Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




maternidade

por M.J., em 14.02.20

não sei se já o disse mas se não o fiz, digo agora:

uma das piores coisas da maternidade foi a perda de mim enquanto pessoa real, com necessidades, vontades, defeitos e quereres.

 

não me julguem mal.

que fique aqui assente, escrito e reescrito neste ponto prévio que gosto muito do meu miúdo.

que desde que ele nasceu algo mudou em mim e tenho dores na garganta quando vejo crianças obrigadas a não o ser, a sofrer e a não ter a infância que é nosso obrigação prover.

que desde que ele nasceu sinto uma parte de mim maior. mais tolerante. mais capaz. diria até, se conseguisse abarcar a dimensão disso, mais humana. 

é isso.

mas também tenho olhos na cara.

também sou pessoa e também sinto tudo o que ele trouxe, todas as mudanças abruptas e intensas e toda a necessidade de me adaptar a colocar quem sou, muitas vezes em segundo lugar, mesmo naquelas coisitas que são muito nossas e que não fazem mal a ninguém.

é um ponto prévio idiota mas preciso dizê-lo. 

nesta coisa da maternidade não é suposto ninguém queixar-se.

estamos formatados para olhar para as mulheres e mães como mártires, com obrigações sobre humanas, sem dores, sentimentos ou outra necessidade que não o bem estar supremo da criança que pariram.

somos vistas, a sério que é, como uma espécie de nossa senhora não virgem.

e não somos.

a não ser as virgens ofendidas mas essas não me interessam.

 

só percebi a magnitude do que me esperava depois de parir.

não havia maneira de o saber antes.

a intensa responsabilidade que não compreendi nos meses a seguir ao nascimento dele, instalou-se agora nos meus ombros e permanece:

sou responsável pela vida que é dele.

pelo crescimento.

pela saúde.

pelos sorrisos.

pelas lágrimas.

sou responsável por torná-lo funcional.

por mantê-lo saudável fisicamente e não causar que seja inapto socialmente. 

por prover sustento, bem estar e dar-lhe um lugar no mundo onde pertença de corpo e alma. 

 

é minha responsabilidade porque nasceu de mim. e do pai. 

e isso faz com que, mesmo nas pequenas coisas, haja uma necessidade de me colocar para segundo plano.

 

quem nunca o fez não pode sentir ou imaginar o que significa isso mesmo nas coisas mais banais:

o sentarmo-nos cansados, esgotados no fim de um dia longo, esticarmos as pernas, escolhermos qualquer coisa na tv - que provavelmente nem veremos, caídos a dormir mal comece - e tenhamos de parar, interromper, porque um choro agudo se ouve.

mesmo que esse choro não signifique mais que a perda de uma chupeta. ou um sonho mau. 

e mesmo que o levantar seja só cinco minutos.

custa. cansa. chateia. consome. 

o planearmos um fim de semana, banal, banalzinho com apenas um passeio na praia ao final da tarde, e um almoço baratucho no centro comercial. e essas coisitas tão corriqueiras morrerem na praia a que afinal não vamos, perante uma virose que nos consome na preocupação e no medo de coisas graves e más.

mesmo que seja apenas uma febre de 37.8 e a rabujice infantil.

custa. cansa. chateia. consome. 

 

o cansaço.

o cansaço é real.

uma vez adormeci com a cabeça no teclado. não foi bonito e nunca me tinha acontecido. se fosse conduzir era certo e sabido que adormeceria no primeiro minuto. não ia ser bonito também.

a exigência nas pequenas coisas:

uma fralda que se muda e se volta a mudar quinze minutos depois. um biberão. uma cadeira da papa que se transforma numa mistela de comida espalhada. roupa. tanta roupa. que nunca mais acaba. dinheiro. é preciso dinheiro, não se iludam. não caiam na ideia de que tudo se cria. não é verdade. a preocupação constante. ainda não caminha? ainda não fala? tem a pele inflamada? não terá feito pouco xixi? caiu? tem febre? tem ranho? tem diarreia? chora porquê? porque choras tu?

 

não se iludam. a exigência das pequenas coisas é intensa. imensa. quase sobre humana. não é para todos e mesmo para aqueles que não é, não há outra opção que começar a ser. é preciso. fazemos.

 

mas o amor, só por si, não chega.

no meio das mudanças que a vida traz com um bebé, do turbilhão que nos faz rodopiar as horas, a ideia de que o amor chega, serve para tudo, tudo consola e tudo resolve é uma falácia.

o amor ajuda mas não chega. 

é preciso mais. é preciso ajuda. muita. de quem nos rodeia. é preciso coisas concretas, pragmatismo e uma boa dose de bom senso. é preciso objetos que ajudam, pessoas que ajudem, momentos que nos ajudem. 

para continuarmos a ser nós.

para podermos continuar sentados no sofá, desta vez, sem interromper o livro enquanto o pai ou a avó vão lá embalar e dar a chupeta.

para podermos sentir-nos quem somos e não apenas a mãe de.

 

se o sonho de alguém passa por ser mãe de então a experiência pode ser total e plena.

para quem quer ser mais do que isso, não chega.

é preciso o equilíbrio entre as vertentes da vida e isso obriga a que saibamos pôr-nos em segundo lugar... mas em primeiro também.

porque não somos virgens marias.

às vezes o que somos é virgens ofendidas. 

como quando nos recusamos a assumir a imensidão da exigência da maternidade e desatamos a envangelizar todo o mundo, depois de parirmos, para o fazerem também.

 

pois eu, minhas amigas sem filhos, se pudesse teria esta mesma criança, pois claro, daqui a 6 anos apenas. 

depois de viajar muito mais.

depois de viver muito mais.

depois de dormir muito mais.

depois de aprender muito mais da vida. 

para poder viver com mais maturidade e menos emoção a exigência que é ser mãe. 

 

mas como se diz na minha terra: porca capada não se descapa.

por isso, sim:

 

ele está aqui. derreto-me quando o vejo sorrir. sinto um orgulho desmedido quando aprende algo novo: a primeira vez que disse mamã, a primeira vez que se levantou sozinho, todas as vezes que gatinha pela casa na descoberta de um mundo estranho.

ele está aqui. é nele que penso antes de dormir e nele que penso quando acordo. não sei explicar os motivos. não sei por que sinto saudades dele quando está ausente um dia ou quando estou longe dele uma tarde. não sei explicar por que me dói quando chora mesmo por uma simples birra.

ele está aqui e daria, sem pensar duas vezes, a minha vida pela dele. mesmo que não consiga explicar o porquê. 

 

publicado às 10:00


5 comentários

Sem imagem de perfil

De M a 14.02.2020 às 14:31

Concordo inteiramente com tudo o que dizes! Menos com a parte do esperar mais tempo :D fui mãe aos 31 anos, a minha filha fez 1 ano na semana passada. Já estou com o meu marido há 10 anos, durante esse tempo viajámos muito (3/4 viagens por ano), aproveitámos muito, sempre sentimos que estávamos a viver a vida ao máximo durante esses anos. Mas não é por isso que essas pequenas coisas de que falas custam menos agora! Por isso não seria por ter mais anos de vida sem filhos que me iria custar menos depois, acho. Até penso é que ainda bem que fui mãe mais "jovem" (que já nem foi assim tanto), porque tenho mais energia e disponibilidade para me dedicar a ela (não me imaginava a fazer estas coisas de mudar fraldas, pegar ao colo, arrumar brinquedos, limpar comida do chão, tratar de roupa, abrir e fechar carrinho, carregar coisas, etc x 2418971 vezes ao dia aos 40 anos). Tive uma colega que foi mãe aos 45 e só penso como é que ela teve paciência e capacidade física, com essa idade e nessa fase da vida, para fazer isto tudo. E que daqui a uns anos quando ela for mais autónoma, ainda vou ser jovem o suficiente para recuperar a minha autonomia também eheh.

Até penso que emocionalmente me via a ter mais um ou dois filhos, adoro a ligação que tenho com ela, os momentos de brincadeira, os passeios a 3, o ver aquela vida que me é tão próxima e familiar a desenrolar-se à minha frente e ter o privilégio de a acompanhar todos os dias. Mas detesto essas pequenas coisas e tarefas que enchem os nossos dias e nos fazem chegar esgotados ao fim. Nessa parte só penso que ter outro seria regredir e voltar a fazer tudo outra vez (há partes que gostaria, outras que dispenso).

Comentar post



foto do autor



e agora dá aqui uma olhada