Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




há uns anos valentes encontrei uma conhecida numa choradeira sem fim por que, segundo me disse entre soluços - um dos seus filhos tinha sido alvo de um castigo cruel no jardim infantil.

munida de um espírito crédulo - e ainda distante dos exageros femininos actuais no que diz respeito às próprias crias - fiz um filme desmesurado na minha mente. imaginei a criança alvo de palmadas quase em sangue, ostracizada dentro de um armário ou com o dedo apontado por todos em uníssono a dizer "tu és burro(a)".

 

vai-se a ver e não foi nada disso.

 

a história é rápida:

a criança - naquele dia de poucas abelhas - decidiu que a sopa de repolho não era do seu agrado (acreditai, nunca era do meu e cheguei a pôr goelas cá fora quando me obrigaram a deglutir tamanho acepipe) e começou a espalhá-la pelo chão. uma colherita agora, outra daqui a bocado e outra daqui a dois minutos. não satisfeita, quando a educadora a mandou parar, pegou na colher e vai colher e sopa e prato nas trombas da mulher.

poderia ser eu com alterações hormonais, mas não. 

 

 

a professora, educadora ou lá que se chama, de sopa nas trombas, decidiu castigar a criança de uma forma original: o resto do almoço foi passado em pé, de cara para o chão a ver a sujeira que tinha feito, comendo o resto da sopa, que - tendo em conta a posição - até desceu mais rápido. 

pois meus senhores, na mente daquela mãe, obrigar o(a) seu/sua filho(a), anjo de candura e de inocência, a engolir o repolho em pé quanto todos os outros estavam sentados era uma tortura quase comparável a chuveiradas de gás tóxico.

o problema não era obrigação de comer o repolho mas ter de o fazer em pé.

(vai-se a ver e era a preocupação pelas dores das artroses dos joelhos, que a idade não perdoa). 

 

uma tragédia dolorosa a clamar por indemnizações, interdições de funções, incapacidades para o exercício de profissão sensível que obriga ao amor invés do castigo.

uma atrocidade daquelas merecia a julinha, o goucinha e o hernâni (lembrei-me agora que uma vez ameaçaram levar-me ao hernâni e foi só por isso que soube quem era. saudosos tempos) e toda a opinião pública a clamar em manifestações de nojo a dor da criança por ter passado vinte minutos em pé a comer.

 

lembrei-me disto porque, feita tola comentei há umas semanas com uma recém mamã a história - só os factos sem a minha opinião pessoal. pois meus senhores, a mamã olhou-me com instintos assassinos:

"e essa educadora continuou em contacto com crianças?" perguntou, quase em sobressalto, imaginando que aos seus anjos poderia ser imposto tamanha coisa.

 

não entendo.

desde quando nos tornamos tão exagerados que achamos que um castigo, uma palmada no momento certo, uma proibição, um não, o "ficas em pé até perceberes que não se desperdiça comida" é uma atrocidade? desde quando transformamos crianças em objectos inertes, com incapacidade de passar por frustrações, por dificuldades, por limites, por imposições?

quantos de nós apanharam nas trombas por serem mal educados? ficamos traumatizados? quantos de nós ouviram dezenas de nãos? foi tão marcante que nos obriga a ir ao psicólogo hoje em dia? quantos de nós ficamos de costas contra a parede? quantos de nós fomos obrigados a comer o que não queríamos? não fomos, portanto, educados?

educar passa apenas por dizer sim, sim, ver a criancinha sorrir e passar à frente?

 

educar passa por tentar afastar uma educadora que, como castigo, pôs um puto de pé durante vinte minutos?

que devia ter feito ela? "menino mau! menino mau! não podes fazer isso mas se fizeres não tem mal por que qualquer coisa que eu faça ou diga é uma atrocidade quanto à tua personalidade! e mais a mais, alguma empregada de limpeza vai limpar a porcaria que tu fizeres!"

 

pois meus senhores: é essa ideia de que "toda a merda que faças vai ser limpa por alguém" que dá no que vemos: completa percepção de (falsa) impunidade. 

 

oh vai ver ali:

publicado às 09:20


28 comentários

Imagem de perfil

De anacb a 29.08.2016 às 10:04

não, M.J., educar não passa por dizer que sim a tudo. tal como não passa por dizer que não a tudo.
como em tudo na vida, é preciso ter bom senso para saber distinguir quando devemos dizer sim e quando devemos dizer não. o que se passa é que parece que a maioria das pessoas deita o bom senso pela sanita de cada vez que vai fazer as necessidades à casa-de-banho. infelizmente. e depois quem se lixa são os outros...
Imagem de perfil

De M.J. a 29.08.2016 às 17:42

como tal: a educadora é ou capaz para as suas funções tendo em conta o episódio narrado?
Imagem de perfil

De anacb a 30.08.2016 às 00:03

claro que é! de fedelhos birrentos e mimados está o mundo cheio, e o pior é que crescem e continuam iguais, mas com a particularidade de já não serem fedelhos e portanto ainda terem menos desculpa
(dito isto, eu ODEIO repolho e no que toca a comida fui sempre uma fedelha esquisitinha, mas também nunca atirei comida para o chão nem à cara de ninguém; não gostar de alguma coisa é legítimo e normal, má educação é que não é admissível, apesar de muita gente achar que é normal...)
Sem imagem de perfil

De Be a 29.08.2016 às 11:01

Como mãe, se uma educadora fizesse isso a um filho meu ficava chateada... pela ligeireza. Se qualquer um dos miúdos atirasse um prato de sopa a um professor/educador é provável que passasse a comer apenas sopa de repolho enquanto eu me lembrasse. Já me indignei (indignar significa falar na boa com a pessoa em causa) com castigos à minha filha, apenas porque na última escola onde esteve se castigam crianças por "proximidade", ou seja, estás no arredor do crime por isso ficas de castigo mas nunca o fiz à frente dela e nunca lhe dei força contra um adulto mesmo que tivesse razão.
São posturas, não critico mas não concordo.
Imagem de perfil

De M.J. a 29.08.2016 às 17:43

essa do castigo por proximidade será para ensinar os miudos aquela coisa do "estar no local errado na hora errada"?
ao menos ensinam-os como evitar o acontecimento?
Sem imagem de perfil

De Be a 30.08.2016 às 10:39

ahahahaha Deve ser isso mas não tem explicação, acabei por desistir de dizer alguma coisa porque a explicação era sempre a mesma "são muitos e não conseguimos controlar". Disse à miúda, quando houver confusão e sempre que possível, vai à tua vida, não fiques a olhar.
Sem imagem de perfil

De sarabudja a 29.08.2016 às 11:13

Não sei o que antecede, mas não me parece, de todo, exagerado ou errado o castigo.
Bem sei que há práticas mais psico coisas, todavia havia que fazer aquele querubim perceber que sopinha de repolho não é sonasol. Sujou, olhou para a porcaria que fez, não sabe estar sentado como os meninos, fica em pé.
Sou má mãe, eu sei.
Imagem de perfil

De M.J. a 29.08.2016 às 17:44

ah se visses o burburinho que a coisa causou...
Sem imagem de perfil

De Sofia a 29.08.2016 às 11:45

Olá! Vou começar assim: Sou mãe de 3! Não admito que batam nos meus filhos,... MAS, caso eles se portem mal, sejam incorrectos, mal educados, maus para com os coleguinhas, claro que admito que os coloquem de castigo ou no "canto de pensar" (como agora é moda)! Gosto de saber o que se passa e normalmente fico a saber se algum deles ficou de castigo(por eles mesmos!), quer seja durante a aula ou se ficou sem intervalo. Admito esse tipo de consequências para o mau comportamento. A professora do mais velho tem uma técnica óptima, para as situações que se passam entre eles, pois não admite queixinhas. Tem um quadro no qual os meninos escrevem as suas situações, as chamadas "queixinhas" para debaterem ao final da semana. "Queixinhas" essas que por vezes são tão insignificantes que eles acabam por nem se lembrar do que se passou, se realmente for algo para se chamar à atenção eles lembram-se sempre do que se passa :). Lá em casa o que resulta é ficarem sem as tecnologias ou sem o canal de desenhos preferido! Se não houvesse algum tipo de castigo/consequência, que é sempre explicada a razão, os maus comportamentos aumentariam! Desculpem o texto longo :P
Imagem de perfil

De M.J. a 29.08.2016 às 17:46

nada a desculpar. o objetivo é interagir.

a minha mãe disse à professora primária para me arrear quando fosse preciso. apanhei por isso uma vez nas trombas sem culpa alguma.
ficou-me marcado para sempre. não a lambada em si - que não lembro se doeu - mas a humilhação e o sentimento de injustiça. se fosse por ter mandado o prato da sopa nas fuças da professora acredito - hoje - que a lambada era bem dada.
Imagem de perfil

De CM a 29.08.2016 às 12:05

O meu pequeno tem apenas 18 meses por isso ainda não posso falar muito sobre o tema. Contudo acho que existe exagero para muita coisa. Ora há os que dão logo um valente lambadão (atenção, levei os meus e não me falta pedaço nenhum) e depois os que "negoceiam" tudo. E há coisas que não são para negociar. O detergente não é para por na boca. Ponto. O comer não é para atirar para o chão. Se não gosta diz que não quer e em ultima instância a educadora fala com os pais. Esfregar no chão é outra mestria. De qualquer forma, não sei se o castigo aplicado foi o melhor ou não, mas não podia certamente passar como se nada tivesse acontecido. Temos de aprender desde cedo que os nossos atos têm consequências, de outra forma parece que vale tudo.
Imagem de perfil

De M.J. a 29.08.2016 às 17:47

a questão não passa tanto pelo adequado mas pelo histerismo à volta do mesmo. como que manter um puto em pé durante vinte minutos fosse uma crueldade do mesmo nível de um pelourinho e vinte chicotadas.
é isso que não percebo.
Sem imagem de perfil

De Sofia a 29.08.2016 às 12:16

Ah.... Numa reunião de pais, houve uma mãe que ficou SUPER indignada por a educadora ter colocado o filho a fazer os trabalhos numa mesa à parte, durante aquele exercício. Estava discriminar a criança! Menino que estava só a levantar-se, a falar e a desestabilizar as outras crianças. Numa sala com crianças dos 3 aos 5 anos, como é que uma educadora pode fazer o seu trabalho sem responsabilizar a pestinha,... os outros (23!!) vão pensar que também podem fazer o mesmo!
Imagem de perfil

De M.J. a 29.08.2016 às 17:48

ahahahahahahahahahahahaha
discriminação?
esta gente é louca!
Sem imagem de perfil

De Sofia a 29.08.2016 às 18:24

O meu do meio (sim o pior!!) ficou, por diversas vezes, a fazer os trabalhos à parte, na cadeira de pensar, sem intervalo,... ainda no jardim de infância, vai agora agora para o 1º ano, mas acredito que se vai lembrar de que não pode conversar durante a aula ou levantar-se sem pedir autorização. É nesta fase que eles adquirem o "saber estar" em sala de aula. Sei bem o pestinha que ele é, pois se não está a implicar com a mais nova está a "azucrinar" a cabeça do mais velho!
Sem imagem de perfil

De Olívia a 29.08.2016 às 13:24

Sendo a MJ uma pessoa instruída, estudada e cultivada, como é possível dizer uma coisa dessas a uma mãe sem antes saber de que "tipo" ela é? Não se pode ir para terreno minado sem antes lá ter passado o esquadrão das minhas...
Ora se a conversa fosse comigo, por exemplo dizia-te logo que o castigo foi pouco, devia ter colocado a criança de pano na mão a ajudar a limpar, depois de ter pedido desculpa, claro!
Imagem de perfil

De M.J. a 29.08.2016 às 17:49

a menina tem toda a razão. ocorre que me esqueci disso. às vezes esqueço-me dos exageros do mundo e vou vivendo como se a maioria das pessoas tivesse dois palmos de bom senso.
o mundo faz sempre questão de me mostrar o contrário.
Imagem de perfil

De Engraçadinha a 29.08.2016 às 15:36

BRAVO. Eu gostava era de saber escrever como se escreve aqui.
Amanhã espreita a minha chafarica que vou postar a minha experiência pessoal sobre este assunto.
Imagem de perfil

De M.J. a 29.08.2016 às 17:49

combinado.
Sem imagem de perfil

De Maria Lopes a 29.08.2016 às 15:56

Oh cum caraças, eu devo viver no Lalaland, pois todas as mães se insurgem contra as educadoras, pois os seus rebentos são o supra sumo da educação, correção e nunca mas nunca mal comportados, pois lá em casa todos são perfeitos. Pelo amor da santa!!! Reflitam um pouco sobre os vossos hábitos: quantas vezes somos nós, mães e pais, os idiotas que deixamos que aquele ser nos comande a vida, como se fosse ele a pagar as contas?! Quantas vezes, deixamos de ser adultos e responsáveis pelo comportamento daquele ser, só porque desligamos a ficha e achamos que toda a gente deve levar com o ser mal formado!? Quantas vezes nos desleixamos enquanto progenitores, que nem modos sabemos ter à mesa e exigimos que as educadores sejam capazes de o fazer a 25 seres que nem são delas?! Se não nos importamos que o ser que parimos faça todo o barulho, que estrague, que faça de nós palhaços e ainda exigimos que duas pessoas controlem 25 ser em formação!?
Caraças, parem lá um bocadinho e deixem de ser tão perfeitas. Não são. Tem medo de chamar à atenção aos vossos filhos, de os colocar de castigo, de mostrarem que são mães e pais, que há horas para tudo e que o ser não vai ficar mais frustrado se levar com um castigo. Não, vai aprender que para todos os atos há consequências.
Porra, hoje em dia não suporto ouvir a cambada de mães perfeitas: os filhos não babam, os filhos não gritam, os filhos nunca são mal educados, os filhos voam, os filhos tem capacidades sensoriais superiores a BUDA, Alá, JC, Maomé, aliás os filhos são a reencarnação do bem. O mal? A porcaria das educadoras, das professoras, das auxiliares, deste e daquele, mas nunca, nunca, na porra da nossa vida!!!
Por isso quando os nossos filhos fazem merda da grossa, culpamos os amigos, as amizades, a namorada, o namorado, a escola, a sociedade. Nunca dizemos que somos culpados pela falta de empatia, pela falta de regras, pela falta de respeito a si e ao próximo.
Porque vem os pais a falarem de alto para a educadora, para a professora, para a auxiliar, para a senhora da limpeza, para alguém que faz o favor de cuidar do ser que nós geramos.
Deixem-se de tanta melindre/ofenda/escândalo quando se diz/conta/fala sobre a péssima formação que damos aos nossos filhos.
Credo.
M. Lopes
Imagem de perfil

De M.J. a 29.08.2016 às 17:50

e quem fala assim não é gago!

ou quem escreve assim não é dedeta (da familia de perneta :D )
Imagem de perfil

De Engraçadinha a 30.08.2016 às 21:03


CLAP, CLAP, CLAP.
Imagem de perfil

De Tatiana a 29.08.2016 às 16:21

Sou filha de uma mãe que deu ao mundo três pestinhas. Todos agora na idade da adolescência, é óbvio que durante vários anos não tinha descanso, assim que punha um de castigo ou ralhava, lá estava o outro a pedir pelo mesmo. Não sei como aguentou, mas felizmente agora estamos todos bem mais calmos. Assim sendo, falando pelo que vejo da minha mãe, ela seria bem capaz de apoiar esse castigo e ainda dizer que "para a próxima mete-o a limpar o chão". Sim, a minha mãe é dessas. E faz todo o bem em ser. Educação não se dá deixando que se faça tudo quanto se quer sem nunca ouvir ralhar, e seja qual for a idade, os mais velhos é para se respeitarem e se algum de nós tivesse o azar de atirar com um prato à cara de alguém mais velho, levavamos umas boas palmadas, de certeza.
Imagem de perfil

De M.J. a 29.08.2016 às 17:50

a minha também é dessas :D

Comentar post


Pág. 1/2



foto do autor



e agora dá aqui uma olhada