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mãe a tempo inteiro

por M.J., em 11.01.19

não tenho - como é bom de intuir - qualquer apetência de ser aquilo a que as pessoas modernas chamam de "mãe a tempo inteiro".

se ser "mãe a tempo inteiro" é passar 24 horas com o nariz enfiado em casa, a avaliar consistências e frequências de cocós, fazer looks de vestimentas minúsculas, pensar em leite, dar leite, preparar leite, sonhar com leite, lavar roupa, arrumar roupa, avaliar macacos no nariz, decidir sobre horários de sono, aturar cólicas, carregar ao colo, carregar ao peito, carregar ao ombro, abanar, embalar, balouçar, balançar, mover, oscilar e afins... minha pobre criança... temos de te arranjar outra.

se calhar sou só mãe a meio tempo. ou em part-time, que faço isso tudo mas não em 24 horas: a criança não foi concebida sozinha e o paizinho dela também tem mãozinhas.

 

não me venham com coisas. cada um é para o que nasce e nada contra quem o decide. mas pensar em fazer isso, só isso, até a criança ter dentes com aparelho tem, para mim, o mesmo desafio intelectual de ficar sentadinha na relva a ver crescer uma cenoura. 

dá. 

admiro quem o faz.

quem abdica de uma vida profissional por livre e espontânea vontade e começa a dedicar-se unicamente a essa... profissão. porque sejamos francos, se há exigência profissional é nisto: é toda uma constante labuta de fraldas, leites, cocós, embalos, almoços, jantares. é toda uma exigência de paciência, apetência para análise e capacidade de acalmar uns brutos pulmões que quando se enervam fazem tremer paredes.

cum mil demónios.

só de pensar em fazer disso a minha vida nascem-me borbulhas no corpo todo, numa espécie de alergia.

 

portantos, com s no fim, ser mãe sim senhor (tanto mais que o puto já aí está) mas com conta, peso e medida (que sim, é possível, não sejamos dramáticos). 

aceito todas as ajudas: a avó quer vir visitá-lo e passar dois dias com ele ao colo a chamar-lhe meu menino? faz favor, é para já. há uma creche aqui ao lado que o aceita aos quatro meses? abdicamos de almoços e jantares fora, de um hotel ou outro e vai-se estimular a criança com outros amiguinhos, a crescer em sociedade desde pequeno. e o papá tinha pensado tirar aquelas duas horas para jogar PS4 mas o menino está rabujento? olha que lindo que ele é, até são parecidos, jogam os dois! 

porque esta coisa da mãe a tempo inteiro é muito bonita mas tem uma grave falha que não entendo: então e o pai? ele há anúncios de mamãs e bebés, há livros de bebés e mamãs ( e cito "no primeiro mês a mãe é a pessoa mais importante da vida do bebé" fim de citação), há fraldários nas casas de banho das mulheres (e não nas dos homens), há toda uma vestimenta para a mulher que é mãe, há todo um incentivo laboral para a recém mamã sair mais cedo (mesmo que não amamente) mas... e o paizinho da criança? por que é que se parte do princípio que só a mulher importa nesta fase? 

não sou grandemente feminista. abomino as capazes, por exemplo, e nunca me preocupei em queimar sutiãs (mesmo quando já estão velhos). mas este assunto incomoda-me assim um txiquinho ao ponto de pensar em reivindicar com um cartaz na rua ("não matem o intelectual das mãezinhas"). 

quando decidimos ter um filho foi uma decisão conjunta. eu não o conseguia fazer sozinha e houve uma contribuição equitativa para que ele aparecesse. claro que quando fiquei grávida quem suportou enjoos, dores de costas, azias, esquecimentos e outros incómodos fui eu. e quem teve que apanhar com uma seringa na coluna, ficar quase oito horas numa marquesa sem se pode levantar, fazer xixi para uma arrastadeira e outras coisas que, enfim, é melhor não falar, também fui eu. e também fui eu que fiquei sozinha com ele na maternidade, a meio da noite, ainda sem conseguir mexer uma perna, com pontos em sítios que era suposto não serem cortados e tive de lhe mudar a primeira fralda, perceber o primeiro (ou segundo) choro, saber como lhe enfiar com um mamilo na boca e passar a noite sem dormir (depois de outras duas nos mesmos termos) com medo que o miúdo bolsasse, se engasgasse ou outra desgraça qualquer. mas pronto. ficamos por aí.

porque quando ele nasceu a importância que ambos assumimos na vida dele é exatamente a mesma. sou tão mãe dele como o rapaz é pai. temos as mesmíssimas responsabilidades. sabemos ambos mudar-lhe a fralda, preparar-lhe o leite, adormecê-lo, acalmá-lo, embalá-lo e todas as coisas que três quilos e seiscentas de pessoa exige. 

por isso, meus senhores, não sou "mãe a tempo inteiro". talvez seja, na minha vida completa "mãe a meio tempo".

o outro meio é do pai dele. 

é que assim tem dois pais a tempo integral. 

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publicado às 11:24


5 comentários

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De Fatia Mor a 11.01.2019 às 11:36

E quem fala assim, não é gago! Pena estarem tão longe, eram uma família impecável para o meu projeto.

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