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e é isto

por M.J., em 08.08.16

não sendo pessoa de lágrima alheia fácil choro, ainda assim, por filmes, series, livros e afins. quando dou conta há uma frase, uma palavra, uma expressão que me abre o chafariz das lágrimas qual fonte ininterrupta.

sou ridícula mas as coisas são como são.

no entanto, nunca havia chorado, por exemplo, a ver notícias. a tragédia alheia, real, chega-me através de um muro, criado conscientemente, na tentativa de evitar que me magoe. não me envolve, não me dói. nunca chorei a ver refugiados na praia, crianças atiradas barco fora, mortos, feridos, guerras, rixas, futebois (tendo em conta o direito de antena do mesmo deve ter a mesma importância que tudo o resto) e afins. 

até hoje.

vai na volta e percebo - enquanto como uma salada na penumbra que isto o sol aquece e estão quarenta graus nas varandas, a embater com força nas persianas corridas, a tv ligada em fundo - que há coisas que me doem, dramas alheios e reais mesmo sem musiquinhas de fundo: a reportagem acompanhava gente em dores pelas chamas a consumir casas e postos de trabalho, vidas e esperanças. uma turba de gente chora pelo perdido, a dor de ter de recomeçar numa altura em que é difícil só continuar. vê-se literalmente um rasto de destruição e quando dou conta estou a chorar.

não ceguei mas perante a novidade podia ter acontecido. não me afoguei mas perante a empatia provocada pela dor que me chega através do ecrã era possível. e pela primeira vez senti aquela sensação de raiva cega, de certezas de rancor e vingança de gente que diz, numa descompostura lógica, que "era apanhá-los e queimá-los vivos, um por um, bocadinho por bocadinho".

um terço dos incêndios começa de noite. não falo de reacendimentos. falo de começos. no mínimo esse um terço tem mão criminosa ou, na melhor das hipóteses, negligente. na tv um senhor desolado, sentado com ar perdido, olha para o sítio onde trabalhou vinte anos e diz, com voz embargada de emoção, homem não chora mas treme, que terão de recomeçar das cinzas. 

e eu aceitaria, mesmo sem querer, que ele dissesse: "se apanhasse quem botou o fogo queimava-o com as minhas próprias mãos!".

e se me fosse possível ajudava!

 

vou parar de ver notícias e enfrascar-me em "friends", as dez seasons, até me sentir gente outra vez. 

 

gente do caralho!

oh vai ver ali:

publicado às 13:58


1 comentário

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De Maria Araújo a 09.08.2016 às 12:14


Infelizmente, MJ, há muitos anos que isto acontece, serias tu criança quando, nesta altura de verão, e até naqueles dias mais quentes e secos de outono e inverno(que já aconteceu), os incêndios começaram a ser o pão de cada dia dos bombeiros e a desgraça das famílias, porque outros interesses mais alto falaram e falam.
Há muito tempo que é hora de as pessoas não deixarem o mato ao abandono e preservarem o que é seu, limpando o que lhes pertence.

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e agora dá aqui uma olhada