Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




palavra de mãe

por M.J., em 30.10.19

às vezes tenho pesadelos durante a noite.

não é nada de extraordinário e creio que afeta a todos.

há quem sonhe que está a cair, que esteja nu em público, que queira falar e não consiga. dizem que os sintomas são sempre os mesmos quando se acorda no meio disto: uma espécie de angústia, agitação, um ligeiro desespero e ansiedade.

e claro, o alívio supremo por afinal não ser só um sonho.

conheço gente que nunca sonha ou tem pesadelos. o rapaz, por exemplo, jura a pés juntos que não se lembra de um. 

eu, por norma, acordo sempre no meio de qualquer coisa dessas. na maior parte das vezes nem lembro o que sonhei. mas no pesadelo recorrente há essa coisa da angústia.

conto num minuto:

estou a frequentar o ensino secundário ou a faculdade e percebo, assim num rompante, que tenho teste ou exame amanhã e não estudei nada. nicles. batatóides. nem sei sequer qual é a matéria. nadinha. népias.

nessa altura sinto um desespero cego, uma ansiedade maluca de começar a estudar. 

e é nesse instante que dou conta que não sei qual será o exame e que não fui a nenhuma aula.

e pronto.

acordo.

se fosse psicóloga ou tretóloga (o pessoal que não é psicólogo mas acha que sim) teria, de certeza uma qualquer explicação para isto. 

como não sou não tenho.

creio apenas, pelo conhecimento da minha pessoa, que talvez esteja relacionado com a vontade, durante a minha primeira fase da vida, de sair do sítio onde nasci, vendo o estudo como a solução. sei de quem casasse para tal, quem emigrasse, quem fugisse.

eu optei pelo estudo.

a avó dizia "estuda que vais longe" e o longe para mim era literal. longe da serra, da terra, do campo, do sol a escaldar no verão, dos invernos gélidos com a água congelada nos canos e a lareira a servir como único aquecimento.

longe daquilo que, para mim, não me servia. 

ou pelo menos achava eu.

 

quando andava na escola primária - ou no jardim infantil, não posso jurar - lembro-me que perguntaram a todos os meninos na sala o que queriam ser quando fossem grandes. parece que agora, segundo li há uns tempos, não se deve sobrecarregar a criançada com tal pergunta, na antecipação de uma responsabilidade que não devem ter.

no meu tempo perguntavam. 

a maioria dos miúdos respondeu o normal: médico, professor (professores eram às carradas), futebolista e não sei que mais, que não me lembro.

mas lembro que uma menina (que tantos anos depois me acompanha por aqui e provavelmente não se lembrará disto) respondeu que queria ser como a mãe.

assim. a suprema resposta de provocar lágrimas na mãe se a tivesse ouvido.

e quando a professora lhe perguntou o que fazia a mãe - juro pela minha mão direita que é verdade - ela respondeu que a mãe ficava em casa a cuidar dela e do irmão, que fazia o almoço e tratava de tudo. 

e mil anos depois (mil não, só vinte e muitos) lembro-me perfeitamente disto na imagem que me acompanhou quando me perguntavam o que queria ser.

como se ser fosse ter uma profissão.

o que queres ser quando fores grande? tu, reduzido a algo: a existência ligada diretamente ao que fazes profissionalmente.

ser igual a trabalhar.

ser professor. ponto. resumo de quem és.

ser cabeleireiro. ponto. resumo de quem és.

ser dono de um café. ponto. resumo de quem és.

ser mãe. ponto. resumo de quem és. 

 

eu nunca quis ser a mãe.

ser a mãe era a serra, a dureza, o trabalho árduo, o sacrifício. o ficar. o permanecer. e eu não iria ser a mãe porque "se estudasse ia longe" e eu precisava da distância. 

e estudei então.

e saí e não voltei.

e tinha certeza aos 15, 20, aos 25, aos 28 que não seria a mãe. que o que me esperava era outra coisa, maior na minha perspetiva, mais gigante, mais importante.

eu não seria em resumo de quem era a mãe. 

 

acontece que. ponto. a reviravolta. 

aos 31 fui mãe. 

e a minha noção de quem sou, a minha noção de família modificou-se.

não por ser mãe, em si, como se isso fosse a definição de mim própria. apenas. como se isso fosse quem sou. só.

não por isso.

mas por toda a dinâmica.

é verdade: quem sou já não é quem eu era.

não é necessariamente melhor. nem pior. só diferente.

não há um amor maior. nem menor. só diferente.

não há uma pessoa maior. nem menor. só diferente. 

 

sou mãe. e tenho um marido.

a minha família é, por isso, aquilo que dizem ser "tradicional". não sou eu e dois gatos, como achei um dia que seria, olhando-me com desgosto aos espelho.

não sou eu e cinquenta velhos - pelo menos para já - num lar, enquanto conto a minha vida virgem e santa.

não sou eu e eu.

a minha família é maior.

 

e escrevo sobre isso, pois claro, porque escrevo sempre sobre quem sou.

este blog acompanhou todas essas mudanças desde que comecei a escrever nele faz seis ou sete anos. 

estranhamente há quem continue desse lado desde então. 

e que me vê como mãe.

como família.

 

tudo isto para dizer, meus senhores, deixando-me de lamechismos, que estou nomeada (linda palavra, ultimamente só sou nomeada de mãe) como blog familiar.

atentem: eu, que neste blog roguei pragas, exclamei horrores, espalhei ao mundo os malefícios da maternidade estou, é verdade, nomeada neste espaço - talvez já não uma tasca mas uma mercearia - como blog de família nisto que são os sapos do ano, essa iniciativa singela originariamente pensada pela minha magda.

 

e tenho uma síntese quanto a isso que bou-bos dizer:

se isto não é a suprema ironia aqui do sítio não sei o que mais seja.

mas muito obrigada.

juro. sem ironias. obrigada.

palavra de mãe.

publicado às 10:40


1 comentário

Imagem de perfil

De Maria Araújo a 31.10.2019 às 08:34

Adorei ler-te.
Parabéns pela tua família.

Comentar post



foto do autor



e agora dá aqui uma olhada