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justiça

por M.J., em 02.11.16

moldar a justiça ao que se acha que é justiça foi das coisas que mais me custou quando a decidi praticar (expressão mais idiota, como se alguém praticasse a justiça).

que, se na na verdade me enojavam as perguntas,

o quê? se fosse um violador defendias? e se tivesse matado um filho? e se batesse no cão? ias defender um desses? ao jeito idiota do gostas mais do pai ou da mãe? o que queres fazer quando fores grande?

também me faziam pensar as respostas ainda que não houvesse muito a pensar. um estado de direito só é direito se assentar na possibilidade de defesa para todos, sejam assassinos ou violadores, gente que maltrata cães ou rouba uma cerveja. a ideia de que o advogado que o defende é tão bom como ele pode ser extrapolada ao médico que lhe salva a vida, ao cozinheiro que lhe serve pataniscas no restaurante, à senhora que lhe vende as truces, ao barbeiro que lhe corta as melenas ou à pedicure que lhe alivia a unha encravada. 

não há muita volta a dar e ainda bem. só é considerado culpado após sentença e demos graças por isso, não venham cá com merdas e deixem-se de  populismos.

não era a ideia de defender este ou aquele, de ajudar aquele-outro ou o outro atrás que me incomodava na cena e tudo aquilo que disse é tão corriqueiro que, se estão a abrir a boca para me dizer umas verdades, deixem-se disso, não falem do que não sabem.

o que me enojava sobretudo, a sério que sim, era perceber a falha a que o sistema jurídica está sujeito. os vícios, o ciclo, o moldar, o pensamento legislativo, a capacidade de adaptar o que nem sempre é passível de adaptação.

este caso é daqueles que mais me choca.

pagar uma indemnização a um pai que levou um filho para um assalto, causando a sua morte por um terceiro, acidentalmente, revolta-me as entranhas, faz-me crescer as unhas para dentro, causa-me um amargo de boca tão forte que quase sinto vontade de vomitar.

existir na mente do julgador a capacidade de decidir que um militar em trabalho, num acidente infeliz, é obrigado a pagar uma indemnização ao pai de uma criança que a leva para um assalto é triste.

muitíssimo triste. 

oh vai ver ali:

publicado às 09:30


3 comentários

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De Maria Lopes a 02.11.2016 às 11:21

O que mais me enoja, e é mesmo este o termo, enoja, é o papel do Tribunal e seus indignos representantes. O Juíz ou Juíza, ficaram aquém do que é possível elaborar: a indemnização é apenas uma pequena amostra do profundo desdém que esta Ordem profissional tem sobre as forças policiais. A mesma que o público em geral tem. O problema dos doutos juízes que representam o Direito é a mácula que sempre manchou a dignidade profissional de qualquer Ordem de um Estado de Direito: a pequenez da mentalidade. O problema do advogado do Hugo é a sua falta de lucidez e dinheiro para avançar para o Tribunal Europeu dos Direitos do Homem, para fazer valer os seus direitos. Porque o Tribunal não multou a família por colocar a criança em perigo, nem a CPJ e sei lá mais o quê, nem se atreve a aproximar da família, por esta ser cigana. E aqui nota-se a questão racial. Aqui nota-se o medo. E aqui mostra-se como continuamos a saber bater em quem nos defende e a agachar perante quem nada dá a uma sociedade.
Tenho pena que seja esta a sociedade que nos tornamos. Somos uns tristes. Todos.
Maria Lopes

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e agora dá aqui uma olhada