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os casos de homicídio que às vezes assaltam as televisões e são notícia em tudo o que é jornal, com pormenores macabros, detalhes horríveis, questões impensadas, arrepiam-me como se me dessem cortes afiados na pele.

homicídio de mulheres e homens pelos respetivos esposos, de pais a filhos e de filhos a pais é algo que não consigo, sequer, perceber.

juro que faço um esforço.

penso: imaginemos que sou aquela mulher/aquele homem e decido matar o meu marido/a minha esposa. premeditadamente. escolho método e decido dias e horas. e agora? e agora o meu cérebro para. numa espécie de bug informático. desliga-se automaticamente e não passo daquilo. não dá, diz-me ele. é impossível. 

 

como se planeia uma coisa assim? olha-se para a pessoa que partilha connosco a vida, vê-se dormir, acordar, sentamo-nos à mesa a comer arroz e frango do jantar, e ponderamos ao mesmo tempo, enquanto se descasca uma laranja, as maneiras mais macabras de pôr fim aquele ser que respira e está ali à nossa frente, depois de decidirmos uma vida em conjunto?

como?

que particularidade cerebral é preciso para uma coisa assim? é doença? todos os homicidas são doentes?

ou há algo mais?

uma pequena parte do cérebro carregada de maldade que está presente em todos nós e, de repente, sem motivo aparente, se ativa e começa a dominar-nos?

teremos todos essa capacidade?

 

um dia destes, na confusão das hormonas que me têm dominado a vida e feito com que metade do meu tempo seja feito de choradeira - à vezes sem motivo algum, só porque sim, como se os olhos precisassem de ser refrescados - o rapaz deu comigo em prantos na cama, a meio da noite, numa coisa incontrolável, inconsolável.

foi provocado por um pesadelo - outra coisa frequentíssima desde que estou grávida:

era inverno, chovia desalmadamente e alguém me telefonava a falar de acidente e morte e fim e ele estava envolvido. quando sinto, ainda agora, o que senti naquele pesadelo, arrepiam-se os pelos dos braços e há um manto de escuridão, de finitude e de despedida que me cobre.

e ao mesmo tempo, havia uma decisão muito concreta, naquele pesadelo, depois daquele telefonema: sem ele eu também não seria. 

foi preciso uma boa meia hora para acalmar. mesmo sabendo que era um pesadelo e estava ali, deitada na minha cama, com ele ao meu lado a tentar entender, sem perceber metade do que se estava a passar - é impossível o rapaz acompanhar as lágrimas todas ligadas às hormonas - havia um sentimento horrível de desespero que me roía a pele. aquilo tinha sido tão real que, de repente, não sabia se eu era o rei a sonhar com uma borboleta ou uma borboleta a sonhar com um rei.

havia uma certeza de morte e tudo o resto passara para segundo plano.

tudo. incluindo eu: 

desistia. 

na verdade, acho que desistirei se - toca a bater na madeira - uma coisa dessas acontecer.

 

a ideia de que alguém é capaz de matar, gratuitamente, faz-me cortes na pele.

pela incompreensão.

gosto sempre de tentar perceber o que sente o outro. nem sempre concordo mas, na maioria das vezes, consigo entender. consigo perceber certas motivações, mais ou menos racionais, que estão por trás de comportamentos às vezes cruéis, outras vezes patetas.

sinto-me capaz de entender o que leva a maioria das pessoas a assumir certas coisas.

não é difícil se olharmos como um todo.

mas a morte assim, premeditada, de um alguém que pode ter sido já toda a nossa vida... bloqueia-me.

às vezes entendo mulheres que matam maridos que as violentaram toda a vida. são situações horrorosas de pessoas que foram maltratadas, torturadas física e psicologicamente, que tentaram sair daquela situação e foram impedidas pelo agressor. consigo perceber. num rompante a bolha estoura e acontece o acabar com a situação da única maneira que sentem ser possível.

consigo entender - e isso  não é concordar, pelo amor de deus - gente que mata um desconhecido na ânsia de um objetivo racional: roubar, por exemplo. há uma motivação egoísta mas, porventura, há também a desassociação da pessoa que se mata enquanto ser humano, visto que nem se conhece.

mas decidir, durante meses ou semanas ou dias, não interessa muito o tempo, pôr fim à vida de uma pessoa com quem se casou?

ou que nos pariu?

ou que parimos?

como?

que parte do cérebro é preciso ativar para adquirir essa capacidade fria e cruel e ser apenas um pedaço de carne, já morto, desprovido de qualquer sentimento de amor, empatia, respeito pela vida humana?

creio que quem mata, desta forma, está mais morto do que quem vai matar.

já não é ser humano. é só uma carcaça putrefacta, repleta de ondas de crueldade, cheias de pus e doenças hediondas.

e não entendo, não consigo, bloqueio.

como? como raio é possível?

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publicado às 11:05


4 comentários

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De Joana B. a 27.09.2018 às 11:36

também não consigo perceber...
e depois inventarem toda a história do desaparecimento, virem para as televisões ou facebooks.
e esta mãe que supostamente mata o pai do seu filho e agora vai presa será que não pensou, nem por um minuto, o que aconteceria ao seu filho agora que se vê envolvido no meio disto tudo?
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De amarquesademarvila a 27.09.2018 às 14:29

Penso exactamente da mesma forma. Também não compreendo. Ultrapassa-me completamente!
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De Quarentona a 27.09.2018 às 16:25

Também não consigo entender. Isso e acharem que podem matar alguém e seguirem com as suas tristes vidinhas sem que ninguém descubra a verdade... essa então, ultrapassa tudo o que é compreensível.
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De Olívia Batista a 28.09.2018 às 12:56

Não sei se vais gostar da minha resposta, mas cá vai:
Eu acredito que todos nós quando nascemos trazemos o "bem" e o "mal" dentro de nós. Durante o nosso crescimento ambos vão sendo alimentados ou ignorados, combatidos ou estimulados... repara que a raiva, o ódio, a inveja são sentimentos que vêm do mais profundo do nosso ser, por vezes, num instante de conflito deixamos vir ao de cima um ou vários destes sentimentos, certo? Agora imagina que os alimentas numa base diária, esquecendo o resto, numa coisa que deixa de ser esporádica e passa a obsessiva, o que achas que acontece?

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