Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




quase às 35 semanas o puto pesa dois quilos e meio.

não sei o que anda a comer mas o ritmo de aumento de peso tem sido... interessante, tendo em conta que tinha dois quilos há menos de duas semanas.

eu, com os dois quilos e meio dele, mais tudo o envolvido, engordei, desde o início da gravidez, quatro quilos e setecentos. podia arredondar para os cinco mas, nestas coisas, uma pessoa quer precisão.

por outro lado, continua a ser a macho - parece que é definitivo - tem nome escolhido (falta só saber se um ou dois nomes próprios) e está previsto que conheça o mundo mesmo na altura do natal. ali pertinho, tão perto que, se se enganar, arrisca-se a dar a primeira respiradela entre um bilharaco e uma rabanada e, num futuro, receber no natal o presente do menino jesus e do aniversário próprio.

eu, se fosse a ele nascia antes, mas sem pressão. até porque vejo já, nessa escolha, um traço parvo da mãe, que decidiu casar na altura do aniversário e começar a namorar no natal. juntam-se os presentes todos e fica tudo mais barato.

ele sabe que é bom ser sovina. 

 

já tem cama e todos os apetrechos necessários.

optamos por comprar uma daquelas banheiras com pernas e mudador incluído (não é por nada, mas as minhas costas já se queixam e ele ainda não tem trêss quilos), uma cama de grades em vez de berço (com um urso piroso e tudo), um ovo e um carro (em duo) e uma alcofa mais barata para os dias em que a cama se lhe apresente um mundo feio. um dinheirão, digo-vos já, que ninguém convenceu o rapaz a aceitar as minhas sugestões mais baratas. encontramos um meio termo, eu sei (mais para o lado dele do que do meu) e creio, muito sinceramente, que esta criança ainda não nascida tem já mais objetos do que eu tive até aos dez anos. 

sinais dos tempos.

 

continuo a ser seguida no público e no privado. tendo em conta como tudo está a correr seria desnecessário estas consultas mensais na obstetra mas preciso de sentir a segurança que emana dela em todas as consultas, assim como a disponibilidade total para as dúvidas mais ridículas em horas indecentes. como daquela vez em que ele não se mexeu durante duas horas, inteirinhas, nem com chocolate, caramelos ou açúcar e eu já, com as lágrimas em fio, a ver cenários negros e cinzentos. tudo acalmado com uma simples mensagem e o puto a fazer a espargata pouco depois.

as hormonas são uma coisa engraçada e, no meu caso, posso usa-las para esconder o turbilhão de inseguranças que é a minha personalidade. 

 

agora faltam só as análises do terceiro trimestre (e sim, aquela coisa do cotonete. ainda bem que me avisaram que consegui disfarçar em frente à médica a surpresa) e esperar que ele queira sair. organizo tarefas e trabalhos para estar o mais livre possível na sua chegada. e, se querem saber (não devem querer mas senti necessidade de registar) até fui a uma aula de preparação para o nascimento, não daquelas em é suposto aprendermos a respirar (a médica disse-me que podia perfeitamente dispensar isso, tanto mais que se for ela a fazer o parto, devo respirar como ela mandar e pronto) mas sim sobre amamentação.

e se fui contrariada!

tenho-me posto em segundo plano em muitas coisas. aprendi a controlar uma série de impulsos marados (e isto não tem necessariamente a ver com a gravidez mas com a maturidade que o crescimento nos traz), a deixar de valorizar tretas mais pequenas e a encolher os ombros a coisas que não me agradam. esta, no entanto, mexeu-me com os nervos. fui até à maternidade com ar de quem vai para a forca. não é algo que consiga explicar mas a ideia de passar duas horas a ouvir falar sobre algo que não me é confortável assemelhava-se às sete pragas do inferno. mas fui. por ele. por eles, vá. mas mais pelo ele grande, que quer estar preparado, que não está grávido mas tem direito a recolher a informação toda que sentir necessidade e que queria ir a isto.

fomos, portanto.

uma sala cheia de grávidas. e eu já a ver o discurso. os sinos todos da amamentação, o fundamentalismo, a imaginar as palavrinhas todas, como se tudo aquilo já fosse uma cópia do que eu ouvira.

e... só que não.

quem ali estava, a falar sobre o assunto, não era fundamentalista. não dizia as barbaridades que me fazem crescer unhas dos pés para dentro. não insistia como se fosse a coisa mais importante da vida. não repisava no "se não amamentares não és um mãe decente". não falava da beleza da coisa, como um quadro de picasso. pelo contrário. foi curta e direta, deu aspetos relevantes e de saúde e ainda, pasmem-se, adiantou que quem não puder ou não quiser amamentar está no seu direito e as alternativas são perfeitamente boas. 

foi nesse momento que descontraí.

senti um peso descer-me dos ombros, em vagas de calor. e percebi que este pequeno drama que me acompanhou desde o início foi mais alimentado pelo meu cérebro disfuncional,  naquela comichão que não desaparece nas coisas chatas, pelas cinco ou seis tretas que li na Internet, do que pelas pessoas que encontrei ou quem convivi e convivo. na verdade, nenhum profissional de saúde com que me cruzei foi, até ao momento, fundamentalista. nenhum pareceu desrespeitar decisões alheias. e nenhuma colega ou amiga minha, que tenha passado pela experiência, me tentou sequer vender uma caneca com uma frase a dizer que mãe que amamenta é mãe à séria. 

esta coisa das expectativas é qualquer coisa, mesmo. 

 

enfim, é isto.

tenho dificuldades em respirar que sua excelência, dom rapazinho, está de cabeça para baixo, com o rabiosque encostado a qualquer órgão interno meu onde, depreendo, estejam também os pulmões. quando penso no assunto e percebo que tenho, neste momento, ao lado dos meus intestinos mais vinte dedos, duas pernas e dois braços e uma cabeça fico incrédula e tendo a não acreditar. às vezes não acredito mesmo. é como se isto fosse algo que não está a acontecer comigo. como se o meu corpo fosse incapaz de criar outro.

mas ele está lá.

ocupa espaço em mim, na minha vida, na nossa relação e em quem somos. vai moldando um pouco os nossos hábitos e rotinas. 

e tenho plena noção disso quando o rapaz encosta a cara à minha barriga, menos proeminente do que dizem que era suposto, e murmura baixinho: anda lá miúdo, sai daí que te quero agarrar. 

dois quilos e meio já é bastante que se agarre, não é?

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 18:09


4 comentários

Sem imagem de perfil

De Ricardo_A a 13.11.2018 às 23:11

Ò MJ, tu vai-me tratar de comprar maquilhagem para teres na trouxa da maternidade. Se o puto se atrasa uns dias, ainda te nasce no dia 1 e tens a CMTV a entrar-te, de rompante, pelo quarto dentro.
Imagem de perfil

De Magda L Pais a 14.11.2018 às 20:47

ahahahaahahahahahahah consigo visualizar a cena e até me vieram lágrimas ao olhos de rir
Imagem de perfil

De Ana a 14.11.2018 às 11:41


Nem consigo escrever nada.
Só se lê amor neste post.
Sem imagem de perfil

De RC a 15.11.2018 às 02:22

Tao bom ler este post. Tao bom.
Concordo com o Ricardo: tu leva a maquilhagem contigo, que ainda vais ter o primeiro bebe do ano!

Quanto ao peso do bebe (o teu e' bom que mantenha esse aumento saudavel que para criar vida e' preciso muita energia), nao te fies muito no que as estimativas de peso dizem, que sao estimativas e todos nos sabemos que estimativas falham 99% das vezes

Os plumoes do #projectoaltino sabem muito bem quando estaram prontos para nascer, deixa la ele decidir quando esta pronto para enfrentar este mundo

Comentar post



foto do autor