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disto da convivência animal

por M.J., em 07.11.18

uma vez doei um cão. 

venham daí essas pedras.

achava que queria muito um animal, depois de ter sido criada no meio deles, na serra, e quando meti um peludo num apartamento percebi, irremediavelmente, ao fim de uns quantos dias, que a nossa convivência estava comprometida:

eu não tinha capacidade de limpar tudo o que ele sujava (desde pelos, cocós, xixis e afins), ele não gostava de estar fechado (apesar de ter passado toda a sua vida dentro de uma jaula, num quintal isolado de onde o resgatei) e tinha uns dentes novinhos, que roíam tudo o que apanhavam, desde almofadas, móveis, tapetes e sapatos.

sim, devia ter ponderado bem nisso antes de o tirar do sítio onde estava, o levar ao veterinário, tirar-lhe as pulgas e desembaraçar o pelo cheio de cocó. devia ter pensado que se calhar era melhor deixar o bicho lá, porque eu não conseguiria lidar com ele. mas não pensei. e quando dei conta a nossa vida - minha e dele - era um caos.

nunca tive apetência para ser mártir. é verdade que tenho dificuldade em resolução de certos problemas, custa-me enfrentar certos detalhes, tenho tendência a dramatizar o razoável mas, em certos casos, quando a solução está à frente do nariz, há que ser pragmático e resolver: eu pagava a renda, alimentava o bicho, trabalhava das oito às oito, mal tinha tempo para fazer fosse o que fosse e a ideia de uma decisão errada atormentar-me o resto da vida do animal - que se queria longa - não me entrava na mona: coloquei um anúncio no olx e dois dias depois arranjei-lhe uma família, a cem quilómetros de distância, onde o levei num sábado solarengo.

não me arrependo minimamente.

de certeza que ficamos ambos mais felizes.

 

anos mais tarde alguém me disse que tinha sido uma sacanice e cobardia da minha parte.

era suposto ter aguentado, ou ia fazer o mesmo a um filho?

deu-me uma louca vontade de praguejar e depois rir. comparar animais a pessoas é só absurdo. e obtuso.

os animais merecem, evidentemente, respeito e consideração. ao contrário do que me ensinaram na faculdade não são coisas. são seres que sentem e nada justifica maus tratos. mas, acreditem, não são meus filhos, não são pessoas e não estão no mesmo patamar. e pasmem-se, é direito do ser humano arranjar alternativas quando as coisas não lhes agradam, desde que evidentemente, se respeitem os aspetos vitais atrás mencionados: não abandono ao deus dará, não provocar dores físicas, não sujeitar a fome ou sede ou fingir que não existem veterinários quando ficam doentes.

 

  • fico muito contente quando vejo sentenças que dão a devida pena a gente que mata, espanca ou maltrata animais;
  • dá-me um quentinho no peito quando percebo que a tourada tem cada vez menos apoio público; e,
  • acredito mesmo que, num futuro não muito distante, toda a carne vai ser produzida em laboratório acabando-se de uma vez por todas com a morte de animais para alimentação.

acreditem se quiserem, é verdade.

mas não me digam que o cão que eu tinha lá em casa era detentor dos mesmos direitos do que eu ou do que o meu filho que vai nascer.

não tinha. nem metade. nem um terço. 

 

às vezes vejo gente muito chateada porque outras pessoas decidem procurar famílias para animais quando se apercebem que é impossível continuarem com eles.

são as mesmas pessoas que se revoltam com o abandono e, ao mesmo tempo, enchem a caixa de e-mails de quem põe um anúncio à procura de alguém que adote o seu animal de estimação: é aquela coisa muito adequada do preso por ter cão e preso por não ter.

o que mais me impressiona é quando em causa estão motivos de ordem pessoal fortes: crianças alérgicas aos pelos, com asma ou outro motivo que impossibilita a convivência. os pais querem resolver o assunto, ponderam e optam pela solução mais pragmática que é doar o animal porque, muito sinceramente, na balança dos afetos vêm os filhos. pois meus senhores, os mesmos fundamentalistas que dizem que a mamã deve pedir ao recém nascido para lhe mudar a fralda, também defendem que a mesma mãe deve arranjar uma alternativa que lhe permita ficar com o cão:

  • seja colocar criança e bicho em sítios separados - o quê? o cão no berço e o puto na varanda? é que cães na varanda não é lá muito católico;
  • seja mudar de casa - toda a gente sabe que as rendas andam baixíssimas e que é facílimo arranjar nova residência, com um grande jardim e espaço;
  • seja que o puto aguente as maleitas que só lhe faz bem para ganhar carácter - mas dar-lhe uma palmada quando está a fazer uma birra não, que isso já é maltratar. 

tenham dó.

 

vejo disso às dezenas no facebook.

gente que faz questão de partilhar anúncios de famílias à procura de alguém que queira ficar com os seus animais, não com o objetivo de ajudar o animal em questão, mas para crucificar a família.

gente que aponta o dedo, abre muito a boca para falar em empatia e demonstra mais empatia por uma pulga do que por uma criança e um pai que quer o melhor para ela.

 

não tenho cão.

estamos seriamente a pensar arranjar um (provavelmente até comprar, vejam lá o desplante, uma certa raça específica) visto que agora há espaço que não termina para o bicho, seja de raça rato, seja raça elefante. fiz até uma tabela de custos do que abarca ter um cão, desde veterinários, vacinas e rações. mas se depois dele estar cá em casa, um médico me disser que o meu filho - que também ainda não nasceu, vejam bem - não pode conviver com o bicho, seja por asma, alergia ou outra treta qualquer, não haverá dúvida alguma de quem terá de mudar de residência. e não é o puto, por mais cocós que venha a fazer e mais noites que me impeça de dormir. 

 

é isto:

sou uma retrógrada insensível que come carne, pega nos gatos da mamã ao colo, se atormenta com animais acorrentados em circos ou golfinhos em espetáculos degradantes. sou uma retrógrada insensível que aprecia o trabalho do PAN (pronto, aquela coisa da ritalina e de certas opiniões sem fundamento cientifico algum fazem-me crescer as unhas dos pés para dentro, mas enfim), que dá o devido valor às instituições de animais que dão a camisola pelo bem estar deles e que, é sério, não tem dúvidas nenhumas na comparação animal - pessoa: esta última vence sempre.

sobretudo se forem as minhas. 

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publicado às 11:30


20 comentários

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De Maria Alfacinha a 07.11.2018 às 11:41

Não me pediste opinião, mas aqui vai: não compres, não adoptes, não incluas um animal na tua vida. Deixa-te estar assim.
É o mesmo que digo a quem vai casar porque existe uma coisa chamada divórcio.
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De Pandora a 08.11.2018 às 12:06

Subscrevo! Não tens perfil para ter um animal a teu cargo. À mínima dificuldade, contrariedade, chatice, whatever, vais descartar. Poupa-te a ti de dores de cabeça e ao animal de ser rejeitado, simplesmente por ser um animal que está bem no fundo da tua lista de prioridades ou preocupações...
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De Maria Alfacinha a 08.11.2018 às 12:22

Exactamente o que eu pensei quando dei a minha opinião...
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De Quarentona a 07.11.2018 às 13:23

Na realidade és uma pessoa normal, não te martirizes por isso. ;))))
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De M a 07.11.2018 às 13:31

Não podia concordar mais! E aquelas pessoas que supostamente amam animais mas que parece que é mais porque se desiludiram com pessoas e dizem que "os animais não são ingratos" ou "eles estão sempre ali para ti" e são altamente sacanas com pessoas? Tenho uma vizinha velhota que alimenta gatos vadios (isto no centro de Lisboa), já tendo criado toda uma parafernália no passeio para os alimentar, cheio de tacinhas com comida e água repostas diariamente, onde se juntam cada vez mais gatos que depois andam pelos logradouros alheios, sujam tudo, reproduzem-se, etc. Tentei explicar-lhe que não pode alimentar animais vadios, que é uma contra-ordenação fazê-lo, que tem de sinalizar a situação à Câmara, isto tudo calmamente e com boa educação. Pois que a senhora começou de imediato a tratar-me mal, a insultar-me, a ser super mal educada comigo... quando eu disse que estava grávida, olhou-me de alto abaixo e ainda proferiu "olhe, f***sse menos que já não estava!" e aí teve de terminar a conversa a virei costas. E será esta pessoa uma amiga dos animais, mas trata assim as pessoas. Não consigo compreender. Para mim o respeito entre pessoas virá sempre acima de tudo.
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De Sara a 07.11.2018 às 18:03

Para mim não faz qualquer sentido adoptar ou comprar um animal com a premissa que dá para devolver/livrar-me dele. Tenho dois cães e um gato, todos adoptados, e não consigo conceber um cenário onde me tenha que ver livre deles. Seria demasiado doloroso, para mim e para eles. Não sou uma doidinha dos animais, mas eles são família, ocupam espaço em casa e no meu coração. Não são descartáveis. Claro que há situações limite, mas são isso mesmo, limite. Dar o animal depois de fazer parte da nossa vida deveria sempre ser o último recurso, e não uma premissa!
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De Anónimo a 08.11.2018 às 11:49

Sou como a Sara...
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De Candy a 08.11.2018 às 11:53

Sou como a Sara...
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De M.J. a 08.11.2018 às 11:56

mas o último recurso pode existir. o que me custa é ver o mínimo de empatia por quem precisa de recorrer a esse último recurso. o discurso moralista de "entre o cão e o teu filho estão os dois ao mesmo nível". se estão para uns muito bem. mas não é exigível que estejam para todos e para quem não está é razoável e licito que se encontrem alternativas.
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De Pandora a 08.11.2018 às 12:13

Não há empatia possível. Porque esse teu último recurso é simplesmente execrável. Simplesmente aceita que não tens perfil para ter um animal. Simplifica. Não és obrigada, nem tu nem ninguém, a gostar de animais e a gostar de tratar deles, com tudo o que isso implica. Portanto, basta não ter sequer. Assim não há "últimos recursos" a ter em consideração.
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De M.J. a 08.11.2018 às 12:23

bem, antes de mais, não tenho cão, não tenho gato, não tenho piriquito. também nunca abandonei um animal ao deus dará e, na verdade, até o retirei de condições execráveis onde estava.
posto isto, ainda assim, respeito a tua opinião acerca de quem sou.
por outro lado, acredito - e não peço que respeites - que todas as situações têm alternativas. o post fala essencialmente do crucificar pessoas que procuram alternativas aos seus animais - sem os maltratar fisicamente ou de outra forma - quando não há possibilidade de os manter. e essa possibilidade existe por mais que custe a quem ame animais admiti-lo. é muito fácil chegar ao pé de um pai que não pode manter um cão por causa do seu filho e dizer-lhe que é uma péssima pessoa. tão fácil que se faz, todos os dias. tão fácil que ultimamente essa é a voz dominante. mas não é uma péssima pessoa. simplesmente a vida altera, as circunstâncias também e há opções que se têm de tomar.

mas compreendo que seja mais fácil pegar no post e só ler a parte em que eu hipoteticamente digo o que penso que faria caso me encontrasse nessa situação.
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De Pandora a 08.11.2018 às 12:31

Adotaste um cão, chegaste à conclusão que não era para ti, procuraste a dita solução. Ok, procuraste nova família e não o largaste na rua ao deus dará.
Mas se já o fizeste, para quê sequer voltar a equacionar a hipótese de ter um animal, já antecipando que o filho que vai nascer pode ter alergias e patati patatá?
A sério, poupa-te de dores de cabeça em resolver um problema que crias por capricho. Quando digo que não tens perfil para ter um animal é por aquilo que já fizeste. E equacionas repetir caso haja necessidade.
Então, a sério, para quê??
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De Maria Alfacinha a 08.11.2018 às 12:28

Não é um discurso moralista, é um discurso de bom-senso e acima de tudo compaixão. E se já pões como hipótese descartar um animal porque o teu filho poderá não se dar bem tens bom remédio: não tenhas o animal. É simples. Puro bom-senso.
Ter um animal não é, ou não deve ser, um acto impensado: é um compromisso para a vida. Se não estás disposta a cumpri-lo, sejam quais forem as razões, não assumas.
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De Sara a 08.11.2018 às 18:43

Claro que sim. Não condeno quem tenha que o fazer porque não existe mais nenhuma hipótese. Mas não deve ser por existir essa alternativa que se adopta ou compra um animal. Deve ser porque os queremos amar!!, e para isso responsabilizamo-nos por uma vida, e tudo o que isso implica: alimentar, proteger, cuidar, ter paciência quando fazem disparates...e também procurar ajuda profissional quando não damos conta do recado sozinhos. No meu caso, tive que recorrer a um treinador especializado em comportamento canino porque um dos meus cães tinha graves problemas comportamentais e estava a tornar-me a vida muito difícil. Se era mais fácil e barato livrar-me dele? De certeza. Mas nunca me passou pela cabeça tal pensamento! Não era uma hipótese. Depois de muito esforço conseguimos melhorar vários aspectos negativos no seu comportamento. E estou imensamente grata por tê-los a todos comigo neste momento.
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De Cristina M. a 09.11.2018 às 15:14

pois é, MJ...
não interessa para nada o bem explicado início do teu texto;
nem a tua frontalidade;
nem a tua humanidade.
nada.
caíste num erro: disseste que não aceitas colocar ao mesmo nível um animal e uma pessoa.
sacrílega, MJ!

bom fim de semana :-)
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De M.J. a 09.11.2018 às 15:18

não sou ingénua ao ponto de não saber quais seriam os resultados desta opinião.
quando escrevemos há muito tempo num blog sabemos exactamente o que esperar do que escrevemos :) e já há pouca gente capaz de me surpreender.
por isso tudo bem.

e como vais tu? há tanto tempo que não falávamos...
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De Cristina M. a 09.11.2018 às 15:20

é verdade.
tenho-te lido sempre :-)

tudo a correr bem contigo e com os teus!
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De Maria Alfacinha a 11.11.2018 às 13:26

Tão errada essa conclusão... 😁
Não li em nenhum comentario que animais e pessoas estão ao mesmo nível. Aquilo que li foi: se pões a hipótese de descartar, seja pela razão que for, não adoptes, ou seja, não te metas nisso. Exactamente com a mesma "frontalidade" 😁😁😁
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De Cristina M. a 12.11.2018 às 13:39

se está errada, é na sua opinião, não na minha.
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De Pandora a 12.11.2018 às 22:41

Vale a pena responder na mesma moeda: lêem o que querem ou o que lhes convém ler. Muito poderia para aqui escrever, argumentar, inclusivamente partilhar o que conheço e sei da esfera privada da pessoa que assina este blog como M.J.
Não vale a pena. Só estaria a alimentar o ego de uma mártir. Não dou para esse peditório.
Resta-me apenas seguir o meu caminho. Quando não gosto, não me identifico, saio de fininho. O que não faltam são blogs para todos os gostos e opiniões.

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