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durante muitos anos senti ao ritmo dos livros que lia. não sei como explicar mais do que a forma que já disse: sentia o mundo, os pedaços de vida, a vida em geral que me rodeava de acordo com as palavras que ia lendo dos livros que me seguiam nos dias.
sei e por isso afirmo que sentia, dessa forma, de uma maneira superior a toda a gente da minha idade que não lia. é verdade. sentia através das palavras dos outros. tinha uma percepção da vida, das coisas, do copo quente de leite, do medo, ah o medo, da dor, da ansiedade de uma forma mais viva, mais real, mais minha ainda que fosse sempre, também, uma cópia do que lia. eu sentia como lia sentir e isso fazia-me diferente. eu escrevia como lia e isso tornava-me maior.
depois, com os anos, a faculdade, os primeiros empregos, as primeiras relações sérias, a internet na ponta de um telemóvel, a tv com todo o lixo que eu quisesse, fui-me afastando dos livros. os blogs foram, durante anos, a minha leitura diária. foram o meu sentir para lá do sentir ainda que nesse ciclo houvesse um vício porque eu lia o que escrevia.
não fossem os maias e durante anos não teria lido um livro.
de repente entrei nos livros outra vez. encontrei nas páginas, na capa mais dura, nas folhas corridas, nas palavras dos outros, o conforto que encontrara em todo um crescimento. consegui voltar a sentir por mim através de palavras.
os livros tornaram-se, novamente, de um dia para o outro, a certeza mais certa das coisas seguras, fixas, que permanecem, que me entendem mais que eu própria.
sinto-me, novamente, num regresso a casa.