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é por isso que não sou rica

por M.J., em 28.07.16

de vez em quando um conhecido, um vizinho, um antigo colega que não falava há anos, bate-me à porta, ao telemóvel, à vida pedindo conselhos, opiniões, pequenos favores, encaminhamentos, cartas e recados.

mais ou menos como uma chávena de chá, açúcar ou um raminho de salsa.

encaro com simpatia e raramente recuso. dou conselhos (que devia vender), opiniões (que devia vender), calmaria aos mais bravios, que julgam que um tribunal faz milagres e dá um pote de ouro por cada sentimento de ofensa, cartas, mails, telefonemas e pombos correio, se ainda os houvesse.

nunca cobro nada.

levo a coisa como uma espécie de madre teresa de calcutá em reconhecimento de causa. defesas de contra-ordenações, cartas de despedimentos, cartas de dívidas e enfins. perco tempo, horas de vida que corto dos meus hobbies e entrego com um sorrisito ao canto do lábio.

quando o rapaz me olha com descrença justifico sempre com um favor antigo que me foi feito pela pessoa em causa. aquele dia em que me convidaram para tomar café, quando me sentia em baixo, aquela gargalhada que me provocaram, ou até o bom dia nas escadas.

é ridículo, bem sei. ninguém pede um favor a um taxista sem lhe pagar no fim. ninguém pede um favor ao senhor do hotel, sem lhe dar pelo menos ajuda para as despesas da cama. ninguém pede favor ao amigo do restaurante sem perguntar quanto é. a maioria assume que o conhecimento é um dado adquirido, que fazer certas coisas demora pouco tempo e até mesmo há quem acredite, às vezes, que não faço mais do que a minha obrigação.

é mentira e sabemos isso. sei disso todas as vezes que percebo que podia exigir dinheiro ou canalizar o tempo para esse mesmo dinheiro. depois percebo que esta é uma tentativa de agradar, de venda de mim própria, na esperança de ter amigalhaços ainda que, nalgumas pessoas, não as quisesse nem como colegas.

uma contradição.

juro que nem me chateia não receber nada. muitas das vezes nem aceitaria. o que me dá uma revoltazita no calcanhar é não haver sequer o cuidado da pergunta. o cuidado em questionar se a pessoa que trabalhou vai cobrar por isso. o sentimento de "ela faz, pois claro". 

como aquelas pessoas que, vindo jantar a nossa casa, não se dão sequer ao trabalho de perguntar se é preciso trazer alguma coisa, seja uma garrafa de auga da torneira, seja três maçãs com canela para a sobremesa. 

possivelmente, sou só eu que sou uma coninhas cheia de hormonas a levar a peito coisitas sem sentido: era só recusar, não é?

publicado às 10:00


22 comentários

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De Olívia a 28.07.2016 às 10:16

Não, não és a única. A maioria dos contabilistas - onde me incluo - afirma que se fossemos como os advogados seríamos ricos, porque passamos a vida a trabalhar praticamente de graça... tal como dizes, na maioria das vezes o que chateia é que a pessoa nem pergunta quanto deve, nem oferece nada... um valor simbólico, nada de nada... muitas vezes nem um agradecimento em condições se recebe.
E pensamos que na próxima não voltamos a fazer o mesmo. E vai daí, voltamos a fazê-lo.
Sim, tal como tu, também eu nunca serei rica.
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De M.J. a 28.07.2016 às 10:49

bem, pelo menos não me sinto tão sozinha na "parvoíce".
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De Gaffe a 28.07.2016 às 10:46

Tantas! Foram tantas as vezes que me aconteceu o que descreves, que decidi aumentar brutalmente os meus honorários.
Só gente rica e sou como um dos mais famosos psiquiatras da nossa praça: antes de me ver, pagam metade por multibanco e o resto antes de prostrarem na minha frente.

Bistezes?
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De M.J. a 28.07.2016 às 10:50

vou fazer o mesmo.
vou tentar, vá.

(quer dizer que me ias exigir sangue, cabelo e suor se precisasse dos teus serviços? ora bolas! e eu que andava toda convencida :D )
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De Gaffe a 28.07.2016 às 10:54

Marcas com a secretária, pagas metade por multibanco, o resto quando apareceres na recepção para ficares a saber que adiei a marcação.

Sou uma cabra rica.

(forneço o sangue)
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De M.J. a 28.07.2016 às 11:00

ai é assim?

AI É ASSIM?

pois fica sabendo que não mexo um pintelho quando te processarem por ofensas à horna por aquilo que vais escrevendo por essa internet fora.
toda a gente sabe que tu persegues gente de bem!

já andava a reunir todo um acervo documental e tudo.

nunca diga uma pessoa que tem amigos.
BHA!!!!!!!
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De Gaffe a 28.07.2016 às 11:22

Minha cara,
1º - Para que hás-de tu mexer essas coisas? Não é agradável andares a sacudir isso.
2º - Persigo gente de bem, mas só a que se depila.
3º -Podes enfiar o acervo onde te aprouver, desde que documentes o processo e mo envies para prova futura - ou lá como se chama o video.
4º - Já te disse que tenho amigos foleiros? ...

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De M.J. a 28.07.2016 às 11:33

amigos foleiros?
deixa! pelo menos tens amigos.
os meus, por exemplo, querem exigir-me dinheiro para perceber o que vai nas minhas mamas caroçudas!
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De Gaffe a 28.07.2016 às 11:40

...
... eu pago a estes ...
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De M.J. a 28.07.2016 às 12:08

AHAHAHAHAHHA
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De Susana a 28.07.2016 às 10:57

Com os arquitectos a mesma coisa: ai como se faz isto, ai como se entrega aquilo, ai a Câmara mandou-me uma carta vê lá tu que eu não sei o que eles querem...E perguntarem se podem oferecer um café ou pelo menos agradecerem está quieto!
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De M.J. a 28.07.2016 às 11:06

irra!
parece que o pessoal assume que o conhecimento não tem preço, literalmente.
dass!
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De Teresa Almeida a 28.07.2016 às 11:21

Há mais de 40 anos, uma esteticista dinamarquesa que 'acampou' na minha terra, dizia-me indignada que não percebia este povo, que fazia marcações e faltava como se fosse a coisa mais natural da vida; na 'terra' dela, ao marcar consultas, tratamentos, etc. pagava-se metade; se faltasse sem aviso prévio, perdia o adiantamento...
Nunca tive o hábito de pedir «favores» a profissionais; mas já tive uma profissional da medicina, minha vizinha, que me ofereceu os seus préstimos para ver se o meu piolho mais velho estava em condições de regressar ao infantário (eu escusava de ir para a pediatra do puto ao fim do dia e o crianço até tinha sido contagiado pela filha dela...), viu-o na mesa da sala sobre um lençol pifado no pediátrico (tinha os carimbos HP) e levou-me mais que a médica onde eu não fui por sugestão dela...
Essas é que têm juízo!
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De Gaffe a 28.07.2016 às 11:23

Convém não generalizar.
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De M.J. a 28.07.2016 às 11:34

sim, convém.
também conheço muito colega que exige pagamento à cabeça e aconselha gente a ir para tribunal porque a vizinha de baixo diz que "V. Exa tem uma cabeça que é um mamarracho".
há de tudo, como na farmácia.
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De M.J. a 28.07.2016 às 11:33

boa ideia! mesmo muito boa ideia!
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De Just_Smile a 28.07.2016 às 11:53

Sofro exactamente do mesmo problema... E é o que dizes, provavelmente nem aceitaria dinheiro, mas a verdade é que o darem por adquirido que o faço por fazer custa me mais do que não receber...
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De M.J. a 28.07.2016 às 12:09

é a analogia com a velha história do "não foi o que disseste, foi como disseste".
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De sarabudja a 28.07.2016 às 12:33

Só não concordo com a parte dos convidados não perguntarem se devem levar alguma coisa.
Bem sei que faz parte do bom senso, mas quem cá vem é muito chegado e sabe bem que, se quiser cá chegar com alguma coisinha, fixe, se não, a coisa não me apoquenta.
Levo sempre qualquer coisa, mas nem sempre comida. Gosto de levar inesperadas coisas para a criançada. Ou coisas que sei que os meus amigos precisam no momento (a saber: o auricular que substitui o que está avariado e tanto me enerva durante as conversas; o baralho de cartas que faltou da última vez que lá fomos; o pão da padaria perto dos meus pais que traz memórias da adolescência...)

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De M.J. a 28.07.2016 às 16:05

olha que magnificas ideias!
acho que vou roubar!
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De Ricardo_A a 28.07.2016 às 14:21

É curioso como o trabalho intelectual é encarado de forma diferente do que a venda de um bem físico. Um parecer de um contabilista, de um advogado ou de um médico é uma coisa incorpórea. Não se vê. Escuta-se. E há quem não perceba que aquele conselho custou horas de vida (naquele momento ou no passado, a estudar).

Faz-me lembrar a conhecida história:

Um industrial da nossa praça, tendo problemas com um equipamento informático, decidiu chamar um técnico. O técnico chegou, deu duas voltas ao equipamento e com uma simples chave de parafusos, deu 1/4 de volta num parafuso, tendo o equipamento ficado a funcionar perfeitamente.

Passados dias, chegou a factura. Tinha como descritivo "reparação informática - 1.000€".

O nosso empresário, achando a factura demasiado alta para um simples quarto de volta num parafuso, decidiu solicitar uma factura discriminada. A nova factura que chegou já tinha duas linhas:


Apertar 1/4 de volta no parafuso - 1 €
Saber qual o parafuso a apertar - 999€

A factura foi paga.
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De Gaffe a 28.07.2016 às 15:22

Picasso enfureceu-se quando lhe disseram que um dos seus traços milionários levava dois minutos a fazer.
Aos gritos, respondeu que aquele exacto traço tinha levado sessenta anos a fazer.

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e agora dá aqui uma olhada