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em cabo verde... #1

por M.J., em 31.05.16

amanhecia tão cedo que, quando me levantava efectivamente, às sete e meia da manhã, já era tarde.

as nuvens corriam no céu à velocidade dos sorrisos. a vida repartia-se entre piscina, sol, praia e livros. estou agora a escamar pele no nariz e a diferença de cores no meu corpo, entre a pobre da pele que apanhou sol e a que não apanhou é tão grande como aquela senhora que vi no avião, na volta, com a cara preta e todo o redor dos olhos absolutamente branco, dos óculos.

juro que se me visse assim ao espelho tentava, no mínimo, uniformizar a coisa com base e, no máximo, nunca mais tirar os óculos de sol. nem no banho. ou na cagadeira.

 

no dia em que saímos do hotel, turistas armados em bons, água na mochila, em cima de uma pick up tivemos a sorte de encontrar um guia fantástico que nos fez partilhar a viagem com mais quatro pessoas.

não falava mais do que o estritamente necessário nem vendia banha da cobra.

as coisas eram como eram. agrestes. abafadas na sua aridez. sem nada. excepto cabras, areia e blocos de cimento.

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todas as cabras têm uma marca, disse-nos ele, mesmo aquelas que vagueiam sozinhas. algumas trepavam até ao hotel, para gáudio da turistada que lhes dava pão até vir um funcionário expulsá-las.

na primeira povoação onde paramos percebi que tinha a bexiga a dar de si. as possibilidades não eram muitas. tinha as casotas dos senegaleses que nos queriam impingir coisinhas à força. "bares" com matraquilhos e pessoas às portas. e cães, muitos cães, quase tantos como as cabras, deitados por ali.

depois de ponderar ir atrás de uma moita, encontrei casas de banho ao fundo da povoação (velha). à entrada uma senhora com uma criança ao colo disse-me somente "um euro". estendi-lho a assumir que se pagava. o guia disse-me depois que não. mas percebi, na mesma altura, que numa ilha onde o salário mínimo é de cento e cinquenta euros, um euro para mim não fazia grande diferença e para ela podia fazer toda.

não me queixei.

quando voltamos a circular, no meio do deserto, areia, pedra, areia e mais pedra, um castanho constante a inundar as vistas e a alma fui aos poucos deixando-me inundar por uma pequena depressão. era então aquela ausência de árvores e verde, de pessoas e cores que me fazia sentir abafada, pequena e ao mesmo tempo esquecida. de vez em quando, no meio do nada, como que ali plantados da mesma forma que as pedras, homens mandavam com enxadas no chão. ou picaretas. não sei. não percebi o motivo mas assumi o calor nas costas, a aridez, a desolação de tal trabalho.

meia hora depois a praia de santa mónica quebrava o castanho, num nome em desrespeito pelo local (o nome original da paria era "curralinho" até alguém se lembrar que santa mónica, por ser mais parecida com os states era melhor).

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o turista é impiedoso. apropria-se das pessoas, dos lugares e muda-lhes o nome. encolhe os ombros. dá trabalho aos locais, mata-lhes a fome e por isso pode mudar nomes antigos, alterar demografias e circular com a cabeça erguida de "quem faz o bem sem olhar a quem". sempre com muito boas intenções para conhecer e ajudar a povoação. como aqueles meus colegas de viagem que, na povoação em que paramos antes da praia, entraram dentro do jardim infantil e escola primária, com ar curioso, pouco se importando se aquelas crianças mereciam a privacidade de estarem a ter aulas. apenas porque podiam. apenas porque eram os turistas e, logo, podiam entrar, fazer perguntas, interromper e tirar - meus deus, nem acredito - fotografias, assim, num constante ininterrupto de flashes. 

aos poucos, a alteração da paisagem, ora castanho seco ora verde do mar foi-se-me entranhando até aos ossos. sentia-me asfixiada, um pouco calcada pela dimensão maior do que eu.

almoçámos num restaurante local. os meus colegas de viagem encetaram conversas com o guia. uma beleza que só visto. diziam coisas como "ah, lisboa sabes, a capital, uma cidade muito grande..." ou "nós também temos ilhas, sabes, os açores, que são um arquipélago formado por ilhas..." explicando as minúsculas coisas, como se o guia não tivesse televisão, como se não passassem os nossos canais por lá, como se eles não falassem o português e como se fossem de tal forma incultos que não soubessem o que eram os açores.

o almoço caiu-me mal. 

a tarde não melhorou grande coisa.

publicado às 13:50


4 comentários

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De M&Ms a 31.05.2016 às 14:39

Tiveste um cheirinho de África. E é mesmo assim. Uma mistura de sentimentos.
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De Nathy ღ a 31.05.2016 às 15:24

Ahhh estiveste na Boa Vista :) Não conheço. Apenas conheço 3, e a minha é a melhor
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De Maria Araújo a 31.05.2016 às 18:11


O português acha-se o maior em terra de "estranhos".
Acabam por ser eles os estranhos na ilha.
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De Cristina a 31.05.2016 às 22:57

Credo MJ! Mas que gentinha essa como companhia de viagem?? Diria que, xiça!

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e agora dá aqui uma olhada