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há bananas em janeiro

por M.J., em 19.02.18

confesso: sigo o festival da canção.

talvez tenha parado de ver ali nos anos em que a luciana abreu foi de saia esquisita e gritos lancinantes acompanhada de um mocinho de voz grossa, representar-nos.

mas cresci na popularidade do festival, na madrugada do depois do adeus, no filho feito por gosto, no silêncio e tanta gente (a minha preferida de sempre), e etecetera, etecetera.

 

no ano passado apaixonei-me pela música dos manos sobral.

achei mesmo que a inconveniência do moço, a irreverência, aquele transmitir de "que raio estou eu a fazer aqui em vez de fumar umas brocas?" eram refrescantes e acabavam com a piroseira dos anos anteriores.

é claro que o português do fado, fátima e futebol (e agora da kizomba) não gostou. uma nabice, clamaram as vozes, onde já viu, gritou o mundo. ainda se fosse a sabrina e o emanuel!

ou o grande toni, com os seus originais!

não foi e o moço ganhou.

e eu vivi a coisa como um fanático do futebol quando portugal ganhou com os golos do outro (que isso nem vi) e fez o país andar num corropio de felicidade.

 

depois o moço irreverente passou-se um bocadinho da moina.

entendi.

condicionantes de saúde, a irreverência marcante, a vontade de demonstrar genialidade.

soltou o comentário do peido no meio de um espectáculo de solidariedade em que se queria fadinhos e vozes elevadas a deus e portugal levou a peito. eu não fiquei especialmente ofendida (fiquei mais com a ideia do português que adora caridade de sofá) mas achei que aquela imagem de irreverência começava a deixar de ser engraçada e genial e transformava-se numa espécie de... tontice.

o moço é tonto, concluí.

e esqueci o assunto.

 

ontem assisti ao festival da canção enquanto dobrava meias (foi nada. não há aqui tanta meia em casa que permita um serão inteiro delas). 

e em boa verdade... nada de novo. perdi-me até em quatro ou cinco lá pelo meio. 

gente estranha, mais do mesmo, nada de muito interessante. uma fulana relembrou músicas passadas, outra gritou em viva voz, outros, enfim, adiante.

mas falo dos que me lembro:

 

o cid

o cid apareceu como o cid a lembrar fadinhos e almas de povos, perdido num tempo em que o el rei dom sebastião era um hit.

não me interpretem mal. gosto do homem. sério. canto de cor uma data de canções do senhor e, apesar de não me arriscar a ficar na frente dele num concerto sem capa insuflável ou guarda-chuva, acho que há uma certa piada no que ele cantou em tempos.

não no que ele insiste em inventar de novo.

e aqueles lencinhos ao ombro dos guitarristas eram qualquer coisa que a minha avó aplaudiria com gosto. 

 

a anabela

a anabela apareceu vestida de anos noventa de braço no ar, a lembrar que evoluímos mas os gestos atrasados permanecem.

gritou que se desunhou e fiquei à espera de um bailinho ali no meio, com cinco lavadeiras a gritar o malhão.

até gosto do tordo mas aquilo não era coisa que se pudesse aplaudir. 

 

o palma

o palma encontrou o filho há muito, muito, muito tempo perdido.

ponto de ordem nisto: adoro o palma. acho-o absolutamente genial. há músicas dele que são hinos na minha vida. e a de ontem não desiludiu. simples, sem merdinhas, sem tentativas de ser o que não era.

reconhecia-se nela palma do princípio ao fim e creio que seja isso o que o distingue no que compõe: é ele.

o mais interessante foi que quem a cantava poderia ser ele.

a personificação de um e outro. confesso que gostei.

 

o resende

houve uma moça que apareceu vestida de carnaval.

e aqui já se esperava.

depois da onda de aceitação da irreverência e da personagem do ano passado, esperava-se que este ano acontecesse o mesmo.

pois meus senhores, gostei da música.

a moça tinha uma voz magnifica, a canção era linda e não podia ficar alheia ao facto de o resende estar por trás.

sou apreciadora de júlio resende desde há muito e isso influencia o meu gosto por esta moça.

ainda assim, o vestido de carnaval atrasado e a imagem de que andou a brincar com a maquilhagem da mãe era, na minha opinião, dispensável.

não que o festival não seja uma paroleira. mas porque a música merecia melhor.

 

o peu

claro que não se podia dispensar um novo frei hermano a cantar ao senhor dos passos.

ou à senhora da saúde.

por isso, é evidente, ele apareceu em peu qualquer coisa.

sim, um dos moços chamava-se peu e cantava como quem reza um salmo ao domingo, numa igreja meia vazia.

enfim, pensei, quando o ouvi. se não for o cid, é este que tem a pontuação máxima do público: depois de termos um fulano na eurovisão que fala em peidos no horário nobre, a única forma de nos redimirmos é mandar um que diga cinco avé marias antes de ir à cagadeira

e não é que acertei?

 

o j.p. simões

 

fabuloso.

e nem venham com merdas que se trata de elitismo e nhé, nhé, nhé.

a música é fantástica, o homem é genial e por mim, se ele quisesse e eu pudesse, comprava-o como meu melhor amigo para os próximos cinco anos.

é claro que a coisa psicadélica das luzes podia provocar uns ataques de epilepsia a muita boa gente.

e ia contra os ensinamentos do santo salvador de que a música não é fogo de artifício.

no entanto, podíamos perfeitamente perdoar dois ou três ataques mal feitos pelo bom que provoca em quem gosta. 

 

o janeiro

estava fartinha daquilo quando apareceu, em pleno fevereiro a lembrar já março, o janeiro.

um fulano vestido de fato macaco, com uma cena na cabeça que a ana malhoa usava quando começou a cantar com o pai. 

sei disso porque havia lá em casa uma cassete dela e quando eu era miúda punha uma meia amarrada na cabeça para a imitar. todos nós temos momentos tristes na vida.

o janeiro apareceu assim. mais um tontinho, pensei. 

só que não.

a interpretação foi magnifica, a música era lindíssima. o moço transferiu sentimento e não, não era uma cópia do salvador, tanto mais que, parece, até são amigos e cantam juntos. 

gostei. e pensei, pronto é isto, o júri vai escolher este. que escolheu. 

 

e depois toda esta minha primeira admiração foi por água abaixo.

que o festival é uma pirosada já sabemos. mas pegar nessa pirosada e atirá-la à cara de pessoas que, como eu, estavam a arrumar meias a um domingo à noite, é um bocado ofensivo.

quer dizer, no momento do anúncio dos doze pontos, o moçoilo saca de uma banana. que começa a comer. 

dúvidas:

1. onde raio tinha o rapaz a banana? no fato macaco?

2. e tinha-a porquê?

3. não alimentam o pessoal convenientemente nestes certames?

4. ou era a mamã que estava sentada à espera dele, prontinha que não lhe faltassem vitaminas? 

 

vamos lá ver: que a irreverência do sobral fosse engraçada podemos aceitar. era-o mesmo que algumas pessoas não concordem.

que ele parecia ali atirado de para-quedas sem saber muito bem como agir, é certo. e que isso parecia e podia ser genuíno é certo também. lembrem-se que tinha como antecessores a enorme sabrina e a grande lucy.

mas agora caro janeiro, tu já não estás aí sem saber ao que vais.

tu já não te estás a cagar para a coisa.

não foste só por ir.

e desprezares a coisa ao ponto de dizer "ah que se lixe, doze pontos, merecem uma banana" é um bocadito tontinho.

ridículo, diria, porque não serve de nada.

se o objectivo é demonstrar a genialidade através da irreverência tinha-lo conseguido com a música.

tudo o resto é só pequenito.

quase tão pequenito como o fato repuxado do peu a razer o pai nosso.

 

santa maria das causas perdidas nos ajude.

(a nós e ao malato que parecia ter um orgasmo quando viu el-rei dom salvador).

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publicado às 12:15


10 comentários

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De Silent Man a 20.02.2018 às 09:47

Bom dia Éme Jota,

Já vi que percebeste que era eu, mesmo.

Eu também gostei do Janeiro. Mas é um poor man's Zambujo. E sendo o Zambujo um cantor de popularidade média/baixa que precisa de um investimento brutal da Rádio Comercial para ser alguém na música portuguesa... Está tudo explicado nõa está?

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