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creio que foi a choradeira que me fez perder a noção das coisas. 

eu explico.

na viagem para cá o transferes do hotel-aeroporto foi feito com três horas e meia de antecedência. os miúdos, desprovidos da hora da sesta, corriam livres pelo pequenos espaço de aeródromo, perdão aeroporto. guinchavam na habitualidade das coisas e sacudiam as tranças que a maioria das mamãs mandara fazer numa recordação pelos costumes locais. filha, acredita! se não tens carapinha essas tranças não fazem sentido absolutamente nenhum a não ser transformarem a cabeça da tua "catraia" numa melancia com estradas abertas.

o avião levantou com uma hora de atraso. dois bancos atrás do meu uma criança aos colos dos pais começou numa pequena choradeira. encolhi os ombros. tinha de tentar aguentar, sem me fechar na casa de banho, quatro horas daquilo. 

a miúda acalmou. eu também. recostei a cadeira e acabei um dos livros que tinha no tablet. depois do jantar servido a fila para a casa de banho aumentou. não sei se foi do café ou da carne mas meio avião quis ir à cagadeira. atrás de mim, um casal de velhos levantou-se queixando-se da falta de espaço. juro que pensei que estivessem a  falar do espaço do corredor, atolado em gente aflita, num fila apertadinha.

comecei a jogar um joguito no tablet. vinte minutos depois o casal voltou, novamente o velho em lamentos grossos e audíveis de que não tinha espaço, o que era uma vergonha porque nem era por causa de dormir mas para jogar aos bonecos. era então esse o problema: a minha cadeira recostada. as pessoas são engraçadas. em nenhum momento o senhor se lembrou de pedir para eu recolher a cadeira. passou ao ataque com bocarras infelizes do jogo dos bonecos. assegurei-me que não dava para empurrar mais e levantei o tablet, em bandeira, continuando a jogar aos bonecos.

o karma é um filho da puta:

quando começamos na descida a criança começou a  dar de si. um choro miudinho. depois aumentou. a gritaria era tamanha que tive vontade de cortar a minha cabeça só para deixar de a ouvir. não tenho culpa. de certeza que todos vós têm um som que vos faz querer ser surdos. pode ser o giz no quadro. ou aquela coisa da lã molhada. a mim são gritarias de crianças. não consigo. é como se me estivessem a queimar com pontas de cigarros. ou a cortar com lâminas afiadas nos mamilos.

cresce-me uma ansiedade.

corre-me uma dor no peito.

é horrível.

 

enfim, a criança não parou de chorar. mais! aumentou o volume. achar que uma criança para de chorar pelo cansaço é absurdo. não! tal como os cães são capazes de continuar horas, mesmo depois de roucos. o rapaz, muito melhor pessoa do que eu, disse-me entre dentes que ela se estava a queixar dos ouvidos. "também eu", murmurei, "também eu".

quando encontramos turbulência o choro dobrou e eu achei que ia morrer. aliás, rezei para que o avião caísse de uma vez para eu parar de ouvir aquilo. no entanto, nunca me passou pela cabeça mandar calar uma criança de um ano ou pedir aos pais que a amordaçassem. olhei de soslaio. o pai tinha um ar de quem queria morrer. a criança berrava com os pulmões todos e quando o avião está mesmo a pousar, tremelicando por todo lado, alguém faz "xiuuuuuu!".

lindo.

como é evidente uma miúda calar-se-ia pelo xiu.

enfim, mal as portas abriram quis sair a toda a força do avião. enfiei na mochila livros e almofada e corri para o corredor como se o mundo acabasse naquele instante.

fomos de uber até ao oriente. era uma da manhã. tínhamos comboio às três.

quando fui à mochila para buscar o tablet percebi que ele tinha ficado no avião.

o tablet: com fotos, contas de mails, trabalho importante do rapaz.

o tablet. esquecido. no. avião.

 

lindo serviço.

como acabou a história?

mais ou menos.

ela e o moço é que não devem ter achado grande piada.

publicado às 10:00


2 comentários

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De bailarina a 01.06.2016 às 10:43

Amei, amei, amei! Ainda se fosse para dormir, agora para jogar jogos!
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De A rapariga do autocarro a 01.06.2016 às 16:15

Vai lá vai! Iscas canudo!

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e agora dá aqui uma olhada