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era uma vez uma história triste #2

por M.J., em 12.07.16

maria e zé nunca casaram.

que não era preciso dizia o zé. que a vida a dois não se compadece com formalidades. que o amor vive enquanto vive e não é um papel que o legitima. que as assinaturas matam a paixão e o compromisso maior é dos dois, não da sociedade e até têm ana, seis anos de vida, dentes da frente a cair, a comprovar amor maior que o peito, a transbordar em cabelos com totós e saias de veludo. 

a mãe da maria diz-lhe que se case. podem até fazer o baptizado ao mesmo tempo, festa mais linda, a ana a levar as alianças, pequena noiva ao lado da mamã, amigos e avós, tios e primos, flores e branco, arroz e água benta.

o zé não quer. ana há-de escolher a religião quando quiser e souber a noção de escolha. 

maria acede.

vivem na mesma casa, chama-o de marido. as questões práticas são resolvidas. partilham a vida e o dinheiro. não se pensa quem paga o quê, ambos trabalham, a conta é dos dois, a casa e o empréstimo, o carro comprado com dinheiro junto, no nome do zé que é quem trata dessas coisas.

o zé cria uma empresa. gere um restaurante. a maria não entra nos papeluchos, não é preciso, nem são casados, que bom, não há assinaturas a mais, uma maçada. passa lá as tardes de domingo e as noites da semana, trabalhando numa fábrica durante o dia.

casa-te, diz-lhe a mãe preocupada, afinal o que é de quem?

dos dois, diz a maria, casada em coração, que até queria um papel mas não é preciso, o amor é forte e há uma filha, ali herdeira a garantir o património futuro.

o zé chega a casa um dia e anuncia separação.

então e a casa? pergunta maria. minha, responde zé, empréstimo quase pago, o nome dele ali sozinho, no dia do registo não foram os dois, uma maçada que maria dispensou.

então e o carro? pergunta maria. meu, responde zé, o nome dele, no dia da compra foi sozinho, maria nem liga a veículos, ainda usa o velhinho que o pai ofereceu.

então e o restaurante? pergunta maria. meu responde o zé, a firma é dele, o arrendamento também, até o nome "restaurante "o zé", não zé e maria.

o amor não precisa de papéis, dizia o zé e também maria, na convicção maior para calar a mãe. 

ah, se tivesse um papelito, responde-lhe o advogado! tão mais simples, tão mais rápido, tão mais barato na ruptura dos negócios da vida quando os atropelos do amor calcam compromissos de vontades. 

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publicado às 14:00


15 comentários

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De sarabudja a 12.07.2016 às 14:15

Aqui me assumo dessas tontas que acha que os sentimentos devem falar mais alto do que as leis dos homens. Que palavra dada é tão válida quanto escritura lavrada.
Pffff... bem sei que num sopro nos transformamos em desconhecidos e o que eu digo e não escrevo e não assino, pode ser calcado ou posso calcar.
Gostava que o Zé se lembrasse por que teve a Ana com a Maria. Por que viveu com ela e dos planos que fizeram apesar da falta de papéis, escrituras ou contratos. Gostava que o Zé pudesse olhar nos olhos da Maria e ainda que não encontrasse mais amor para lhe dar, não tivesse que os baixar por não se reconhecer na angústia e desilusão dela.
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De M.J. a 12.07.2016 às 14:18

a questão minha querida é que há poucos zés que saibam fazer o que dizes.
o mundo está repleto dos outros e há sempre uma circunstância que justifica as opções mesmo quando a consciência grita um bocadinho.
conheço tantos zés e tantas marias que posso dizer, sem pejo, que a maoria deles não pensa na ana.
a maioria deles grita ao mundo e a si próprio que ama a ana mais que tudo mas não tem escrupulos em usá-la depois, para atacar o outro.
mesmo que diga, acreditando nisso, estar disposto a morrer pela ana mata-a um bocadinho no egoísmo do desamor e frustração.
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De sarabudja a 12.07.2016 às 14:28

Eu bem sei que há vida para além desta minha cabeça de desenho animado para meninas dos anos 80.
E conheço algumas pessoas capazes de chafurdar bem rasteiro na lama dos sentimentos, no esgoto da decência e esquecer-se de quem foi, de quem amou, de quem deve a garantia de ver zelada a sua integridade.
Calhou-me uma profissão à minha medida: trabalho no reino da pequenada, com pequenada e, apesar de tudo assentar em experiências que proporcionam adquiri alguns conhecimentos, há também um lado menos real e com muitas piadas à mistura (mais pela pancada grande que me sustenta, do que pelo cargo em si) e vivo muito longe dessa tua realidade. Todavia, como contacto com os pequenitos, vou percebendo que há muitas Anas que cá chegam, filhas de Zé e Zézas, Marias e Mários.
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De M.J. a 12.07.2016 às 15:05

pobres dessas anas.
serão a maioria.
tenho a certeza.
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De p a 12.07.2016 às 14:27

Brutal.
Muitos zés e marias que não têm um papelinho, mas que até têm um filhinho assumem de peito cheio que o mais importante é a criança, mas na hora da verdade não hesitam em usá-las como verdadeiras armas de arremesso contra o outro (então se for a maria a desertar...o zé há-de fazer trinta por uma linha para não pagar a pensão de alimentos que mesmo que seja de 100€, acabará por facilitar a vida da maria, e isso nunca! Nem que daí resulte todo o dano e mais algum à criança, que não nos esqueçamos é a mais importante no meio disto, ou deveria pelo menos).
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De M.J. a 12.07.2016 às 15:07

extamente isso. e depois tens a maria que, na luta pelos cem euros de pensão de alimentos, fala mal do zé à frente da ana, grita impropérios e coisitas, recorre a estratégias e convencimentos de que sem dinheiro não há visitas, de quem sem dinheiro não há pai e se o o zé não a ama a ela também não é merecedor de amar a filha.
há sempre dois lados nestas questões e a culpa divide-se proporcionalmente. quando um começa o outro acaba. sempre gritando, a plenos pulmões que daria dois rins pela felicidade dos filhos.
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De p a 12.07.2016 às 15:52

Sim, sem dúvida que há dois lados (igualmente maus): as maria são habitualmente espetaculares nisso de convencer as anas de que o pai não presta e que agora não podem estar com ele que ele é mau e não ajuda na sua criação e beca beca beca...
Pela experiência do meu "zé" que trabalha nisso o habitual vem sendo: o pai não paga, a mãe aliena a criança. Mas querem o puto feliz (só que não obviamente, não conseguem ver além de si mesmos) Na verdade não sei se também eu conseguia. Espero que sim.
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De Vivian Barbosa a 12.07.2016 às 14:34

É muito triste mas é o que realmente acontece, o amor pode acabar e as juras que os uniu também. Beijinhos ...
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De M.J. a 12.07.2016 às 15:08

não é só amor.
é o respeito pelos tempos idos, a compostura e a empatia. tudo isso se perde.
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De DuvCertezas a 12.07.2016 às 14:48

Estes zés do mundo são tantos... tanto adoram e bajulam as marias como de repente elas se transformam em pó, muitas vezes porque aparece outra maria, que é diferente, mas por pouco tempo. Não entendo mesmo esta capacidade e facilidade de pisar, humilhar e desrespeitar quem tão bem lhes fez... é este o nosso mundo, valham-nos as exceções.
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De M.J. a 12.07.2016 às 15:09

também há as marias que, depois, na sua frustração, desamor e dor da perda usam as anas, conscientes de que não o fazem, para atacar os zés.
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De DuvCertezas a 12.07.2016 às 15:26

Verdade, não querendo desculpar porque é sempre muito injusto com as anas, mas a dor e raiva por vezes tolda-lhes a razão
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De nervosomiudinho.blogs.sapo.pt a 12.07.2016 às 16:33

Triste.
Por vezes o casamento não ajuda, haverão zés na mesma, e o que prejudicam andará perto disso, e que nunca pagarão um cêntimo de pensão de alimentos. E haverão Marias honradas que apesar de prejudicadas nunca usarão filhos para guerras, e nunca dirão nem uma centésima do que os zés fizeram até muito depois da maioridade.
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De Mula a 13.07.2016 às 00:43

E às vezes nem é preciso ser a separação... Às vezes uma morte inesperada do Zé, que faz com que os outros herdem aquilo que é da Maria que oficialmente tem zero...
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De Alexandra a 13.07.2016 às 15:33


Há também histórias de Zés e Marias casados, em que o Zé se enche de dívidas em negócios (que são teoricamente dos dois), divorciam-se e a Maria fica responsável por pagar metade do que nunca foi dela. Já se cruzaram comigo umas quantas mães "insolventes" graças a dívidas que desconheciam.

Pena que o respeito, a confiança e o carácter não sejam a norma entre Marias e Zés, com ou sem papéis, com ou sem Anas pelo meio.

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