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do domingo

por M.J., em 15.03.15

ao domingo o bairro enche-se de um silêncio pachorrento, que entra pelas casas, pelas pessoas, pelas árvores.

há vozes que saem melancolicamente das janelas semi abertas. no fundo do jardim um idoso passeia o cão e o rapazito com ar de demente fuma languidamente num dos bancos, olhando desconsolado o cão do velho. não sei que será feito dos dois cãezitos com que se faz acompanhar todos os dias. possivelmente, por ser domingo, também eles quiseram a sua folga.

ou morreram.

é possível.

 

a pastelaria tem menos gente do que o costume, não passam carros na estrada.

a aproveitar o sol de inverno, quente, sem vento hoje, há crianças e avós, sentados na esplanada. um catraio olha para um livro de banda desenhada, de pernas para o ar, enquanto tagarela sozinho. pedimos dois cafés. o céu está mais azul, a empregada serviu-nos com calma, desejou-nos bom resto de domingo.

 

quando regressamos a casa um miado de gaivota encheu o bairro todo.

fiquei uns vinte minutos na janela da marquise, a olhar a árvore das flores rosa enquanto esperava pelo chá. não vejo pessoas nos apartamentos da frente e, em baixo, não se ouve cão nem criança em guinchos. tive vontade de fumar um cigarro, muito tranquilamente, fazendo círculos com o fumo.

depois lembrei-me que não fumo e apressei o chá.

 

quando cheguei à sala o rapaz tinha as cortinas cerradas enquanto jogava um jogo parvo na ps4. abri as cortinas, a portada, fui à varanda ver as flores. ele seguiu-me com ar culpado, perguntou se queria ver um filme ou sair. acenei que não. gosto dos domingos em casa, a ver o silêncio do bairro. gosto que ele faça uma coisa que lhe faz sentir bem e tranquilo.

podemos estar juntos fazendo coisas diferentes. não quero exclusividade de atenção. não a consigo retribuir.

 

na rua de trás uma senhora toca violino dentro do carro, que ouço enquanto coloco o saquinho de chá na chávena. reguei a orquídea, que ainda não perdeu as flores e pensei seriamente em ir correr. não vou fazer bolachas ou olhar filmes na tv.

 

hoje vou escrever.

a senhora em baixo corta agora o silêncio com o adagio for strings no seu violino, dentro do carro.

não troco o chá por um copo de vinho.

mas era menina para lhe dar uma das orquídeas, quando ela acabar.

 

publicado às 17:00



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e agora dá aqui uma olhada