, julgaram e nem por uma vez pensaram em questões básicas como:

  • como é viver na rua, numa tenda, sem qualquer condição de higiene?
  • uma mulher que vive na rua tem acesso a coisas básicas como tampões/pensos higiénicos?
  • como são os ciclos menstruais de uma pessoa assim?
  • como é que ela engravidou?
  • o que é que ela comia todos os dias?
  • como é que é sentir-se grávida quando não se sente gente? ela sentir-se-ia?
  • como será nem sequer ser-se portuguesa e não ter acesso a informações básicas como "não és extraditada se recorreres em caso de urgência ao hospital?" ela saberia?
  • como será não saber-se que se pode deixar um recém nascido na maternidade para adopção, e não ser criminalmente penalizado? ela saberia?
  • como será estar-se grávida vivendo ao frio, na rua, sendo vista como nada?
  • como se cria a ligação mãe/filho num caso como este?

os primeiros 3 meses de vida do meu miúdo foram os mais difíceis da minha vida.

e eu tive acesso a tudo e um par de botas, incluindo toda a ajuda necessária e conhecimento amplo das coisas.

e mesmo assim houve dias que só me apeteceu fugir, desaparecer e abandonar tudo. 

 

colocar uma criança recém nascida no lixo é um ato hediondo. concordo. 

mas todos os atos, mesmos os hediondos, devem ser vistos à luz das circunstâncias.

e é pena que as mães que às vezes se queixam da vida, do cansaço, da incompreensão dos outros;

que se martirizam com a culpa de não serem melhores;

que se queixam porque não conseguem colocar os meninos na música, no inglês, no karaté;

que se culpam por não passar 3 horas com eles, por não lhes poderem dar uma alimentação de 5 frutas variadas e peixe ao almoço e carne ao jantar;

as mesmas mães que nunca viveram na rua, que não sabem o que é sentir-se como lixo a dar vida a lixo, sejam as primeiras a exigir o fogo eterno do inferno, a morte a uma pessoa que não teve as mesmas oportunidades, incluindo aquela oportunidade de dormir numa cama, comer uma refeição diária quente e não ter de parir no meio da rua, como uma cadela sem dono.

 

acreditem:

o vosso heroísmo como mães, a vossa argumentação "mas eu passei por muito e nunca faria tal coisa, mas eu sofri horrores e sempre pus o meu filho à frente de tudo" vale zero. vale nicles. vale nada.

essa argumentação, esse sentimento é uma valente monte de merda quando não têm a capacidade de se colocar, por uns segundos, na pele de alguém que é vista, pela sociedade, com menos atenção, menos valores, menos direitos do que um cãozinho de raça

 

incrível. gostam tanto de criancinhas mas detestam seres humanos. 

 

publicado às 11:48


7 comentários

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De imsilva a 13.11.2019 às 12:31

Concordando com a maior parte do que está no teu texto, acrescentaria a minha incompreensão por o bebé não ter sido deixado num sítio visível. A minha teoria é que a mãe pensou que estaria morto. Se o deixou lá sabendo que estava vivo, o problema será mental. Recuso-me a acreditar que alguém com a cabeça a trabalhar normalmente, pusesse um criatura viva no lixo.

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