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estou além

por M.J., em 13.06.16

um dia, depois de uma visita à ilha, em que fiquei prostrada numa pequena depressão, a tentativa de ultrapassar o castanho seco que me abarcava o horizonte, paramos no centro para comprar as tradicionais lembranças. 

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estava cansada, chateada pelo dia inteiro de imensidão árida e do convívio forçado com os meus companheiros de viagem.

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queria a piscina, o hotel e não me apetecia perder mais dois minutos que fosse para andar no meio do que não conhecia nem sabia e me parecia distante e pobre, pequeno e desgraçado.

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uma hora depois, no reencontro com o guia para voltar ao hotel, uma das colegas de viagem ainda não aparecera acabando por mandar uma mensagem a dizer que estava atrasada dez minutos e se podíamos esperar por ela.

chateada, acabei por desabafar como estava farta e queria voltar para o hotel.

o guia, olhando-me sem entender, depois de termos lanchado há uma hora, o mar ali ao lado, sentados num muro de pedra com vendedores em frente, perguntou, sem ironia ou sarcasmo, um português com pronúncia de simplicidade:

- tu tem algum compromisso? 

não tinha.

não poderia ter. 

não tinha compromisso ou fome, sede ou necessidade de estar noutro lado qualquer. havia um céu do tamanho do mundo num mar que se perdia no horizonte e correra o dia a sentir água quente nos pés e a dar conta da imensidão da vida.

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depois, cheia de vergonha, acabei por concluir que não tendo a capacidade de lhe explicar a minha ânsia, já alguém se debruçara sobre ela.

tão triste ser assim. 

 

publicado às 10:31


3 comentários

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De sarabudja a 14.06.2016 às 17:03

É mesmo essa simplicidade que faz dos felizes, felizes.
Essa sensação de que se pode saborear nada, quando nada se tem para fazer, ninguém nos espera e nos temos por companhia.
Essa simplicidade tão complicada de alcançar. Coisa de meninos, coisa de gente que vive feliz só porque sim, porque não sabe que pode haver mais, ou nem sequer quer saber, porque mudar dói muito. A fé, na vida, numa divindade, nas coisas simples, é coisa demasiado grande para quem almeja saber e conhecer. Só a entrega pode abrir essa porta. É tão difícil despir o que se é, ainda que se saiba que se se fosse diferente a felicidade seria mais presente.
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De sarabudja a 15.06.2016 às 11:11

E o que eu gostava de ser simples. Não é de saber ser simples. É de não saber e ser simples.
O que é do conhecimento, esbarra no natural e espontâneo.
Nesse arquipélago dei por mim a ser menos complicada, mais contemplativa. Dias houve, de certo, em que fui simples. Talvez naqueles em que me deitei cheia de tudo, ainda que tenha tido nada ou quase nada como ocupação.
Ando desencontrada dessa criatura que às vezes sou. Junho, dias cinzentos e cansaços acumulados nunca fizeram de mim muito simples ou feliz.
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De M.J. a 15.06.2016 às 11:16

às vezes perco as palavras no que te leio.
não sei acrescentar nada além da total compreensão.

junho nunca me foi um bom mês.
doeu-me sempre mais do que qualquer um.

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