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antes de ser mãe via e lia muita mulher queixar-se que após entrar nesse estado de graça muitos dos amigos desapareciam. depois de ser mãe continuo a ler e a ver. 

indo direta ao assunto: comigo não aconteceu. não que houvesse aí gente pronta a fugir aos molhos. sou uma pessoa de poucas pessoas.

mas se acontecesse compreenderia.

porque, sinceramente, continuo sem grande paciência para crianças.

e sobretudo para as suas respetivas mães.

 

a verdade é que compreendo perfeitamente pessoas que se afastam.

e compreendo pessoas que se sentem melindradas com esse afastamento. porque muitas das vezes nem uma parte nem outra se apercebe dos motivos que levam ao esfriar das relações, ao depois falamos, ao até um dia.

e não tenho grandes problemas em dizer que não sendo a nova cria a culpada, os recém papás acabam por ser um bocado.

 

é que reparem: se a vossa/nossa vida mudou (e se mudou!) a dos outros continua exatamente igual. e é normal que eles não tenham vontade de passar horas infinitas a ouvir falar em cocós, xixis, vacinas e as coisas magnificas que os miúdos aprendem como comer sopa ou rebolar. porque -  sejamos francos - se é um assunto divertido para quem tem filhos, para quem não tem pode não ser.

na verdade, até para quem tem (como eu) pode deixar muito a desejar. 

 

sim. é verdade que ter um puto de dias em casa muda a rotina de quem somos. claro que muda. temos uma espécie de ananás que guincha o tempo todo a exigir-nos coisas. a vontade de fazer o que antes fazíamos muda. agora não podemos é exigir que a dos outros mude também e ainda ficarmos ofendidos quando não muda:

ah, se fossem meus amigos compreenderiam, ouço dizer.

e vocês? não deviam compreender o lado deles se são amigos também?

 

eu compreendo que algumas pessoas se sintam menos identificadas com a nossa nova rotina.

ou com a nossa cria. e tenho mil cuidados para que quando estamos com pessoas sem filhos não esteja constantemente a falar do puto. ou que ele esteja no centro de tudo exigindo mil atenções.

porque, reforço: eu também continuo a não ter grande paciência para os filhos dos outros. só alguma (visto que antes não tinha nenhuma).

 

há uns meses quase me auto convidei para a casa da magda e arrastei a maria (a das palavras, a seita já é antiga).

a maria desdobrou-se em cinquenta marias, mudou rotinas, alterou planos para irmos todos almoçar a casa da magda. eu estava numa euforia maluca: até que o puto ficou adoentado e a pediatra recomendou que não fizéssemos longas viagens com ar condicionado ligado.

estava um calor de morte. não podíamos ir até lisboa de vidros fechados. ou abertos.

pelo que, simplesmente, eu que me auto-convidara tive afinal de não ir. a maria e a magda compreenderam. sei que sim. mas eu entenderia se elas, mesmo que inconscientemente, ficassem magoadas. ou tristes.

porque somos todos humanos, incluindo o puto.

não houve culpas de ninguém. ele coitado, ficou doente, nós coitados não fomos passear, elas coitadas não tiveram a nossa companhia (e deve ter sido horroroso tal falta :) ). houve compreensão de todos os lados. mas deveria ser o meu lado o mais bem visto? deveria ser eu a dizer, caso elas ficassem tristes: se elas fossem minhas amigas não ficavam? isso não seria um  bocado egoísta? isso não é um argumento de crianças de dez anos que brincam no recreio e uma não deixa a outra saltar à patela (ou essas coisas novas que agora as crianças fazem)?

 

temos bastantes pessoas próximas com filhos.

e algumas sem filhos. e nós adaptamos-nos a ambas. sim. adaptamos. falamos horrores de crianças com as com filhos; mas eu tento sempre mudar o assunto com as sem filhos. vamos a locais adaptados a miúdos com as com filhos; mas eu tento que sair com as sem filhos seja a tomar cafés, passear na praia ou em restaurantes adaptados a tudo e não apenas a miúdos a correr aos gritos. 

e sou sincera: continuo a adorar sair sem miúdos. há uma parte em mim que prefere não ter de passar refeições inteiras a comer não comendo. com crianças a gritar, a fazer birras ou não deixando ninguém falar. porque é uma seca irmos a um lugar caro, querermos algo diferente e acabarmos por ter o que temos em casa mas em pior.

e mais! há aquela ideia de que "tu também és mãe. compreendes que o meu filho esteja aos guinchos há dez minutos enquanto eu falo mais alto do que ele para tentar que me ouçam".

não, não compreendo. 

na verdade, não dou muitas hipóteses ao miúdo de fazer filmes. se ele começa a dar ar de quem vai fazer birra (que as faz, a última foi por causa de dois patinhos no banho) levanto-me sem alaridos, trago-o ao colo até a um sítio sem gente (incluindo o carro) e faço o que for preciso para que se acalme.

nem que isso seja ficar 30 minutos ausente.

é que essa ausência pode permitir que o rapaz e as outras pessoas continuem a sua refeição em paz. aconteceu uma vez até hoje. quando voltámos ele tinha adormecido e não chateou o resto das duas horas em que ficamos no restaurante. e sempre que for possível vou fazê-lo. porque quem vai connosco não tem que ter paciência e compreensão para aturar as birras da minha criança.

é ótimo se tiverem. mas se não tiverem eu entendo.

 

não acho que as pessoas se afastem de propósito quando a dinâmica das outras muda.

andamos todos a mil na vida.

às vezes temos tão pouco tempo livre que é normal que o queiramos passar a fazer algo que nos agrade. e é compreensível que não nos agrade passar horas a ouvir os nossos amigos recém papás a falar dos rebentos. e que a eles apeteça imenso fazê-lo.

é normal.

o que não é normal é os recém papás colocarem toda a culpa do outro lado.

como se a vida deles ao mudar obrigasse a que todas as outras mudassem também.

 

e depois, para finalizar que isto vai longe, há uma ingenuidade enorme das pessoas no que trata às amizades.

continua-se a ver a relação com os outros como quando se andava na escola e o nosso grupo estava ali a apoiar-nos, muitos, e éramos todos uma família.

a vida adulta não é assim.

isto não é um episódio de friends (eu seria o chandler) em que todos estamos lá para todos.

na verdade, se tiverem duas ou três pessoas que estejam lá a sério são uns abençoados. basta uma ou duas pessoas que entenda a vossa cria, a vossa mudança e que mesmo sem filhos vos ouça falar durante horas sobre eles. e que mesmo sem filhos vos ofereça um garrafa de vinho e um sofá para que, no dia em que decidem que não aguentam mais a nova dinâmica, tenham um sítio onde ganhar forças.

não são precisos cinquenta. ou vinte e cinco. ou dez. basta um. 

é fixe estarem lá os outros. para sair. conviver. mostrar a vida nas redes sociais. falar. desabafar.

mas amigos a sério? não.

ou vocês têm essa disponibilidade toda para 50 amigos a sério?

publicado às 11:23


2 comentários

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De A rapariga do autocarro a 30.07.2019 às 11:45

Acontece eu não poder comparecer, acontece outros não poderem comparecer, é tão natural como o dia a dia, e não é seguramente por este aspecto que por vezes há afastamento, há afastamento porque a vida com filhos, tanto nos aproxima mais dos amigos como nos afasta, as variáveis são imensas. O mais importante é perceber quem não cobra pelas nossas falhas e sentir que não ficamos "ciumentos" com aquela amiga que afinal não pode vir hoje. Se houver uma amiga que me compreende porque o Gabriel estava com dor de barriga e decidi não ir e eu não amuar porque a "X" não veio porque "maria" fez birra o mundo continua perfeito!
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De matilde a 01.08.2019 às 09:14

Excelente forma de pensar,eu concordo contigo em todos os pontos,não tenho mais nada a acrescentar!! Espero que tu mais o teu filhote sejam felizes e espero que tenham um excelente mês de Agosto,beijinhos para vocês!!

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