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matança

por M.J., em 19.08.16

na serra a matança do porco era dia de festa. o porco sentia e guinchava e eu era incapaz de assistir à faca espetada na garganta, o sangue a correr para o alguidar, as pessoas a apertar de um lado e de outro, o animal em sofrimento e trauma e medo.

mesmo assim havia festa. "não gostas de o ver morrer mas bem que o comes" dizia o meu avô, que espetava a faca e com o maçarico queimava o pelo. "bem que comes das belas febras, dos rojões, da orelheira e do presunto".

e comia. rojões em banha, feitos devagarinho com uma folhinha de louro. cozido com ossos da espinha e chouriça caseira, até a tripa se aproveita depois de lavada com limão até quase rebentar. lombo assado com vinho branco. orelheira com morcela. comia e não pensava no sofrimento do animal, arrastado pelas orelhas desde o curral, "anda bicho", estendido no estaleiro aos guinchos, cordas a prende-lo, gente a esfregar as mãos. e quando pensava e dizia algo alguém me calava com a minha própria gulodice, levando-me a enfiar o rabo entre as pernas, perante o cheiro do rojão a embalar a cozinha. 

hoje é mais fácil. no supermercado a carne vem embalada e é cortada de matéria morta. pesamos, analisamos preços, vamos aos talhos e olhamos para nacos. mortos. não alimentamos durante meses o dono da carne, não o empurramos até ao estrado de madeira e amarramos perante os guinchos, não vemos a morte aos poucos invadindo o animal. compramos, avaliamos, pesamos, pensamos nos preços e trazemos para casa.

a carne vem do talho e não pertenceu, nas nossas mentes, a seres sencientes. a carne vem em cuvetes e é cozinhada morta não tendo, nas nossas mentes, pertencido a algo que sentia dores e fome, privação e medo. 

e mesmo assim, juro, as matanças do porco são ainda dias de festa, na serra.

será isto o ver sem ver?

oh vai ver ali:

publicado às 15:25


14 comentários

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De Maria Alfacinha a 19.08.2016 às 18:04

Das cenas mais cruéis, e que mais pesadelos me deram.
E não, o cheiro a rojões não me fazia esquecer os gritos, nem para mim era dia de festa. Sou da cidade, deve ser isso...
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De M.J. a 22.08.2016 às 15:19

mas comes?
a mim também não me fazia esquecer. só que comia, de rabo entre pernas.
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De Cristina a 20.08.2016 às 00:02

e o porquinho aos nacos, devidamente empacotado, não marcha?
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De M.J. a 22.08.2016 às 15:20

marcha na mesma.
só com mais desconfiança.
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De Cristina a 20.08.2016 às 08:49

... ou seja...
«As pessoas sensíveis não são capazes/ De matar galinhas/ Porém são capazes/ De comer galinhas/... » (Sophia, a única)
bom fim de semana :-)
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De M.J. a 22.08.2016 às 15:20

é exatamente isso!
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De Cristina a 22.08.2016 às 15:42

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De M.J. a 22.08.2016 às 15:20

não tinha lido.
li agora.
gostei muito. como sempre.
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De Olívia a 20.08.2016 às 09:25

Decididamente isso é o "ver sem ver".
Aqui no Ribatejo é igual, ou era. Acho que agora as pessoas compram os ditos já mortos. Deixei de ouvir o barulho na vizinhança...
Nesses dias, eu tinha de me fechar no quarto com música alta e só saía quando parava o barulho... acho que só fui a uma matança e jurei para nunca mais. Sim, empacotado é outra coisa. Matar com as próprias mãos para subsistir é diferente.
Sou uma cobarde é o que é.
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De M.J. a 22.08.2016 às 15:21

somos apenas... pragmáticas.

(e um cadito cobardes também. tentei ser vegetariana. durou um dia).
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De belitaarainhadoscouratos a 22.08.2016 às 14:36

Sempre foi dia de muito trabalho, em minha casa, que as tripas não se lavavam sozinhas (e era o trabalho mais odioso do dia) mas era sinal que ía haver o que comer por alguns meses e isso era bom! E sinceramente, era mais honesto comer a carne daquele porco criado às mãos da minha mãe do que é agora comprar uma embalagem de carne que se desfaz em água e é criada de formas inimagináveis.
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De M.J. a 22.08.2016 às 15:21

"E sinceramente, era mais honesto comer a carne daquele porco criado às mãos da minha mãe do que é agora comprar uma embalagem de carne que se desfaz em água e é criada de formas inimagináveis."

tudo dito.
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De marrocoseodestino a 23.08.2016 às 12:08

Detestava esse dia. Os guinchos do porco, o cheiro a carne fresta deixa-me agoniada.
Devo de ser de outro mundo, pois preferia e prefiro comer carne depois de congelada do que fresca.
Ah e as morcelas?
Mais uma mania minha, esta ainda mais parva. Durante muito tempo comia-as (não nesse dia) e adorava quando descobri que eram feitas de sangue nunca mais lhes toquei. Ainda tenho a imagem na minha cabeça da bacia com o sangue e o arroz.
Felizmente nunca mais fui obrigada a assistir ainda que ficasse fechada no quarto.

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