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maternidade

por M.J., em 20.01.20

passei o domingo todo de cama com aquela coisa muito bonita chamada vómitos e diarreia.

foi horrível.

era impossível estar de pé, tremia constantemente de frio e as únicas corridas que consegui fazer foi para a casa de banho.

tudo patrocinado por sua excelência o miúdo cá de casa, que espalha bicheza como quem espalha a boa nova (seja ela qual for).

 

hoje de manhã foi para a creche mesmo também estando de diarreia.

passou a semana anterior em casa, todinha, para curar-se da amigdalite e da otite. já nada o contentava e, confesso, a mim também não. fartou-se dos brinquedos todos, fez birra porque queria isto mas afinal não queria e convenceu-me, no mínimo, umas cinquenta vezes que isto não é para mim e nunca devia ter sido mãe. 

depois passou, sobretudo quando fiquei o domingo inteiro sem mexer uma palha que não fosse limpar o meu próprio vomitado.

 

às vezes tenho uma vontade absurda de pegar no carro e ir comprar tabaco.

que eu não fumo, que fique bem assente.

claro que não vou mas a vontade existe. e se sei muito bem que nesta coisa de pais e filhos esquecemos rapidamente o péssimo para apenas permanecer o bom (juro que mal me lembro do horror que foi a gravidez e há uns dias até me convenci que de certezinha tinha exagerado), a verdade é que anseio muito que o tempo passe rápido. esta não é uma fase boa. as constantes viroses, doenças e etc., etc. que o consomem a ele e a nós matam-me aos pouquinhos.

é tudo uma fase dizem-me e concordo com essa verdade de la palisse: meus senhores, a própria vida é uma fase. o ótimo é que seja uma fase boa e não uma coisa merdosa, não é verdade?

 

depois que um filho nasce espera-se que as mães - não tanto os pais, e dava uma mama (ou as duas) para que me explicassem o porquê disso - deixem de ser pessoas integrais, com necessidades, vontades, cansaço, preguiça ou tudo aquilo que nos faz quem somos.

és mãe? pariste? então, olha, a partir de agora tu, enquanto pessoa, não existes ou interessas.

deves viver para o ser que colocaste no mundo.

e se comigo isso não acontece (se o dizem cago de alto e as tarefas cá em casa são repartidas totalmente em partes iguais) leio e ouço, num quase loop, mulheres a queixarem-se disso: que não têm tempo para ler, para ver uns míseros 20 minutos de tv ou sequer falar ao telefone com uma amiga. 

e mesmo assim, pasme-se, andamos por aqui todos a parir, numa espécie de paradoxo esquisito.

e mesmo assim vejo várias com 3 filhos, muito contentes e sorridentes, em fotos nas redes sociais.

sem vontade de ir comprar tabaco. 

 

quando me perguntaram os motivos de querer ser mãe, mesmo sendo tão avessa à ideia, respondi - porque é a verdade - que é algo demasiado grandioso na vida, algo demasiado importante para simplesmente abdicar.

que não queria chegar aos 40 e perceber que essa parte de mim tinha acabado e jamais saberia o que seria ser mãe e dar vida.

que não queria - como tanto vejo - descarregar num cão ou num gato aquela parte do amor que nasce connosco e não sabemos catalogar. 

foi por isso.

continua a ser.

não foi pelo chamado, pelos instintos maternais (que acho que continuo a não ter), por gostar muito de crianças (bha!) ou por todas essas coisas que a maioria das mulheres jura sentir. 

 

e ele está aqui. o último ano resumiu-se a ele. integralmente. deixei de fazer mil coisas, de viver coisas e precisei de me adaptar a mil coisas. tudo mudou e só consegui sobreviver à mudança porque tenho ao meu lado alguém mais forte, mais sensato a mais capaz do que eu. 

ele está aqui. derreto-me quando o vejo sorrir. sinto um orgulho desmedido quando aprende algo novo: a primeira vez que disse mamã, a primeira vez que se levantou sozinho, todas as vezes que gatinha pela casa na descoberta de um mundo estranho.

ele está aqui. é nele que penso antes de dormir e nele que penso quando acordo. não sei explicar os motivos. não sei por que sinto saudades dele quando está ausente um dia ou quando estou longe dele uma tarde. não sei explicar por que me dói quando chora mesmo por uma simples birra.

ele está aqui e daria, sem pensar duas vezes, a minha vida pela dele. mesmo que não consiga explicar o porquê. 

 

ele está aqui. e a dualidade de sentimentos, os altos e baixos constantes, a vontade enorme de fugir e a necessidade de ficar estão aqui também, mais fortes do que nunca. 

será isto ser mãe?

publicado às 11:45


5 comentários

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De C.S. a 20.01.2020 às 18:34

Adorei ler esta tua reflexão.
Quanto ao que será ser mãe, não faço ideia, continuo sem saber se será algo para mim.

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e agora dá aqui uma olhada