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má rês

por M.J., em 14.06.16

diz o rapaz que pior do que discutir, espernear, gritar que nem uma louca é esta passividade-agressividade que me move.

tem absoluta razão.

aprimorei ao longo dos anos, como quando vamos cultivando um pezinho de salsa que se transforma num ramo gordo, um feitio, uma maneira de ser, uma característica, uma máscara, sei lá, que me converte numa tipa de ar gélido, silencio doentio, cara feia e nem uma palavra, nem um gesto, nem um olhar, nem um pequeno esgar que demonstre que doeu ou que fez mossa. 

poderia ser bastante bom se não fosse usada, amiúde, com as pessoas que gostam de mim.

uma tristeza, na verdade, fazer uso de um mecanismo que nos transforma numa coisa fria e sem razão com quem quer perceber o que fez, o que disse, o gesto que usou e que nos transtornou a pontos de passarmos horas sem sorrir, sem falar, num silencio e num mutismo atroz, interrompendo as horas apenas para tentar manter uma falsa sensação de habitualidade.

- que queres comer?

(mas não almoçamos os dois hoje?)

- precisas que faça alguma coisa?

(que me digas o que tens).

- vou sair.

(sozinha? por que não vamos os dois?)

não descarto.

sei do poder do meu mutismo e fico longas horas alimentando a escuridão que se consome e aumenta nela própria, com música que me dói e origina correntes de pensamentos tóxicos que não consigo mudar.

não sei, no entanto, como fazem as pessoas normais.

gritam umas com as outras, quando lhes dói comportamentos, até ficarem roucas? discutem, batendo com os pés no chão, dizendo o que sentem e não sentem? falam calmamente mesmo quando a calma não existe? como se faz isso? sentam-se a fumar charutos enquanto apontam, contando pelos dedos o que as magoou? usam do palavrão?

o que se faz quando se é normal?

não sei rabear, gritar, dizer tudo o que apoquenta e depois passar à vida. deixo que marine, que se enterre e se transforme em algo maior. altero o nada para grandes coisas e fico à defesa alterando argumentos, prevendo justificações, prontinha para mostrar que tive sempre razão e ainda por cima, pasme-se, nem provoquei qualquer discussão porque fiquei quieta e calada, na minha vidinha inútil. pego no sarcasmo, na ironia, no ácido humor que dói mais do que a franqueza e a ingenuidade ou a sinceridade em palavras e despejo tudo depois, num longo sermão, se não passa com duas noites de sono.

é sempre melhor deixar que passe. 

 

sou uma má rês, bem sei.

mas ainda assim, pelo menos, sei como sou.

integralmente.

não é só dessa forma que podemos mudar?

oh vai ver ali:

publicado às 11:00


20 comentários

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De Maria Alfacinha a 14.06.2016 às 11:09

E queres mudar? :-)
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De M.J. a 14.06.2016 às 11:57

boa questão!
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De marrocoseodestino a 14.06.2016 às 11:15

De inicio quando fui morar com o Miguel sempre que havia algo que eu não gostava ficava amuada e nada dizia. As palavras ficavam entaladas na garganta e por mais esforço que fazia ficava muda. O raio dos 11 anos do primeiro casamento tinham-me transformado numa muda (ele gritava e eu chorava).
Depois de algumas situações o Miguel disse-me que assim a coisa não ia resultar, que precisava de saber o que eu tinha e o que me fazia ficar assim.
Sabia que tinha razão, mas sentia dificuldade em mudar. Não sei como, mas passado algum tempo consegui reclamar, consegui barafustar.
Sempre que há algo que não agrade a ambos falamos. É assim que as coisas se resolvem.
Afinal não casámos com nenhum bruxo, não é?
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De M.J. a 14.06.2016 às 11:59

e conseguem, mesmo muito zangados, falar normal?
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De marrocoseodestino a 14.06.2016 às 12:20

Por mais estanho que possa parecer há muito que não nos zangamos( mau seria estando um cá e outro em Marrocos), mas quando acontecia falávamos sem berreiros e sem palavrões. Claro que às vezes mesmo depois de deitarmos cá para fora o que não gostávamos ficávamos amuados. as coisas também não ficam bem assim tão rápido.
A minha filha já é diferente. No outro dia ouvia-a a discutir ao telefone com o namorado. Valha-me Deus que até me doía os ouvidos, imagino o desgraçado do outro lado.
Disse-lhe a ela que não admitia discussões, se queria discutir que o fizesse longe daqui. Era o que mais me faltava ter de aturar aquilo. Já me chegou o berreiro que o pai fazia.
Além de que os vizinhos não têm de levar com as discussões.



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De petrolina a 14.06.2016 às 11:49

Olha, já eu sou mais de falar alto, espernear, esgrimir argumentos e mostrar o meu desagrado... para dizer tenho razão, eu é que sei. Deixa estar que também é um feitiozinho de merda. (Ainda que eu possa mesmo ter razão)
Mas não guardo nada, não tenho espaço para moer coisas e situações, principalmente as que vêm de pessoas que eu gosto e que, consequentemente têm a capacidade de me magoar.

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De M.J. a 14.06.2016 às 12:00

não suporto gritos, espernear ou discutir. tenho um absoluto pavor, trauma ou o que quiserem chamar às palavras usadas em alto barulho, num calor do momento, ditas sem querer serem ditas.
palavra dita não se desdiz e dói-me mais a palavra dita sem querer do que o silêncio que diz tudo o que quer.
sou uma parva.
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De petrolina a 14.06.2016 às 12:43

Compreendo. Digo (mais vezes do que desejaria) coisas que não devia. É um facto. Mas não suporto o silêncio em que cabem todos os insultos e mais alguns, que numa cobardia inerte, se guardam.
As palavras podem ser as mais duras, e até muitas vezes injustas, mas ao menos o outro sabe como se pode defender, ou retaliar, ou o que seja...Já contra o silêncio o que é que se faz? Quanto muito, responder com mais silêncio e engolir as palavras e sentimentos que mesmo não querendo somos obrigados a guardar por imposição do silêncio do outro. E vivemos em "guerra fria" até que alguém decida quebrar o amuo...
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De M.J. a 14.06.2016 às 13:18

compreendo. são duas maneiras de ver a coisa, completamente diferentes.

por mim, não assumo que não dizer insultos seja cobardia, tanto mais que depois de algum tempo o que ia levar ao insulto deixa de doer ou magoar e não se disse a exacta palavra que feriu.
dizer o que se pensa, a quente, porque se é frontal e porque nunca se deixa nada por dizer é, na minha opinião, mais grave do que a cobardia do não dizer. é despejar no outro tudo o que apetece e depois esperar que o outro filtre o que se queria dizer e o que não se queria mas disse.
contra o silêncio não se faz nada, é certo. mas prefiro o nada fazer do que o assimilar de palavras injustas, graves, feias e que cortam mais do que as não ditas.

por mim, prefiro que me digam o que têm a dizer de forma ponderada, depois de pensado, de amadurecido e sem a desculpa "ah, não era isso o que eu queria dizer". prefiro que vão dar uma volta, espaireçam a cabeça e depois digam. assumo sempre que o dito foi dito e era para ser dito.
(talvez porque usaram comigo, durante longos anos o "não era isso que eu queria dizer" depois de estar dito e ter magoado tanto).

creio que se trata da maneira de ser de cada um e eu não suporto gritos, histerismos ou vozes levantadas. nem em filmes. nem em novelas.
horroriza-me!

as duas faces da mesma moeda, de ver as coisas. no fundo, no fundo, como em tudo, ambas as faces têm coisas positivas e negativas. resta usar a que se adequa mais a cada um :)
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De petrolina a 14.06.2016 às 14:38

Já eu não suporto amuos e silêncios precisamente porque se calhar levei com eles muito tempo e depois percebi que lá dentro cabiam coisas tão ou mais graves (e "magoadoras") do que aquelas que se disse a quente.
Não sou pelo do tipo histérica-escandalosa que desata numa gritaria. Mas não me choca levantar a voz quando não consigo mesmo engolir certos argumentos...faz parte da minha maneira (impulsiva) de ser. Não é mais correta nem menos correta, é a minha.
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De Mia a 14.06.2016 às 13:49

"gritam umas com as outras, quando lhes dói comportamentos, até ficarem roucas?" eu, pessoalmente, acho esse método batante eficaz, assim como o uso do palavrão. Como diziam os antigos: é porco mas alivia. E para mim (não sei como é com os outros) guardar as coisas faz com que tripliquem de tamanho.

Mas não sei se serei considerada normal, nem sequer sei se o conceito de "normal" existe realmente.
E depois, cada um é como cada qual, não significa que um método seja melhor que o outro, que exista uma forma certa e uma forma errada de ver as coisas. Se a tua forma de estar funciona para ti, para quê mudar?
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De M.J. a 14.06.2016 às 14:01

é isso.
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De ana a 14.06.2016 às 14:41

Acho que, em dez anos de relação, gritei numa discussão.
Tento sempre conversar o mais calmamente possível, mesmo que esteja a "morrer" por dentro.
Bem me apetecia, as vezes, dar um berro ou dois, aliviar, dizer merdas sem pensar. Mas não. Eu penso muito, demasiado. Ando ali a remoer, a recalcar, a chorar as escondidas, a ponderar. Quando abro a boca para me "queixar" já ensaiei todo um discurso, q nem sempre me sai como imaginei, mas ok.
Sofro muito sozinha. O que é estúpido e mau. Mas não sei ser de outra maneira.
Apesar de tudo, a minha namorada já sabe. O meu silêncio, apatia, significa sempre alguma coisa. Ela depois, à maneira dela, lá me consegue por a falar.
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De ana a 14.06.2016 às 15:58

Correção: nunca gritei numa discussão.
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De sarabudja a 14.06.2016 às 16:57

Esses silêncios dos outros caem-me como bombas no ânimo.
Considero-os de uma exigência perante os que os recebem que transgridem as regras da convivência.
Conviver requer um respeito que, por sua vez, exige um esforço nosso.
Viver com alguém que escolhemos significa o direito de fazer dessa pessoa a mais espectacular à face deste planeta. Só assim pode fazer sentido.
O silêncio que emana faíscas e pesa não faz de ninguém a pessoa mais feliz por ter sido escolhida.
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De M.J. a 14.06.2016 às 17:04

e as palavras ditas a quente, sem pensar, no calor do sem saber, meras pedras atiradas que nem brasas, com a desculpa posterior "eu disse mas não queria dizer"?

não sou boa pessoa mas garanto que tento fazer de quem escolhi para partilhar a vida, a pessoa mais feliz do planeta.
só não consigo, ao contrário dos outros, fazê-lo sempre.
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De sarabudja a 14.06.2016 às 17:12

Todos falhamos. Somos bons a enganarmo-nos e a vender essa mentira.
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De Sarabudja a 14.06.2016 às 17:20

E sim, claro, as palavras arremeçadas também fazem fracturas expostas. Conviver é uma arte.
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De Violinista a 14.06.2016 às 18:07

Um professor meu de matemática cunhou o termo "revoltada silenciosa". Diz tudo.
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De M.J. a 14.06.2016 às 18:35

ahahahahhahahah

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e agora dá aqui uma olhada