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eutanásia

tem limões no cu? esprema-os e deixe os outros espremer a vida também.

por M.J., em 18.02.20

há algum tempo que optei por não ver telejornais. sou assinante do expresso e vou lendo as notícias - já tudo o que seja opinião dispenso - diariamente. 

tirando isso acabou.

não consigo lidar com a quantidade de coisas que todos os dias passam na tv e assusta-me a proporção que as coisas tomam e o caminho para onde vamos.

dispenso essa ansiedade pelo que recuso assistir à merda do mundo onde estamos inseridos. 

é uma medida de self-preservation.

 

por outro lado não escrevo neste blog sobre temas fraturantes há anos.

sinceramente não tenho nada a acrescentar ao que toda a gente já diz.

não sinto que vá dizer nada de útil ou importante. e é por esse motivo que também não comento redes sociais (praticamente) a não ser em coisitas corriqueiras ou que me façam rir.

desisti de tentar dizer algo num tempo em que todos temos algo a dizer e gritamos muito, quase em cima de escadotes, para que todos nos ouçam quando, na verdade, ninguém quer ouvir ninguém porque estamos todos muito ocupados a gritar também.

uma consumição.

 

ainda assim, hoje não consegui.

é sobre o tema da eutanásia e tenho pouco a dizer a não ser uma pergunta:

as pessoas que são contra, que se sentem no direito de dispor sobre a vida alheia vão buscar os argumentos onde? ao intestino delgado ou ao grosso?

porquê esta coisa de que mando na minha vida e na vida alheia?

acharão, por acaso, que se a eutanásia for permitida vão desatar a matá-las enquanto fazem as compras semanais no supermercado?

acharão, por acaso, que se for permitido elas vão morrer assassinadas enquanto pensam se compram papel higiénico marca branca ou do outro em promoção?

pelo amor das vossas cuecas!

que pensamento vai na cabeça de alguém que se acha no direito de decidir sobre a morte dos outros? 

 

ontem passei-me como não me passava com este tipo de coisas há anos.

numa conversa que eu nem queria ter sobre o assunto.

numa conversa em que me mantive calada praticamente o tempo todo, fingindo que não estava ali, enquanto deliberadamente via coisas no telemóvel. 

mas acabei por explodir depois de ser provocada para o efeito:

que não, dizia-se, que nunca poderá ser permitido em pessoas com doenças mentais.

e nessa altura senti uma espécie de nojo acentuado no estômago.

uma vontade de desatar à murraça até a pessoa perceber, na sua pequenez, que não tem o direito de decidir que uma doença é mais causadora de sofrimento que outra. e aquela que não se vê pode ser mais incapacitante, mais dolorosa e mais terminal do que a outra visivel a olho nu.

- credo, que ainda sinto fumos ácidos na barriga. -

senti algo que não gosto de sentir.

uma revolta cega por me lembrar dos tempos em que também eu quis morrer e não me deixaram.

e por mais que o tempo passado e as coisas tenham mudado e eu esteja aqui hoje, na situação em que estou, aquela, naquela altura, era a minha decisão e ninguém - ninguém na altura nem ninguém hoje - tinha o direito de decidir por mim.

nem família, nem estado nem a puta que pariu quem seja que ache que pode dispor sobre o destino que quero dar à minha existência.

 

e nem sequer vou estar aqui a rebater argumentos de deus, pátria e família, de médicos que não o queiram fazer ou do bem supremo que é a vida.

porque simplesmente deixei de ter paciência para trocar ideias com gente que não percebe que nenhum médico é obrigado a fazer o que não quer - chama-se objeção de consciência-; se acreditam em deus é uma decisão vossa por isso limitem-se a seguir para vós aquilo que acreditam sem o impor aos outros (eu acredito no harry potter, são coisas); e a vida só é um bem supremo quando é realmente vivida e não quando se cola a nós como água a ferver, nos rói a alma e nos faz sentir que é uma tortura em vez de uma bênção.

 

o que eu gostava mesmo de perceber é o que vai na cabeça de alguém que acha que para além de decidir sobre os seus dias merdosos tem de decidir sobre a merda dos dias dos outros. 

"porque o suicídio é permitido", dizem-me os mesmos que são contra a eutanásia, "portanto, se querem morrer que se matem".

e essa é a humanidade, a tolerância, o altruímo que lhes permite decidir sobre a vida alheia!

oh inteligentes concebidos na ponta de um corno: é isso que que quem o decide quer fazer: matar-se.

só que com alguma dignidade.

e com a possibilidade de deixar de sofrer sem ser desfeito aos pedaços na frente dum comboio. 

porque sim, é muito melhor para a família ir apanhar dedos e cérebros desfeitos numa linha férrea, do que despedir-se da pessoa que não quer viver mais com uma réstia última de dignidade.

 

santa paciência.

foda-se que esta gente parece que tem limões no cu. 

 

p.s. - tinha-me esquecido que já tinha escrito sobre o assunto há anos. e na altura, mesmo sem falar em limões no cu, expliquei-me muitíssimo melhor:

se não me tivessem obrigado a permanecer, há uns anos atrás, não seria agora. não vos diria, não escreveria, não sentiria o sol no corpo. não saberia o valor do amor. não saberia da minha capacidade de amar.

teria sido um desperdício, bem sei.

mas seria o MEU desperdício. e só eu tinha direito de decidir sobre isso. 

 

 

publicado às 10:11


4 comentários

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De Cat a 18.02.2020 às 11:01

Eu vou ser honesta: sou dessas que diz que não se deve permitir eutanásia para doente mentais. Mas a minha justificação nada tem a ver com o sofrimento, que para mim, tanto é igual para uma dor física com uma dor mental (não sei se esta expressão está certa)
Para mim, tem mais a ver com o estado de consciência de uma pessoa. Quem garante que uma pessoa está em pleno estado de consciência para tomar uma decisão dessas? Como se pode avaliar se não é só a doença "a falar"?

Desculpa se isto te deixa outra vez com nojo no estômago, só quis transmitir outro ponto de vista.

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