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pilinhas, pilitas, pilonas.

por M.J., em 14.06.16

depois do outro vir a público assumir que gosta de senhores dizendo, muito singelamente, que casou com uma mulher porque não sabia que gostava de homens (?) ontem um outro usou o seu facebook para dizer que sim, gosta de meninos.

a vida é engraçada.

como é evidente - poderia não ser, mas gosto de pensar que é - entendo o motivo que leva as pessoas mais conhecidas do resto do mundo (português e mal) dizerem que enfim, a sua orientação sexual está mais para o lado das pilinhas do que dos pipis. não acho, sinceramente, que o façam por protagonismo, para "aparecer" ou para dizerem às pseudo-pilinhas-que-também-gostam-de-pilitas que estão disponíveis. na verdade, acredito que, na maior parte das vezes, se trata de um mecanismo de defesa: "ok, digo que gosto de homens e acabam-se as suspeitas, o falar entre linhas, as insinuações, as coisas encobertas".

não entro sequer pelo assunto de que a ninguém deveria ser exigido um atestado de "gosto de amarelo ou azul". ou ainda do fenómeno de se venderem revistas e jornais com um título a vermelho dizendo "ele é maricas". porque o tópico aqui, que me fez um nó cego no cérebro, foi o tempo, a maneira, a altura em que o moço decidiu dizer ao mundo que as pilinhas é que são. 

o que me espantou foi a capacidade de pegar num drama, num acontecimento trágico que tirou a vida a tanta gente, que destruiu sonhos e ansiedades, planos e amor, que retirou de um fôlego só, sem qualquer motivo, ambições e existências, para o humanizar em si próprio e dizer: "por mim é mais pilas".

o que me enjoou, de alguma forma, foi o usar algo muito maior do que as pequenas vivências, as decisões e opções, as orientações e pequeninices de uma só vida para se colocar no centro do drama, virando para si todas as atenções, e transfigurando a dor dos outros em "estou aqui, olhem para mim, eu também poderia ter morrido".

não creio - e na verdade, sejamos sinceros, não interessa um chavelho furado o que eu acredito ou deixo de acreditar - que houvesse uma vontade consciente disso mesmo. mas neste momento não é só a morte de cinquenta pessoas num bar qualquer às mãos de um tipo doente que anda a rolar em cima das mesas. é isso tudo diminuído ao "o filho da outra é maricas".

um nadita triste, não é?

 

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oh vai ver ali:

publicado às 14:00


12 comentários

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De sarabudja a 14.06.2016 às 16:52

Não consigo concordar contigo.
Às vezes, uma experiência significativa, embora alheia, impele alguém a fazer determinada acção, também ela significativa - se não para o mundo, pelo menos, para ela mesma.

Preocupa-me muito que seja necessário vestir camisolas, colar etiquetas e separar as pessoas por gavetas. Preocupa-me mais que as pessoas precisem de se antecipar às más línguas do condomínio, do escritório ou mesmo do jornal - quando se trata de pessoas que, pela sua profissão, condição ou qualquer coisinha, estão expostas à curiosidade de mais do que dúzia e meia de conhecidos.

Podia ter sido ele o alvo daqueles tiros, ou mesmo uma de nós por sermos mulheres, ou com educação cristã, ou porque um dia estudámos numa universidade ou porque sim.
Pode ser um dos meus filhos porque aqui é preto, lá é branco.


Li um bocadito do que o Rui M. Pego escreveu, concordo com a parte em que refere que todos devem fazer com todos como gostariam que se fizesse consigo.
Em relação à homossexualidade dele li três a cinco palavras, que não me pareceram coladas com cuspo, forçadas.

Preocupa-me este nosso tempo em que as palavras, os pensamentos e os sentimentos são atirados, como se não tivessem peso, como se não rasgassem feridas, como se se pudessem esquecer.
Somos cada vez mais inundados por conhecimentos, informações e continuamos a dar com a moca nos que nos parecem mais a jeito.
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De M.J. a 14.06.2016 às 16:59

parece-me - não consigo ver outra coisa - que a única coisa que não concordas comigo é a decisão dele de assumir um determinado acontecimento para contar ao mundo as suas orientações.
em nenhum momento neste texto discordo do teu segundo, terceiro e quinto parágrafo. pelo contrário. concordo.
o que me espanta é a capacidade pegarmos em algo maior do que nós para a humanizarmos em nós próprios e nos pormos como mais importante.
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De sarabudja a 14.06.2016 às 17:11

"o que me espanta é a capacidade pegarmos em algo maior do que nós para a humanizarmos em nós próprios e nos pormos como mais importante."
Pois é aí que discordo. Talvez porque não li tudo. E porque sei que as nossas dores têm dimensões egoístas e gigantescas e a pimenta em rabo alheia parecerá sempre unguento refrescante.
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De M.J. a 14.06.2016 às 17:24

pronto, acabamos por concordar: pimenta no cu dos outros, por mais que assumamos que pique, é limonada de laranja!

(dependendo dos outros, claro está! sei de duas ou três pessoas cuja pimenta me pica no cu exactamente como a elas. tu terás mais, de certeza, ou não fosses mãe :) )
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De sarabudja a 15.06.2016 às 11:07

Ainda que me doa tudo o que lhes dói, já percebi que as dores na primeira pessoa são sempre esdrúxulas.
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De M.J. a 15.06.2016 às 11:23

o que nos dói a nós tem outra intensidade.
sobrevivência, creio.
instinto básico.
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De Joana B. a 14.06.2016 às 17:21

"transfigurando a dor dos outros em "estou aqui, olhem para mim, eu também poderia ter morrido""

esta parte do teu texto faz-me lembrar de quando foram os ataques em Paris vir numa revista cor de rosa o Malato a dizer que podia ter sido ele a morrer porque esteve em Paris na semana anterior. Esta coisa de querer ser sempre o centro das atenções não importando o porquê, sendo assim também eu devia ter feito um comunicado a dizer que podia ter sido eu a morrer porque estive lá há 10 anos atrás.

Em relação ao Rui Pêgo acho que ele não precisava de se assumir usando este acontecimento, podia ter feito um post sobre o tiroteio e assumir-se noutra altura ou até nem precisava de dizer que é homossexual, porque as pessoas não têm de andar com um autocolante na testa a dizer do que é que gostam. Desde que ele se aceite a ele próprio é o que interessa.
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De M.J. a 14.06.2016 às 17:28

é mais ou menos isso. só contraponho que nos caso das pessoas mais conhecidas ás vezes, assumirem as suas orientações, faz com que não sejam tão perseguidas, que parem de ser alvo de insinuações, piadinhas, meias palavras.
acho apenas que o timming dessa decisão não foi o mais correto.
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De Joana B. a 15.06.2016 às 17:31

sim, nesse caso tens razão, ao assumirem as revistas cor de rosa podem deixar de andar sempre atrás a tentar descobrir, mas no caso do Rui Pêgo acho que nunca houve uma revista ou alguém publicamente a insinuar que ele era homossexual. Eu que sigo a página dele e que vou vendo as publicações pensava que ele ou era homossexual ou bissexual mas não era uma coisa que me tirasse o sono nem precisava de qualquer confirmação.
Ele ao fazer a publicação pode não ter feito de propósito para ser falado mas a mensagem que queria passar fica esquecida e o que vai ser falado é que o filho da Júlia Pinheiro é homossexual.
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De Cristina a 14.06.2016 às 18:54

de acordo contigo, MJ, a 100.
é ridículo, egocêntrico e mesmo cobarde, usar a tragédia alheia para nela se pseudo-incluir. é apenas triste.
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De M.J. a 15.06.2016 às 11:23

é exactamente isso que acho.
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De OKaede a 15.06.2016 às 11:55

Concordo totalmente com a sarabudja . Tens toda a razao M.J ) na parte de "estou aqui, olhem para mim, eu também poderia ter morrido". Contudo não acho que a pseudo-celebridade em questão (porque valha-me Deus, trabalhar na televisão não é sinónimo de ter que expor a vida. não quer atenção, não use as redes sociais para promoção da vidinha), tenha feito isso de forma consciente. Todos nós espelhamos as nossas vidas em outros acontecimentos. é inevitável. A arte e a ficção ensinaram-nos que podemos fazer isso, e a televisão/Internet/jornal alimenta-nos constantemente com factos reais mas distantes.
Impregna a pessoa de coragem e de ilusões, dando nesses posts e opiniões.
Todos fazemos e não acho que seja redutor ao ponto de pensarmos que o acontecimento está relacionado com "o filho da outra assumiu-se maricas " (bem, depende muito de pessoa para pessoa, mas prefiro ser optimista ).

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