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quando a esmola é grande

por M.J., em 19.10.17

houve um tempo em que tentei negociar com Deus. 

era ridículo da minha parte porque, não sendo crente, transformava-me numa espécie de maluca a conversar com as paredes, numa troca de argumentos sem resposta.

mesmo assim tentava porque nada à minha volta me dava respostas.

muito menos eu.

 

 

a negociação era simples:

eu em trocas de um outro qualquer que realmente quisesse e sentisse a beleza da vida.

a troca de mim, na incapacidade de ver qualquer virtualidade em continuar e ser e respirar por um outro que sentisse todas as ganas de permanecer e não pudesse.

era lógico, na minha mente: se o Deus - como me ensinaram - procurava estar perto daqueles que nele crêem; se está ao lado daqueles que o amam; se dá vida e luz aos que por ele clamam, a minha presença naquela fase podia ser muito bem substituída por uma outra que realmente quisesse e acreditasse e fosse grata pelo estar viva.

 

não resultou, evidentemente.

 

nenhuma das minhas preces teve qualquer resposta na procura incessante do nada.

continuei com grossas raízes, mesmo depois de tantos comportamentos de risco e um acidente de automóvel.

fiquei, sem perceber muito bem como.

 

há alguns dias da vida em que continuo sem perceber.

nisto da escolha de quem vive e quem morre, no acaso ou na sorte, na escolha superior ou apenas na lei de uma vida que não percebemos, a minha permanência é essencialmente inútil.

não desperto nos outros grande empatia ou laços de permanência.

não sou portadora de actos de altruísmo ou bondade.

não descalço os meus sapatos para calçar pés descalços.

não transformo a vida de quem me rodeia essencialmente numa coisa boa.

não dou vida.

também não dou morte a não ser, alguns dias, a um ou dois mosquitos.

não corro pelos dias com um propósito qualquer que faça a minha permanência ter um sentido no mundo.

nenhum dos meus comportamerntos justifica, na grandeza das coisas, o ar que consumo.

 

sorte, creio que será esse o nome da minha permanência.

mais uma, numa espécie de tolo no meio da ponte, arrastada pelo vento para trás ou para a frente, sem grande sentido claro que não seja o tormento da alma. 

 

não faço coisas por ai além para me manter por aqui.

é certo que não fumo ou bebo mas estou acima do peso e tenho uma vida sedentária.

não conduzo acima da velocidade mas sou tão má condutora, tenho uma noção de distâncias tão má, que é inacreditável que nunca tenha sido albarroada por um comboio.

sou hipocondríaco quanto baste mas não ando sempre nos médicos.

sou caguinchas na dor mas mascaro-a com o tratamento dos sintomas em vez da cura. 

 

permaneço. aqui estou. porquê?

na grande finalidade das coisas, na grande construção do mundo, por que estou e continuo e ao meu lado morre gente? por que continuo aqui e respiro e há pessoas que, com tanto para fazer, tanto para dar, tanto para ser descobrem uma doença que não controlam, um fogo que as asfixia ou um carro que as mata?

o que motivou o acaso na escolha, mesmo que a escolha nunca tenha acaso?

em grandes desgraças, incertezas, dúvidas, tragédias inesperadas ouço tanta gente perguntar, como que se de repente tivesse noção da sua presença no mundo:

porquê eu? porquê a mim?

já eu, muitas das vezes numa curiosidade enorme, numa incapacidade de compreensão, num não querer acreditar na própria sorte questiono:

por que não eu? como raio eu não? 

 

diz-se que o pobre desconfia quando a esmola é grande. 

estou sempre desconfiada. 

publicado às 18:45


6 comentários

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De Quarentona a 20.10.2017 às 00:46

Porque será então que eu sinto uma empatia tão grande por ti?
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De M.J. a 20.10.2017 às 11:39

porque és uma querida?
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De Quarentona a 20.10.2017 às 11:44

Não! Porque tenho a inteligência emocional suficiente para perceber que és um Ser Humano de enorme valor. És uma jóia rara ;))))
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De David Marinho a 20.10.2017 às 02:00

Que negativismo é este?
Vais sempre a tempo de ser melhor mas isso envolve esforço e trabalho. Tens feito esse esforço? Vais ver que tudo melhora daqui a frente...
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De M.J. a 20.10.2017 às 11:39

Não negativismo :) Sim questionamento ;)
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De David Marinho a 21.10.2017 às 02:47

Mas um questionamento negativo. Tudo vai correr bem!

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