Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




dançando

por M.J., em 20.07.16

a primeira vez que vi patinagem artística no gelo tinha pouco mais de dez anos e estava sentada em frente à lareira. depreendo que fosse inverno ainda que a lareira se acendesse pouco depois do outono e continuasse até inícios de primavera, altura em que a mamã a enchia com uma planta verde folhosa.

relembro que a senhora em causa, pouco mais do que uma menina, sem seios ou formas, vestia um vestido azul mar e rodopiava nos braços de um moço garboso com um fato de licra. visto assim à luz dos anos parece-me piroso. giravam em velocidade ao som da musica que assinalou uma geração (nada mais nada menos do que o titanic) e pareceu-me ser o expoente máximo da beleza.

 

eu queria ser a senhora do vestido azul.

 

a música inundava o recinto, a minha pequena tv e a cozinha a cheirar a limão (ainda que não cheirasse toda a minha infância agora me é dada a recordar em cheiro de limão) e eu desejava ardentemente, numa imaginação fantasiosa, correr pela vida como a menina corria pelo gelo: como uma suavidade de maneiras bonitas, leves, maleáveis e doces, em corridas de liberdade que faziam esvoaçar o vestido, de queixo erguido e postura de princesa. nos braços de um menino bonito (dispensava a licra) ao som da mais bonita música que ouvira enquanto a pegava no ar e, de braços abertos, deslizavam pelo recinto.

 

ao longo dos anos fui sempre dando uma olhadela na patinagem artística e nunca consegui encontrar nenhum par que me fizesse sentir a beleza daquele. e ainda assim, apesar do meu desejo inicial de deslizar pela vida como uma menina de patins em cima do gelo, a esvoaçar o vestido em gestos de algodão, nunca consegui.

ando pela vida em passos pesadões, que deixam um som de madeira a gemer do peso. não tenho meneios suaves de liberdade, ponderados ao milímetro mas corto o ar com braços destrambelhados, frases sem sentido, altas de mais, gargalhadas roucas que saem do peito, quase em grito. 

concluo, numa tristeza infinda, que sou a antítese da a menina suave do vestido azul: uma tipa tosca, grosseirona de ligeiramente curvada.

 

posso apenas garantir que ouço melhor música do que a que fazia vibrar a moça, naquele dia que suponho de inverno. 

 

(não era esta, tenho a certeza, mas dá para mostrar o ponto).

 

oh vai ver ali:

publicado às 11:30


5 comentários

Imagem de perfil

De Gaffe a 20.07.2016 às 12:12

Há outa forma de o dizer:

https://www.youtube.com/watch?v=xafBWOxqssg

:)***
Imagem de perfil

De M.J. a 20.07.2016 às 14:36

ahahahahahahahahahaha
Sem imagem de perfil

De Olívia a 20.07.2016 às 14:32

Eu adorava patinagem artística... dava na rtp2 e a minha mãe não perdia nem um segundo... eu jamais sonharia em ser a menina que rodopiava... eu era zero em ginástica e sabia-o bem como poderia eu seque sonhar com isso?
Imagem de perfil

De M.J. a 20.07.2016 às 14:36

ah... mas é disso mesmo que são feitos os sonhos: de impossíveis.
se for de possíveis não são sonhos. são planos.
Sem imagem de perfil

De Olívia a 20.07.2016 às 15:07

eu sei, é triste, mas nessa altura havia "impossíveis" que não me deixavam sonhar...

Comentar post



foto do autor



e agora dá aqui uma olhada