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post com desistência

por M.J., em 12.07.16

não me lembro se sempre senti a morte como uma resolução das dores da vida.

sei que como cobarde que sou - não há muita gente que não o seja, há pouca gente é a admiti-lo - sempre tive uma tendência natural para fugir. apesar de enfrentar, na maioria das vezes, as consumições da vida, faço-o com o dobro do esforço de algumas pessoas. há quem assuma o confronto como algo natural e há quem, como eu, sinta calafrios por isso e prefira evitar, virar costas, desistir e recomeçar noutro lado qualquer.

o suicídio como o fim tem a vantagem de levar à ausência da necessidade de recomeçar. o desistir não é acompanhado pela maçada de pensar como reiniciar depois. é o acabar eterno do sentir e, por norma para quem o equaciona, do sofrer.

é também o fim das talhadas de melancia fresca, dos banhos de água gelada em dias quentes, do chá quente no inverno e do cheiro a limão, canela e maçã assada mas não há nada que não traga sacrifícios.

além disso pode dar-se o caso, triste mas verdadeiro, de o suicídio transformar em eterna a pessoa que o comete.

peg entwistel, por exemplo, ganhou notoriedade e eternidade depois de pular da letra "h" do sinal de hollywood (sim, aquele grande que se vê nos filmes) após tentativas desesperadas de ser uma atriz consagrada. o mais poético é que não só se vestiu para morrer como quem se veste para viver dias felizes, com um vestido usado por uma estrela de cinema, como dias depois da sua morte recebeu uma carta convidando-a para ser a protagonista de uma peça em que a personagem se suicidaria.

peg não era uma grande atriz e enquanto ela própria facilmente seria esquecida nas cortinas do tempo. mas o romancear do seu gesto, o saltar de uma das letras da cidade mágica e a nota de suicídio "I am afraid, I am a coward. I am sorry for everything. If I had done this a long time ago, it would have saved a lot of pain. P.E." fizeram com que fosse lembrada, até hoje, numa espécie de ícone e juventude perdida.

não deixa de ser uma forma válida - tão válida como outra qualquer - de deixar para o futuro um pedaço de eternidade do que se foi.

Pegentwistle.jpg

publicado às 09:27


4 comentários

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De sarabudja a 12.07.2016 às 09:49

Sem tirar, talvez pusesse, só para que cheirasse mais a mim.
Enquanto houver maçãs assadas, cheiro de bolo de chocolate pela casa, cangote com calor e aroma que apazigua, lençol fresco e de Casa, olhos que vêm e trazem à luz, não é esta a solução. O problema é quando tudo perde o cheiro, o sabor, o sentido e os sentimentos esvaiem-se em tristezas, tantas vezes inventadas por uma cabeça que adoeceu e não sente frescura em unguento algum.

Que os teus sentidos não adormeçam, que eu possa saber-te sentir. Sempre se poupam duas casas. :)
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De M.J. a 12.07.2016 às 14:13

"Que os teus sentidos não adormeçam, que eu possa saber-te sentir. Sempre se poupam duas casas. :)"

a mamã diriam que eram ainda mais casas ;)

obrigada.
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De sarabudja a 12.07.2016 às 14:31

Claro que são muitas casas. A tua mamã é uma sábia da vida.
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De Maria Alfacinha a 12.07.2016 às 12:45

O suicídio pode ser a solução, sim. Acabam os problemas e as angustias. Termina-se uma vida que não quer - e quem somos nós para dizer se tem ou não razão? - que não faz sentido, que lhe pesa. O suicida não é cobarde. Não está a fugir para recomeçar noutro sitio, como tu dizes. O suicida opta por pôr um ponto final. É radical, em muitos casos até corajoso. Aquela história do "ah, mas a vida pode ser bela de tantas outras formas", "ah, tens tantas coisas porque viver", é treta. Quem o diz, por muito boas intenções que tenha, por muito que acredite no que diz, nunca o poderá avaliar correctamente. Não calçou os sapatos do outro, não sabe o que o outro sente, apenas pode imaginar. E quando dia-a-dia se transformou numa espera pelo fim da vida, apenas e só, o suicídio é apenas uma formalidade, porque quem assim se sente já morreu.
Mas quem morre em vida já não sente o gosto das melancias ou o aromas da canela :-)
PS
Claro que não estou a apoiar uma alternativa tão radical.
Apenas estou a dizer que compreendo a escolha mas que quem fica é que sofre para o resto da vida. Quem morre não tem que se chatear com mais nada :-)

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